A imagem no poker e na novela

Qualquer obra de ficção é fruto do imaginário ou é um reflexo dos nossos tempos? Trata-se de ambos? Será que estamos presos a imaginar somente o que está ao alcance de nossas visões de mundo fincadas no agora? Parecem boas questões, mas o fato é que um tema abordado na trama de uma novela se amplia não exatamente em qualidade como nessas perguntas apresentadas, senão precisamente em quantidade.

O termo quantidade diz muito sobre os objetivos de uma novela quando a consideramos como um produto, afinal, embora seja um tipo de atividade artística (que em potencial poderia provocar experiências estéticas interessantes), as novelas se orientam à audiência, e para tanto precisam estar de acordo com uma visão de mundo já aceita pela sociedade, com o que já está naturalizado. Ou seja, a precaução ao apresentar os temas e as mudanças que acontecem na trama em função dessa aceitação são baseadas no apelo que a experiência artística provoca e igualmente na manutenção deste público, que precisa se ver refletido nesse espelho que chamamos de televisão.

Nesse sentido, as novelas são reflexo da própria sociedade que legitima algumas narrativas com as quais se identifica, e num processo cíclico alimenta a trama ao mesmo tempo que é alimentada por ela, quer dizer, vemos nossos ideais na novela da mesma forma que ela nos municia de ideais. O possível problema com isso é que na falta de outras opções, esse tipo de entretenimento massificado passa a pautar os assuntos da sociedade, em parte porque tem uma penetração grande na vida social, mas fundamentalmente porque consagra o que esta mesma população já tem como “normal”.

Grosso modo, duas reações básicas acontecem, quem fica horrorizado ao ver um beijo gay na novela está projetando seu ideal conservador. Aqueles que entendem que é um avanço em relação à aceitação das diferenças comemora igualmente sua visão ideal. De forma alguma estou minimizando o ganho social que a tensão entre conservar e avançar provoca, mas podemos dizer que ambas visões não podem perder de vista que o beijo gay existe e vai se repetir enquanto a humanidade existir. O “susto” ao presenciar essa imagem vem da negação da realidade, como quando um viciado em jogo aparece na tela. Ou seja, o inconformismo provocado pela aparição da jogadora viciada na novela é o indicador de que mexeram num ideal, neste ideal do novo poker esportivo. O medo de que a imagem estigmatizada do poker se confirme pela imagem da novela revela o quanto este susto é concreto, é daí que partem os ataques.

Aparentemente aconteceu uma inversão, a verdade (use o termo com quantas aspas quiser) está na imagem simulada, enquanto que a realidade deixou de ter graça, no sentido que não mais favorece uma experiência estética considerada interessante. Vemos deflagrado algo do nosso tempo, a imagem por vezes toma o lugar da realidade, e é assim com a novela e seu potencial para pautar a sociedade.

A personagem é parte do nosso imaginário sobre o jogador viciado, o estereótipo consagrado. Vale lembrar que é daí também que saíram vários filmes sobre poker que atraíram muitos praticantes para o jogo. O herói de Rounders vive a mesma experiência devastadora do jogo, perde suas economias, a oportunidade de carreira na faculdade e também a namorada, só pra citar um dos filmes mais cultuados pelos jogadores. Se ao final da novela a jogadora viciada conseguir largar o vício, o que é bastante provável visto o arco dramático dessa personagem, o poker estará redimido?

É possível defender a novela levantando a bandeira da liberdade artística, de forma que qualquer intervenção ou imposição do que deve ou não aparecer na trama beira um tipo de censura, mas vejam, não é a própria busca pela audiência que censura a novela? Quer dizer, o que vai aparecer depende do que vai ser mais aceito. Além disso, atacar a novela porque ela mostra o lado ruim do jogo e querer que ela mostre o lado bom é de algum jeito ingênuo. Alguns ataques afirmam que o folhetim televisivo deveria ter o compromisso em também mostrar o lado positivo da atividade, o que é uma justificativa pobre, afinal novelas são consagradas porque a preocupação em tratar qualquer assunto com profundidade e complexidade não é parte principal de seus objetivos. No fundo, esperar que a novela, o programa de auditório, o reality show ou qualquer coisa do gênero apresente uma visão mais elaborada e profunda sobre um assunto é igual a comprometer todas as suas fichas pagando uma aposta pra acertar a broca no river, quer dizer, às vezes bate, mas trata-se de uma exceção.

Ademais, a face positiva do poker não é o assunto da novela, que pelo seu título nos demanda algumas interpretações. “A Força do Querer” nos diz sobre o impulso por vezes incontrolável (a força) do desejo (o querer), o que exprime com certa exatidão o vício. Ao mesmo tempo, a vontade de querer mudar de situação, ou seja, a força de querer largar o vício, fecharia o arco dramático da personagem, como acontece recorrentemente nas tramas. A jogadora perderia tudo no jogo e ao final se recuperaria, curiosamente uma estrutura narrativa idêntica ao aclamado Cartas na Mesa (Rounders, 1998).

Se você gosta de novelas, espero, não é pelo que ela pode produzir de reflexão, mas pelo que resta de expressão artística em sua dinâmica. Se você gosta de poker, espero, não seja pelo apelo de imagem que ele possui, pois com um curto período praticando já dá pra notar que esse apelo se desmancha como a fumaça de um cachimbo. Magritte diria (ou melhor, pintaria) em sua “Traição das imagens” que a imagem do cachimbo não é um cachimbo, para questionar o quão estamos presos à imagem.

A saída presente no imbróglio poker e novela é a oportunidade de perceber as estruturas por trás da superfície onde está a imagem, como fizemos quando deixamos de considerar o poker como jogo de azar. Na medida em que relacionamos mais conhecimentos abraçamos menos definições prontas e podemos tentar mais perguntas no lugar de aceitar a pauta.

 

Imagem: “La trahison des images” (1929) de René Magritte

Amarillo Slim, prop bets e a não aposta

As prop bets (proposition bets, ou também conhecidas como side bets), são por convenção separadas em dois tipos: apostas que são feitas sobre a ocorrência de um evento, como por exemplo apostar que o flop vai trazer apenas cartas pretas ou qualquer outro tipo de combinação no bordo; e apostas que consistem em propor ao adversário um desafio, colocando-o numa situação em que ele tenha que cumprir alguma tarefa. Exemplos para essas apostas não faltam, vão desde o famoso last longer (onde o último jogador a ser eliminado num torneio ganha dos demais eliminados o montante apostado), até bets mais peculiares como ficar um ano sem comer carne, ou sem fazer sexo.

As side bets entre jogadores de poker eventualmente são noticiadas quando envolvem figurões, grandes quantias de dinheiro ou algo inusitado. Foi o caso da prop bet contra o profissional Antonio Esfandiari durante o Main Event do PCA no começo de 2016, que acabou por desclassificá-lo. The Magician, como é conhecido Esfandiari, resolveu tentar a mágica de urinar à beira da mesa, dentro de uma garrafa, para não ter que caminhar até o banheiro, pois a condição da aposta que ele aceitou consistia em andar de um jeito estranho, apoiando os joelhos no chão a cada passo, por longas 48 horas. Durante esse período e com as pernas já em frangalhos, o jogador decidiu transformar o salão do PCA em banheiro e uma garrafinha em mictório. A direção não gostou, e ele ganhou a própria eliminação do torneio, contudo, levou a aposta.

Para se redimir publicamente, o mágico optou por doar o dinheiro ganho na aposta para instituições de caridade, seguido de um pedido de desculpas. Em suas palavras: “I believe in balance, and my life would not be in balance if I kept this money for myself.” Algo como: Eu acredito em equilíbrio, e minha vida não estaria equilibrada se eu mantivesse esse dinheiro comigo.

Por vezes, esse tipo de prop bet é usada como forma de estímulo, como se o jogador apostasse contra si mesmo, aceitando uma condição apresentada (a aposta) para estimular a chegada a um objetivo, por exemplo quando Ivey e Negreanu propuseram na WSOP de 2014 que um dos dois levaria um bracelete de campeão, dobrando o valor de quem apostasse contra. Nessa mesma linha de auto-desafio, o jogador brasileiro Marcelo Freire, conhecido no poker online pelo apelido de Urubu, lançou há dois anos uma prop bet no conhecido fórum de poker Two Plus Two. O bet consistia em jogar 500 mil mãos de Pot Limit Omaha online num período de 45 dias e ainda sim sair lucrativo. Urubu jogou a toalha antes de completar a empreitada, mas mesmo assim ganhou o respeito da comunidade de poker pelo seu empenho, como você pode conferir nesse post do fórum Two Plus Two. A prop bet do momento: Vanessa Selbst apostou contra Jason Mercier que ele não conseguiria ganhar três braceletes na WSOP deste ano, mas acontece que Mercier já faturou duas jóias da World Series e aceitou a aposta casando 10 mil dólares, mas Selbst pode ter que amargar o pagamento de 1,8 milhões de dólares se o desafiado conquistar o terceiro.

Pois bem, há algo de interessante sobre essas apostas. Nas side bets do primeiro caso, a ocorrência do evento não é controlável, quero dizer, um flop de cartas apenas vermelhas é um acaso com chances de acontecer conhecidas, porém uma casualidade. No segundo caso, quando há o desafiado, está presente uma ideia de controle, no sentido que há um agente que é parte atuante na dinâmica da aposta, ou seja, em tese, depende mais do desafiado do que do acaso. Em tese, pois o desafiado pretende o controle, enquanto que o desafiador aposta na falta dele.

Esfandiari aceitou a prop bet acreditando que manteria o controle da situação, o que acabou por ficar mais na teoria, pois não basta apenas mentalizar o objetivo, é preciso considerar uma relação com o próprio corpo, e porque não dizer, com o corpo social. Mesmo tendo ganhado a aposta ele não conseguiu ficar com o prêmio, afinal, em sociedade, aspectos morais são tão ou mais valiosos que dinheiro, o que abre outra questão.

Antes de tudo, o desafiado precisa crer numa troca simbólica, ou seja, considerar se o esforço vale à pena moralmente e não apenas em função da quantia em dinheiro. Relação que, no caso de Esfandiari, ficou perceptível no desfecho, quando ele optou por devolver o prêmio por ter infringido uma moral maior que o jogo. Na recente prop bet de 600 mil dólares contra Dan Bilzerian também há uma situação onde aspectos morais estão presentes, aceitar percorrer em 48 horas quilômetros de bicicleta de Los Angeles até Las Vegas geraria aparições na mídia e nas redes sociais. Sair bem na foto (ou no Instagram) é um modo de se relacionar socialmente muito comum de nosso tempo, algo já considerado usual.

Acontece que as apostas paralelas fazem parte da cultura do poker, como se fossem manifestações de um comportamento natural dos jogadores de poker.

Na época da gênese do poker moderno, no final da década de 60, Doyle Brunson, Sailor Roberts e Amarillo Slim, antes de jogadores de poker, eram apostadores em busca de qualquer vantagem, e talvez aqui esteja a origem desse comportamento comum e das prop bets tão difundidas na comunidade do poker. E, em se tratando de apostas e desse trio de notáveis, é preciso destacar um deles, Thomas Austin Preston Jr, mais conhecido como Amarillo Slim. Carregando e forjando o estereótipo do caubói-jogador, que supreendentemente ajudou a mudar o estigmatizado poker participando de várias entrevistas em programas de TV após sua vitória no Main Event da WSOP de 1974, e que ficou muito mais conhecido por suas extravagantes proposition bets.

Amarillo Slim se utilizava de uma lógica peculiar, ao invés de “achar o pato na mesa” como de costume, ele transformava o campeão em pato, desafiando seus adversários em seus campos de atuação. Dentre suas tantas prop bets conhecidas, podemos citar duas: Amarillo apostou contra o lendário cavalo campeão Seabiscuit, propondo que o venceria numa corrida de 100 jardas. A única condição imposta por ele foi a de escolher a pista, e o fez num trajeto ida e volta de 50 jardas. Seabiscuit, um cavalo sabidamente veloz, disparou na primeira metade da corrida, mas o jóquei que o montava teve um problema esperado por Amarillo, o de desacelerar e acalmar seu pilotado no momento de fazer o retorno. Enquanto isso, Amarillo alcançava a linha de chegada, puxando a aposta com uma estratégia vencedora. Noutra ocasião, propôs para o já aposentado campeão de tênis Bobby Riggs que poderia vencê-lo numa mesa de ping-pong desde que pudesse escolher as raquetes. Slim treinou previamente antes da partida, e bateu o tenista quando apresentou frigideiras no lugar das raquetes.

De algum jeito, o que há de incomum entre todas as prop bets apresentadas é exatamente a qualidade da troca. Enquanto Bilzerian e Esfandiari já perderam de vista o porquê da aposta mesmo seguindo o costume, e Mercier e Urubu usam as apostas como desafio extra-jogo, as side bets do caubói Amarillo Slim vão em outra direção, são apostas no sentido mais estrito da ideia de jogo, pois o risco e o blefe são a dinâmica própria criada por ele para vencer o desafio, ou seja, não bastava para Amarilo seguir a regra, mas inventá-la. Para o campeão da WSOP de 74, simplesmente seguir o jogo seria como uma não aposta, talvez porque ele não acreditasse na tal “naturalidade”, no costume, no comportamento comum.

Que tipo de jogador você gostaria de ser? Um que inventa um jogo dentro do jogo, ou alguém que tem muitos seguidores no Instagram? Alguns diriam que nenhum deles, senão o mais ganhador. Mas não se engane, se há algo sobre apostas que devemos considerar é que cada jogador as faz em função da troca simbólica que lhe convém, e por vezes, por trocas que nem mesmo percebem.

 

Fontes: Pokernews, Two Plus Two, MaisEV, Telegraph e Wikipedia. Imagem: Shutterstock.com (editada)