Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

Competição, show ou ambos?

José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

O campeão Jorge Moutella e as ressalvas

Em época de bracelete de um jogador dos mais conceituados como Decano, e de um quase November Nine de Negreanu, o poker carrega ressalvas. Não basta ganhar, e mesmo na sociedade do resultado, por vezes, o resultado não é suficiente. O desempenho de Jorge Moutella, campeão da etapa de São Paulo da Brazilian Series of Poker, dividiu opiniões. De um lado, o ineditismo de um feito, pela primeira vez o vencedor do evento principal eliminou todos os adversários na mesa final. Por outro lado, a relação de blinds e stacks teria favorecido o melhor conjunto de cartas, as certeiras mãos jogadas por Moutella na FT, jogador do interior de São Paulo que nunca havia disputado um field maior que quarenta jogadores. Parece a velha discussão sorte e habilidade.

Voltemos um tanto no tempo. Quem se lembra de Jamie Gold, falastrão que levou um Main Event de WSOP na base da falinha e anos depois leiloou o cobiçado bracelete. Pra citar outro amador, Jerry Yang, que passou a WSOP de 2007 gritando yes, yes! beijando a foto de seus filhos, apostando de pé, e pedindo à Deus para ganhar cada mão, nada muito técnico no final das contas, senão por uma técnica bem peculiar de meter ficha no pano (se ficou curioso, confira aqui um vídeo com as mãos de Yang no ME). Mais um que foi tido como um não bom embaixador para o poker, pelo menos na visão de outro campeão de WSOP, Joe Hachem, famoso pelos gritos de aussie, aussie, aussie! quando colocou as mãos no troféu máximo do poker. O discurso é tão presente quanto a gritaria, algo como: você deveria ter feito o que eu deveria ter feito, ou em suas palavras “O poker está morrendo”.

Em contraponto, ainda me recordo das manchetes quando o jovem Cada foi campeão do ME, “Joe Cada salvou o poker”. Sabemos que salvou a si mesmo da eliminação, acertando trincas improváveis por duas vezes na FT, e “nos” salvou também de termos na galeria dos campeões um lenhador que deixaria todo o prestígio do poker para voltar à sua terra natal, Maryland, e assim realizar a profecia de ser mais um não embaixador. Seria improvável ver um Darvin Moon de roupa preta empunhando a espada vermelha e estrelada do patrocinador nas contracapas das principais revistas de poker, no meio de uma floresta com o machado à tiracolo. Já, para Hachem, caiu bem.

Pois bem, entre embaixadores, amadores, fiascos e resultados, o poker criativo e bem jogado permanece tanto quanto o pouco técnico, e sistematicamente, uma grande maioria de amadores continua jogando e perdendo, tanto quanto uma parte dos vencedores vai dar cabo de representar o poker e deixar o sonho suspenso, algo que não é nem bom nem ruim, mas é a natureza cíclica do jogo e do mercado. Mas, questões como a legitimação de um campeão continuam não sendo balizadas apenas pelo resultado, e embora esse seja o primeiro passo, é a comunidade do poker que dá o aval, ou melhor, quem alimenta a opinião pública é quem dá o aval.

Na discussão contínua de quem é melhor, fenômenos aparecem, permanecem e somem, e suas posturas gritam tão alto quanto seus resultados. Evidentemente, debates ampliam qualquer diálogo, mas algumas vezes a própria indústria e a opinião pública parecem se esquecer do seu principal embaixador, o amador que em 2003 mudou o panorama do jogo. A vitória de Moneymaker é emblemática, a típica boa história americana, a mitologia do herói no ocidente, o soldado que foi à guerra, o amador que venceu.

Todo o trabalho de construção de um ídolo depende da façanha, e valorizar ou desprestigiar uma vitória são os lados para se escolher no momento de contar uma história. Afinal, Moutella teve um bom desempenho pelo fato de ter eliminado todos os mesa-finalistas ou ele deu sorte? O prestígio de Moneymaker veio do bracelete ou da história que propiciou uma explosão do poker? O ponto não é defender ou atacar os amadores, não é esse o caso, mas quando tratamos uma vitória no poker como um acidente, mais ou menos como uma margem aceitável de erro na regra, esquecemos que poker é um jogo. Por outro lado, Moneymaker e a legião de amadores expõem o paradoxo dessa questão, a maior propaganda para o poker vem pelas mãos de amadores.

O bom jogador continua ganhando, e mesmo a contragosto, o poker continua real, mas a pergunta fica, a competição legitima o quê?

 

Imagem: pogonici/Shutterstock.com (editada)

A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

Entrevista: Lizia Trevisan e Mercedes Henriques do Queens of Poker

Neste mês de fevereiro, o grupo Queens of Poker completa um ano de atividade promovendo o jogo entre as mulheres, e no dia 22 deste mês vai comemorar oferecendo um freeroll com premiação de 1.000 dólares na plataforma Betmotion. Mais informações podem ser encontradas no site do Queens of Poker e na fanpage no facebook. Aproveitando o ensejo do aniversário, nesta entrevista dupla, Lizia Trevisan e Mercedes Henriques, duas das fundadoras do grupo, falam um pouco sobre o que as motiva para o jogo, tecem suas opiniões sobre alguns assuntos específicos da realidade feminina nos panos, e falam como enxergam o mercado.


Como vocês veem a evolução da presença feminina no poker de um ano pra cá? Houve crescimento? O que se tira de positivo desse esforço? A criação do Queens gerou um engajamento maior de quem já está na comunidade do poker?

Lizia: 2014 foi muito importante para o poker feminino, tivemos resultados expressivos em grandes torneios, criação de iniciativas como o Akkari Team Micro Feminino, mais mulheres se profissionalizaram e houve aumento do field. O grande desafio do Queens of Poker foi reunir as jogadoras e promover oportunidades. Acredito que cumprimos com esses objetivos e, mais importante, temos o apoio das mulheres. A boa receptividade da comunidade do poker foi um termômetro para a nossa iniciativa, há carência desses espaços e buscamos agregar ao poker feminino.

Mercedes: Eu acredito que sim, temos ouvido falar mais de torneios femininos, e logo que criamos o grupo, teve uma febre de movimentos. Acho que houve uma maior participação tanto dos clubes quanto dos empresários, salas de poker se dispuseram a dar apoio, e as profissionais da área tiveram suas conquistas divulgadas, e isso não existia, quase não se ouvia falar dessas jogadoras com a frequência que elas mereciam.


No início do ano passado, o Akkari Team Micro montou sua primeira turma somente de mulheres, e o diretor técnico Leonardo Bueno escreveu em seu blog um artigo sobre as diferenças de treinamento e comportamento entre homens e mulheres (
Porque mulheres não têm tanto sucesso no poker). A Lizia Trevisan também deixou sua opinião no blog, que inclusive gerou uma boa troca de ideias em outro post. Como vocês entenderam a mensagem, e que posicionamento vocês têm em relação ao artigo dele?

Lizia Trevisan
Lizia Trevisan

L: O texto do Leonardo Bueno foi de opinião. Como o nome já diz, reflete uma visão pessoal. Algumas pessoas se identificam, outras não. Em síntese, ele atribui a falta de resultados das mulheres no poker à uma excessiva passionalidade da personalidade feminina. Ao final, ele encorajou que os leitores postassem a sua opinião, e foi o que fiz. Como jogadora, não me identifico com esse estereótipo. Acredito em estatística, e menos de 5% do field é feminino, logo o percentual de mulheres nas finais é muito inferior ao dos homens. Outra questão importante é o ingresso tardio das mulheres no poker, volume e estudo são primordiais para resultados. Super válidas tais discussões e somente com elas vamos entender a evolução e desafios do poker feminino.

M: Deixo por conta da Lizia a resposta, mas esse evento nos deu vontade de seguir em frente.


Também no início de 2014, a jogadora Milena Magrini alcançou a FT numa etapa da Brazilian Series of Poker, e posteriormente Igianne Bertoldi cravou o main event em Foz do Iguaçu. Até que ponto vocês entendem que isso contribui com uma maior participação feminina? Esse fato faz diferença para atrair as mulheres para os torneios ao vivo?

L: Feitos como os da Milena e Igianne são inspiradores, e acredito que motivou não só a mim. Elas provaram que é possível alcançar resultados, a revelia de um field numeroso, difícil e de maioria masculina esmagadora. Confesso que em ambas as situações torci e sofri muito, algo que o poker proporciona que acho fantástico.

M: Claro que sim, acho que as mulheres estão mais motivadas e confiantes. Nós aqui no grupo criamos alguns banners com os dizeres “Eu Vou”, então, a cada evento colocamos as jogadoras que estarão jogando, tanto no Ladies como no Main Event. Isso chama a atenção para a presença delas no BSOP, os organizadores também estão melhorando a premiação, e incluindo até outras formas de presentes na hora do evento feminine. Sentimos que isso tem influência de nosso grupo. Conseguimos apoio para oferecer buy-in no BSOP MIllions e criamos um ranking, o que motivou demais as meninas, e ter jogadoras como Milena Magrini, Igianne Bertoldi e Ale Braga, são exemplos de jogadoras batalhadoras que sabem o que querem.


Vocês ainda sentem que o público masculino, maioria nos fields, desdenha das mulheres como jogadoras de poker?

L: Quando ocorre, acredito que em maioria se dá de forma intrínseca. No online, por exemplo, é comum jogadores demonstrarem incredulidade quanto ao fato de eu ser mulher, e acredito que não ocorre só comigo. No live, onde temos mais impressões, há literalmente de tudo. Por experiência pessoal, vivenciei situações desagradáveis, mas felizmente a grande maioria é cordial e apoia a participação feminina. Minha percepção é que não é somente no poker que encontramos situações onde a mulher é subestimada, a história está aí como testemunha disso.

M: Não abertamente, eles respeitam as mulheres nas mesas e nos eventos, mas às vezes acontecem casos como o que o Vitão da TV Superpoker falou tão profundamente, sobre o cara que cravou o Ladies do EPT, e mais cinco homens foram para a mesa final, porque na França eles não podem impedir os homens de se registrarem. Nossa, particularmente fiquei chocada! Pois existem muito mais eventos para homens, e não vi necessidade desse comportamento, então eu presumo que ele queria provar superioridade masculina.


Justamente a próxima pergunta, Mercedes. Recentemente, no EPT Deauville, o torneio para mulheres teve uma massiva presença masculina no field, e como resultado, a vitória de um homem, derrotando uma mulher no heads up final. Como vocês entendem esse tipo de situação?

O card-protector das Queens no BSOP
O card-protector das Queens no BSOP

L: Faço uma crítica para nós mulheres. Tal fato ocorreu porque não nos organizamos como um público consumidor de poker, deixando de opinar e agir numa situação de interesse comum. No momento em que tomasse conhecimento da participação masculina, me recusaria a jogar o evento e exigiria o reembolso do buyn. Se todas agissem em conjunto, pressionariam a organização, visto que a proporção do field foi de 61 mulheres para 22 homens. Mesmo que tal atitude não culminasse com a retirada dos homens, demonstraria a insatisfação quanto ao fato, e promoveria o debate sobre o assunto. Quando cruzamos os braços, consentimos com o que está sendo imposto.

M: Lamentável, fiquei sem palavras quando li a notícia, e até postei no grupo. Lamento mais a nossa representante ter perdido para esse ser que se diz homem e se registra em um torneio feminino, na verdade 22 homens se registraram, e a direção do torneio não quiz ser acusada de sexismo. Muito absurdo pra mim, mas que sirva de exemplo para que não aconteça em nosso país.


O que vocês acham das artimanhas usadas pelas mulheres quando dizem explorar seu lado sensual no jogo para obter vantagem? Contextualizando, recentemente a jogadora e modelo belga Gaëlle García Díaz afirmou que usa decotes para que os oponentes evitem eliminá-la nos torneios.

L: Honestamente, nunca testemunhei nenhuma mulher afirmando que faz uso de tais artimanhas. Já vi fotos de jogadoras com decotes, o que é uma prerrogativa pessoal. Se vai contra a convenção social, que os organizadores façam regras quanto a vestimenta. No mais, acredito ser uma exposição gratuita. Para que nos trajar de forma sensual, se na maioria das vezes somos únicas nas mesas e isso já chama mais atenção do que gostaria? Às vezes sinto ter na minha testa os dizeres “big molezinha, mulher é ultra tight, só encontraremos resistência com o topo do range”.

M: Acho que, como em tudo na vida, existem comportamentos e comportamentos, toda mulher, seja jogadora ou não, deve se dar ao respeito se quer ser respeitada. Concordo que as mulheres se arrumem bem vestidas para jogar, mas isso de explorar o lado sensual foge do objetivo que é mostrar sua capacidade de jogar bem o jogo, mas não é uma atitude geral, são exceções que agem dessa forma.


Lízia, você comentou que o desdém masculino é exceção, mas agora falou do “big molezinha” como se fosse corriqueiro. Não é contraditório?

L: Por isso falei, às vezes. O poker é um jogo que envolve psicologia e é um evento social. Cada jogador opta por uma linha de estratégia psicológica, alguns preferem não interagir, outros falam por todos nas mesas. Há casos de alguns que têm como objetivo tiltar os oponentes. Se todas essas condutas são aceitáveis, por que fazer “charminho” não seria?

M: Como eu disse, são excessões que usam esse artifício, não dá para generalizar.

 

Mercedes Henriques
Mercedes Henriques

Mercedes, num artigo publicado no Metapoker em 2014, você sinalizou o contrassenso na exploração da imagem da mulher na propaganda do poker. A Lizia também manifestou em alguns artigos seu posicionamento em relação a participação das mulheres no jogo. Vocês acham que esse panorama mudou?

L: Acredito que o mercado foi focado por muito tempo no público masculino, por razões óbvias. Quando o mesmo resolveu alcançar o público feminino, o fez em algumas ocasiões de forma deturpada, utilizando imagens sensuais de mulheres, penso que no intuito de atrair ambos os públicos. O mercado amadureu, e em conjunto com o desafio de desmistificar o poker como jogo de azar, promove o esporte de forma mais séria, buscando associar sua imagem aos esportistas renomados, por exemplo. No cenário atual, não há como um clube ou evento passar credibilidade tendo como propaganda uma mulher seminua.

M: Na verdade, o artigo que escrevi teve um resultado imediato, o clube tinha usado a imagem de uma mulher semi-nua com fichas e cartas espalhadas sobre o corpo. Eles retiraram do ar e  colocaram de outra forma, e de lá pra cá, sim, mudou bastante a forma de abordagem da mídia sobre o assunto.


Falando em esporte, pra vocês, poker é esporte?

L: Eu tenho duas respostas para essa questão. Vejo jogadores, profissionais ou amadores, se esforçando para evoluir, lutando diariamente de forma responsável, tendo a consciência de toda a dificuldade e desafio quando optam pelo poker como profissão ou paixão. Para esses é esporte. Vejo também jogadores que focam no dinheiro, no prêmio. Para esses, o poker é bingo. Entendo o poker como esporte quando a premiação é secundária. O dia que eu não ficar feliz por cravar um torneio, por mais irrisória que seja a premiação, pararei de jogar poker.

M: Acho que é um jogo que conta com astúcia e sorte! Com treinamento certo funciona mais a inteligência!
 Essa é a forma que estão utilizando para desmistificar o jogo, gosto do nome esporte da mente. Realmente, alguns conseguem exercitar a mente, outros só fazem baralhadas.


Por que vocês acham importante aumentar a presença das mulheres no poker? Na opinião de vocês, o que as afasta?

L: A mulher eleva o nível do ambiente e dá credibilidade ao poker. Não entendo o poker como esporte democrático e inclusivo sem a participação feminina. Não me vejo frequentando um ambiente predominantemente noturno, em que eu seja a única mulher. O poker só tem a ganhar com a participação feminina. Vejo nas mulheres todas as qualidades necessárias para a prática do poker. Num artigo, arrisquei: Fica a pergunta, por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que você conhece que gostam de vídeo-game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas e namoradas não torcem o nariz quando o truco começa? Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Mas, se alguém tiver essa resposta, por favor avise-me.

M: Bom, aumentar a presença das mulheres no poker foi o motivo de criarmos o Queens, foi quando nos demos conta que era difícil ir à um clube jogar se não estivéssemos acompanhadas de marido, irmão ou amigo. Os locais de jogo eram meio marginalizados com presença só de homens, então nos sentíamos desconfortáveis nesses lugares. No online também era assim, 8 entre 9 jogadores eram homens, e se xingavam, altas baixarias nos sit & go’s, e nos torneios, mas agora isso já tem melhorado nas casas de poker, já se importam em ter um bom ambiente, e já promovem torneios femininos com mais frequência. Já não me sinto excluída quando entro em um clube.

 

Imagens: Arquivo pessoal, foto Lizia: Fabio Hamann

A propaganda do milhão de dólares no Spin&Go do Pokerstars e na WSOP

0081aO Spin&Go do Pokerstars entregou três prêmios de 1 milhão de dólares em janeiro deste ano. O Spin&Go é um SNG hyper-turbo de três jogadores, que tem seu prizepool definido logo no início da partida através de uma espécie de sorteio (o tal spin), que paga ao campeão, de duas até 3 mil vezes o valor do buy-in investido. Os jackpots milionários são exceções, e foram lançados no final do ano de 2014 como parte do Pokerstars December Festival, e estendidos para o mês seguinte em função de ninguém ter acertado o milhão de dólares.

Segundo reportagem do Cartas na Mesa, as chances de um prêmio milionário ocorrer são de três a cada 10 milhões de spins, mas três deles aconteceram num curto espaço de tempo, contrariando as estatísticas, o que seria uma aparente bad beat para o site.

O Spin&Go ganhou popularidade apesar das reclamações de alguns jogadores regulares, que defendiam que a nova modalidade retiraria dos fields tradicionais os jogadores recreativos, que supostamente prefeririam disputar torneios rápidos com chances maiores de prêmio como os Spin&Go’s, ao invés dos usuais SNGs, MTTs e cash games. A nova modalidade talvez seja fruto da aquisição pela Amaya, e dos questionários disponibilizados por pelo menos duas vezes aos usuários do Full Tilt e do PS nos últimos anos. Dá pra apostar que, como resultado das pesquisas, o jogador recreativo não é somente a maioria do universo de usuários, mas o mais importante.

Mas, o que aparenta ser uma bad beat para o PS, não é uma falha inesperada senão a melhor propaganda possível para divulgar o jogo, e o apelo do milhão de dólares, e não a facilidade em ganhá-lo, também contaminou o principal torneio do mundo, a World Series of Poker, que em 27 de janeiro anunciou a remodelada distribuição dos payouts do main event deste ano, que inclui uma faixa maior de jogadores premiados (os mil melhores colocados já entram na grana), e um salto substancial de 450 mil dólares de diferença entre o décimo e o nono colocado. Desta forma, qualquer um dos próximos November Niners se tornará milionário assim que a bolha da mesa final estourar. O que é mais propaganda do que realidade, afinal, os impostos são responsáveis por uma fatiada das boas na premiação dos primeiros eliminados da FT.

Pokerstars e WSOP sabem da importância do milhão em suas divulgações, bad beat mesmo seria a casa não ganhar, uma condição improvável. Curioso é perceber que na tentativa de atrair mais praticantes para o poker, um jogo de habilidade, seja preciso lançar mão de um apelo, a possibilidade da sorte grande: “o sonho de mudar de vida através de um prêmio milionário“, como disse Seth Palansky, redator-chefe do site da World Series.

 

Fontes: Spin&Go PokerstarsCartas na Mesa e WSOP.com. Imagem: Shutterstock

Poker gourmet, ou melhor, poker fetiche

Fala-se de poker de muitas maneiras, na conversa entre amigos, na mídia em geral e na especializada, entre quem vive do jogo e os que não sabem exatamente do que se trata, alguns com certa reserva, alguns assombrados pelos jogos de azar, enfim, cada um fala de um poker, e o entende à sua maneira, por vezes, até repetindo o que ouvem. Tantas são as formas de ver, que pudera, o formato ao final, acaba sendo mais importante do que o conteúdo nos dias de hoje. Não à toa, se temos ultimamente algo tão consagrado no mercado é a gourmetização de qualquer produto, e porque não, de uma ideia ou conceito. O brigadeiro de padaria dobra de tamanho e é vendido por cinco vezes o seu valor no shopping center, o cachorro-quente do final da balada se torna um food truck, e não tão distante, o já naturalizado selfie frente ao espelho da academia não é uma versão melhorada de si mesmo?

Se algo denominado gourmet é melhor, deixo para o seu gosto decidir, afinal a questão talvez não seja o produto em si, pois os novos brigadeiros parecem ser mesmo melhores, mas e o tal formato?

Quem não se lembra dos comerciais do PokerStars, muito bem produzidos e carregados de jogos de imagens repletas de conceitos e com uma trilha sonora matadora, abusando de conhecidos jogadores de poker, que outrora anunciavam we are poker! Dois ou três anos depois, o maior site de poker prefere Nadal e Ronaldo como garotos-propaganda, os jogos de azar virão com força nas plataformas online, e o slogan já carece ser reformulado… We are entertainment. E Ronaldo é melhor que Negreanu pra isso, impossível não perceber quem é mais conhecido, quem vai atrair mais gente pro gamble. Não é pra você, grinder, que eles estão falando, esqueça esse papo de team pro, eles já dispensaram a maioria, na nova gourmetização do poker o foco é atrair praticantes recreativos, que vão oscilar entre um sit and go e uma rodada de blackjack.

O gourmet não me parece um incremento no produto ou serviço, ainda que também o seja, mas exatamente um formato que faça com que você perceba esse produto melhor, ou que lhe chame mais atenção, um apelo de embalagem.

Agora que já temos uma nova, e cíclica, versão melhorada do poker, podemos seguir para o segundo ponto, o fetichismo. Dan Bilzerian, enquanto pateticamente não arremessa outra peladona telhado abaixo, é o fetiche que todo o poker pode produzir: belas garotas nuas, armas, iates, carrões e grana, muita grana, tudo aparentemente conquistado com o joguinho. Grana essa que pode tirá-lo da prisão e colocá-lo num jatinho particular. Uma matéria no site Terra fala da hispano-belga Gaëlle García Díaz, modelo e jogadora de poker, que afirma que joga alguns torneios com roupas sensuais afim de não ser eliminada pelos adversários. Segundo a reportagem, Gaëlle é “linda, ousada, tatuada e rica”. Fetiche puro.

Que baita moralismo chato, não? Não, não é isso ainda, não se trata de uma questão de certo e errado, já vamos chegar lá. Do outro lado temos todo um mercado, afirmando e reafirmando seu novo formato de poker, uma atividade esportiva, um esporte da mente. Um esforço pra tirar a pecha de jogo de azar, pra afastar de vez o tio viciado que perdeu a fazenda, e onde se pode ser um atleta dos feltros, e subir ao pódio segurando a bandeira. Nesse aparente paradoxo, vagas para o BSOP poderão ser conquistadas na roleta do PS? Contudo, o paradoxo é só aparente, tudo parece ser a mesma coisa, nivelada pelo formato.

Nada tão redutor quanto simplificar toda a complexidade do poker à um formato. Nada tão igualmente sedutor. Exatamente o que há de irresistível no formato, nos deixou com poucos recursos para refletir sobre o jogo. É como uma mão perdida antes de seu início, onde você segura par de ases, e sabe que aquilo é bom, mas não sabe o que fazer até o river.

 

Fontes: Terra e Canal do PokerStars no YouTube. Imagem: wavebreakmedia / Shutterstock (editada)