Sim, eu também sou viciado em pôquer

Influenciado pelo texto “Relato de um jogador de pôquer“, gostaria de compartilhar com vocês a experiência vivida por mim nos últimos dois anos. Confesso que não tenho muita paciência para escrever. Portanto, não esperem um texto cativante, bem escrito, cheio de palavras bonitas. Até porque a minha história não tem nenhum glamour.

A minha vida no pôquer começou como a de qualquer outro jogador. Era uma brincadeira em roda de amigos ali, outro jogo on-line aqui… Nada muito sério. Afinal, jamais envolveria meu próprio dinheiro a sério nisso. Leviano engano. Comigo foi tudo muito rápido. Quando dei por mim, tinha passado das rodas de amigos para os torneios baratinhos. Depois, para os torneiros mais caros. Paralelamente, como que uma consequência natural, para as mesas de cash game. Tudo isso num piscar de olhos.

Meu vício cresceu proporcionalmente com a quantidade de jogos que eu me envolvia. Era como se o torneio baratinho fosse a maconha, aquela primeira droga inofensiva. Depois, com o cash game hold’em me senti buscando um estímulo maior, como o da cocaína e, por fim, como que no auge de um vício, o cash game omaha foi o crack. Fumei e cheirei todos, sem hora, sem dia e sem parar.

Jogava todos os dias, como um sentenciado que cumpre sua pena. Abria e fechava as mesas. Os donos do jogo me amavam. As ligações de “Cadê você, meu amigo? O jogo já vai começar!”, as ofertas irresistíveis “Hoje tem aquele peixinho que você adora, vem brincar com a gente”, e os incentivos de “O joguinho hoje vai ser um sonho, fulano está aqui perguntando por você” foram, aos poucos, transformando este peixinho que vos fala na verdadeira isca.

Até que, certo dia, depois de jogar cash game por trinta horas seguidas – isso mesmo que você leu, foram trinta horas de jogo -, fui lavar o rosto e me olhei no espelho. Olhava-me, mas não me enxergava. Assustei-me. Parecia ter envelhecido dez anos nos últimos dois. Chorei compulsivamente. Prometi para aquele homem do espelho – que não era eu – que nunca mais jogaria cash game.

Três dias depois, estava lá novamente, sendo a isca do meu próprio peixe. Foi aí que a carta caiu, ou melhor, a ficha caiu. Finalmente aceitei que estava doente. Procurei ajuda médica. Deletei meu Facebook inundado por ludopatas iguais a mim, bloqueei os sanguessugas que diariamente me chamavam para jogar, deixei de assistir vídeos de pôquer, deixei de acessar sites de pôquer. Blindei-me para não fraquejar.

Hoje, após oito duros meses, tenho orgulho em dizer que, com muita resiliência, estou limpo. E, o que é melhor, não sinto mais vontade de jogar. Por tudo que passei, deixo aqui alguns conselhos. Não joguem cash game. Não joguem torneios cujos valores tirem vocês da zona de conforto. O pôquer só é bom para quem não espera nada dele. Ah! Já ia me esquecendo: muito cuidado com os sites de apostas que estão se infiltrando nas casas de pôquer. Esses também não são inofensivos. Quem diria… Logo o Diabo querendo invadir o espaço do capeta.

Vade retro, Satanás!

 

 

Imagem: MarinaP/Shutterstock.com

Relato de um jogador de pôquer

Conheci o jogo de pôquer como a maioria dos jogadores iniciantes da minha época. Comecei jogando torneios com valores pequenos, perto de casa e sem nenhuma pretensão. Tempos depois, fui aumentando a minha presença nos chamados “clubes de pôquer”. Começava aí o início radical de uma mudança perigosa de hábitos.

Sem perceber, passei a respirar pôquer 24 horas por dia: só queria conversar com quem falava de pôquer, substitui os programas de televisão por vídeos sobre pôquer, troquei os livros de temas diversos por livros de pôquer, troquei a minha confortável e cheirosa cama king size pelas imundas cadeiras das casas de pôquer, troquei a convivência com a minha família e com meus amigos pela convivência com as pessoas que jogavam pôquer, troquei o meu saudável sono noturno pelas horas diurnas mal dormidas. Como se não bastasse, quando não estava nas casas de pôquer, jogava no computador de casa.

Todos os meus exames rotineiros de saúde, sem exceção, passaram a mostrar acentuado declínio. A minha excelente forma física pouco a pouco foi regredindo, a minha alimentação deixou de ser regrada, mas o meu foco continuava sendo o pôquer, a adrenalina que o jogo me proporcionava junto com a ínfima possibilidade de ficar rico da noite para o dia. Isso tudo continuava falando mais alto.

Pois bem. Fui aumentando gradativamente os valores que jogava e troquei os clubes fedorentos pelos luxuosos cassinos. Nossa! Me hospedei em hotéis estrelares, frequentei alguns dos melhores restaurantes do mundo, degustei vinhos espetaculares, assisti shows fantásticos. Vivi uma vida surreal. Mesmo sem ter estudado o jogo (o que foi um grande erro), passei a jogar os grandes torneios do mundo: joguei com muitos que até então só tinha visto nas telas do computador.

Com o passar do tempo, com as longas ausências e sem alcançar os resultados realmente importantes, ou seja, ganhar dinheiro de verdade, os conflitos com a minha esposa foram se intensificando e de nada adiantavam os conselhos que recebia. O meu poder de persuasão era tão grande que, em determinado momento, a minha esposa deixou de me criticar para me apoiar. Hoje consigo enxergar que na realidade ela estava, de forma estratégica, quase que desesperadora, fazendo de tudo para não me perder definitivamente para o pôquer.

Até que um dia a conta chegou. E bem salgada, por sinal. Hoje, vigilante e consciente dos erros cometidos, tento juntar os cacos que restaram de uma escolha de vida equivocada. Voltei a valorizar a minha família, meus amigos, busco retornar às minhas atividades laborais, retornei com a minha atividade física, voltei a comer bem, dormir bem, retornei para o meu mundo, mundo este que nunca deveria ter saído.

Este relato não tem a intenção de julgar ou criticar aqueles que praticam o pôquer, até porque existem pessoas que fizeram fortunas jogando ou explorando o jogo. Simplesmente, comigo, por inexperiência, por falta de estudar o jogo, por falta de sorte ou simplesmente por falta de capacidade, não deu certo. Talvez, como forma de me desculpar com a minha família e meus amigos, tenha resolvido compartilhar a minha experiência mal sucedida. Sinto que seria covardia e egoísmo demais guardar comigo tanto conhecimento e experiência que adquiri por um preço altíssimo.

Portanto, falo principalmente para os mais jovens, para os mais sonhadores, para os mais suscetíveis a promessas de dinheiro fácil e de forma rápida. Não se iludam: a realidade não é bem essa que vocês veem nos canais de comunicação especializados em pôquer. Lá, de um modo geral, só se mostra um lado da moeda. NÃO TROQUEM OS SEUS ESTUDOS OU OS SEUS PROJETOS DE VIDA, nem que seja por um determinado tempo, pela árdua missão de tentar viver como um jogador profissional de pôquer no Brasil. A excelente atriz Lilia Cabral, que interpretou com maestria o papel de uma jogadora viciada em jogos, inclusive o pôquer, disse: “se eu conseguir ajudar ao menos uma pessoa com a mensagem que tentei passar, já me sentiria realizada”. É bem por aí.

 

Imagem: rudall30/shutterstock.com (editada)

Solverde Poker Season 2015

Neste ano de 2015, depois de fase conturbada, resolvi visitar a Europa pela primeira vez em 41 anos de vida. E aliado à minha vontade de viajar e sair da rotina, tentei montar um calendário com algum torneio de poker para jogar, pela primeira vez, um torneio internacional de alto nível, embora eu já tenha jogado alguns torneios em Vegas, os pequenos e acelerados regulares dos cassinos de lá.

Bom, a princípio, eu iria passar a maior parte da minha viagem em Vilamoura, região do Algarve e durante as minhas pesquisas encontrei o PokerStars Solverde Poker Season. Nessa grade regular de torneios em Portugal haveria um, com um bom valor de buy in e uma estrutura bacana bem próximo de onde eu estaria. Resolvi as minhas datas da viagem para estar livre nos dias da etapa Classic, no Cassino Algarve, na Praia da Rocha (€110 + uma recompra). O PokerStars Solverde Poker Season é o mais antigo circuito de torneios live em Portugal. São 12 etapas com um Main Event de €750, etapas regulares de €250, as novas etapas Classic de buy in €110 (da qual participei de uma), e ainda quatro Special Events de €300.

Consegui as informações básicas no site pokernews.pt – depois, enviei um email para o Bloco da Barra (Bruno), que me respondeu prontamente. Muito atencioso, me passou todos os detalhes de como seria a estrutura, horários, como me inscrever e tal. Fiz um depósito na conta e minha inscrição via site do Solverde. Uma dica, pagar a partir do Brasil foi importante para não perder a inscrição, mas o torneio não atingiu o cap de 220 participantes. Muitas pessoas se inscreveram na hora que o cassino abriu, acredito que se você não tem certeza se vai participar, possa ter tranquilidade para inscrever-se na hora mesmo. Mas é bom consultar o Bruno dependendo da etapa que você quer participar, que pode ser mais concorrida.

Mas vamos ao jogo. Sentei à mesa e comecei a bater papo, saber de onde eram, essas coisas. Começamos com 25 – 50, um stack de 20.000 fichas e blinds de 30 minutos (bem confortável, deep, suficiente para uma boa jogabilidade). Da esquerda para a direita, um rapaz de uns 19 anos, na canhota dele um tiozão falastrão, seguido um português sério, um outro rapaz que parecia o Johnny Bravo. Ao lado dele, um cara alto, que conhecia todos os dealers, parecia bem regular na série, ao lado dele um estereotipado jogador (com camiseta do PS, fone grande, óculos escuros, bonezinho 888.. Todo paramentado), e mais uns que pouco conversei. De cara, já deu pra perceber que o field era formado de pessoas experientes na sua maioria e com tempo no pano. Não parecia em nada com os turistas de Vegas, nem com os conhecidos baralhões dos clubes brasileiros… Era poker sério e justo. Não vi exageros à mesa, mas claro, tinha sua cota justa de jogadores bem ruins.

Fichas do Solverde Poker Season
Fichas do Solverde Poker Season

Já na terceira mão, fiz uma enorme cagada. Eu com A9 off, abri 2,5BBs de MP e levei um call do BB e do regular ao lado dele. Flop, Axx. A mesa chega em gap pra mim, que faço tudo… 10.050!! Shit… dei um missclick ao vivo. As fichas de 100 e 10.000 eram respectivamente, pretas e roxas escuras. Naquela ansiedade inicial, com 400 no pote, minha intenção era apostar os 150 e acabei apostando 201 big blinds… O jogador no BB me alertou, mas não havia mais o que fazer. As fichas estavam na mesa, e torci para que não tivessem acertado o flop maior que o meu. O grandão chorou para largar o Ás dele me contando que também tinha o A, mas com kicker menor.

Bom, depois dessa besteira, passei a prestar mais atenção e fui subindo o stack. Perdi uma mão para o “paramentado” e assisti o tiozão perder um monte de fichas pra todo mundo (incluindo pra mim) quando ele buscava flushes e brocas. Dei bons reraises em horas certas, larguei quando tinha que largar, vi o Johnny “extra tight” Bravo cair com AK e ganhei uma boa mão do cara serião à minha frente. Ele abriu um raise em MP, eu completei do small e o rapaz à minha esquerda, no BB, foldou. Ele teve que fazer um rebuy depois que eu tomei tudo dele com uma trinca de 4 no flop com Ás pareado. Em seguida, depois de uma discussão do “super jogador paramentado” com o tiozão perturbando todo mundo, sacamos ele da mesa (todos nós tomamos as fichas e o rebuy dele ainda) e assim, entramos no intervalo bem na troca de mesas. Fui para a outra mesa, depositei minhas fichas no meu lugar e saí para fumar com um stack bem sadio. Nessa hora, conversei bastante com o cara que perdeu tudo pra mim, ele elogiou a jogada e defendeu a dele (par de Ás).

Assim que me sentei, observei por um tempo os jogadores e as jogadas. Perdi uma órbita fazendo isso, incluindo largar um AJ do small. Havia um português na minha direita que veio short da mesa anterior, ao lado direito dele um beef (Inglês), uma mulher toda desajeitada com o cabelo desgrenhado, mas que falava inglês impecável e também conhecia os dealers, à minha esquerda mais um portuga short da outra mesa, à esquerda dele um outro muito chato. Se achando o Phill Hellmuth, enchia a paciência de todo mundo. Ganhei o respeito dele na primeira mão que me envolvi, do BB, com 47 de espadas. Após um raiser inicial, que recebeu quatro calls, incluindo o beef, eu completei do botão. Meu sonho cresceu quando todos deram check no flop com um 4, e meu 7 bater no turn. O beef veio roubar a parada com uma over e eu só paguei. River blank, check dos dois… Eu abro as cartas e ele dá muck resmungando.

Bom, após essa mão, ele me perseguiu por um tempo, até que eu perdi pra ele umas fichas… Ok, ainda rondando os 25 BBs, me sentindo tranquilo de estar jogando um bom poker, chegamos na última mão antes do intervalo do jantar. Eu e a desgrenhada. Eu no BB e ela no botão. Chega em gap, ela com 17BBs aproximadamente, chumba all in. Com os antes e o small, tinha praticamente, 20BBs na mesa. Eu abro as cartas e vejo – AJoff. Ô decisão difícil… Após pensar por um minuto, só vi uma coisa na cabeça dela… Intervalo, gap, vou chumbar com overs e ver todos foldarem e eu vou pro intervalo melhor que antes. Ok, call… Ela apresenta JQ e eu levo a parada sem surpresa, eliminando a moça que fica tentando justificar a jogada.

Na volta do jantar, o torneio deu umas rasteiras em mim e perdi um flip com par de Ronaldos. Aí, berei os 15BBs por um bom tempo, até mudar de mesa e começar a pensar se realmente eu queria passar para o segundo dia com um stack curto. Abro do cut off com JJ depois da mesa rodar em gap. Isso representava nesse momento uma aposta de 5.000 fichas nos blinds 1.000 – 2.000, e tomo uma volta de 15.000 do botão. A mesa gira em fold e eu penso por muito, muito tempo. Foldo aberto o JJ e o portuga elogia, conversa e mostra o QQ. Coisas do poker.

Pra encerrar a minha participação, abri com J2s pra tentar roubar blinds do botão e o mesmo português dá call, assim como o BB. No flop, fico flush draw e chumbo tudo, tomando instacall do portuga com QK também de espadas e, sem surpresas, ele me derruba com K high. Em muitas mãos aprendi coisas novas, visualizei erros passados, vi acertos e erros dos jogadores, mas sempre com muita atenção à real experiência, e isso tudo, valeu por cada minuto das nove horas que passei no cassino jogando esse torneio. Foi realmente muito bom.

Quem quiser se aventurar num torneio dessa série, recomendo muito. E aproveitem a boa disposição da rapaziada do pokernews.pt que são muito atenciosos. Encontrei o Bruno por lá, fazendo a cobertura do torneio e conseguimos bater um papo. Parabéns cara!

 

Fotos: Thiago Fabrette, Evento Classic do Solverde Poker Open