Entre as últimas streets

Era tarde, madrugada longa no pano sob um silêncio confortável entre os jogadores à mesa, onde dava para se ouvir o barulho das cartas a cada flop. No entanto, para ele, o poker já era desconfortável, já não valia a pena. Ele não estava mais pelo jogo, não havia nada que provocasse nele qualquer tipo de sentimento ou pensamento mais elaborado. Todo o lado negativo da rotina era o todo que somente ele percebia.

Ele dividia os jogadores em três tipos, os que não percebem o quanto o poker ficou técnico, e por isso se divertem; os que percebem e por isso mesmo acham fascinante; e os desiludidos, com os quais ele mais se identificava. Tal desilusão o afastava, já há algum tempo, de qualquer propósito maior, fazendo com que uma melancolia interna vencesse sua vontade. Foi aos poucos, e como num conta gotas, encheu.

Era tarde, a vida estava chata, achatada, sem perspectivas, e o jogo havia se tornado obrigação, e em seu sentido estéril havia se tornado sem sentido. A vida é um jogo, dizem, e para ele, o jogo era, apesar de tudo, a vida que lhe restava.

Quando o bordo todo em preto mostrava no turn dois ases e dois oitos assentados no pano rubro, ele enfim percebeu, ele sabia o que estava acontecendo, sabia o porquê. Era a vida que lhe restava, mas era tarde. E no mais profundo silêncio, sem ao menos o barulho do baralho, ele ficou imóvel de repente, sentado, segurando um ás, vermelho sangue, a primeira e última carta do baralho, a derradeira do bordo que não teve fim. Os jogadores demoraram um pouco a perceber, o river levou um tempo maior que o normal, só por isso notaram o dealer, que morreu em silêncio, entre as últimas streets, sem bater a última carta.

Pra ele, um dealer cansado de gastar as mãos no feltro, aquela mão nunca terminou, foi o jogo que o libertou do martírio de estar tão perto do jogo e não jogar.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

Aparente e oculto

O sorteio dos assentos garantiu uma disposição frente a frente com o algoz da noite. A posição nove, aquela cadeira de merda que te faz perder a visão de boa parte do lado esquerdo da mesa, parecia ditar que a noite de poker não seria das mais fáceis. Percepção, a que talvez seja a mais contundente qualidade, só poderia ser usada com toda força pelo lado de cá, e precisamente, logo a frente. O algoz, barba por fazer e braço tatuado, lembrava os revoltados dos anos 80, numa época em que ter tatuagem ainda era considerado algo marginal, algo que metia medo. Aliás, tatuagem indecifrável, sempre coberta por parte da manga ou pela pilha de fichas do stack que não parava de crescer.

Você passa algum tempo tentando perceber a dinâmica toda, entender os oponentes, tentando sacar em cada movimento, em cada valor de aposta, quem o baralho vai ajudar. Mas no caso do algoz, o baralho não só estava o ajudando, mas era quase impossível não percebê-lo, afinal dificilmente uma mão não seria jogada por ele, que via todos os flops e quase todos os boards. De início você evita o adversário, deixa passar uma ou outra oportunidade, depois começa a perceber que alguns flops valem a pena, e quando você está chegando até o turn e foldando, se dá conta de que o seu jogo ficou pra trás, e que não é o fato de ele estar acertando tudo, mas que você é que esqueceu de fazer seu próprio jogo.

O algoz não larga uma mão, quando aposta alto, acerta, e quando só paga, acerta no final, no river, sempre ele. E ele paga, pode ter certeza, até a última carta religiosamente.

É hora de tomar um ar, esquentar os pulmões com um cigarro amassado, ouvir a parada do parceiro, que acabou de ser eliminado pelo nosso algoz, que flushou runner-runner depois de pagar até o river, horrível, sempre ele. Voltando a mesa, mais um eliminado, dessa vez, o algoz achou uma trinca, mais uma vez no river, e acabou com o top pair de mais um desavisado, que deixou a mesa gritando: – Mas como acerta! Mas como?!

Nem tudo está perdido, e depois do raise do algoz, um all in no momento certo, que ele chorou até decidir pagar, mas o fez, e você estava a frente, AJ x KJ, que o flop tratou de aumentar a vantagem, mas que só segurou até o river barbudo que te sacou da merda do assento nove, o assento míope, onde a percepção tarda. Seu algoz agora tem nome, é Lucas, que vem te cumprimentar após a eliminação, e estica o braço para revelar a tatuagem, uma frase, assinada por Lucas, seguida da notação 12:2 e o versículo: Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido.

O que sua percepção deixou de ver não foi o lado esquerdo da mesa, mas que o algoz acredita mais nas cartas, ou em si, do que você.

 

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Numa mesa de poker, a virtude que lhe falta

Ele diz “a vala“ para o valete, board é bordo, trinca é trio, par é duplinha. Quem é de fora não entende, quem é de dentro compreende. Tiozão é a puta que o pariu, seu merda, diz sempre sorrindo no final, e emenda, aqui é ficha. A maioria o estima, mas nem todos.

Numa dessas, numa jogada que ninguém entendeu, dando call com king high, o garoto piranha logo solta falinha pra desmerecer, mas ele nem dá bola. O garoto insiste, ele finge que explica: tô jogando a psicologia que você não entende, aqui é ficha, repete. Do outro lado o resmungão, cara técnico, que memoriza o range de cada um e reclama do baralho. Solta sem paciência: como o senhor pôde dar esse call? Não tem lógica, não tem motivo. A resposta vem rápido: o que seria do poker sem fichas? Tô no river enquanto você tá pensando no flop.

O resmungão sabe, usa ”senhor” só pra parecer polido, polidez é a mais rasa virtude, até um idiota consegue. Ele continua: a longo prazo, o senhor está falido! Não paga nem a birita no clube. O velho retruca: e quem se paga aqui? Você vive disso ou pra isso? E solta outra risada.

Quem vive disso sabe, não faz diferença. Na FT o velho acha um flip, boa leitura, mas desnecessário naquela altura, e acaba eliminado. Vaga o assento e dá boa noite, mas a cordialidade, mesmo travestida de polidez, aquela mais baixa virtude, ninguém usa, só os que o estimam, mas aí nem é polidez. O garoto fala: vai tarde! O resmungão confirma sua teoria: olhaí, tá vendo! Quando o velho deixa o feltro, não há mais com o que os preocupar, o jogo quase que é menos importante do que se afirmar. Mas o velho mata a mesa quando prefere ensinar virtudes do que condenar vícios. Ao menos ele está em paz com o seu.

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O que difere o gênio do imbecil

Identificar um medíocre segurador de cartas é tarefa fácil para qualquer praticante. Entretanto, qualificar o quão bom é um jogador não é tarefa tão simples assim. Criticar por criticar ou elogiar por elogiar, sem ter conhecimento de causa, é o mesmo que fazer chover no molhado: é ser mais um no universo hipócrita da mesmice.

Constantemente vemos jogadores/professores nas mesas de pôquer criticando ou elogiando jogadas sem sequer entender a linha de raciocínio dos envolvidos. Ao contrário do futebol, campo em que o entendimento da maioria mostra-se vasto, no pôquer não é bem assim.

Vamos falar dos gênios. Opa! Eu adoro eles.

Os jogadores geniais são imprevisíveis, atrevidos, confiantes, conflitantes, sensíveis, calculistas. Tomam muitas de suas decisões baseadas em detalhes imperceptíveis para a maioria dos QI’s ordinários. Fazem jogadas óbvias parecerem jogadas extremamente elaboradas e vice-versa; conseguem antever os pensamentos e as reações dos seus adversários; possuem rara habilidade para disfarçar suas cartas e seus pensamentos; induzem facilmente seus oponentes ao erro com jogadas improváveis. A maioria deles é perfeccionista: mergulham em uma busca incansável pelo aprimoramento e pela evolução. E pasmem: os gênios são na maioria das vezes humildes.

Já os jogadores imbecis detêm posturas detestáveis. Esses seres, na maioria das vezes arrogantes, com déficit alarmante de massa encefálica, são previsíveis, invejosos, impacientes, egocêntricos, chatos e facilmente manipulados. Fazem rotineiramente jogadas bisonhas sem nenhum fundamento. O pior é que, mesmo depois de derrotados, recusam-se a admitir suas deficiências. Jamais reconhecem as qualidades dos seus oponentes, são avessos aos estudos e não aceitam críticas. Acham-se bons e ponto.
Esses seres rastejantes fortalecem estatisticamente a tese de que o pôquer, a longo prazo, será sempre lucrativo para os mais capacitados.

A boa notícia para quem gosta de pôquer é que qualquer mortal, com um pouco de estudo, poderá se tornar um jogador mediano. Agora, para tornar-se um gênio, eu infelizmente desconheço a receita. E quer saber? Se soubesse, não contaria absolutamente nada para ninguém. Abraços!

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Poker marginal adjetivado

Filando as cartas, dama e lixo, diferentes naipes, posição ruim, fold forçado, duas da mattina, feltro gasto, baralho marcado, dealer uma dama cansada, ficha empilhada, sono deixado, café ao lado, cigarro acabado, sorte azarada, piada velha, falinha safada, nova rodada.

Olhando as cartas, dois e dez e mais nada, ao menos naipada, posição que nada, raise forçado, duas e dez, feltro arranhado no bet inesperado, bordo catrupiado, ficha espalhada, agora acordado, café derramado, mas falta cigarro, na boa jogada, pote puxado na blefada.

Mão começada, ás e rei de espada, na mente há boa jogada, já é madrugada, feltro marcado pela cinza jogada do cigarro filado, dealer trocado, ficha escapada, falinha arranhada, nem parece piada, mas a carta derrubada, é dama pareada, mata a jogada logo na entrada.

A cada rodada, a rotina do novo e a parceirada.

Todas as vezes, à mesa, o nada faz sentido

Dentro de uma perspectiva de que é preciso ganhar, a mutação é a ordem que rege o jogo, faz-se o que é imaginável para tanto. O ganhar é o sentido do jogo, o que lhe confere significado. O jogo, algo sem função num primeiro momento, é como se fosse o desprendimento da vida real, ainda que se possa questionar o real, mas ele, o jogo, é uma vazão carregada de significado.

Mas tantos são os sentimentos envoltos no ato de jogar, há tanto para se considerar e aproveitar, que o jogo por si, em sua essência, é motivo único e sagrado de engajamento, condição escolhida e vivenciada pelo jogador, quase que como uma espécie de redenção, um porto seguro não seguro.

Só se encontra o jogo enquanto se está nele, a sé dos degenerados, o escape e o motivo do escape, a opção voluntária de quem prefere o lúdico à todo o restante.

No poker, este espaço condizente condiz, afinal, é jogo.

Promoção

Depois de anos ganhando do freguês nas mesas, você fica sabendo que hoje é o dia do aniversário dele. Pra deixá-lo mais contente, você decide perder um ou dois potes naquela noite, quantias razoáveis, onde você sabia que estava perdendo, mas preferiu devolver um pouco só pra passar a sensação ao parceiro de que você é falível, ou de que ele pode vencê-lo… é o jeito fácil de fazê-lo voltar a cada noite.

Afinal você ganhou muito dinheiro com ele, são noites e mais noites surrando o freguês, pois ele não estuda o jogo, não se dedica a ponto de transformar diversão em redenção. Quando ele joga bem, o que é raro, você tira pouco, mas mesmo assim ganha. Quando ele joga mal, você tira tudo, e quando ele joga pessimamente, você sai da mesa antes de ele tiltar de vez, pra garantir que volte. O metagame do metagame, com uma sutil diferença que só um dos lados percebe.

O problema disso tudo não é o julgamento moral ou o fato de se aproveitar da situação, o problema é a forma como se coloca isso. Tal qual aquela promoção onde o site de poker te dá uma grana se você fizer um depósito. Ele te devolve sua própria grana, mas comunica à todos que trata-se de uma promoção. Vale o que se diz, é o marketing da coisa, é o discurso que criou o marketing, nós somos marketing.

Portanto, se você trabalha muito, mas alguém te viu mijando na rua, você é só um mijão.

Pessagno tem a conta que todo mundo queria ter, se ela existisse

Os segredos do poker são sempre muito explorados. É a jogada de marketing perfeita, afinal, a ideia simplória de que existe algum tipo de atalho possível para se dar bem no poker alcança contornos quase sagrados, como uma salvação à distância de um clique.

Há um milk shake milagroso que te faz emagrecer, uma maneira de ganhar dinheiro fácil apenas enviando emails, você pode aumentar a piroca em dez centímetros ou localizar facilmente o ponto G, dá pra ficar com o abdômen definido usando um aparelho que dá choques na barriga, ou até mesmo entrar numa pirâmide financeira. É assim que ficamos acostumados a buscar continuamente mais um segredo, mais uma resposta.

Parte dos novatos no jogo e alguns jogadores que não aguentam mais levar um out no river são loucos por um segredo, um daqueles que vai catapultar a conta fedida para além da lama. Aí o Pessagno tenta explicar porque dá raise/fold com 7BBs, mas quem dá crédito? Todos querem saber o segredo.

Então aí vai um segredo, dos bons, Pessagno é um robô. É evidente, seu nome é a sigla para PokerStars Super Androide Grinder Online, seu volume de jogo é muito grande, suas tomadas de decisão parecem estranhas e não naturais para a visão dos jogadores. Não pode ser humano, só pode ser um autômato, por isso ele aparece pouco nas mesas dos torneios ao vivo.

E aí, passou o blefe?

A ideia de que existe um segredo, só alimenta a conspiração, afinal, só pode ser possível se houver um segredo por trás. Aliás, pra quem gosta de uma conspiração, esse artigo cai como uma luva, ou melhor, como uma broca, com direito ao Pessagno no final.

Dedicação, perseverança, anos de estudos, percepção e criatividade parecem não valer frente aos segredos, pois não é possível que algo tão elementar cause um efeito tão bom. Em nossos termos, não vamos ver a resposta para o segredo, nossos termos aprisionam nosso entendimento, procuramos respostas no lugar de mudar as perguntas. Reflexões como a de Gabriel Goffi neste vídeo, são a matéria prima para trabalhar o jogo fora da conta premiada ou dos segredos.

Na prática, entre optar por push ou fold com 10BBs, a pergunta pertinente não é se devemos ir all in ou fold, mas se devemos escolher uma dessas duas opções.

Abaixo, o segredo da conta de Caio Pessagno.

 

Fonte: Blog do Pessagno e Canal Caio Pessagno no YouTube