Poker viciante e vício no poker

Aparentemente idênticos, o poker viciante, aquela vontade de estar a beira do feltro, é ligeiramente diferente do vício no jogo, a ludopatia. Vários aspectos sobre essa questão do vício forçosamente esbarram em como a sociedade o entende, claro que partimos do indivíduo e de como ele se afeta com o objeto do vício, mas o que me refiro é o padrão social para definirmos o que é vício e quem é o viciado. Em certa medida algumas convenções nos ensinam o que é um viciado.

Se um indivíduo é viciado em trabalho, por mais que haja um contraponto para que ele invista mais tempo com a família e em outras atividades, esse tipo de viciado nunca é inteiramente mal visto socialmente, ser workaholic é por vezes algo bem aceito ou até charmoso (biografias de conhecidos empreendedores e suas obsessões confirmam essa premissa). Outros exemplos deixam mais evidente como essa relação é entendida na sociedade, o tabagista é um viciado cujo incômodo social é até certo ponto tolerável, pois o fumante é mal visto quando “fuma ao meu lado” ou no geral quando se torna um prejuízo à saúde dos outros. Já o alcoólatra, nos casos mais extremos, causa com seu comportamento um dano social maior, derrapando para violência com os familiares, perigo de vida ao volante, brigas, etc., embora o estímulo ao consumo frequentemente se apresente. O jogador viciado nunca é bem visto, digo aqueles que colocam dinheiro na mesa e não a usual fézinha na loteria, pra eles o peso moral é muito maior.

A tentativa aqui não é colocar tudo num mesmo balaio, já vamos chegar ao ponto, mas o que é um atleta de alto nível senão um obstinado, um viciado pela sua atividade? E por conta disso e por força da competição, quantos deles deixam de lado o ideal esportivo por algum estimulante que o coloque em condições de vencer. O velocista Ben Johnson foi uma dessas exceções que ainda recorrem nos dias de hoje, daí a burocracia do antidoping, uma tentativa de controle. Há de se mencionar igualmente a questão do equilíbrio na vida, inúmeros atletas passam anos de privação, desde o convívio com a família até dietas. Por vezes o esporte também se torna campo de privações e impacta a vida social do atleta, e também do workaholic, de maneira similar.

Mas, temos uma grande diferença entre tudo isso, os vícios em substâncias químicas seriam passivos, quero dizer, o viciado tem uma relação de espectador com o objeto do vício e a anestesia que ele oferece. De certa forma o workaholic ou o esportista de alto nível ao menos atuam por meio dos seus vícios, o que é uma diferença notável. Mas, o que quero dizer com tudo isso é que tanto o esporte quanto o trabalho higienizam nosso olhar para o vício. Não estou exatamente falando do dano que determinado viciado causa socialmente, mas de como, como indivíduos sociais entendemos o fenômeno do vício, e é essa forma de entender que nos é pautada.

O ponto, ao final, é que o problema em si do vício passa consideravelmente pela sociedade, mas afeta o indivíduo o despossuindo de si mesmo, no sentido de retirar sua autonomia e torná-lo refém somente dos próprios impulsos. Nesse caso, a condição para o viciado ser feliz é o objeto, para o viciado em jogos é a química gerada pelo jogo, não o jogo como tal. Quando essa disposição do indivíduo chega na intensidade de tirá-lo de si, temos o mesmo quadro passivo do viciado em substâncias químicas. Digamos que o poker viciante se torna uma patologia quando coisas que têm mais valor para o indivíduo foram corrompidas pela experiência do jogo, quando ele se tornou objeto, como se o jogo ficasse menos atrativo do que a descarga emocional que ele provoca.

A diferença apareceria quando a possibilidade sensível do jogo (fascinante e por isso viciante) perde espaço para a anestesia que ele causa (o vício). Considerar este critério, que é muito pessoal, parece ser mais potente do que os alertas, mesmo sendo um caminho difícil. As mensagens fortes da propaganda negativa do tabagismo no verso dos maços de cigarro não provocam nos jovens identificação, pois o fumante não se vê naquela situação precisamente. O garoto que começa com drogas também, dizem tanto que faz mal, mas ele vai lá, experimenta e acha bom. Temos então um problemão!

Ainda que toda mensagem possa ter um efeito, pois entendemos e damos sentido ao mundo por narrativas, o impacto dos alertas podem ser pequenos quando seu teor não sensibiliza mais. Numa sociedade fissurada perdemos a capacidade de sensibilização, por isso nosso vício só pode ser a anestesia.

 

 

Imagem: Placa fixada no cashier do cassino Caesars Palace, em Las Vegas (Naccarato)

Relato de um jogador de pôquer

Conheci o jogo de pôquer como a maioria dos jogadores iniciantes da minha época. Comecei jogando torneios com valores pequenos, perto de casa e sem nenhuma pretensão. Tempos depois, fui aumentando a minha presença nos chamados “clubes de pôquer”. Começava aí o início radical de uma mudança perigosa de hábitos.

Sem perceber, passei a respirar pôquer 24 horas por dia: só queria conversar com quem falava de pôquer, substitui os programas de televisão por vídeos sobre pôquer, troquei os livros de temas diversos por livros de pôquer, troquei a minha confortável e cheirosa cama king size pelas imundas cadeiras das casas de pôquer, troquei a convivência com a minha família e com meus amigos pela convivência com as pessoas que jogavam pôquer, troquei o meu saudável sono noturno pelas horas diurnas mal dormidas. Como se não bastasse, quando não estava nas casas de pôquer, jogava no computador de casa.

Todos os meus exames rotineiros de saúde, sem exceção, passaram a mostrar acentuado declínio. A minha excelente forma física pouco a pouco foi regredindo, a minha alimentação deixou de ser regrada, mas o meu foco continuava sendo o pôquer, a adrenalina que o jogo me proporcionava junto com a ínfima possibilidade de ficar rico da noite para o dia. Isso tudo continuava falando mais alto.

Pois bem. Fui aumentando gradativamente os valores que jogava e troquei os clubes fedorentos pelos luxuosos cassinos. Nossa! Me hospedei em hotéis estrelares, frequentei alguns dos melhores restaurantes do mundo, degustei vinhos espetaculares, assisti shows fantásticos. Vivi uma vida surreal. Mesmo sem ter estudado o jogo (o que foi um grande erro), passei a jogar os grandes torneios do mundo: joguei com muitos que até então só tinha visto nas telas do computador.

Com o passar do tempo, com as longas ausências e sem alcançar os resultados realmente importantes, ou seja, ganhar dinheiro de verdade, os conflitos com a minha esposa foram se intensificando e de nada adiantavam os conselhos que recebia. O meu poder de persuasão era tão grande que, em determinado momento, a minha esposa deixou de me criticar para me apoiar. Hoje consigo enxergar que na realidade ela estava, de forma estratégica, quase que desesperadora, fazendo de tudo para não me perder definitivamente para o pôquer.

Até que um dia a conta chegou. E bem salgada, por sinal. Hoje, vigilante e consciente dos erros cometidos, tento juntar os cacos que restaram de uma escolha de vida equivocada. Voltei a valorizar a minha família, meus amigos, busco retornar às minhas atividades laborais, retornei com a minha atividade física, voltei a comer bem, dormir bem, retornei para o meu mundo, mundo este que nunca deveria ter saído.

Este relato não tem a intenção de julgar ou criticar aqueles que praticam o pôquer, até porque existem pessoas que fizeram fortunas jogando ou explorando o jogo. Simplesmente, comigo, por inexperiência, por falta de estudar o jogo, por falta de sorte ou simplesmente por falta de capacidade, não deu certo. Talvez, como forma de me desculpar com a minha família e meus amigos, tenha resolvido compartilhar a minha experiência mal sucedida. Sinto que seria covardia e egoísmo demais guardar comigo tanto conhecimento e experiência que adquiri por um preço altíssimo.

Portanto, falo principalmente para os mais jovens, para os mais sonhadores, para os mais suscetíveis a promessas de dinheiro fácil e de forma rápida. Não se iludam: a realidade não é bem essa que vocês veem nos canais de comunicação especializados em pôquer. Lá, de um modo geral, só se mostra um lado da moeda. NÃO TROQUEM OS SEUS ESTUDOS OU OS SEUS PROJETOS DE VIDA, nem que seja por um determinado tempo, pela árdua missão de tentar viver como um jogador profissional de pôquer no Brasil. A excelente atriz Lilia Cabral, que interpretou com maestria o papel de uma jogadora viciada em jogos, inclusive o pôquer, disse: “se eu conseguir ajudar ao menos uma pessoa com a mensagem que tentei passar, já me sentiria realizada”. É bem por aí.

 

Imagem: rudall30/shutterstock.com (editada)

A bolha estourou para Fedor Holz

Um dos sentidos da palavra aposentar é abrigar-se, alojar-se. Contudo, em seu entendimento mais comum está relacionada ao ato de suspender suas atividades de trabalho. Enfim, aposentar é encerrar a carreira, mas o que o jovem vencedor Fedor Holz parece propor com sua saída é a primeira ideia, ou seja, sua retirada é a opção de abrigar-se da rotina de jogador profissional, podendo assim jogar apenas as 400 horas anuais de poker que lhe agradam, conforme afirmou em entrevistas. De certo modo, abrigando-se, ele abriga em si outro sentido dentre infinitos possíveis.

Embora somente o tempo vá dizer, não se parece com uma aposentadoria de fato. Em entrevista ao Pokernews, Holz considera o poker uma atividade individualista e deseja fazer algo de mais útil para as pessoas. O alemão de 22 anos declara gostar do poker, mas não vê na atividade algo que deseja fazer para o resto da vida, e quer se retirar para empreender, se considerando agora um businessman. Ele explica melhor sua escolha no início do Life Podcast de Joey Ingram.

A retirada de Holz se tornou um grande assunto nas mídias a exemplo do que já ocorreu com outros jovens campeões do poker como Eastgate e Heinz. Sua declaração abriu espaço para alguns vereditos que vão desde o já conhecido “parou no auge” até certo descontentamento por sua decisão prematura, afinal ele poderia alcançar muito mais, correr atrás de recordes e braceletes e assim representar mais e melhor o poker.

Entre a ideia de “quase afronta” e de “merecimento”, o que estrutura esses discursos fica num espaço previsto de entendimento, preso a um eixo onde só é permitido se posicionar desde que se jogue o jogo, ou melhor, onde o jogo é o balizador de qualquer pensamento. Ele deve continuar porque é isso que todos buscam no poker (é quase uma afronta a aposentadoria), ou deve parar porque é válido e a grana o permite (atingiu seus objetivos no poker e é merecedor dessa recompensa).

Um desafio interessante seria o de ficar distante o suficiente da questão para perceber essa estrutura, e assim tentar escapar dessa dicotomia. Olhando de longe percebemos mais coisas, e a qualidade da escolha ganharia um critério próprio e não externo, não é a grana nem o sonho que condicionariam a decisão de Holz, não é o merecimento e nem a busca que pautariam os comentários. É como quando a bolha do torneio importante estoura, onde alguns ficam felizes por estar na grana enquanto outros apenas pensam na vitória.

A bolha estourou para Fedor Holz, e ele pode se distanciar (ou abrigar-se) para assim perceber melhor, ou pode fazer parte de outro eixo estrutural, o da catequese do empreendedorismo, que pode ou não entender o poker como “útil”.

Talvez Holz tenha passado os últimos anos de poker fazendo o que poucos fazem, para agora fazer o que poucos entendem. A próxima bolha dirá.

 

Fontes: Blog Sergio Prado na ESPN, Pokertube e Pokernews. Imagem: Fedor Holz durante a final da Copa do Mundo de Futebol, retirada de sua conta no twitter (@CrownUpGuy)

Uma análise sobre a nova grade do Pokerstars

Após jogar por mais de um mês com a nova grade, passar pelo SCOOP e juntar tudo isso com minha experiência de vários anos se dedicando a ter uma boa perfomance na arena do poker online, posso e devo fazer novamente comentários sobre as decisões da empresa Amaya/PokerStars.

Nós, como jogadores de MTT, fomos os últimos a serem afetados pelas novas diretrizes dessa companhia. Por um momento achávamos que seríamos poupados e tudo continuaria igual a antes. Eu preciso dizer pra vocês que nada ficou igual a antes. Podemos facilmente comparar as ações recentes do PS, e suas consequências, com as consequências que tiveram a Black Friday. Muitos e muitos players vão ficar sem chão pra trabalhar pelas medidas adotadas pela empresa. Claro que isso não vai ficar tão aparente num curto prazo, como foi quando o país com mais jogadores caiu fora do mercado de forma repentina, mas já está aparecendo nos garantidos, nos torneios disponíveis e nos payouts.

Relacionado a torneios, praticamente tudo piorou:

  1. Estruturas pioraram. Jogamos menos mãos a cada torneio, temos menos decisões difíceis e temos menos retorno por decidir menos. Vocês acreditam que eu já cheguei a jogar 10 mil mãos em apenas um domingo? isso foi meu recorde, mas em geral jogava de 7 a 8 mil mãos por domingo. Agora, mesmo se começo bem cedo, o que pra mim é ali pelo meio dia, acabo o domingo jogando de 5 a 6 mil mãos. O PS conseguiu eliminar 1/4 das minhas decisões e provavelmente esta levando uma quantidade similar de rake da minha conta! Não foram os outros sites que diminuiram a ação. Well played.
  2. Com a bagunça irresponsável que fizeram em todos os torneios, mudando-os de horário, alterando buy ins e transformando-os na maioria em turbos/hypers ou progressivos knock out, conseguiram despencar todos os Garantidos, atraindo progressivamente menos jogadores.
    Eles não sacaram que cada pessoa era apegada a um determinado torneio, naquela hora do dia, com aquele buy in. A grade anterior foi sendo moldada ao longo de vários anos, e tinha clientes específicos pra cada faixa de horário e buy in. E não me digam que a desculpa é a WSOP. Não é! Já estava ocorrendo antes mesmo da WSOP começar.
  1. Retiraram muitos torneios de extremo valor para os jogadores, aqueles que eram o ganha-pão dos low e mid stakers. Vou dar um exemplo, na faixa de horário das 17 até às 19 horas tínhamos estes torneios (que consigo me lembrar):

– Big 162, obviamente a mudança de buy in de 162 pra 215 não foi um sucesso. O torneio é muito inferior em clientes que o anterior.

– Turbos que eram torneios limpos, digo isso porque não eram progressive KO, nao eram hypers, tinham bons garantidos e conseguiam nos piores dias pagar de 2 a 3 mil dólares para o campeão: Hot 16, Turbo 16, Turbo 27, 55 Turbo 6max, 109 Turbo 9max, 27 Hyper (2x), 11 Turbo.

– Eliminaram da grade a estrutura de 1 rebuy e 1 add on, uma das melhores estruturas do site, com rake mais baixo e grande jogabilidade. Tiraram o 109 1r1a e colocaram um 109+R Turbo, com rake em todos rebuys e add ons! Que agora mal consegue juntar 20 cabeças em dia de semana. Piada!

– Havia diversos $5 2r 1add, havia também alguns bons que eram com knock out e progressivos, mas não eram exagerados, pois não ocupavam toda a grade da tarde. Como eu não jogava os low stakes, não sei o que rolou tanto por lá. Eu sei que, relacionado a satélites, a coisa também foi muito afetada, muitos sumiram sem reposição. Total falta de resposabilidade de quem sacou a grade anterior e teve preguiça ou má fé de repor a grade nova com tudo que a anterior oferecia.

Eu te garanto que esse novo conjunto de torneios, nessa faixa de duas horas, comparado com os anteriores (e não é exclusividade dessa faixa, são em todos os horários) vai contra os jogadores e o ecossistema do poker.

Pra continuar, deixe-me falar sobre os torneios que são progressivos knock out. Deixe-me te dizer que estes torneios são apenas torneios com RAKE MAIS ALTO, disfarçados no modo “divertido” Progressive KO. Mas, vou explicar essa minha declaração futuramente, em outro post. Tenho uma boa dose de confiança que estou certo nessa afirmação.

Mas, e não teve nada de bom, João? Os torneios novos em azul não são ótimos? Os torneios novos são ótimos, mas isso não merece elogios, por conta de todo o movimento retrógrado que a empresa fez. Adicionar alguns torneios não vai compensar todo o resto que fizeram contra nós. Nem de perto. O que então eles tão querendo fazer? A resposta é muito simples, mas é preciso apreciar todas as mudanças que eles já fizeram e analisar de forma holística. Aí a resposta vem bem clara.

O que eles querem evitar, como uma estratégia mais ampla de empresa, é que jogadores mais fortes se sobressaiam sobre os mais fracos de forma muito rápida. Por isso que:

  1. Acabaram e mentiram sobre o programa SUPERNOVA ELITE;
  2. Por isso que mataram os HIGH STAKES cash games, eliminando o rake back e eliminando certos jogos;
  3. Por isso que colocaram tantos Progressives KOs e transformaram tudo em hyper e turbos;
  4. Por isso que tiraram tantos dos torneios mais deep e mais jogáveis de mid e low stakes, evitando que as decisões de certos jogadores se sobressaiam financeiramente sobre os outros.

Através destas estratégias, a idéia seria manter o dinheiro com os jogadores mais fracos por mais tempo, até que a casa possa, através de cobrança de rake agressiva, Spin & Go’s, jogos de cassino e apostas esportivas, rapar o bankroll destes, antes que eles percam para o pool de jogadores de poker em torneios justos e equilibrados, onde cada parte envolvida tenha chances decentes e também diversão no processo.

Tenho mais a dizer sobre isso. Vou manter vocês informados sobre as últimas ações da Amaya contra a comunidade do poker. Como estou sem tantos torneios decentes pra jogar, então posso escrever no facebook, né?

 

Texto publicado originalmente na página pessoal do jogador. Imagem: welcomia/Shutterstock.com (editada)

Criamos o fish para não sermos tão ruins?

Na aurora do poker provavelmente qualquer jogador era fish, o tal que mal sabe pra que lado corre o baralho. O entendimento da dinâmica do jogo era furtado pelo impacto da aleatoriedade do baralho, o que permitia que a sorte ganhasse mais significado (Basta notarmos em alguns principiantes a tendência de pagar até o river o flush desejado, ou mesmo a noção dos que olham o poker de fora de que o jogo se trata de ter sorte). Contudo, o espírito do jogador é audaz, e logo uma matemática básica se tornou vantagem, o comportamento falou mais do que o bet, decifrar o jogo virou sua condição. No fundo, olhar para o poker como jogo de azar (ou de sorte) é um jeito de olhar, tanto quanto olhar para o jogador não habilidoso e rotulá-lo de fish.

Mas, calma lá, afinal o fish existe… Ou não. Vejamos. O fish, o pato ou o donkey fazem parte da fauna que sempre está a um passo de você, ou seja, é a sua percepção do jogo no encontro com o adversário. No poker, quanto mais sabemos, mais percebemos o quanto o oponente não sabe e tiramos um tipo de proveito disso. A conversa muda quando a exceção da regra confirma que o fish de hoje pode ser o shark de amanhã, por isso parece que a alcunha de fish não está atrelada somente ao nível de habilidade, mas a uma certa expectativa em relação ao que se procura no jogo.

Explico. O fish clássico buscaria no jogo a incerteza da sorte, a emoção presente no virar das cartas no bordo, uma experiência de sensações que surgem na peculiaridade do poker. Só que, em oposição, o fish também seria o sujeito que segue a cartilha, ficando à mercê do jogo, aguardando e jogando somente cartas com valor, e portanto tornando-se explorável, um alvo de bad beats. De algum jeito a falta de conhecimento e/ou um conhecimento engessado e limitado norteia a expectativa do jogador, no primeiro caso o negócio é ganhar a qualquer custo (contando essencialmente com a sorte já que falta conhecimento), no segundo caso a busca é evitar riscos, evitar perder. O jogador que persegue a sorte no jogo vai sentir falta dela quando na derrota, ou pode culpar o jogo achando que é mais um dos jogos de azar. O jogador precavido, que arrisca pouco, vai ter seu par de reis quebrado e acabará culpando o adversário baralhão, chamando-o de fish.

Quem já passou por qualquer uma dessas duas fases, ou ambas, deve ter aprendido que o jogo se desdobra para além desses polos, pois evitar derrota ou querer ganhar a qualquer custo, são duas faces de uma experiência um tanto pobre de jogo, pois nos colocamos em posição de dependência, esperando o flush bater ou aguardando o “Grupo 1” para jogar. Por isso pode ser que seja nessa expectativa que encontremos a linha onde termina o fish e começa o bom jogador, pois jogadores melhores, em tese, estariam tentando criar condições favoráveis pra si considerando a dinâmica do jogo e não dependendo dela.

Podemos especular ainda mais, se assumirmos que a habilidade para o poker pode ser aprendida por qualquer um ou adquirida com experiência e estudo, o fish passaria a ser uma questão temporal, um estágio anterior rumo ao aperfeiçoamento, de certa forma também uma expectativa, um jogador buscaria se aprofundar nos fundamentos do poker para fugir da dependência apresentada acima. Junto disso cria-se outra percepção, onde o fish passa a ser o jogador que não se dedica o suficiente, que não estuda o jogo com afinco, viés que é aproveitado pelo mercado, há conhecimento para ser repassado e a falta de fundamentos pode ter um remédio, o treinamento.

Definir o que é fish passa necessariamente por trabalhar o tema colocando o categorizado num canto, preferencialmente, distante de nós. Mas, por que precisamos definir o que é fish? A quem essa categorização atenderia? Possivelmente não há uma finalidade nisso, pode ser apenas um saber para a prática do jogo, um alerta para tirarmos vantagem, e como comentado no início desse texto, identificar o fish é uma tarefa da nossa percepção, uma comparação simples, mas pescá-lo é outra história.

Por isso, ficar preso apenas à comparação também parece pouco proveitoso, pois se percebemos o fish porque ele joga de forma estranha à nossa, e isso nos afeta mal, esse incômodo pode identificar o quanto estamos presos à ideia de que a categorização nos propicia uma vantagem, quando de fato não é identificar que nos torna melhores, mas descobrir como atuar dentro dessa possibilidade. Por que ele pagou com isso? Por que deu raise de 5xBBs? Por que deu check no river? Perguntas que podem ser caminhos de compreensão ou elementos para definir o quão ruim é o oponente frente ao nosso jogo.

Categorizar aquilo que aparenta ser incompreensível nos atos do oponente se torna uma resposta ressentida pela falta de conhecimento que percebemos que o adversário não tem. Mais exatamente, a exteriorização de um descontentamento por perder para quem sabe menos. Então, criar o fish vira um alento, a desculpa perfeita para perdermos “ganhando”, afinal sabemos jogar, já o fish… Está aí a armadilha do jogo que nos convida a subestimar o adversário, o que por vezes nos dá a mesma falsa sensação de estar por cima, um tiro no pé, o autoengano.

Enfim, o fish tem seu assento garantido em nossas percepções, ele pode ser a constante de uma competição onde a grande maioria dos praticantes denomina seu adversário como fish, mas onde poucos ganham consistentemente. Para jogadores que pretendem escapar das categorizações, não há fishes, senão possibilidades.

 

 

Imagem: Shutterstock.com/JoeBakal

Competição, show ou ambos?

José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

Independência ou sorte!

Independência ou Morte, frase creditada a Dom Pedro, tem muito pouco a ver com poker. Claro, o título se trata de uma brincadeira, uma tentativa de fazer a ligação entre o jogo e um dos símbolos da Independência do Brasil. O Sete de Setembro curiosamente completará dois séculos dentro de sete anos, data que hoje tem mais cara de feriado do que o significado histórico que carrega.

Mas, significados históricos têm interpretações. Segundo Leandro Narloch, autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, a Independência brazuca não foi um jogo de cartas marcadas, nem tampouco um ato de heroísmo libertador, mas um blefe. A contragosto, D. Pedro proclamou independência por pressão dos súditos brasileiros, sem guerra, e sem a maior parte da sociedade dar bola. A bela pintura de Pedro Américo “O Grito do Ipiranga”, com o príncipe português de espada erguida, me parece outro blefe, a figura forjada do herói no cavalo.

Como vimos, fatos históricos são, historicamente, não necessariamente fatos, por vezes apenas blefes, daqueles descarados e com poucas chances de passar. Mas no poker, blefes também são fatos, e como estamos falando de história e fatos, aí vai uma parada, com 7, em setembro, espadas e reis:

Há poucos dias, no clube de poker Owls, cravado no bairro histórico do Ipiranga e próximo do córrego de mesmo nome, mais um torneio daqueles de buy in acessível à maioria, reinaugurando o espaço que já estava apinhado de jogadores. No pano, um sete de espadas no flop forma um middle pair que encontra odds para o call, e vemos o turn em check/check. O river dobra a high card do bordo, e puxamos um bom pote depois de um call de Rei high do vilão. É, se de um lado se pode jogar com qualquer tipo de lixo razoável, o contra-ataque é fazer o mesmo. Num torneio de blinds rápidos, o importante é se mexer, jogar mais poker e menos baralho.

Sabendo disso, o vilão tratou de se mexer, fazendo observações em cada jogada, como se estivesse avisando para toda a mesa, o padrão de jogo percebido. Outro bom contra-ataque, afinal, especulação é poker também, e tal como a história, um ponto de vista.

Na tentativa desejável de ser inexplorável nas mesas, e depois de alguns pitacos do vilão, era preciso mudar de estratégia, jogar mais baralho e menos poker. A escolha foi ruim, deixamos de lado a independência, e começamos a jogar “dependência e sorte”, ou seja, depende-se primeiramente de cartas, e quando as pilhas vão abaixo, só resta a sorte, que nem sempre se apresenta. Assim, uma fatiada nos levou à eliminação, e o grito do Ipiranga dos feltros foi um all in na mão seguinte. Mas a fortuna, não a boa sorte, mas a sina, triunfou. O jeito é curtir o feriado.

 

Fonte: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Editora LeYa) – Leandro Narloch. Imagem: O Grito do Ipiranga, pintura de 1888 – Pedro Américo (domínio público)

Call

No centro do clube há uma mesa elevada sobre um palco acima dos olhos, contornada por luzes, aparelhada com cadeiras confortáveis, embaralhador automático, hole cams, diretor e floor, e um dealer comandando tudo. Isso faz com que a mesa não seja vista em sua totalidade, mas apenas em partes por uma grande e crescente plateia.

O efeito esperado é conseguido, o destaque para a mesa principal, e a chance de não vê-la, faz com que todos nutram interesse e queiram assistir e participar. Contudo, nessa mesa jogam poucos, a seleção é criteriosa, é preciso ser convidado, legitimado. Jogadores em alternate raramente são chamados, pois os assentos livres estão reservados. Além do que, nessa mesa apenas se joga de um jeito um jogo previamente combinado, conluio tácito, descarado apenas para poucos que somente por estarem longe o suficiente da mesa, conseguem decifrá-lo.

Para esses poucos, cartas não têm naipe, fichas não têm valor, e fica perceptível que e a cada aposta o pote aumenta, mas ninguém puxa. Assim, todos à mesa são não-ganhadores, o que gera o paradoxo do jogo, onde ninguém pode ser derrotado ou eliminado. Mas há uma escolha, você pode comprar sua entrada na mesa cobiçada, basta pagar mais no rake do que no buy in, o que descaracterizaria o jogo, o que não teria graça, e se mesmo assim você decidir entrar, um pensamento prevalecerá: dar um call que de tão pequeno não tem como não ser dado ou foldar frente a derrota evidente. O que escolher se quem está na mesa nunca perde?

Enquanto isso, o dealer distribui as cartas sorrindo, fazendo parecer que o jogo continua normalmente, com regras que se desconhece, com o mesmo flop de sempre e rodadas que nunca chegam ao river, numa mesa onde o jogo ocorre apenas por encenação.

 

Imagem: Bruno Teramoto (editada)