O rush de Las Vegas

O painel do elevador do hotel não mostra o décimo terceiro andar, a superstição norte-americana torna a falta, presença. É a deixa, 13 é o palpite para uma passada rápida na roleta, 60 dólares na mesa pela mesma quantidade em fichas, uma pilha com dez delas no preto, outras dez distribuídas em pares sobre cinco números. Basta repetir por três vezes, esse é o método de aposta consagrado pela experiência, acertando um dos escolhidos com a aposta no número, o prêmio é de $70, que melhora para $90 se coincidir com a cor. São 13% de chance nos números e 48% na cor. Três tentativas depois, sessenta pratas a menos.

Em qualquer cassino de Vegas há um mostrador em cima da roleta com as estatísticas das últimas rodadas, o jogador desavisado vê uma sequência de números pretos e logo aposta no vermelho. Besteira, cada rodada da roleta é um evento único, uma sequência de 20 vezes seguidas na mesma cor não diz nada, não é à toa que o próprio cassino exibe toda a série de números e cores. A aposta combinada acima tampouco, mas jogamos cada um de nós um sistema próprio, um método que privilegia um número favorito, uma conta um pouco mais a favor ou até superstição. Com um pouco de bebida na cabeça e alguns amigos, a coragem coloca vinte dólares no 10, e começa o coro: Pelé, Pelé… Um casal argentino embala, e a senhorinha grita “Pelê”. Embriagados na outra ponta do pit embalam “Pelew, Pelew”. Deu 19, vermelho.

As caça-níqueis deveriam chamar-se “slut machines”, e não slot. A slut seria aquela que por uns poucos minutos te dá um enorme prazer e ao final leva todo seu dinheiro. Depois de torrar $80 na roleta, não custa tentar, mas novamente procuramos por um método, garimpar as máquinas com maior valor acumulado e bater aposta máxima até soltar o prêmio. Slots com o tema peixes/mar não, elas te afundam. Slots com 777’s, essas sim. Slots com tema oriental, sim. Slots com búfalos ou monstros, não. Achamos a Quick Hit, que é uma daquelas que reúne muitas atrações, bebidas de graça (que nunca são de graça), setes flamejantes, cerejas, sinos, e um bônus que faz a slot trabalhar sozinha… Depois de atolar 50 trumps pinta o tal bônus, vinte rodadas pagando três vezes o que você acertar, e depois de cinco minutos a “slut” te devolve trinta e poucos dólares.

O jeito é engatar no último torneio de poker da noite, ou como diz a turma do meio copo cheio, o primeiro torneio diário da Strip de Las Vegas, o torneio da meia-noite do Flamingo, cassino do famigerado Bugsy Siegel, gângster que impulsionou a empreitada mafiosa do jogo em Vegas, mas que hoje é apenas uma estátua no Madame Tussauds e um pouco de marketing. Sobre o torneio de poker? Ah, deixo contigo, você sabe exatamente com que espírito estamos depois dessa sequência, provavelmente agora, tentando nos convencer de que é melhor por dinheiro onde “sabemos”.

Vegas trata seus impulsos com carinho, espera de você somente aquilo que você pode dar e uma racionalização qualquer que te coloque na frente de uma roleta, slot ou feltro. O rush na cidade formada pelo pecado é ao contrário, pois só há pecado quando se acredita.

 

Imagem: Slots do Casino Royale, em Las Vegas (Naccarato)

Vermelho 29

Era uma noite qualquer. Não, não era. No meio da madruga, pregado numa das três mesas $1/$2 de cash do Bally’s Casino, em Las Vegas. É o último resto de noite na Sin City, e estar à mesa faz todo o sentido, é o novo ritual de despedida, numa tradição que só se inicia quando termina, quando a Strip cabe na janela do avião.

Dealers cordiais, jogadores nem tanto, uma pequena fatiada me sacou da mesa pra respirar ar puro, pra esquentar os pulmões com uns tragos e com o ar quente da entrada. Mais um grupo enorme de orientais falando alto enquanto ocupam o lobby para fazer check in. Lembrei da mala, aliás lembrei-a como obrigação. Tinha apenas mais alguns minutos para subir pro quarto, tomar uma ducha, jogar as tranqueiras na mala e fazer o check out rumo ao aeroporto.

Voltei à mesa, um cashout gordo e uma gorjeta de acordo seguida de um “I appreciate”. Deu vontade colocar tudo no vermelho 29, forrar de vez. Não sei da onde veio isso, na roleta o 29 é preto, é uma brincadeira, alguém falou errado em algum momento, mas a tiração de sarro ficou, e para toda sessão positiva no cash, o barato era se atrever a colocar tudo no número que não existe naquela cor, jogando com o azar do improvável, do não possível.

É como quando você está socando ficha no pano achando que está a frente, mas está sendo manipulado. É o flush second nuts que te elimina do torneio, ou a falinha do oponente dizendo “paga pra ver”, e você folda e ele mostra o blefe amargo. É como buscar o segredo do poker, aquela coisa que só os profissionais mais experientes sabem, e não contam. Viktor Blom disse que o segredo é parar no momento certo, segundo reportagem do Codigopoker. Então você não acredita, ele erra grande e acerta tanto ou mais, todos os dias, mas parar é o segredo? E então se vai em busca de outro segredo, e outro, e mais um, mas nenhum contenta.

A cada viagem para Vegas o cenário muda, os jogadores mudam, um cassino ou outro é aberto, aquela cardroom cheia de fishes não existe mais, tá na outra ponta do salão, cheia de regulares de olho na sua pilha. Você atravessa as portas de cada lugar depois de uma noite em claro, e o sol escaldante acerta seu rosto enquanto você pensa “qual é o segredo?”. O que era fácil, virou osso duro, a grana na mão virou ferro, o tiozão que arruma as fichas pela cor das bordas irrita, mais uma temporada se vai.

No ano anterior, a última noite foi uma mesa final, foi bom, um punhado de fichas de prêmio. Vamos pro vermelho 29? Esquece, brinde regado a Guinness de garrafa, no mesmo calor abafado, do lado de fora do cassino assistindo mais uma leva de orientais chegando de táxi, construindo a nova tradição, o novo ritual de despedida, a ida necessária para a volta…. e o segredo? O segredo, de fato, não é um método ou uma sacada, ou mesmo a união de tudo isso. O segredo é fazer os outros pensarem que há um.

 

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