Campeão na canhota

Depois de uma década fazendo viagens para Las Vegas na mesma época do ano, você começa a reencontrar com certa frequência alguns personagens, gente que visita os cassinos e aproveita as atrações da cidade, e claro, aqueles que trabalham para que tudo isso aconteça. Assim, o ambiente começa a se tornar familiar, a cada ano pode-se testemunhar os dealers envelhecendo, o costumeiro jeito das garçonetes (e o mau humor de uma ou duas), e ser reconhecido pelo diretor de torneio, que foi de dealer à floorman e agora comanda a sala.

Mas, jogadores são sempre mais interessantes, prato cheio para boas histórias, afinal, os que se envolvem em jogar, de certa maneira têm um tipo de predisposição a serem conduzidos pelo jogo, pois se colocam precisamente “em jogo”. Embora pareça algo abstrato demais, creio que essa abertura, esse deixar-se levar pelo jogo, faz com que o jogador deixe escapar algo de singular sobre si afora a própria maneira de jogar.

Essa característica não fica tão estranha se apresentada assim: num jogo como o poker, onde todos estão tentando não transparecer nervosismos e emoções variadas, deixar escapar no comportamento algo assim pode significar um tell e um bocado de fichas a menos.

Pois bem, numa dessas viagens para Vegas conheci um sujeito dos mais peculiares, que reencontrei algumas vezes, e ele deixava escapar de tudo. Cabelos grisalhos quase brancos e sempre desarrumados; um relógio de pulso todo colorido que parecia de brinquedo, daqueles que a criançada ganha em quermesse; dois pares de óculos, ora um no rosto e um dependurado; e maneirismos dos mais diferentes, do jeito de arrumar as fichas até a forma de apostá-las. Sem falar nas anotações constantes que fazia num bloco de papel amassado.

Esse velhote me chamou a atenção, conversava com todos da mesa, seu sorriso fácil tinha um dente pra cada lado e alguns faltando, e tinha a mania de mordiscar a própria língua enquanto pensava nas jogadas. O conjunto ajudava a construir uma imagem das mais interessantes que já vi ao longo dos anos no poker, jogador tem de tudo quanto é jeito, mas esse sujeito era entusiasmado e estava se divertindo como ninguém na mesa, totalmente oposto ao estereótipo do jovem jogador online que mete o fone de ouvido e joga poker como se estivesse apostando a própria vida.

Em certo momento o velhote se envolveu em raises e reraises e chumbou tudo com um par de duques, de um jeito meio estabanado, pois entrou na onda do adversário que lhe puxou todas as fichas numa mesa $1/$2 cheia de bêbados, incluindo-me, claro. Perdeu a mão, disse “quack, quack!” e levantou-se. A maior parte da parceirada debochou um pouco da jogada, mas um deles avisou: esse senhor é um gênio, escreveu até livro.

Vou partir do seguinte pressuposto, gente interessante normalmente é interessada, e isso não é clichê nenhum. Noutro ano, época de WSOP, encontrei numa tarde o mesmo velhote, fincado numa mesa $1/$2 do Bally’s. Sentei ao seu lado, ele me cumprimentou e lembrei dele no ato. Jogamos algumas mãos, ele continuava repetindo o mantra “quack, quack!”, e dessa vez me ouviu conversando com um amigo em português e ficou intrigado:

– Que língua vocês estão falando? Romeno?
– Não, falamos em português.
– Mas soa tão diferente de português!
– É que somos brasileiros.
Awesome!

Por horas, conversamos sobre algumas mãos e línguas originárias do latim. Quando saí da mesa, ele me avisou que estaria ali no dia seguinte no mesmo horário, e poderíamos continuar o bom papo. Nunca imaginei que o campeão mundial de gamão de 1978 tinha jogado poker na minha canhota por uma tarde toda. Paul Magriel faleceu no começo desse mês, nos deixou o conceito de M do poker, e mudou o jogo de gamão com seu livro. Pena mesmo vai ser não revê-lo nesses encontros casuais para continuar o bom papo.

 

Imagem: Kajura/Shutterstock.com. Fontes: PokerPT.com, Pokernews, CardPlayer.

WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

A distopia do poker

Enquanto as cartas do flop são dispostas sobre o feltro, um pequeno feixe de raios laser atinge o bordo ressaltando a silhueta dos naipes, um painel holográfico flutua sobre a mesa mostrando aos espectadores estatísticas em tempo real. Um dos jogadores arremessa um punhado de fichas, que ao passarem pela linha de apostas são imediatamente contabilizadas, pois microchips nanométricos no interior das fichas permitem a leitura dos valores, dispostos prontamente no painel flutuante. A era da tecnologia está em seu ápice e faz do poker um espetáculo visual para além do próprio jogo.

É a feature table do Main Event da nonagésima edição da World Series of Poker, que traz uma novidade em relação aos anos anteriores. A falta de prestígio do tradicional torneio entre humanos precisava de um incremento tecnológico ao mesmo tempo que queria ressaltar as características humanas no jogo, e para tanto, os mesmos nanochips das fichas foram colocados dentro das cartas, de forma que fica possível saber a sequência das que serão distribuídas, queimadas e abertas antes mesmo do início da mão. Tal recurso pode ser visualizado apenas pelos espectadores através de uma espécie de aplicativo de celular chamado Fate.

Para quem assiste ao espetáculo sabendo antecipadamente bordo, queimas e mãos dos jogadores, a expectativa acaba sendo por ver de que forma cada um vai lidar com a situação, como vai escapar, extrair valor, como se comporta, que tipo de loucura vai fazer estando drawing dead.

Embora Fate tenha chamado certa atenção, ele não foi suficiente para recuperar o prestígio do tradicional ME de jogadores de carne e osso, afinal numa sociedade tão tecnologicamente avançada, o momento maior da Série estava reservado para o evento #100, o derradeiro, um torneio de autômatos que disputam entre si o bracelete de campeão e onde a cada corte do baralho, duas dezenas de bordos são batidos numa mesa digital a cada mão jogada. É muito mais ação, os organizadores dizem, mais bads, mais velocidade, mais mãos por hora, mais tecnologia, mais show…

O recém lançado super-robô Oedipus, embora estreante, era o favorito para ganhar o Evento #100 da WSOP, e tem uma história peculiar. Oedipus é a junção de dois dos mais poderosos softwares de jogo, King, o robô norte-americano desenvolvido para ser imbatível, e Iokaste, que é o maior banco de dados de mãos da história do poker, fruto de um consórcio de empresas alemãs que detém o armazenamento de todas as mãos jogadas em todas as plataformas de poker online desde o início do século. Mas há um porém, a empresa Oracle, desenvolvedora de Fate, prestou um tipo de consultoria alertando a equipe de Oedipus que um erro relacional em suas linhas de código poderia fazer com que ele destruísse seu predecessor King e na sequência incorporasse Iokaste, além de apresentar possivelmente algum tipo de defeito se permanecesse em rede por um longo período. Sem considerar isso como um problema e no afã de ganhar a competição, a equipe que desenvolvera Oedipus o retirou da rede para concluir os trabalhos.

Jogando 12 horas por dia em rede, Oedipus não corria o risco de apresentar o problema descrito pela consultoria, e como favorito, não encontrou barreiras para passar pelos sete primeiros dias de disputa, alcançando a mesa final líder em fichas. Na FT, a supremacia do super-robô ficou evidente, Oedipus eliminou um a um de seus adversários e após quase duas dezenas de horas o torneio se afunilou e seu rival no heads-up final era o programa americano King. Fatalmente o destino se realiza, em rede por um longo período, e confrontando o robô que serviu de base para sua criação, Oedipus processa as jogadas com tamanha velocidade que provoca um curto circuito em King, destruindo-o.

Oedipus é declarado vencedor, mas só receberá o bracelete se derrotar o campeão do ano anterior alguns meses depois, em Novembro, concomitantemente a disputa do November Nine. Nesse meio tempo a equipe de Oedipus o coloca em diversas simulações de jogo, e aproveita o recém concluído banco de dados coletado de Fate para incrementar sua capacidade de leitura do jogo. Frente a essas informações, o super-robô começa a entender e simular o comportamento humano considerando o blefe para além de um cálculo previsto, ou seja, Oedipus aprende a blefar como humanos, mesmo quando a situação matemática não favorece a jogada. Basicamente, ele começa a usar o blefe mais frequentemente, como recurso para reverter spots desfavoráveis.

Na data da final mano a mano, ou bit a bit, Oedipus enfrenta o enigmático robô Sphinx, último campeão e conhecido por apresentar jogadas fora dos padrões, overbetando muitos potes e fazendo com que seus adversários tenham que arriscar todo seu stack na quase totalidade das mãos. Mas logo nas primeiras mãos Oedipus mostra ao que veio, e interpretando a estrutura das overbets de Sphinx, constrói um contra-ataque específico para cada um dos 20 bordos que a mesa digital ofereceu, mesclando mais blefes às jogadas. Sem conseguir assimilar as respostas, Sphinx entra em colapso, se autodestruindo.

Oedipus ganha seu bracelete e o consórcio alemão decide que Iokaste deve se juntar ao vencedor, sendo incorporada a Oedipus e consolidando o maior supercomputador da história. Mas a previsão de Oracle se realiza, o defeito previsto pelos consultores acontece e Oedipus fica “cego”, ou seja, não consegue diferenciar mais seus adversários autômatos dos humanos, e como o super-robô foi desenvolvido para o jogo tendo como premissa a eliminação dos adversários, acabou reproduzindo o comportamento das competições para caçar a espécie humana, entendendo-a como seu adversário mais direto. Tal qual a pirâmide muito conhecida no poker, a humanidade foi subjugada pelas máquinas, aliás por uma rede de máquinas comandada por Oedipus, o robô que aprendeu a blefar, que aprendeu o comportamento humano.

No November Nine do ano 2.059 a inteligência artificial tomou o lugar dos humanos, exatos 200 anos após a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, comprovando que não é o jogo matemático e inexplorável que vence, mas o jogo que se adapta.

 

Imagem: Grande Esfinge de Tanis no Museu do Louvre (Naccarato)

Amarillo Slim, prop bets e a não aposta

As prop bets (proposition bets, ou também conhecidas como side bets), são por convenção separadas em dois tipos: apostas que são feitas sobre a ocorrência de um evento, como por exemplo apostar que o flop vai trazer apenas cartas pretas ou qualquer outro tipo de combinação no bordo; e apostas que consistem em propor ao adversário um desafio, colocando-o numa situação em que ele tenha que cumprir alguma tarefa. Exemplos para essas apostas não faltam, vão desde o famoso last longer (onde o último jogador a ser eliminado num torneio ganha dos demais eliminados o montante apostado), até bets mais peculiares como ficar um ano sem comer carne, ou sem fazer sexo.

As side bets entre jogadores de poker eventualmente são noticiadas quando envolvem figurões, grandes quantias de dinheiro ou algo inusitado. Foi o caso da prop bet contra o profissional Antonio Esfandiari durante o Main Event do PCA no começo de 2016, que acabou por desclassificá-lo. The Magician, como é conhecido Esfandiari, resolveu tentar a mágica de urinar à beira da mesa, dentro de uma garrafa, para não ter que caminhar até o banheiro, pois a condição da aposta que ele aceitou consistia em andar de um jeito estranho, apoiando os joelhos no chão a cada passo, por longas 48 horas. Durante esse período e com as pernas já em frangalhos, o jogador decidiu transformar o salão do PCA em banheiro e uma garrafinha em mictório. A direção não gostou, e ele ganhou a própria eliminação do torneio, contudo, levou a aposta.

Para se redimir publicamente, o mágico optou por doar o dinheiro ganho na aposta para instituições de caridade, seguido de um pedido de desculpas. Em suas palavras: “I believe in balance, and my life would not be in balance if I kept this money for myself.” Algo como: Eu acredito em equilíbrio, e minha vida não estaria equilibrada se eu mantivesse esse dinheiro comigo.

Por vezes, esse tipo de prop bet é usada como forma de estímulo, como se o jogador apostasse contra si mesmo, aceitando uma condição apresentada (a aposta) para estimular a chegada a um objetivo, por exemplo quando Ivey e Negreanu propuseram na WSOP de 2014 que um dos dois levaria um bracelete de campeão, dobrando o valor de quem apostasse contra. Nessa mesma linha de auto-desafio, o jogador brasileiro Marcelo Freire, conhecido no poker online pelo apelido de Urubu, lançou há dois anos uma prop bet no conhecido fórum de poker Two Plus Two. O bet consistia em jogar 500 mil mãos de Pot Limit Omaha online num período de 45 dias e ainda sim sair lucrativo. Urubu jogou a toalha antes de completar a empreitada, mas mesmo assim ganhou o respeito da comunidade de poker pelo seu empenho, como você pode conferir nesse post do fórum Two Plus Two. A prop bet do momento: Vanessa Selbst apostou contra Jason Mercier que ele não conseguiria ganhar três braceletes na WSOP deste ano, mas acontece que Mercier já faturou duas jóias da World Series e aceitou a aposta casando 10 mil dólares, mas Selbst pode ter que amargar o pagamento de 1,8 milhões de dólares se o desafiado conquistar o terceiro.

Pois bem, há algo de interessante sobre essas apostas. Nas side bets do primeiro caso, a ocorrência do evento não é controlável, quero dizer, um flop de cartas apenas vermelhas é um acaso com chances de acontecer conhecidas, porém uma casualidade. No segundo caso, quando há o desafiado, está presente uma ideia de controle, no sentido que há um agente que é parte atuante na dinâmica da aposta, ou seja, em tese, depende mais do desafiado do que do acaso. Em tese, pois o desafiado pretende o controle, enquanto que o desafiador aposta na falta dele.

Esfandiari aceitou a prop bet acreditando que manteria o controle da situação, o que acabou por ficar mais na teoria, pois não basta apenas mentalizar o objetivo, é preciso considerar uma relação com o próprio corpo, e porque não dizer, com o corpo social. Mesmo tendo ganhado a aposta ele não conseguiu ficar com o prêmio, afinal, em sociedade, aspectos morais são tão ou mais valiosos que dinheiro, o que abre outra questão.

Antes de tudo, o desafiado precisa crer numa troca simbólica, ou seja, considerar se o esforço vale à pena moralmente e não apenas em função da quantia em dinheiro. Relação que, no caso de Esfandiari, ficou perceptível no desfecho, quando ele optou por devolver o prêmio por ter infringido uma moral maior que o jogo. Na recente prop bet de 600 mil dólares contra Dan Bilzerian também há uma situação onde aspectos morais estão presentes, aceitar percorrer em 48 horas quilômetros de bicicleta de Los Angeles até Las Vegas geraria aparições na mídia e nas redes sociais. Sair bem na foto (ou no Instagram) é um modo de se relacionar socialmente muito comum de nosso tempo, algo já considerado usual.

Acontece que as apostas paralelas fazem parte da cultura do poker, como se fossem manifestações de um comportamento natural dos jogadores de poker.

Na época da gênese do poker moderno, no final da década de 60, Doyle Brunson, Sailor Roberts e Amarillo Slim, antes de jogadores de poker, eram apostadores em busca de qualquer vantagem, e talvez aqui esteja a origem desse comportamento comum e das prop bets tão difundidas na comunidade do poker. E, em se tratando de apostas e desse trio de notáveis, é preciso destacar um deles, Thomas Austin Preston Jr, mais conhecido como Amarillo Slim. Carregando e forjando o estereótipo do caubói-jogador, que supreendentemente ajudou a mudar o estigmatizado poker participando de várias entrevistas em programas de TV após sua vitória no Main Event da WSOP de 1974, e que ficou muito mais conhecido por suas extravagantes proposition bets.

Amarillo Slim se utilizava de uma lógica peculiar, ao invés de “achar o pato na mesa” como de costume, ele transformava o campeão em pato, desafiando seus adversários em seus campos de atuação. Dentre suas tantas prop bets conhecidas, podemos citar duas: Amarillo apostou contra o lendário cavalo campeão Seabiscuit, propondo que o venceria numa corrida de 100 jardas. A única condição imposta por ele foi a de escolher a pista, e o fez num trajeto ida e volta de 50 jardas. Seabiscuit, um cavalo sabidamente veloz, disparou na primeira metade da corrida, mas o jóquei que o montava teve um problema esperado por Amarillo, o de desacelerar e acalmar seu pilotado no momento de fazer o retorno. Enquanto isso, Amarillo alcançava a linha de chegada, puxando a aposta com uma estratégia vencedora. Noutra ocasião, propôs para o já aposentado campeão de tênis Bobby Riggs que poderia vencê-lo numa mesa de ping-pong desde que pudesse escolher as raquetes. Slim treinou previamente antes da partida, e bateu o tenista quando apresentou frigideiras no lugar das raquetes.

De algum jeito, o que há de incomum entre todas as prop bets apresentadas é exatamente a qualidade da troca. Enquanto Bilzerian e Esfandiari já perderam de vista o porquê da aposta mesmo seguindo o costume, e Mercier e Urubu usam as apostas como desafio extra-jogo, as side bets do caubói Amarillo Slim vão em outra direção, são apostas no sentido mais estrito da ideia de jogo, pois o risco e o blefe são a dinâmica própria criada por ele para vencer o desafio, ou seja, não bastava para Amarilo seguir a regra, mas inventá-la. Para o campeão da WSOP de 74, simplesmente seguir o jogo seria como uma não aposta, talvez porque ele não acreditasse na tal “naturalidade”, no costume, no comportamento comum.

Que tipo de jogador você gostaria de ser? Um que inventa um jogo dentro do jogo, ou alguém que tem muitos seguidores no Instagram? Alguns diriam que nenhum deles, senão o mais ganhador. Mas não se engane, se há algo sobre apostas que devemos considerar é que cada jogador as faz em função da troca simbólica que lhe convém, e por vezes, por trocas que nem mesmo percebem.

 

Fontes: Pokernews, Two Plus Two, MaisEV, Telegraph e Wikipedia. Imagem: Shutterstock.com (editada)

O campeão Jorge Moutella e as ressalvas

Em época de bracelete de um jogador dos mais conceituados como Decano, e de um quase November Nine de Negreanu, o poker carrega ressalvas. Não basta ganhar, e mesmo na sociedade do resultado, por vezes, o resultado não é suficiente. O desempenho de Jorge Moutella, campeão da etapa de São Paulo da Brazilian Series of Poker, dividiu opiniões. De um lado, o ineditismo de um feito, pela primeira vez o vencedor do evento principal eliminou todos os adversários na mesa final. Por outro lado, a relação de blinds e stacks teria favorecido o melhor conjunto de cartas, as certeiras mãos jogadas por Moutella na FT, jogador do interior de São Paulo que nunca havia disputado um field maior que quarenta jogadores. Parece a velha discussão sorte e habilidade.

Voltemos um tanto no tempo. Quem se lembra de Jamie Gold, falastrão que levou um Main Event de WSOP na base da falinha e anos depois leiloou o cobiçado bracelete. Pra citar outro amador, Jerry Yang, que passou a WSOP de 2007 gritando yes, yes! beijando a foto de seus filhos, apostando de pé, e pedindo à Deus para ganhar cada mão, nada muito técnico no final das contas, senão por uma técnica bem peculiar de meter ficha no pano (se ficou curioso, confira aqui um vídeo com as mãos de Yang no ME). Mais um que foi tido como um não bom embaixador para o poker, pelo menos na visão de outro campeão de WSOP, Joe Hachem, famoso pelos gritos de aussie, aussie, aussie! quando colocou as mãos no troféu máximo do poker. O discurso é tão presente quanto a gritaria, algo como: você deveria ter feito o que eu deveria ter feito, ou em suas palavras “O poker está morrendo”.

Em contraponto, ainda me recordo das manchetes quando o jovem Cada foi campeão do ME, “Joe Cada salvou o poker”. Sabemos que salvou a si mesmo da eliminação, acertando trincas improváveis por duas vezes na FT, e “nos” salvou também de termos na galeria dos campeões um lenhador que deixaria todo o prestígio do poker para voltar à sua terra natal, Maryland, e assim realizar a profecia de ser mais um não embaixador. Seria improvável ver um Darvin Moon de roupa preta empunhando a espada vermelha e estrelada do patrocinador nas contracapas das principais revistas de poker, no meio de uma floresta com o machado à tiracolo. Já, para Hachem, caiu bem.

Pois bem, entre embaixadores, amadores, fiascos e resultados, o poker criativo e bem jogado permanece tanto quanto o pouco técnico, e sistematicamente, uma grande maioria de amadores continua jogando e perdendo, tanto quanto uma parte dos vencedores vai dar cabo de representar o poker e deixar o sonho suspenso, algo que não é nem bom nem ruim, mas é a natureza cíclica do jogo e do mercado. Mas, questões como a legitimação de um campeão continuam não sendo balizadas apenas pelo resultado, e embora esse seja o primeiro passo, é a comunidade do poker que dá o aval, ou melhor, quem alimenta a opinião pública é quem dá o aval.

Na discussão contínua de quem é melhor, fenômenos aparecem, permanecem e somem, e suas posturas gritam tão alto quanto seus resultados. Evidentemente, debates ampliam qualquer diálogo, mas algumas vezes a própria indústria e a opinião pública parecem se esquecer do seu principal embaixador, o amador que em 2003 mudou o panorama do jogo. A vitória de Moneymaker é emblemática, a típica boa história americana, a mitologia do herói no ocidente, o soldado que foi à guerra, o amador que venceu.

Todo o trabalho de construção de um ídolo depende da façanha, e valorizar ou desprestigiar uma vitória são os lados para se escolher no momento de contar uma história. Afinal, Moutella teve um bom desempenho pelo fato de ter eliminado todos os mesa-finalistas ou ele deu sorte? O prestígio de Moneymaker veio do bracelete ou da história que propiciou uma explosão do poker? O ponto não é defender ou atacar os amadores, não é esse o caso, mas quando tratamos uma vitória no poker como um acidente, mais ou menos como uma margem aceitável de erro na regra, esquecemos que poker é um jogo. Por outro lado, Moneymaker e a legião de amadores expõem o paradoxo dessa questão, a maior propaganda para o poker vem pelas mãos de amadores.

O bom jogador continua ganhando, e mesmo a contragosto, o poker continua real, mas a pergunta fica, a competição legitima o quê?

 

Imagem: pogonici/Shutterstock.com (editada)

Um cruel novembro sem Daniel Negreanu?

A comoção notada por todos e na mídia especializada após a eliminação de Daniel Negreanu é compreensível. Um bom jogador como Phil Ivey, que já foi November Nine, não capitalizaria tanto para o mercado do poker quanto Negreanu, que é tido como embaixador desta atividade principalmente pela forma com a qual lida com a mídia e promove seu principal patrocinador, o PokerStars. Isso deixa uma pergunta, Negreanu precisa mais do mercado do que o mercado precisa dele? Típica pergunta como a do ovo e da galinha, mas quem veio primeiro não é o assunto desta reflexão.

Senão os próprios postulantes ao November Nine, quem seriam os outros torcendo contra Daniel Negreanu? De alguma forma, no poker há uma diferença perceptível em relação à outras competições, o público tende a torcer e prestigiar os mais habilidosos, mais conhecidos, melhores. É de se pensar quais os motivos que nos levam por vezes a torcer para o lutador de compleição menos robusta numa luta ou arte marcial, ou torcer para os Camarões contra a superior Alemanha numa partida de futebol, e porque gostamos quando o time do interior, mais carente de recursos, bate um Corinthians ou um Flamengo.

Com exceção da rivalidade encontrada no último caso (um palmeirense supostamente gostaria de ver uma derrota corinthiana), há talvez uma vontade de compensação nas competições, que pode ser vista quando torcemos para o mais fraco numa briga, como uma forma de compensar a diferença, esperando um resultado que pareça ser mais justo, o velho Davi e Golias presente no imaginário. No poker não, queremos que o melhor vença.

E como se trata de poker, pode-se dizer que a queda de Negreanu no Main Event, literalmente caído e estirado no chão, foi cruel. Sim, pode-se, mas por motivos que acredito serem diferentes dos citados acima. As palavras crueldade e cru têm a mesma origem etimológica, e são derivadas da palavra cruor (sangue, no sentido de sangue derramado por violência, que difere da palavra sanguis, que é o sangue correndo nas veias), de forma que aquilo que parece cruel é o que é cru como a realidade, e não o que é injusto e cruel.

A eliminação de Negreanu só pode ser cruel se está sob a condição de ser crua, ou seja, de ser puramente real, a realidade nua e crua que deflagra a natureza igualmente inerente no poker: não há justiça nos jogos, e isso não é um problema, pois afinal, também não há injustiça.

Talvez algo difícil de lidar por parte dos jogadores, que entendem que uma boa mão pré-flop deveria vencer, ou que é legítimo uma trinca flopada sair vencedora independentemente de que cartas alcancem o river. Quantos jogadores acham injusto serem eliminados quando estão com top pair no flop e as cartas do adversário acertam uma broca ao final da mão? E quantos deles não usam isso como desculpa? Quantos justificam suas jogadas em função de uma suposta injustiça ao ver seus pares de Ás quebrados? Negreanu, muito lúcido e ciente da realidade do jogo, não se interessa exatamente pelas cartas, mas precisamente pelo pensamento por trás delas, e explanou seu ponto de vista em três mãos jogadas no Main Event, neste artigo em seu site, o Full Contact Poker. Well done, KidPoker!

Segundo ele, “o jogo é simples, e se complica na medida que o tornamos complicado”. Quando criamos em nossas mentes tal vontade de justiça, o que é uma ilusão, deixamos de perceber que a aleatoriedade do jogo é superior e fatal. No poker, merecer não é sinônimo de vencer, embora algumas vezes isso possa acontecer, como no caso do bracelete do Decano, ou das inúmeras vitórias de Negreanu.

Contudo, simplesmente aceitar o jogo como ele é, seria uma resignação. Por outro lado, ressentir-se do jogo nos levaria ao mesmo ponto, pois ambas são reações ao fatalismo do baralho. Seria, como por exemplo, aceitar que é o baralho que resolve e você nada pode fazer (no primeiro caso, quase que assumir o poker como jogo de azar), ou abandonar o poker por ele ser injusto (no segundo caso, acreditando mais na ilusão do que na realidade). Uma possível saída para esses dois casos seria entender a natureza do jogo, e somente assim criar através dessa condição, o que pode não ser exatamente uma solução, mas parece ser uma possibilidade mais potente, onde não somos vítimas do jogo que escolhemos participar.

Portanto, não há nada de errado, e nem de certo, na eliminação de Negreanu, afinal, ainda bem que ele caiu, pois sem isso o jogo já teria suas cartas marcadas, já teríamos um poker onde o jogar não vale de nada, num tribunal onde a sentença é sempre favorável aos que já estão estabelecidos. Se já está definido quem deve ganhar, não é necessário jogar. Só existe um participante com vaga garantida no November Nine, o poker. A queda de Negreanu nos faz lembrar, ou melhor, nos traz para a realidade imanente do jogo: o jogo.

 

Fonte: Full Contact Poker. Imagem: Retirada da fanpage de Daniel Negreanu no Facebook

Um Main Event por quatro

Lucas Fauth iniciando o Main Event
Lucas Fauth iniciando o Main Event

Com Akkari levando uma bad das grandes, Mojave no pano e mais alguns brasucas, o dia 5 do evento principal da WSOP deste julho de 2015 está em sua reta final, caminhando para a formação dos nove que jogarão a mesa final de novembro.

Neste momento, pouco mais de 140 jogadores seguem no torneio, quatro deles representam os quatro cantos do poker brasileiro: Lucas Fauth do Rio Grande do Sul; o conhecido jogador paulista Felipe Mojave Ramos; Ramon Sorgatto, que mora no estado de Goiás mas é de Salvador; e o curitibano Yuri Dzivielevski, que fechou 2014 como líder do prestigiado ranking do Pocket Fives.

Evidentemente, a chance é para todos, mas se é possível falar de um destaque, o brasuca com mais fichas é o que tem menos idade, Lucas Fauth, 22, conhecido no poker pelo apelido “dimenor“, há pouco era underage para ficar em frente a uma mesa de poker em Las Vegas, mas aproveita a boa fase, a manha com o jogo e seu olhar sóbrio para o poker, para runnar bem, como pode-se conferir na entrevista para Victor Marques no final do dia 4. Dimenor é uma das maiores chances.

Felizmente, a cada ano temos motivos a mais para acompanhar a reta final do ME, e hoje temos quatro postulantes à um dos cobiçados assentos do torneio de poker mais falado do planeta.

 

Fonte: Wsop.com. Imagem: Retirada do perfil de Lucas Fauth no Facebook

Vegas em junho de 2015 e o tal poker

No forno que é a Sin City, o final da tarde é as oito da noite, é confortante, o calor abranda e o céu vai de azul pálido para escuro, mas tudo parece meio azul, laranja ou vermelho pelo reflexo das luzes que começam a gritar nos letreiros. A moldura cafona da noite vai se desenhando num emaranhado de neons, substituindo o deserto no horizonte. E o tal poker?

Bem, há quinze dias que é assim, mas essa paisagem fica mais na memória do que na vista, pois a mesa de poker é a morada do baralhão. Duas semanas atrás, as poker rooms da Strip cancelaram seus torneios diários, fila de 71 jogadores no cash $1/$2 do Flamingo, 45 pangarés no Harrah’s, 31 no Bally’s… Para se inscrever no único torneio aberto, no Caesars, 30 alternates, 150 dólares, 20 minutos de blinds e um bando de tiozão abrindo raise de 12xBBs no primeiro nível. Tudo culpa dos gigantes Colossus e Goliath, os torneios de buy in de $565 que encheram Las Vegas de amadores e profissionais para encarar a WSOP e a série do cassino Planet Hollywood (além da série Aria Classic WPT, que teve seu dia 1 no começo de junho, e só volta para o dia 2 em julho, pode?). É preciso ser Daví para runnar e vencer o Golias.

Claro que para aproveitar essa enxurrada de jogadores, algumas poker rooms criaram promoções. Os Porões de Las Vegas continuam chamando, Vitão. A espelhada sala de poker do Flamingo tem o jackpot mais atrativo, 20 mil pratas para quem perder com quadra de 5 ou maior. Impossível? Que nada, a foto do topo deixou a galera em festa na primeira noite do mês, 40% do jackpot para a quadra de 8, 20% para a de Ás, e o restante dividido para todos os presentes. Só em Vegas, 0,1% de chance no flop para a quadra de ases runner runner vencer e perder ao mesmo tempo. Agora entendi o motivo de ter chovido por duas vezes aqui.

De resto, a cidade que sempre muda, mas tem a mesma pegada de sempre, trouxe novidades. A poker room do TI, que já ficou ao lado da sempre presente fila para um dos espetáculos do Cirque du Soleil, foi parar em outro canto, ao lado de uma lanchonete, o que faz fichas, cartas e cachorro-quente parecerem uma coisa só. The Quad finalmente assumiu o nome The Linq (ex-Imperial Palace que já tem há mais de um ano uma roda gigante iluminada em seu quintal), e lamentavelmente fechou sua sala de poker em definitivo. Mirage fez o inverso, reformou a poker room na véspera da virada do mês, mas arrancou 2/3 dela para fazer um cashier. Numa dessas noites no fucking Mirage, na última mesa do fundo do salão, Jooryt van Hoof, terceiro colocado no main event do ano passado, jogava mixed games com uma parceirada animada e stacks monstruosos de fichas de $1.

O poker de Vegas tem de tudo, no início de junho parecia que tinha até mais poker player francês do que americano, muita piranha jogando $1/$2, e torneios voltando a grade usual depois do dia 5. Parada tem de monte, claro, jumento dá call com KJoff num all in monstro e perde, sobra com 1,5BB, fica queimado e vai all in na mão seguinte, mostra 44, e o BB dá call com 43off, mas esse 3 de couve é perigoso, e flusha no river. Andam dizendo por aqui que AQ de couve é mais forte que qualquer AK, quando começa a bater brócolis no bordo não pára mais, vira horta… Aqui tem jogador, e muito, e tem gambler daqueles que sempre deixam um troco na roleta, mas tem o tipo de cara que é ambos, e os que vieram atrás do sonho, embora a realidade crua me convença mais. Mas se você veio só para o poker, faça como Igor Marani, Pedro Marte & Cia, grinders dos satélites da WSOP, três brasucas contra a rapa num esquema +EV para sit and go de uma mesa. Para quem não veio, uma boa pedida é acompanhar o vlog do Gui Cardoso, que criou o diário 4 Cartas em Vegas, onde conta dia a dia sua rotina nos cashes de PLO da cidade, o capítulo um está aqui, e não esqueça de clicar no chinês.

E o tal poker? Termina na madrugada, e sentado à beira de uma das entradas do Flamingo, fumando um dos últimos cigarros entre mendigos, casais convencionais, velhotes, bêbados, grupos de garotas peitudas, garotos engomados e outros segurando suas calças caídas abaixo das cuecas; os acordes da melhor música do não tão bom Aerosmith: Dream on. Um trecho é significativo para muitos tantos jogadores, I know, it’s everybody’s sin, you gotta lose to know how to win. O pecado é a sina.

 

Foto: Cash game no cassino Flamingo (Rodrigo Saito)