Run It Twice e a saga dos podcasts de poker

Entrevistas são o forte do novo canal
Entrevistas são o ponto forte do RIT Podcast

O podcast Run It Twice, iniciativa vinda da Bahia, foge do centro do poker no país, mas vai ao centro de diversas questões que uma grande leva de novos praticantes carrega. A dupla Rafael Pimenta e Murilo Barreto apresenta de forma bem humorada um bate papo que pretende tudo menos ditar regras, a tentativa é se comunicar com o jogador de poker que está se formando e crescendo em número nos últimos dois ou três anos no país.

Já são quase vinte episódios ao longo de um ano, trazendo assuntos pertinentes sobre o universo do poker, contudo o forte deste canal são as entrevistas. O mais conhecido apresentador do poker, Vitão Marques, falou de sua longa jornada na atividade quando foi convidado no episódio 11, e o experiente jogador Vinicius Collaço, conhecido pelo apelido de batovs, contou no episódio 17 sua experiência no Akkari Team Micro e os altos e baixos de uma vida de grind. Vale ouvir também o sexto episódio, com Paulo Longo, paranaense dono de clube que rendeu uma ótima conversa e uma visão geral sobre sua empreitada.

Os podcasts brazucas sobre poker têm uma recorrente história de bom início e queda prematura. Desde o ótimo Pokercast de Marcelo Lanza e Guilherme Kalil, lá na virada da década; até o pertinente PosRiver apresentado por Gordinho, Moll Orso e Bellebone, o bom trabalho e o formato interessante ainda não conseguiram estabelecer público cativo que sustente a atração. Talvez, o apelo dos vídeos seja maior nos dias de hoje, ou provavelmente a comunidade do poker não tenha se atentado à qualidade desses conteúdos ao longo dos anos. Aguardemos.

 

Ao defender o poker online, Tim James expões as contradições de Sheldon Adelson. E as próprias?

O discurso moralista de Sheldon Adelson contra o poker online é conhecido. Possuidor de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos, o dono do complexo que compreende os cassinos Venetian e Palazzo, em Las Vegas, defende que “atividades pecadoras” tais como o jogo valendo dinheiro (uma das sin activities, como ele denomina), devem ser controladas, e ele acredita que num cassino físico isso é possível, enquanto que no ambiente online não. O principal ataque de Adelson ao poker online é que não se pode verificar com segurança se menores de idade estão jogando, ou se está se jogando com responsabilidade, de forma que é difícil proteger cidadãos e principalmente menores dessas atividades. Para ele, somente num cassino físico há condições de uma atividade regulamentada.

Tim James, jogador de poker, resolveu expor as contradições de Adelson criando o documentário Sheldon Adelson Exposed, no site The Tim James Show, uma undercover story, como ele define, que parte das premissas de Adelson para mostrar que tudo aquilo que o dono do Venetian condena, acontece no interior de suas propriedades. James denuncia o que há de incongruente no discurso de Adelson logo no teaser do documentário, mostrando a presença de menores de idade jogando e circulando nas áreas do cassino, inclusive consumindo bebidas alcoólicas. Para tanto, Tim James infiltrou menores de idade no cassino Venetian (nesse caso menores de 21 anos, proibidos pela lei do país de jogar), que portando documentos de identidade falsificados, conseguiram consumir bebidas e ter acesso às áreas de jogo. Confira abaixo o teaser trailer (em inglês).

Discutível, de ambos os lados. James se utiliza de menores portando documentos de identidade falsos, mas parece que isso não tem importância, afinal o resultado justificaria a atitude. Justifica?

A lógica ambígua de James fica clara quando ele tenta abrir uma conta no site wsop.com usando o documento de identidade falso, e evidentemente no cruzamento dos dados, o site não aceita o cadastro, fato que supostamente demonstraria que o ambiente online é seguro. Conseguir abrir uma conta sem ter idade suficiente é improvável, só que não é essa a prática, afinal, um menor tentaria com um documento real, válido, e jogaria no lugar da pessoa titular da conta.

Falsear a identidade (a sua ou um documento), a prática usada pelos jovens do documentário para burlar o cassino físico, também é vista no ambiente online, como por exemplo o chamado ghost, jogador mais bem preparado que nas retas finais toma o lugar do dono da conta (o podcast PosRiver abordou o tema no ano passado). Sem falar nos casos de multi-accounting, que voltaram a ser assunto depois das suspeitas dessa prática pelo profissional Brian Hastings.

Os argumentos de James parecem fazer sentido apenas em si mesmos, e sua abordagem aparenta como uma reação prevista na regra, pois não há surpresa reveladora alguma no documentário. Em ambos os lados, não há profundidade suficiente. Se a intenção dos ataques de Adelson é não perder mercado para os cassinos online, ou se James procura defender o poker online trazendo à tona uma “verdade”, não há por parte dos dois uma disposição para discutir o assunto, apenas um discurso reduzido pelos interesses de cada um, apresentados como um interesse comum a todos.

É a lógica do “atacar para se defender”. Mas, no momento que ambos defendem suas visões (onde supostamente estão atacando o rival), demonstram a própria fragilidade de seus argumentos. De certa forma, tanto James quanto Adelson atiram contra aquilo que defendem. Ora, partindo de ambos, se não é possível assegurar que menores não tenham acesso à “atividades pecadoras”, o caminho natural seria proibir tais atividades para todos, e nessa escalada em nome do que é preciso defender, o controle e as proibições se expandiriam até um ponto onde nada mais é permitido. Similar a ideia de que quando se está acuado, o medo é a reação norteadora das ações, e pelo medo continuamos atacando. O desejo de controlar, começa da constatação que vamos nos desviar, ou seja, não surge apenas porque desconfiamos do outro, senão porque temos certeza que somos capazes de cometer os desvios. É por isso que a balança para decidir sempre está em nossas mãos, mesmo quando o critério parece ser externo.

Portanto, construir um caminho para lidar com esse tipo de questão começa consigo, é deliberar por si, e não agir apenas porque os outros estão olhado. Pra resumir, podemos complicar um pouco mais: Raramente se erra, quando se liga as ações extremas à vaidade, as medíocres ao costume e as mesquinhas ao medo. (Friederich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”)

Por sorte, neste jogo, não é preciso escolher um lado, mas escolher.

 

Fonte: site The Tim James Show. Imagem e vídeo retirados do mesmo local.

PosRiver Podcast leva o poker ao pé do ouvido

PosRiver é o nome da mais nova e interessante iniciativa do poker nesse ano. Eduardo Dutra, Moll Orso, Lucas Adami e Vinicius Bellebone lançaram no final de fevereiro um podcast de poker que mistura informação, assuntos pertinentes e humor, e tem apoio do Ypiranga Texas Club, de Porto Alegre.

Ainda sem nome, o programa piloto foi transmitido ao vivo em 24 de fevereiro e foi muito bem recebido pela comunidade do poker, onde foram abordados os temas Times de Poker e Postura dos jogadores nos jogos ao vivo. A primeira edição oficial, já batizada de PosRiver Podcast, estreou em 5 de março e teve a presença do convidado Carlos “Caju” Zago, profissional especialista em mesas limit, e o tema escolhido foi MTT vs. Cash Game. Segundo Eduardo Dutra, integrante e idealizador do podcast, as próximas edições serão gravadas e editadas, e não mais transmitidas em tempo real.

A intenção do grupo, que é composto por jogadores online e diretores de torneio, é abordar os diversos temas do quotidiano dos jogadores, e discutir abertamente questões pouco faladas na mídia tradicional de poker. O PosRiver tem um tópico oficial no fórum MaisEV, que você pode acessar aqui para mandar sugestões e críticas. Abaixo você pode conferir o programa piloto e a primeira edição.

PosRiver Podcast #1 (Piloto)

PosRiver Podcast #2 (Cash Game vs. MTT)

Fonte: MaisEV, canal do YouTube do Ypiranga TV e Eduardo Dutra.