Run It Twice e a saga dos podcasts de poker

Entrevistas são o forte do novo canal
Entrevistas são o ponto forte do RIT Podcast

O podcast Run It Twice, iniciativa vinda da Bahia, foge do centro do poker no país, mas vai ao centro de diversas questões que uma grande leva de novos praticantes carrega. A dupla Rafael Pimenta e Murilo Barreto apresenta de forma bem humorada um bate papo que pretende tudo menos ditar regras, a tentativa é se comunicar com o jogador de poker que está se formando e crescendo em número nos últimos dois ou três anos no país.

Já são quase vinte episódios ao longo de um ano, trazendo assuntos pertinentes sobre o universo do poker, contudo o forte deste canal são as entrevistas. O mais conhecido apresentador do poker, Vitão Marques, falou de sua longa jornada na atividade quando foi convidado no episódio 11, e o experiente jogador Vinicius Collaço, conhecido pelo apelido de batovs, contou no episódio 17 sua experiência no Akkari Team Micro e os altos e baixos de uma vida de grind. Vale ouvir também o sexto episódio, com Paulo Longo, paranaense dono de clube que rendeu uma ótima conversa e uma visão geral sobre sua empreitada.

Os podcasts brazucas sobre poker têm uma recorrente história de bom início e queda prematura. Desde o ótimo Pokercast de Marcelo Lanza e Guilherme Kalil, lá na virada da década; até o pertinente PosRiver apresentado por Gordinho, Moll Orso e Bellebone, o bom trabalho e o formato interessante ainda não conseguiram estabelecer público cativo que sustente a atração. Talvez, o apelo dos vídeos seja maior nos dias de hoje, ou provavelmente a comunidade do poker não tenha se atentado à qualidade desses conteúdos ao longo dos anos. Aguardemos.

 

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker

Bruno Foster acredita, e dá 6-bet

Há um ano, um dos bravos dessa parte de cá do mundo, que insistiu em levar suas fichas bem longe na competição, deu um gosto diferente ao Main Event da WSOP. Era o Bruno Kawauti, num incrível 15.o lugar, e agora é seu xará que nos deixa grudados nos sites de cobertura atualizando a página a toda hora.

Bruno Foster está jogando o fino, concentrado e com consciência do que tem que ser feito. Numa das mãos emblemáticas neste dia 7 da disputa, Foster deu 6-bet e viu o adversário norueguês dar insta-fold, mas sua performance foi registrada pobremente pela cobertura da WSOP… mas o Vitão Marques não perde uma, dá uma olhada. Cabe a pergunta, quantas vezes se vê um 6-bet quando restam somente 17 jogadores no field do mais tradicional torneio de poker do mundo?

É porque eles não sabem que aqui deste lado, os bravos, antes de conseguir dar 6-bet, passaram os últimos anos convencendo família e amigos, escapando de alguns estereótipos e caçando jogo quando ainda não tinham que organizá-lo. Aqui o poker está crescendo e sendo aceito devagar, ganhando espaço cada vez mais, pra ganhar logo mais o espaço de vocês aí.

Foster, que em tradução direta do inglês significa “adotivo”, sabe que todo um bando de fissurados desse lado de cá, já o adotaram. Desse jeito, só resta saber quem vai ser o Bruno do ano que vem. Novembro é logo mais.

Fontes: Cobertura WSOP e Vitão Marques no Superpoker

Considerações sobre a polêmica de Daniel Colman no One Drop

Sobre a declaração de Colman

Daniel Colman poderia ter falado com a imprensa após a vitória, e se dissesse o que queria, possivelmente não seria mostrado da forma que desejava. Por isso quando ele opta por responder pelo canal que julga independente e mais próximo dele, o fórum de poker Two Plus Two, ele quer garantir a qualidade e a totalidade do que deseja falar. É principalmente para quem pensa o jogo que ele está falando.

Aparte o conteúdo de seu discurso, que pode ser interpretado de diversas maneiras, e colocado de uma forma maniqueísta que divide as coisas apenas como certas ou erradas, o importante é que sua reação trouxe para a superfície um assunto que o mercado não lida muito, e esse parece ser seu grande mérito nisso tudo. Se sua posição é boa ou não, o relevante é o fato de ter detonado a discussão.

 

Julgamentos e argumentações

É tão inadmissível para os que promovem o jogo aceitarem a argumentação de Colman, que a única estratégia de contra-ataque possível à eles é desmerecer o adversário, julgando-o como imaturo, criança petulante, muito jovem, hipócrita, controverso e impreciso demais. E é assim que o ponto fundamental da discussão, que é o formato pelo qual se promove o jogo, é deixado de lado, e a maioria das reações ficam pautadas pela ótica da grana, da culpa por tê-la e da redenção presente no ato de transformá-la em altruísmo. Se você não aceita levar vantagem num jogo cruel, então devolva todo o dinheiro, ou reverta para quem precisa, é o que dizem dos fóruns de poker e comentários nos blogs.

Seguindo essa linha de argumentação, porque então os demais jogadores não fazem o mesmo e revertem seus ganhos para a grande maioria que perde no jogo? Afinal ninguém discorda que a maior parte dos jogadores não é vencedora. É por isso que essa defesa parece fraca, e deixa a discussão estagnada, numa busca por quem está certo ou errado, tentando passar a culpa de um para o outro. Não se sabe se Colman ou Negreanu ajudam a alguém ou a alguma instituição, mas isso não altera essa perspectiva do jogo, afinal os mais preparados vão continuar ganhando, e a propaganda vai continuar sendo feita para atrair mais e mais praticantes.

 

O lado sombrio

Não é porque diversas outras atividades têm em comum com o poker o tal lado “sombrio” que temos que deixar de discutir o jogo e o mercado, e ao que parece, não é esse o ponto quando Colman critica a cultura do ego e do sucesso, e principalmente a propaganda do jogo. Em nenhum momento ele falou alguma mentira, tanto é que não se pode negar o que ele disse, só resta procurar entender sua atitude e discutir o assunto. Mas o caminho comum é o julgamento. Os organizadores sempre vão promover o jogo transformando-o em espetáculo, mas as mídias podem fazer mais mostrando as realidades que permeiam o poker.

 

A resposta de Negreanu

Negreanu claramente concorda em partes com Colman, mas seu pedido direto para o campeão do One Drop passa a mensagem velada de que há uma verdade maior a ser seguida, de forma a abrandar a discussão e terminar logo com a polêmica, afinal ele é apenas um garoto de 24 anos, e possivelmente não sabe o que está fazendo. Só que grande parte das pessoas que não são mais tão jovens quanto Colman parecem ter percebido com sua “experiência” que é mais importante dar manutenção à um sistema que fazem parte do que discutir ou considerar seu discurso. Colocar em pauta esse e outros diversos assuntos é informar e gerar não apenas jogadores mais pensantes sobre sua atividade, mas também um mercado mais preparado.

O que está se perdendo de vista é que independente do formato da comunicação ou dos aspectos presentes no poker, sempre haverá um mercado e alguém o explorando, mas talvez apenas Colman tenha uma inclinação, perceptível em suas palavras, de que o mais importante é a forma com a qual lidamos, interpretamos e nos posicionamos no poker. Isso é ser crítico, e não hipócrita.

 

Links importantes para a discussão

Reportagem do Pokernews (em inglês)
Reportagem de Case Keefer no Las Vegas Sun (em inglês)
Declaração de Colman no Two Plus Two (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Colman
Opinião de Thiago Pessoa no Quero Ser Shark
Artigo de Naccarato no Metapoker sobre a atitude do campeão
Tópico no fórum MaisEV
Metagame especial WSOP com Sergio Prado e Vitão Marques
Resposta de Daniel Negreanu (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Negreanu
Opinião de André Akkari
Opinião de João Simão
Opinião de Vitão Marques
Vitão entrevistando jogadores sobre a polêmica

Las Vegas, junho de 2014

Os dias em Vegas começam tarde, ou melhor, de tarde. Acordar moído, depois das noites em claro passadas nos “Porões de Vegas”, é o usual. Aliás, o termo é do Vitão Marques, no seu post do dia 14, mas cabe muito bem para as salas de poker dos cassinos, afinal não há janelas, não há dia nem noite, só fichas e baralho, o feltro e a parceirada.

No small stakes joga-se poker, mas é outro jogo. Duas mãos dos últimos dias não saem da cabeça. Na primeira, no salão do velho Bally’s, soco ficha depois do limper, tomo tribet de outro camarada, o limper da call, a ação volta pra mim e mando uma four-bet de respeito, com duas damas na mão. Ambos pensam e pagam, flop catrupe 78T sem draws para flush, mando a pamonha, ambos pensam muito, mas dão call. O primeiro mostra AQoff e o segundo AJoff que acerta a broca do river. Será que o AJ sabia o que estava fazendo? Será que eu sei o que estou fazendo?

A segunda mão é daquelas que ninguém acredita, no PLO do Golden Nugget seis jogadores esperam a ação do tiozão no botão, mas o dealer, inexperiente e meio nervoso com o joguinho, abre o turn antes da hora, um oito de espadas. A mesa toda reclama, chamam o floorman que segue orientando o que fazer, queime uma carta e abra o river, espere a ação dos jogadores, volte o oito de espadas para o monte, embaralhe, corte, abra o turn sem queimar carta. Booomm, oito de espadas de novo.

O poker nunca dorme em Vegas, pode não ter uma alma na roleta ou no craps as quatro da mattina, mas sempre há meia dúzia de alucinados nas mesas do joguinho. No small stakes você aprende a escapar de encrenca, mas com muito custo, pois os torneios turbo acabam com sua sanidade, você abre raise com AK e toma oito calls, e assiste uma saraivada de fichas repicando à mesa antes mesmo de pensar o que fazer num bordo que não conectou nada com seu jogo. E isso vai acontecer incontáveis vezes, os blinds te espremem, as fichas são curtas, a cerveja demora as vezes, a parceirada fala demais, e o espertão do seu lado, aquele que pagou a broca e acertou, prefere peidar ali mesmo. Contudo, você aprende. E dá pra ganhar, pra tirar um pouco do ferro.

A dinâmica é sempre muito parecida, mas o cenário sempre muda. O Bill’s, berço da baralhagem, virou The Cromwell, que cheira à carro novo, mas parece um belo caixão decorado, num funeral que vai do brega ao luxuoso, sem poker room, sem bagunça, só estética. Construíram uma roda gigante monstruosa no final da rua, mas pra isso, construíram uma rua também, cheia de lojas e gente circulando. O Caesars, que tinha uma das melhores poker rooms de Vegas, deixou de fazer sua série de poker e montou uma nova sala, bem menor, bem decorada, mas longe de ser o que já foi um dia.

Os jogos da Copa do Mundo passam em todos os cassinos, felizmente, e colombianos, ingleses, alemães, holandeses e brasileiros desfilam as camisas de suas seleções após os jogos. Qualquer vendedor que descobrir que você é brasileiro vai te perguntar o que você faz aqui com a Copa rolando no seu país, e você responde, é o poker, é o joguinho, que começa depois do meio-dia nos porões que vão de Downtown até as duas pontas da Strip.

Link: Blog do Vitão, Superpoker