Não há ficha, não há cadeira

No torneio que termina no início da aurora, que só pode ser notada olhando para o relógio no fundo da sala de poker que insiste em não ter janelas, uma fatiada. Nada que probabilidade e aleatoriedade não demonstrem, de dois outs veio um, a trinca do par menor do adversário deu as caras e levou o pote, pote gordo, quase que todo o stack, com exceção de um ficha roxa.

A ficha roxa quase sempre tem o valor estampado de $500, convenção que lembra a das bolas de sinuca, vermelha é um, amarela é dois, verde é três. No turfe a variação é maior, mas é comum o cavalo número um usar vermelho, o três, azul, e o quatro, amarelo. São os padrões e convenções que nos fazem identificar rapidamente os valores, e por vezes as quantidades.

Nesse torneio, um jogador teve uma sacada das boas, percebeu que uma pilha de vinte fichas, roxas ou não, tem exatamente a altura dos dedos quando seguramos a pilha apoiando a palma da mão em cima. No caso dele, claro, afinal fichas têm padrão, mãos não. Mas, padrões nos diferenciam, a forma como o oponente aposta, o jeito que espalha as fichas, como reage ao flop, o que faz quando vai all in. Assim vamos construindo uma rede de padrões, observando as recorrências, percebendo reações e emoções, jogando o jogador.

Voltemos à fatiada. Ele nem sabia que havia sobrado com uma ficha, e quando foi avisado, já distante de seu assento, lembrou da frase “a chip and a chair“, que virou convenção e ficou conhecida quando o jogador Jack Straus ganhou o Main Event da WSOP em 1982, após ficar com apenas uma ficha de $500. Deu de ombros, foda-se, ele tinha $500, tinha um assento, mas não tinha cabeça.

Esse montante de pensamentos frente à objetos, uma ferragem forrada e estofada, uma peça de argila e plástico. Não há ficha, não há cadeira, somente nosso olhar, emoções e pensamentos.

 

Imagem: Torneio diário no Caesars Palace (Naccarato)

Aparente e oculto

O sorteio dos assentos garantiu uma disposição frente a frente com o algoz da noite. A posição nove, aquela cadeira de merda que te faz perder a visão de boa parte do lado esquerdo da mesa, parecia ditar que a noite de poker não seria das mais fáceis. Percepção, a que talvez seja a mais contundente qualidade, só poderia ser usada com toda força pelo lado de cá, e precisamente, logo a frente. O algoz, barba por fazer e braço tatuado, lembrava os revoltados dos anos 80, numa época em que ter tatuagem ainda era considerado algo marginal, algo que metia medo. Aliás, tatuagem indecifrável, sempre coberta por parte da manga ou pela pilha de fichas do stack que não parava de crescer.

Você passa algum tempo tentando perceber a dinâmica toda, entender os oponentes, tentando sacar em cada movimento, em cada valor de aposta, quem o baralho vai ajudar. Mas no caso do algoz, o baralho não só estava o ajudando, mas era quase impossível não percebê-lo, afinal dificilmente uma mão não seria jogada por ele, que via todos os flops e quase todos os boards. De início você evita o adversário, deixa passar uma ou outra oportunidade, depois começa a perceber que alguns flops valem a pena, e quando você está chegando até o turn e foldando, se dá conta de que o seu jogo ficou pra trás, e que não é o fato de ele estar acertando tudo, mas que você é que esqueceu de fazer seu próprio jogo.

O algoz não larga uma mão, quando aposta alto, acerta, e quando só paga, acerta no final, no river, sempre ele. E ele paga, pode ter certeza, até a última carta religiosamente.

É hora de tomar um ar, esquentar os pulmões com um cigarro amassado, ouvir a parada do parceiro, que acabou de ser eliminado pelo nosso algoz, que flushou runner-runner depois de pagar até o river, horrível, sempre ele. Voltando a mesa, mais um eliminado, dessa vez, o algoz achou uma trinca, mais uma vez no river, e acabou com o top pair de mais um desavisado, que deixou a mesa gritando: – Mas como acerta! Mas como?!

Nem tudo está perdido, e depois do raise do algoz, um all in no momento certo, que ele chorou até decidir pagar, mas o fez, e você estava a frente, AJ x KJ, que o flop tratou de aumentar a vantagem, mas que só segurou até o river barbudo que te sacou da merda do assento nove, o assento míope, onde a percepção tarda. Seu algoz agora tem nome, é Lucas, que vem te cumprimentar após a eliminação, e estica o braço para revelar a tatuagem, uma frase, assinada por Lucas, seguida da notação 12:2 e o versículo: Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido.

O que sua percepção deixou de ver não foi o lado esquerdo da mesa, mas que o algoz acredita mais nas cartas, ou em si, do que você.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

O tilt e a falta de preparação do Brasil na semi-final são inadmissíveis no poker

Qualquer jogador de poker que estivesse assistindo ao jogo Brasil e Alemanha, da semi-final da Copa do Mundo, iria identificar facilmente o que estava acontecendo. Era tilt, como bem identificou e registrou o jornalista Pedro Nogueira do El Hombre, que matou a pau em sua coluna, como você pode ver aqui.

Mas não foi só isso. O que fica flagrante numa situação como esta é que faltou preparação, e que essa preparação, ao menos no poker, é o diferencial dos bons jogadores. Faltou estruturação, faltou controle emocional e gestão. A Alemanha é o experiente jogador live, ou aquele garoto piranha do online, o tipo de adversário que vivencia o poker em todos seus aspectos, pois sabe que em nível profissional não dá pra ir levando, arrumar depois, blefar todo o stack no river e esperar não ser pago. Deixar pra última hora é deixar pra sorte resolver.

Faltou preparo. Impensável pra quem joga poker. Se pode até runnar bem, ganhar a maioria dos flips, passar alguns blefes sem ser pago, e assim fazer um “bom” torneio, mas a falta de controle emocional mata qualquer um à mesa. Depois não adianta justificar o out do oponente no river, não adianta dizer que o trabalho foi feito como fez a comissão técnica.

Se o desastre traz uma lição, é a de que a lição tinha de ser feita antes.

Crédito: El Hombre

Promoção

Depois de anos ganhando do freguês nas mesas, você fica sabendo que hoje é o dia do aniversário dele. Pra deixá-lo mais contente, você decide perder um ou dois potes naquela noite, quantias razoáveis, onde você sabia que estava perdendo, mas preferiu devolver um pouco só pra passar a sensação ao parceiro de que você é falível, ou de que ele pode vencê-lo… é o jeito fácil de fazê-lo voltar a cada noite.

Afinal você ganhou muito dinheiro com ele, são noites e mais noites surrando o freguês, pois ele não estuda o jogo, não se dedica a ponto de transformar diversão em redenção. Quando ele joga bem, o que é raro, você tira pouco, mas mesmo assim ganha. Quando ele joga mal, você tira tudo, e quando ele joga pessimamente, você sai da mesa antes de ele tiltar de vez, pra garantir que volte. O metagame do metagame, com uma sutil diferença que só um dos lados percebe.

O problema disso tudo não é o julgamento moral ou o fato de se aproveitar da situação, o problema é a forma como se coloca isso. Tal qual aquela promoção onde o site de poker te dá uma grana se você fizer um depósito. Ele te devolve sua própria grana, mas comunica à todos que trata-se de uma promoção. Vale o que se diz, é o marketing da coisa, é o discurso que criou o marketing, nós somos marketing.

Portanto, se você trabalha muito, mas alguém te viu mijando na rua, você é só um mijão.

Os jogadores piram

O tiozão que vai dar call e segura a pilha toda na mão enquanto vai jogando ficha por ficha no pote. Velhote que não empilha suas fichas, mas deita todas elas no rail formando uma cobra. Parceiro que esconde as fichas de maior valor na parte de trás do stack. O dealer que conta o pote e sempre erra. O chato que pede tempo a toda hora, que é tão chato quanto os caras que sempre esquecem de colocar as antes. O que reclama do dealer mão de pântano. O que xinga o dealer mão de pântano. Aquele que vai all in com qualquer Ás. O que irrita porque fala demais, e o que irrita porque não fala. Aquele que abre os potes com 10xBB do UTG. O baralhão que fica um tempão pensando pra foldar lixo, e o que joga tão rápido que pula a vez do parceiro. E o desconfiado que dá hero-call perdendo e diz que já sabia.

Sem falar do jumento que fila as cartas com tanta força que acaba marcando o baralho. Aquele mané é sempre o outro.

Rigged

Puta que o pariu, no river não! Reclamações, baralhadas e bordos malditos abundam no poker online, e jogar torna-se quase uma relação de dependência e ódio, onde alguns jogadores apenas entram no software para confirmar que o jogo está catrupiado. Impossível não ver ao menos um tópico em cada fórum de poker que não trate do assunto.

Quem nunca levou um suckout daqueles? Por vezes, numa longa sequência que deixa uma dúvida presente e faz o psicológico do jogador ir para lata de lixo, a ponto de duvidar da idoneidade da sala de poker. Não, não se trata de ficção, essa sensação constante tem muitos adeptos, e inclusive um site sugestivo como o FuckPokerstars.com, que você pode conferir aqui. Se existe manipulação ou não, somente um escândalo no estilo Black Friday nos diria, mas lá vai um palpite.

Milhares de jogadores se enfrentam 24 horas por dia, e a maioria esmagadora faz log off logo após uma sessão negativa. Nesse ínterim, jogadores de todos os tipos, em todas as possíveis fases de aprendizado e entendimento do poker se desafiam nas mais variadas modalidades. Cada um, a sua maneira, experimenta o jogo e suas nuances tirando as próprias deduções e conclusões, mas enquanto isso, reagem da forma mais evidente, ou seja, pelo impulso. Pois então, um certo jumento manda tudo pro meio com 57off, já puto da cara com o parceiro da direita que não perde a oportunidade de empurrar os blinds, e aí o AK naipadinho dá call e acerta o bicudo no flop com direito a flush draw nuts, mas assiste um cinco no turn e outro no river acabarem com a festa.

Pronto. Agora temos o efeito esperado, numa escala geométrica, o jogador “injustiçado” solta um all in com Q3 e quebra par de damas, e cada um na mesa começa a abrir os potes cada vez maiores para evitar a baralhada, 5xBB, 10xBB, all in pré-flop, e sem notar, estão todos jogando bingo.

Agora, imagine isso num começo de noite, onde jogadores estão chegando do trabalho e abrem o lobby do seu servidor de poker favorito enquanto milhares de outros jogadores estão jogando três ou quatro torneios diferentes. Pois é, um efeito em cadeia infinito onde a sala de poker se transforma numa máquina de bad beats.

Enquanto isso, enquanto você reclama do river, o Pessagno dá um mini raise que você não entende o porquê.

O range do pescador

O pescador sempre paga. É assim, sem nem mesmo pensar sobre, ou ter um range bem estudado e experimentado, ele criou sem querer um método de jogo instintivo, e separa as cartas que recebe em “serve” e “não serve”. É claro, estamos falando de um jogador recreativo, sabemos que para enfrentar alguns fields mais difíceis é preciso uma abordagem mais objetiva, ter foco e expectativa positiva… Só que não, pra ele, se for assim não é recreativo, oras!

O pescador criou um range peculiar. Funciona assim, quaisquer naipadas servem, mesmo as mais miúdas, e se pode limpar independente da posição, e até dar call em 3-bet com elas. Nessa linha, as conectadas, one gapper e two gapper também estão dentro. Qualquer Ás serve, naipado ou não, e o mesmo vale para cada Rei do baralho. Se o pescador estiver na bronca com o japonês do online, aí qualquer carta entra na classificação “serve”. O fisher range ainda prevê um recurso de emergência, normalmente usado no caso de tilt recente, e nessa instância, ele ainda consegue o milagre de abrir só um pouco o range, e jogar com o que vier, às vezes sem olhar.

E assim, o pescador acertou uma gaveta daquelas no river, depois de pagar caro em todas as streets, fatiando o parceiro que segurava ases vermelhos. Ele ficou com um stack monstruoso e tiltou o adversário, que na mão seguinte foi all in sem olhar com o que lhe restou de fichas. Mais uma vez o baralho judiou, e o herói se tornou vilão, fatiando outro parceiro com 92off, que por sua vez fatiou outro, e outro, e assim sucessivamente, num tilt coletivo.

A motivação do pescador é clara, ele procura a emoção da fisgada, extraindo adrenalina e recreação em cada jogada, devolvendo à competição o aspecto lúdico por tempos perdido. Esse é seu mérito, e sua falta de seriedade e compromisso são os valores que dão uma surra em toda a matemática, em qualquer equidade.

A lição que o pescador nos dá é a de perceber o quanto de pescador ainda nos resta.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker. Fotos: Shutterstock (editadas)