Como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

O que me agrada neste joguinho? Não é o fato de ser o jogo da mente. Aplicar a matemática, a psicologia ou a leitura da linguagem corporal. Nada disso. Agrada-me no joguinho o barulho das fichas, o baralho falando, a dinâmica do dealer orquestrando cada mão da órbita. É o coração que quase pára ao descobrir o full house no river quebrando o cara monstro em fichas.

Estive em Las Vegas e lá me conquistaram as luzes e o dia que nunca termina, sentava no torneiozinho do Treasure Island ainda com o sol rachando o asfalto e saía de lá com a lua acima das nossas cabeças e os neons ligados. E ali eu debutei para o poker, mas não é début com príncipe e valsa. É regada à cerveja. Corona with lime, please! E barulho de ficha.

O jogo da mente se transforma em jogo de quem mente quando passa o blefe de 35off que não leva a lugar nenhum, mas na minha cabeça ansiosa, precisa ser jogado. Jogo de demente quando eu decido shovar meu K5 naipadinho, mais uma vez por falta de paciência, mas vai que cola né? Daí eu dobro, continuo, vou pra bolha, da bolha para o ITM, isso tudo sem ter a menor ideia de como contar as odds e os outs. Na simplicidade da minha donkisse, não consigo lembrar o que rolou na última mão que entrei. Como foram as ações pré-flop, o que o dealer bateu no flop, quem deu c-bet, quem foldou. E o turn? Completou a sequência runner-runner? Sei lá. Só sei que adoro ouvir falar isso tudo, algumas coisas eu entendo, outras nem tanto, daí vou a procura desse conhecimento, mas não é pra aplicar no feltro, é só pra entender as resenhas do dia seguinte, quando os meus amigos começarem a falar no grupo.

Ahh! Mas eu gosto desse joguinho, mas nada de online onde as fichas não fazem barulho nos stacks, nem os outros jogadores têm cara. Gosto de ver a mão tremer pra dar o call, daquele caminhão de fichas que foram empurradas pelo vilão. E depois ouvir o grito da galera no showdown. E órbita em órbita, nível de blind em nível de blind, a noite passa, a cerveja mais gela a garganta que embriaga, até que se dá o three-handed, o HU, e enfim o vencedor do torneio. Alguém ganhou, não fui eu, mas mesmo assim, de ali estar gargalhando com as invenções dos meus amigos, das musiquinhas e das piadas do último livro do Ary Toledo, já foi suficiente, e como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

 

Imagem: iordani/shutterstock.com

Fish and chips

O dealer malaca senta à mesa mandando bronca, – Estou aqui para eliminar cada um de vocês, um por um, este é meu trabalho. E emenda com sarcasmo, – Hoje é meu segundo dia, se eu estiver cometendo algum erro, por favor, me avisem. O jogador cabaço da vez, aquele tipo que manja tudo de poker, menos de jogar, manda falinha logo depois de três mãos, dizendo que havia algo errado, pois não tinha recebido par de ases até então. O dealer olha pra ele com cara de bunda e respira fundo, – Pegue a senha, entre na fila!

Fish and chips, o peixe empanado com batata frita, é típico inglês, praticamente a pratada oficial do operariado britânico do meio do século XIX que tornou-se tradição, mas não é disso que estamos falando. Ou estamos? O senhor calvo fumador de cachimbo me encontra fora do cassino, no intervalo do torneio, aceno com a cabeça e ele vem em minha direção. Pra descontrair, elogio seu shove no turn, eu estava blefando descarado, metendo a segunda barreira quando ouvi o rouco check-raise do velhote com sotaque britânico. Larguei.

Nos fóruns de poker online, faz tempo, dizem que check-raise no turn é caixão, melhor largar com a certeza de quem está perdendo. No poker de carne e osso, ou fichas e tremedeira, no small stakes de Las Vegas, também faz sentido. Foldei para o velhote inglês de cachimbo, comedor de fish and chips, deixando quatro big blinds pra trás, pois estou jogando fish and chips (nesse caso, não a iguaria inglesa, mas o torneio típico da cidade do pecado).

Com quatro BBs ainda há o que fazer nessas mesas. Não, não se trata daquela superioridade técnica de profissional, nem de arrogância, afinal o poker ensina por duras penas que subestimar o adversário é atirar contra o próprio pé, é enroscar o anzol no dedo antes mesmo de colocar a isca. Se trata de entender a dinâmica desse tipo de torneio, com buy in baixo, blinds apertados, poucas fichas e muitos fishes.

O eixo do small stakes poker de Vegas vai do Bally’s até o Treasure Island, passando pelo Flamingo, Harrah’s e Mirage, todos no meio da Strip, a avenida principal de Vegas, com torneios em suas cardrooms das nove da manhã até meia-noite, onde pode-se engatar um atrás do outro, fazer um ou dois ITMs e depois verificar o lucro ao final do dia. Parece fácil, mas não é, quando o baralho atrapalha e você fica queimado com a sabichão da vez, pode passar alguns dias sem puxar nada, amargando o ferro. Sem falar que a figura do tiozão é quase uma instituição aqui, tem em todo torneio, e ele vai limpar damas, reis e ases e te sacar da mesa.

Pois bem, às vezes venta, e basta estar preparado para jogar a isca. Muitas mãos depois, com T8 naipado no BB, depois de cinco limpers, o flop se acomoda no feltro com três cartas de espadas, e, com um flush completo, peço mesa. Alguém sempre aposta, provavelmente o cara do Ás ou do Rei do mesmo naipe. Bingo, foi bet do velhote inglês e call do jogador cabaço, mandei o all in tomando dois calls, um AsKh e um KsTc buscavam mais uma carta de espadas, e ela veio, mas era o 9, a broca do straight flush. O dealer malaca, operário do baralho, já tinha entendido desde o flop, o que estava prestes a acontecer, deu um sorriso de canto, bateu o river e mandou falinha, – É como eu disse, meu trabalho é eliminar vocês, um por um. Foi mais uma cravada no fishes e fichas. Hoje, o fish não fui eu.

 

Foto: torneio na poker room do Harrah’s, em Las Vegas (Naccarato)

 

 

Vegas em junho de 2015 e o tal poker

No forno que é a Sin City, o final da tarde é as oito da noite, é confortante, o calor abranda e o céu vai de azul pálido para escuro, mas tudo parece meio azul, laranja ou vermelho pelo reflexo das luzes que começam a gritar nos letreiros. A moldura cafona da noite vai se desenhando num emaranhado de neons, substituindo o deserto no horizonte. E o tal poker?

Bem, há quinze dias que é assim, mas essa paisagem fica mais na memória do que na vista, pois a mesa de poker é a morada do baralhão. Duas semanas atrás, as poker rooms da Strip cancelaram seus torneios diários, fila de 71 jogadores no cash $1/$2 do Flamingo, 45 pangarés no Harrah’s, 31 no Bally’s… Para se inscrever no único torneio aberto, no Caesars, 30 alternates, 150 dólares, 20 minutos de blinds e um bando de tiozão abrindo raise de 12xBBs no primeiro nível. Tudo culpa dos gigantes Colossus e Goliath, os torneios de buy in de $565 que encheram Las Vegas de amadores e profissionais para encarar a WSOP e a série do cassino Planet Hollywood (além da série Aria Classic WPT, que teve seu dia 1 no começo de junho, e só volta para o dia 2 em julho, pode?). É preciso ser Daví para runnar e vencer o Golias.

Claro que para aproveitar essa enxurrada de jogadores, algumas poker rooms criaram promoções. Os Porões de Las Vegas continuam chamando, Vitão. A espelhada sala de poker do Flamingo tem o jackpot mais atrativo, 20 mil pratas para quem perder com quadra de 5 ou maior. Impossível? Que nada, a foto do topo deixou a galera em festa na primeira noite do mês, 40% do jackpot para a quadra de 8, 20% para a de Ás, e o restante dividido para todos os presentes. Só em Vegas, 0,1% de chance no flop para a quadra de ases runner runner vencer e perder ao mesmo tempo. Agora entendi o motivo de ter chovido por duas vezes aqui.

De resto, a cidade que sempre muda, mas tem a mesma pegada de sempre, trouxe novidades. A poker room do TI, que já ficou ao lado da sempre presente fila para um dos espetáculos do Cirque du Soleil, foi parar em outro canto, ao lado de uma lanchonete, o que faz fichas, cartas e cachorro-quente parecerem uma coisa só. The Quad finalmente assumiu o nome The Linq (ex-Imperial Palace que já tem há mais de um ano uma roda gigante iluminada em seu quintal), e lamentavelmente fechou sua sala de poker em definitivo. Mirage fez o inverso, reformou a poker room na véspera da virada do mês, mas arrancou 2/3 dela para fazer um cashier. Numa dessas noites no fucking Mirage, na última mesa do fundo do salão, Jooryt van Hoof, terceiro colocado no main event do ano passado, jogava mixed games com uma parceirada animada e stacks monstruosos de fichas de $1.

O poker de Vegas tem de tudo, no início de junho parecia que tinha até mais poker player francês do que americano, muita piranha jogando $1/$2, e torneios voltando a grade usual depois do dia 5. Parada tem de monte, claro, jumento dá call com KJoff num all in monstro e perde, sobra com 1,5BB, fica queimado e vai all in na mão seguinte, mostra 44, e o BB dá call com 43off, mas esse 3 de couve é perigoso, e flusha no river. Andam dizendo por aqui que AQ de couve é mais forte que qualquer AK, quando começa a bater brócolis no bordo não pára mais, vira horta… Aqui tem jogador, e muito, e tem gambler daqueles que sempre deixam um troco na roleta, mas tem o tipo de cara que é ambos, e os que vieram atrás do sonho, embora a realidade crua me convença mais. Mas se você veio só para o poker, faça como Igor Marani, Pedro Marte & Cia, grinders dos satélites da WSOP, três brasucas contra a rapa num esquema +EV para sit and go de uma mesa. Para quem não veio, uma boa pedida é acompanhar o vlog do Gui Cardoso, que criou o diário 4 Cartas em Vegas, onde conta dia a dia sua rotina nos cashes de PLO da cidade, o capítulo um está aqui, e não esqueça de clicar no chinês.

E o tal poker? Termina na madrugada, e sentado à beira de uma das entradas do Flamingo, fumando um dos últimos cigarros entre mendigos, casais convencionais, velhotes, bêbados, grupos de garotas peitudas, garotos engomados e outros segurando suas calças caídas abaixo das cuecas; os acordes da melhor música do não tão bom Aerosmith: Dream on. Um trecho é significativo para muitos tantos jogadores, I know, it’s everybody’s sin, you gotta lose to know how to win. O pecado é a sina.

 

Foto: Cash game no cassino Flamingo (Rodrigo Saito)

O velho Bill’s e o poker fé

O Bill’s Gamblin’ Hall and Saloon era um dos cassinos mais chulés da Las Vegas Boulevard, que é a principal avenida de Las Vegas, também chamada e notória pelo apelido “The Strip”. É na Strip que estão todos os monumentais e conhecidos cassinos da cidade, como Bellagio, Wynn, Caesars Palace, Mirage e Aria. Bem, esse não era o caso do Bill’s. O pequeno hotel-cassino cheio de beberrões tinha a seu favor uma localização privilegiada, pois ficava entre o Bally’s e o Flamingo, de frente para o Caesars, e na diagonal do Bellagio, e tinha os jogos mais baratos da cidade, além do clima de festa constante. Ou seja, ninguém atravessava suas portas procurando uma atmosfera de seriedade, as pessoas estavam ali pra encher a cara, se divertir e apostar, e talvez isso o tornava um lugar cafona e cult ao mesmo tempo.

Lá você achava facilmente a Blue Moon, a breja de trigo dos baralhões servida com uma rodela de laranja, Coronas à dois dólares, steak com dois ovos por cinco dólares e fichas de um dólar bem legais. Além do mais, o Bill’s tinha herdado do recém fechado O’Shea’s, algumas atrações, como o Beer Pong (ping-pong com copos de cerveja), o anão que era mestre de cerimônia, e seu público cativo.

Antes dos dois anos que precederam seu fechamento em fevereiro de 2013, a área reservada para o poker consistia em apenas três mesas à beira da entrada, mas depois do crescimento dos torneios diários na cidade, o Bill’s resolveu separar uma área maior ao lado do espaço de apostas esportivas, e além dos cinco torneios diários com buy in de 30 pratas, o cassino tinha as mesas de cash mais baratas da Strip, com blefes e flushes em blinds 50¢/$1.

Os jackpots que a poker room oferecia das oito até meio-dia resultavam em pelo menos uma ou duas mesas cheias de velhotes pela manhã. Havia bônus para royal, straight flush, quadra e Aces Cracked. Este último o mais buscado e esperado. É simples, bastava receber o par de bicudos, fazer um slowplay dos bons torcendo para o adversário melhorar a mão e, bingo! Cem dólares a mais na conta se você perdesse o pote, desde que ele tivesse no mínimo 10 dólares. Na primeira semana da minha quarta temporada na cidade, decidi bater cartão no Bill’s pela manhã, mais por conta do field fácil do que pelos jackpots. Nos dois primeiros dias encontrei mesas sem ação, com jogadores entrando com cacifes de apenas 30 dólares e exclusivamente esperando terem seus ases quebrados num festival de limpers que mais parecia um boicote ao jogo. No terceiro dia consegui um feito nada agradável, e me tornei persona non grata nesta poker room, eliminando dois jogadores em doze minutos e fazendo com que os outros mudassem de mesa. Desisti de jogar lá de manhã, e só um fato me fez voltar, mas dessa vez na tarde do dia seguinte.

No quarto dia, após uma queda prematura no torneio das 16 horas do Bally’s, o cassino vizinho, entrei no Bill’s pra fugir do calor desértico das ruas e cortar caminho até o Flamingo, onde estava hospedado. Numa passadela até a poker room, fiquei olhando as mesas de cash, e lá estava ele sentado e espalhado pela mesa, com várias pilhas de fichas desarrumadas de cinco dólares e com um enorme sorriso estampado na fuça para desespero dos adversários. Era um velhote gorducho, vestindo uma camisa de time de futebol americano, que atendia pelo nome de Mister Brown.

Nosso amigo, o Sr. Brown, era um caixa eletrônico, e tinha um método apurado para jogar o cash do Bill’s. Ele entrava com o valor máximo permitido na mesa e nunca abria raise, limpando a maioria dos potes, mesmo quando tinha valor nas mãos, e se algum adversário tratasse de aumentar, ele remediava apenas dando call. Seu range parecia ser mais amplo do que as 169 combinações de duas cartas iniciais possíveis do hold’em, jogando com quaisquer cartas naipadas, qualquer par, qualquer broadway, quaisquer duas cartas que somadas cheguem a 8… Enfim, acho que deu pra entender não?

Outro aspecto da sua tática era dar call em todas as streets, bastava ele estar na mão e pintar um draw no flop que o Sr. Brown iria buscar até o final, sem qualquer cerimônia. Como resultado, ele perdia boas quantias na maioria dos potes, e prontamente recarregava o stack. O único problema era quando ele acertava. Como compensação em perder 4 ou 5 potes seguidos de 40 ou 50 dólares, ele puxava logo umas duzentas pratas pra pilha quando seu flush quebrava trincas e sequências dos adversários, ou quando saia com pares de Ás e Reis em algumas mãos.

De hora em hora, o Sr. Brown sacava da mesa jogadores inconformados, amedrontados e tiltados, para a alegria dos dealers que eram recompensados justamente pelos poucos outs que ele acertava no river. E que poker room não gostaria de um desses na mesa, não? Fichas e mais fichas de rake a cada minuto fizeram o Sr. Brown ganhar uma garçonete quase que exclusiva, pronta para atendê-lo em qualquer pedido. Se eu tivesse que descrever o Sr. Brown pra alguém, eu diria simplesmente que ele é um cara com uma característica peculiar, pois quando está numa mão, buscando seu flush, seu olhos brilham. Ele joga poker fé, ele joga roleta na mesa de poker, e está lá exclusivamente pela descarga química que percorre seu cérebro e vai até a ponta de seus dedos.

O Sr. Brown, nesses extremos, só existe como representação literária. Ele é a junção de todos aqueles gamblers com os quais você se depara nos feltros. Ele é um exemplo de todas as vezes que você tomou baralhada. Ele é aquele cara que muitos dizem ter sorte, e se perguntam entre si — Mas você viu como ele acerta? Que conta mais regulada! Para ganhar do Sr. Brown você tem que vencê-lo em sua mente primeiro, aceitando que ganhar e perder potes faz parte do jogo. O esforço em entendê-lo só faz sentido se você quer aprimorar seu jogo, e entender que ganhar um pote não significa jogar bem, afinal, jogar bem vai além do resultado.

De volta à São Paulo, numa madrugada de terça-feira, os últimos remanescentes no salão do clube que jogo, decidiram fazer uma rodada de poker fé, algo digamos mais saudável do que ocorria nas mesas com o Sr. Brown, onde você casa uma ficha por órbita e o dealer distribui as cartas dos jogadores abertas, e depois bate flop, turn e river pra ver o baralho fazer graça, enquanto todos torcem por seus outs até o river.

 

Reeditado do original em Aprendendo Poker. Foto: M. Naccarato

Gratuito no lançamento, o livro Floating in Miami é mais um capítulo despretensioso da baralhada que se iniciou em Las Vegas

Um jogador de poker aproveita o tempo vago numa viagem a trabalho para cidade de Miami, e se embrenhar por um circuito de poker criado pelo acaso. Esse é o mote da jornada do autor Marco Naccarato por uma das mais latinas cidades dos Estados Unidos. Entre as inúmeras rodovias e vias expressas percorridas, num total de cinco cassinos visitados, o novo livro segue a fórmula já conhecida de Floating in Vegas, com muitos relatos de mãos, humor, análises e um retrato de como o jogo se desenrola nas poker rooms de Miami.

Capa do ebook Floating in Miami
Capa de Floating in Miami

Quem espera uma abordagem técnica ao ler Floating in Miami não vai encontrar exatamente isso, afinal há inúmeras obras no mercado que abordam o jogo pelo seu lado metodológico e matemático, mas o que torna o livro diferente é a narrativa, repleta da percepção peculiar do autor, que mostra um ambiente interessante para quem gosta do joguinho. É o que se nota a partir da capa, a imagem de uma rodovia de Miami ao entardecer, que não tem relação direta com o poker, e foge do óbvio por conta disso. De ponta-a-ponta, o mérito do texto é mostrar o que está no entorno do jogo, e evidentemente o que passa pela cabeça de um jogador.

Floating in Miami, somente em formato ebook, está sendo lançado nesta segunda-feira, 23 de fevereiro, no site da Amazon, e pode ser baixado gratuitamente até o dia 27. Depois desse período o preço do livro volta aos R$8,35, podendo variar conforme a cotação do dólar, pois o valor é fixado em US$3,00. Importante dizer que não é preciso ter um kindle para baixar e ler, pois você também encontra no site da Amazon o aplicativo de leitura que funciona em Windows, Apple e Android, o que permite ler em qualquer smartphone, tablet ou computador.

Junto deste lançamento, o autor disponibilizou a segunda edição do livro anterior, Floating in Vegas, também em formato digital no site da Amazon, pelo preço de R$13,35. Também é possível baixar uma amostra gratuita, que contém apenas as primeiras páginas do ebook, e traz um tutorial de poker para os iniciantes, acessível sem necessidade de comprar o livro todo. A compra de Floating in Vegas, em livro físico, ainda pode ser efetuada na loja online do portal MaisEV e na Pokerholic.

 

Imagem: Divulgação

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker

Las Vegas, junho de 2014

Os dias em Vegas começam tarde, ou melhor, de tarde. Acordar moído, depois das noites em claro passadas nos “Porões de Vegas”, é o usual. Aliás, o termo é do Vitão Marques, no seu post do dia 14, mas cabe muito bem para as salas de poker dos cassinos, afinal não há janelas, não há dia nem noite, só fichas e baralho, o feltro e a parceirada.

No small stakes joga-se poker, mas é outro jogo. Duas mãos dos últimos dias não saem da cabeça. Na primeira, no salão do velho Bally’s, soco ficha depois do limper, tomo tribet de outro camarada, o limper da call, a ação volta pra mim e mando uma four-bet de respeito, com duas damas na mão. Ambos pensam e pagam, flop catrupe 78T sem draws para flush, mando a pamonha, ambos pensam muito, mas dão call. O primeiro mostra AQoff e o segundo AJoff que acerta a broca do river. Será que o AJ sabia o que estava fazendo? Será que eu sei o que estou fazendo?

A segunda mão é daquelas que ninguém acredita, no PLO do Golden Nugget seis jogadores esperam a ação do tiozão no botão, mas o dealer, inexperiente e meio nervoso com o joguinho, abre o turn antes da hora, um oito de espadas. A mesa toda reclama, chamam o floorman que segue orientando o que fazer, queime uma carta e abra o river, espere a ação dos jogadores, volte o oito de espadas para o monte, embaralhe, corte, abra o turn sem queimar carta. Booomm, oito de espadas de novo.

O poker nunca dorme em Vegas, pode não ter uma alma na roleta ou no craps as quatro da mattina, mas sempre há meia dúzia de alucinados nas mesas do joguinho. No small stakes você aprende a escapar de encrenca, mas com muito custo, pois os torneios turbo acabam com sua sanidade, você abre raise com AK e toma oito calls, e assiste uma saraivada de fichas repicando à mesa antes mesmo de pensar o que fazer num bordo que não conectou nada com seu jogo. E isso vai acontecer incontáveis vezes, os blinds te espremem, as fichas são curtas, a cerveja demora as vezes, a parceirada fala demais, e o espertão do seu lado, aquele que pagou a broca e acertou, prefere peidar ali mesmo. Contudo, você aprende. E dá pra ganhar, pra tirar um pouco do ferro.

A dinâmica é sempre muito parecida, mas o cenário sempre muda. O Bill’s, berço da baralhagem, virou The Cromwell, que cheira à carro novo, mas parece um belo caixão decorado, num funeral que vai do brega ao luxuoso, sem poker room, sem bagunça, só estética. Construíram uma roda gigante monstruosa no final da rua, mas pra isso, construíram uma rua também, cheia de lojas e gente circulando. O Caesars, que tinha uma das melhores poker rooms de Vegas, deixou de fazer sua série de poker e montou uma nova sala, bem menor, bem decorada, mas longe de ser o que já foi um dia.

Os jogos da Copa do Mundo passam em todos os cassinos, felizmente, e colombianos, ingleses, alemães, holandeses e brasileiros desfilam as camisas de suas seleções após os jogos. Qualquer vendedor que descobrir que você é brasileiro vai te perguntar o que você faz aqui com a Copa rolando no seu país, e você responde, é o poker, é o joguinho, que começa depois do meio-dia nos porões que vão de Downtown até as duas pontas da Strip.

Link: Blog do Vitão, Superpoker