Como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

O que me agrada neste joguinho? Não é o fato de ser o jogo da mente. Aplicar a matemática, a psicologia ou a leitura da linguagem corporal. Nada disso. Agrada-me no joguinho o barulho das fichas, o baralho falando, a dinâmica do dealer orquestrando cada mão da órbita. É o coração que quase pára ao descobrir o full house no river quebrando o cara monstro em fichas.

Estive em Las Vegas e lá me conquistaram as luzes e o dia que nunca termina, sentava no torneiozinho do Treasure Island ainda com o sol rachando o asfalto e saía de lá com a lua acima das nossas cabeças e os neons ligados. E ali eu debutei para o poker, mas não é début com príncipe e valsa. É regada à cerveja. Corona with lime, please! E barulho de ficha.

O jogo da mente se transforma em jogo de quem mente quando passa o blefe de 35off que não leva a lugar nenhum, mas na minha cabeça ansiosa, precisa ser jogado. Jogo de demente quando eu decido shovar meu K5 naipadinho, mais uma vez por falta de paciência, mas vai que cola né? Daí eu dobro, continuo, vou pra bolha, da bolha para o ITM, isso tudo sem ter a menor ideia de como contar as odds e os outs. Na simplicidade da minha donkisse, não consigo lembrar o que rolou na última mão que entrei. Como foram as ações pré-flop, o que o dealer bateu no flop, quem deu c-bet, quem foldou. E o turn? Completou a sequência runner-runner? Sei lá. Só sei que adoro ouvir falar isso tudo, algumas coisas eu entendo, outras nem tanto, daí vou a procura desse conhecimento, mas não é pra aplicar no feltro, é só pra entender as resenhas do dia seguinte, quando os meus amigos começarem a falar no grupo.

Ahh! Mas eu gosto desse joguinho, mas nada de online onde as fichas não fazem barulho nos stacks, nem os outros jogadores têm cara. Gosto de ver a mão tremer pra dar o call, daquele caminhão de fichas que foram empurradas pelo vilão. E depois ouvir o grito da galera no showdown. E órbita em órbita, nível de blind em nível de blind, a noite passa, a cerveja mais gela a garganta que embriaga, até que se dá o three-handed, o HU, e enfim o vencedor do torneio. Alguém ganhou, não fui eu, mas mesmo assim, de ali estar gargalhando com as invenções dos meus amigos, das musiquinhas e das piadas do último livro do Ary Toledo, já foi suficiente, e como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

 

Imagem: iordani/shutterstock.com

Fish and chips

O dealer malaca senta à mesa mandando bronca, – Estou aqui para eliminar cada um de vocês, um por um, este é meu trabalho. E emenda com sarcasmo, – Hoje é meu segundo dia, se eu estiver cometendo algum erro, por favor, me avisem. O jogador cabaço da vez, aquele tipo que manja tudo de poker, menos de jogar, manda falinha logo depois de três mãos, dizendo que havia algo errado, pois não tinha recebido par de ases até então. O dealer olha pra ele com cara de bunda e respira fundo, – Pegue a senha, entre na fila!

Fish and chips, o peixe empanado com batata frita, é típico inglês, praticamente a pratada oficial do operariado britânico do meio do século XIX que tornou-se tradição, mas não é disso que estamos falando. Ou estamos? O senhor calvo fumador de cachimbo me encontra fora do cassino, no intervalo do torneio, aceno com a cabeça e ele vem em minha direção. Pra descontrair, elogio seu shove no turn, eu estava blefando descarado, metendo a segunda barreira quando ouvi o rouco check-raise do velhote com sotaque britânico. Larguei.

Nos fóruns de poker online, faz tempo, dizem que check-raise no turn é caixão, melhor largar com a certeza de quem está perdendo. No poker de carne e osso, ou fichas e tremedeira, no small stakes de Las Vegas, também faz sentido. Foldei para o velhote inglês de cachimbo, comedor de fish and chips, deixando quatro big blinds pra trás, pois estou jogando fish and chips (nesse caso, não a iguaria inglesa, mas o torneio típico da cidade do pecado).

Com quatro BBs ainda há o que fazer nessas mesas. Não, não se trata daquela superioridade técnica de profissional, nem de arrogância, afinal o poker ensina por duras penas que subestimar o adversário é atirar contra o próprio pé, é enroscar o anzol no dedo antes mesmo de colocar a isca. Se trata de entender a dinâmica desse tipo de torneio, com buy in baixo, blinds apertados, poucas fichas e muitos fishes.

O eixo do small stakes poker de Vegas vai do Bally’s até o Treasure Island, passando pelo Flamingo, Harrah’s e Mirage, todos no meio da Strip, a avenida principal de Vegas, com torneios em suas cardrooms das nove da manhã até meia-noite, onde pode-se engatar um atrás do outro, fazer um ou dois ITMs e depois verificar o lucro ao final do dia. Parece fácil, mas não é, quando o baralho atrapalha e você fica queimado com a sabichão da vez, pode passar alguns dias sem puxar nada, amargando o ferro. Sem falar que a figura do tiozão é quase uma instituição aqui, tem em todo torneio, e ele vai limpar damas, reis e ases e te sacar da mesa.

Pois bem, às vezes venta, e basta estar preparado para jogar a isca. Muitas mãos depois, com T8 naipado no BB, depois de cinco limpers, o flop se acomoda no feltro com três cartas de espadas, e, com um flush completo, peço mesa. Alguém sempre aposta, provavelmente o cara do Ás ou do Rei do mesmo naipe. Bingo, foi bet do velhote inglês e call do jogador cabaço, mandei o all in tomando dois calls, um AsKh e um KsTc buscavam mais uma carta de espadas, e ela veio, mas era o 9, a broca do straight flush. O dealer malaca, operário do baralho, já tinha entendido desde o flop, o que estava prestes a acontecer, deu um sorriso de canto, bateu o river e mandou falinha, – É como eu disse, meu trabalho é eliminar vocês, um por um. Foi mais uma cravada no fishes e fichas. Hoje, o fish não fui eu.

 

Foto: torneio na poker room do Harrah’s, em Las Vegas (Naccarato)