Crônicas

Sim, eu também sou viciado em pôquer

0 259
140_metapoker

Influenciado pelo texto “Relato de um jogador de pôquer“, gostaria de compartilhar com vocês a experiência vivida por mim nos últimos dois anos. Confesso que não tenho muita paciência para escrever. Portanto, não esperem um texto cativante, bem escrito, cheio de palavras bonitas. Até porque a minha história não tem nenhum glamour.

A minha vida no pôquer começou como a de qualquer outro jogador. Era uma brincadeira em roda de amigos ali, outro jogo on-line aqui… Nada muito sério. Afinal, jamais envolveria meu próprio dinheiro a sério nisso. Leviano engano. Comigo foi tudo muito rápido. Quando dei por mim, tinha passado das rodas de amigos para os torneios baratinhos. Depois, para os torneiros mais caros. Paralelamente, como que uma consequência natural, para as mesas de cash game. Tudo isso num piscar de olhos.

Meu vício cresceu proporcionalmente com a quantidade de jogos que eu me envolvia. Era como se o torneio baratinho fosse a maconha, aquela primeira droga inofensiva. Depois, com o cash game hold’em me senti buscando um estímulo maior, como o da cocaína e, por fim, como que no auge de um vício, o cash game omaha foi o crack. Fumei e cheirei todos, sem hora, sem dia e sem parar.

Jogava todos os dias, como um sentenciado que cumpre sua pena. Abria e fechava as mesas. Os donos do jogo me amavam. As ligações de “Cadê você, meu amigo? O jogo já vai começar!”, as ofertas irresistíveis “Hoje tem aquele peixinho que você adora, vem brincar com a gente”, e os incentivos de “O joguinho hoje vai ser um sonho, fulano está aqui perguntando por você” foram, aos poucos, transformando este peixinho que vos fala na verdadeira isca.

Até que, certo dia, depois de jogar cash game por trinta horas seguidas – isso mesmo que você leu, foram trinta horas de jogo -, fui lavar o rosto e me olhei no espelho. Olhava-me, mas não me enxergava. Assustei-me. Parecia ter envelhecido dez anos nos últimos dois. Chorei compulsivamente. Prometi para aquele homem do espelho – que não era eu – que nunca mais jogaria cash game.

Três dias depois, estava lá novamente, sendo a isca do meu próprio peixe. Foi aí que a carta caiu, ou melhor, a ficha caiu. Finalmente aceitei que estava doente. Procurei ajuda médica. Deletei meu Facebook inundado por ludopatas iguais a mim, bloqueei os sanguessugas que diariamente me chamavam para jogar, deixei de assistir vídeos de pôquer, deixei de acessar sites de pôquer. Blindei-me para não fraquejar.

Hoje, após oito duros meses, tenho orgulho em dizer que, com muita resiliência, estou limpo. E, o que é melhor, não sinto mais vontade de jogar. Por tudo que passei, deixo aqui alguns conselhos. Não joguem cash game. Não joguem torneios cujos valores tirem vocês da zona de conforto. O pôquer só é bom para quem não espera nada dele. Ah! Já ia me esquecendo: muito cuidado com os sites de apostas que estão se infiltrando nas casas de pôquer. Esses também não são inofensivos. Quem diria… Logo o Diabo querendo invadir o espaço do capeta.

Vade retro, Satanás!

 

 

Imagem: MarinaP/Shutterstock.com

About the author / 

Redação Metapoker
Redação Metapoker

Related Posts

Leave a reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Preencha o campo abaixo para validar seu comentário * Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Arquivos

Comentários