A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

Crítica do documentário Nosebleed, e o esforço conjunto dos usuários do MaisEV


Ative as legendas clicando no ícone na barra do vídeo

Nosebleed é o documentário do diretor Victor Saumont, lançado independente e com recursos próprios, que retrata dois jovens jogadores franceses de cash game high stakes movidos pelo desejo de conquistar um bracelete na World Series of Poker. Alex Luneau e Sebastien Sabic são os protagonistas apresentados logo no início do filme num apartamento em Londres, jogando milhares de dólares no poker online, ao que parece, da cozinha de casa.

noseLuneau e Sabic olham para o poker de forma bastante realista, falam do início de suas carreiras e o que os levou para os mixed games, e mostram que mesmo nos limites mais altos, sempre há espaço para contar uma parada, reclamar da jogada dos parceiros, e comemorar um pote. Ambos são, apesar de terem 27 anos, veteranos do universo restrito dos high stakes, e perder e ganhar quantias milionárias é corriqueiro. Como consequência disso a atmosfera que envolve os franceses é a de que nada os afeta de fato, o que pode aparentemente mostrá-los como dois jovens metidos, mas ao que parece, não é esse o ponto. Para usar um termo em francês, a indiferença deles em relação a tudo que os circunda confere aos dois um ar blasé, talvez por isso o pouco ânimo e a expressão de tédio. Nesse sentido, a vida de ambos parece ser uma espera por um fish na mesa, e seja na parede de escalada, no treino de boxe, na balada ou nos inúmeros e caros jantares, o tempo fora do poker é espera. As vigílias que eles se referem na época em que Hansen e Isildur doavam uma boa grana nas mesas de cash ilustram bem esse ponto.

É por isso que a busca por um bracelete se torna a busca pelo que falta, algo pelo que batalhar, o que trará um prestígio ainda não conquistado, um sentido. Mas ao longo do documentário os hábeis jogadores de cash se deparam com uma barreira ao disputar os eventos da WSOP, mas esta barreira não é falta de capacidade, é a confirmação da natureza única dos torneios, uma maratona que por vezes pune um poker bem jogado. Contudo, as palavras de Luneau são contundentes, há alguma coisa de especial, um adrenalina quando se alcança a mesa final. Por isso, o ponto forte do filme está em evidenciar uma realidade pouco mostrada pela mídia do poker, em Nosebleed, o real sobrepõe as visões idealizadas da propaganda do jogo, e é desta forma que o documentário retrata com êxito os bastidores e tenta explorar a essência do poker.

Há passagens interessantes no documentário, como por exemplo quando Luneau cita o jogador Davidi Kitai, que segundo ele construiu um estilo de jogo todo baseado em tells, de forma a fazer um jogo que beira o perfeito. Ou quando Luneau conversa com o compatriota Bruno Fitoussi, e fala que foi bom o período que passou na Tailândia, mas que depois de um tempo é bom voltar para vida real, ainda que sua vida real possa parecer irreal para a grande maioria dos jogadores. Noutro momento, Luneau está reunido na recepção do hotel com alguns amigos, incluindo Sabic, e faz uma brincadeira entre as odds de morrer contra as odds de vencer o ME da WSOP. E a melhor passagem de Sabic está na parte final do filme, quando durante uma caminhada, fala de como vê o jogo e do apelo de mercado que os torneios têm.

De outro lado, o escárnio direcionado principalmente à Gus Hansen chega a ser demasiado, não apenas nos momentos em que o Great Dane é citado com deboche repetidamente pelos franceses, mas exatamente na hora em que, durante a WSOP de 2014, Hansen não recebe atenção ao se aproximar de Luneau, que está disputando um evento da série. A imagem nesse momento diz mais que as palavras, e a filmagem segue com Gus indo de um lado para o outro, e depois sentando numa mesa vazia. Na tomada seguinte, uma rápida aparição do dinamarquês, pra confirmar que na cadeia alimentar do poker, alguém precisa perder, e por vezes, muita grana. Curioso notar também que Hansen, apesar de ser o fish preferido da dupla francesa, ganhou um bracelete da WSOPE, justamente o que Luneau e Sabic almejam.

Aparte disso, é importante lembrar que a versão do documentário traduzida para o português foi um esforço conjunto dos frequentadores do fórum MaisEV, que fizeram uma vaquinha para custear o trabalho de tradução executado por Airton_Neto e luigibr. Posteriormente, em comum acordo, todos optaram por liberar o vídeo gratuitamente, e não mantê-lo restrito apenas para quem contribuiu. A versão legendada em português está criteriosa e bem feita, principalmente porque os tradutores entendem do assunto e optaram por usar termos comuns que usamos aqui no Brasil para falar do jogo, sem forçar traduções literais. O vídeo tem sido compartilhado e publicado em alguns sites, mas poucos se atentam em dar o crédito. O Pokerdoc mencionou, e fica aqui também registrado.

hansen1euroE para quem gostou da iniciativa de Victor Saumont e de seu documentário, doações podem ser feitas para o diretor nesta página. E saiba você que até Gus Hansen doou, apenas um euro, talvez seja a forma que ele encontrou de devolver o escárnio, depois de ser o coadjuvante mais falado do filme.

 

 

Fontes: Pokerdoc, Fórum TwoPlusTwo, Fórum MaisEV, WSOP.com. Créditos: Nosebleed de Victor Saumont no YouTube, legendas em português por Airton_Neto e luigibr do MaisEV.

As camisetas de Busquet e Colman no EPT Barcelona

Em 2011 estive nos salões do Rio Casino para disputar um dos eventos da WSOP. Foi a primeira vez que vi garotos de vinte e poucos anos, com roupas casuais e de chinelos, e que acordavam no final da manhã fazerem do poker seu modo de vida, sua profissão. Foi uma imagem libertadora.

No poker você se depara com tipos diversos de pessoas, que movidas pelo jogo, se esforçam em respeitar as diferenças, ou pelo menos entendem que é preciso fazer isso, pois pegar bronca do cara ao lado só vai estragar seu desempenho. São pessoas diferentes, visões diferentes de mundo, opiniões diferentes. Uma pena que um ambiente como este, que exercita a tolerância e é tão propício para o entendimento e a reflexão, seja somente norteado pelo interesse comercial.

Poker é um mercado que cria herois, e justamente pelo mesmo motivo, anti-herois. Os herois têm bastante certeza de suas opiniões, promovem o jogo, e entendem que a autopromoção é um valor a não ser desperdiçado. Anti-herois, bem, esses você conhece, são os vilões do mundo do certo e do errado, que dessa vez estavam em uma das mesas finais do EPT Barcelona.

Olivier Busquet, campeão do Super High Roller, e seu adversário no heads-up Daniel Colman, vestiam camisetas com os dizeres Save Gaza e Free Palestine (respectivamente), evidentemente tomando suas posições sobre o conflito Israel/Palestina, que há décadas assola a região. Ao menos, até mesmo aos desavisados, as mensagens estampadas poderiam gerar algum tipo de curiosidade, ou chamar a atenção para o assunto, afim de gerar mais compreensão e menos julgamento, mas o fato é que a situação gerou desconforto (confira aqui, na reportagem do PokerDoc).

Após a repercussão negativa do ocorrido, o Pokerstars se arrependeu publicamente de ter permitido os trajes com as mensagens. Perdeu também a oportunidade de reafirmar a tal liberdade de expressão, mas é claro que a maior empresa de poker online do mundo vai querer se distanciar desse tipo de assunto, não? Além do que, o senso comum defende que o Pokerstars tem direito de vetar manifestações “políticas“ em seus torneios.

E tem, mas não é exatamente um direito, é somente uma escolha. Parece que é melhor para o poker jogadores sem muita opinião, então, aproveite enquanto é possível andar de chinelos nos salões dos torneios.

 

Fontes: Pokerfuse e PokerDoc

Considerações sobre a polêmica de Daniel Colman no One Drop

Sobre a declaração de Colman

Daniel Colman poderia ter falado com a imprensa após a vitória, e se dissesse o que queria, possivelmente não seria mostrado da forma que desejava. Por isso quando ele opta por responder pelo canal que julga independente e mais próximo dele, o fórum de poker Two Plus Two, ele quer garantir a qualidade e a totalidade do que deseja falar. É principalmente para quem pensa o jogo que ele está falando.

Aparte o conteúdo de seu discurso, que pode ser interpretado de diversas maneiras, e colocado de uma forma maniqueísta que divide as coisas apenas como certas ou erradas, o importante é que sua reação trouxe para a superfície um assunto que o mercado não lida muito, e esse parece ser seu grande mérito nisso tudo. Se sua posição é boa ou não, o relevante é o fato de ter detonado a discussão.

 

Julgamentos e argumentações

É tão inadmissível para os que promovem o jogo aceitarem a argumentação de Colman, que a única estratégia de contra-ataque possível à eles é desmerecer o adversário, julgando-o como imaturo, criança petulante, muito jovem, hipócrita, controverso e impreciso demais. E é assim que o ponto fundamental da discussão, que é o formato pelo qual se promove o jogo, é deixado de lado, e a maioria das reações ficam pautadas pela ótica da grana, da culpa por tê-la e da redenção presente no ato de transformá-la em altruísmo. Se você não aceita levar vantagem num jogo cruel, então devolva todo o dinheiro, ou reverta para quem precisa, é o que dizem dos fóruns de poker e comentários nos blogs.

Seguindo essa linha de argumentação, porque então os demais jogadores não fazem o mesmo e revertem seus ganhos para a grande maioria que perde no jogo? Afinal ninguém discorda que a maior parte dos jogadores não é vencedora. É por isso que essa defesa parece fraca, e deixa a discussão estagnada, numa busca por quem está certo ou errado, tentando passar a culpa de um para o outro. Não se sabe se Colman ou Negreanu ajudam a alguém ou a alguma instituição, mas isso não altera essa perspectiva do jogo, afinal os mais preparados vão continuar ganhando, e a propaganda vai continuar sendo feita para atrair mais e mais praticantes.

 

O lado sombrio

Não é porque diversas outras atividades têm em comum com o poker o tal lado “sombrio” que temos que deixar de discutir o jogo e o mercado, e ao que parece, não é esse o ponto quando Colman critica a cultura do ego e do sucesso, e principalmente a propaganda do jogo. Em nenhum momento ele falou alguma mentira, tanto é que não se pode negar o que ele disse, só resta procurar entender sua atitude e discutir o assunto. Mas o caminho comum é o julgamento. Os organizadores sempre vão promover o jogo transformando-o em espetáculo, mas as mídias podem fazer mais mostrando as realidades que permeiam o poker.

 

A resposta de Negreanu

Negreanu claramente concorda em partes com Colman, mas seu pedido direto para o campeão do One Drop passa a mensagem velada de que há uma verdade maior a ser seguida, de forma a abrandar a discussão e terminar logo com a polêmica, afinal ele é apenas um garoto de 24 anos, e possivelmente não sabe o que está fazendo. Só que grande parte das pessoas que não são mais tão jovens quanto Colman parecem ter percebido com sua “experiência” que é mais importante dar manutenção à um sistema que fazem parte do que discutir ou considerar seu discurso. Colocar em pauta esse e outros diversos assuntos é informar e gerar não apenas jogadores mais pensantes sobre sua atividade, mas também um mercado mais preparado.

O que está se perdendo de vista é que independente do formato da comunicação ou dos aspectos presentes no poker, sempre haverá um mercado e alguém o explorando, mas talvez apenas Colman tenha uma inclinação, perceptível em suas palavras, de que o mais importante é a forma com a qual lidamos, interpretamos e nos posicionamos no poker. Isso é ser crítico, e não hipócrita.

 

Links importantes para a discussão

Reportagem do Pokernews (em inglês)
Reportagem de Case Keefer no Las Vegas Sun (em inglês)
Declaração de Colman no Two Plus Two (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Colman
Opinião de Thiago Pessoa no Quero Ser Shark
Artigo de Naccarato no Metapoker sobre a atitude do campeão
Tópico no fórum MaisEV
Metagame especial WSOP com Sergio Prado e Vitão Marques
Resposta de Daniel Negreanu (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Negreanu
Opinião de André Akkari
Opinião de João Simão
Opinião de Vitão Marques
Vitão entrevistando jogadores sobre a polêmica

Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água

Daniel, não o tão esperado Negreanu, mas seu adversário, cravou o torneio de poker de buy-in mais estratosférico da WSOP deste ano. Afora todo o torneio, as jogadas, mãos decisivas e  eliminações, o assunto mais contundente após a cravada foi o comportamento do campeão em relação à imprensa, se negando a ceder entrevista e alheio às fotos e poses esperadas. Para se interar do ocorrido, recomendo a reportagem do Pokerdoc, que conta com a resposta do campeão sobre a polêmica, e que você pode ler clicando aqui.

Na ótica de quem promove o jogo, Colman não pode se abster de participar da promoção estimulada pela imprensa, não pode parecer contraditório ou conflitante, pois julga-se que tal atitude é falta de posicionamento, ou pelo menos uma forma imatura de posicionamento. Contudo, a imaturidade veio do lado de quem critica.

Por sorte, Colman permanece em dúvida, pois através dela é possível ponderar sobre o mundo ao redor e dar mais um passo em direção ao entendimento, considerando as inúmeras realidades e visões intrínsecas ao jogo. Colman não precisa dar manutenção ao espetáculo que não criou, e escolheu veementemente não se utilizar desse canal para tanto. É desta forma que seu não discurso se torna discurso.

Importante perceber nesse mesmo discurso, que a racionalidade que Colman encontrou no poker, a mesma que o atrai e faz com que ele permaneça no jogo, se tornou parâmetro para a própria crítica ao mercado, visto que a propaganda da indústria do poker está majoritariamente voltada para o apelo emocional na busca por novos praticantes.

Talvez ele não careça dos tão almejados louros da vitória, ou de todo o status e exposição envolvidos numa conquista cobiçada e representativa como esta. Talvez ele não precise se jogar em frente aos holofotes deflagrando sintomas de alguém que está perdido e carente de qualquer tipo de atenção, ou não queira capitalizar qualquer outro valor além da vitória em si.

Colman com sua opinião, em tempos onde não se deve emitir opinião, torna-se o não heroi do poker (e não o inimigo), pelo simples fato de que não há nada a ser salvo senão nossas próprias relações em sociedade e a necessidade de reflexão há tanto deixada de lado. E falando nisso, se ele não deve nada ao poker, como disse em seu post no Two Plus Two, o poker deve à ele uma pausa para reflexão.

 

Créditos: Pokerdoc, e post original em inglês de Colman no fórum Two Plus Two. Foto: Shutterstock

Por uma perspectiva feminina no poker

Em junho do ano passado eu estava em Las Vegas, durante a WSOP, e aproveitava o intervalo de torneios noturnos da cidade pra me enfiar nas mesas de cash $1/$2 do Bally’s, algo que fiz repetidas vezes nesse cassino que nos hospedou. Em todas as noites que estive lá apanhando do baralho, notei dois jogadores regulares que faziam sessões longas e sempre saiam com dinheiro no bolso. Eram duas mulheres, uma mais jovem, sempre acompanhada pelo seu pai, também jogador, e outra, de origem oriental, mas provavelmente norte-americana.

Por três vezes presenciei a jogadora oriental como pivô de situações desconfortáveis e seguidas de bate-boca. Numa dessas, um senhor de estilo cowboy não poupou xingamentos depois de perder mais um pote pra ela. A falta de respeito foi logo coagida pelo floorman, mas mesmo assim ela continuava ouvindo insultos do “cavalheiro” a cada órbita. Pouco antes, ela tinha ganhado uma mão num spot confuso por conta de alguém ter mostrado as cartas antes do tempo, o que gerou os primeiros comentários negativos do cowboy, sempre atrelados ao fato da jogadora ser mulher.

Este é um exemplo do que ainda acontece, é incomum, é um extremo, mas serve para demonstrar um aspecto anterior, que é o estereótipo de que a mulher é sempre desatenta, não utiliza a lógica tanto quanto os homens, joga de forma emocional, joga na intuição. Uma mulher é café com leite, ou joga menos que você até o momento em que puxa um pote seu, e aí, quando isso acontece, a conclusão é que ela deve ter feito uma jogada errada e injustificável, ou em último caso, deu sorte. Este é parte do montante de características que refletem a ideia pronta do que é ser uma mulher nas mesas, mesmo sabendo que essas características estão presentes em ambos os gêneros. E assim, evidentemente, a repetição desse discurso o torna parte da verdade, senão toda ela.

O que incomoda é perceber que há uma inversão na forma como se coloca a questão, onde o fato de ser mulher pressupõe o estado das coisas. O poker é uma atividade de maioria masculina, onde o discurso dominante se apóia na técnica. Se um homem comete um erro por jogar de forma emocional, ou se ele perde o controle, isso se apresenta como uma falha, algo para ser corrigido. Porém no mesmo caso, se for uma mulher a cometer o erro, a diferenciação é automática, como se a capacidade feminina em lidar com aquilo fosse reduzida.

Esse é o erro de compreensão proveniente de um sexismo velado e presente no mundo do poker. Na medida em que se categoriza a mulher negativamente como um jogador diferente, os problemas delas também parecem ser diferentes, e seus erros identificáveis como típicos das mulheres. Ninguém identifica e destaca uma boa jogada feminina, apenas uma boa jogada, por outro lado, erros femininos são destacados como típicos.

Desta forma, o problema não está no fato dessas características estarem presentes e notáveis nas mulheres, o problema é que tomar isso como algo natural retira a possibilidade de discussão desses temas, afinal é algo considerado “normal”, não passível de questionamento.

Por isso é cada vez mais importante num jogo em expansão como o poker, que as mulheres se manifestem e gerem representatividade. Se a falta de mulheres é observada nas mesas, sua falta opinando sobre o mundo do poker também é notada. Felizmente temos iniciativas como o Barbarella Poker e a coluna Mulheres no Feltro da Khatlen Guse, o blog da Camila Kons no MaisEV, o PokerGirls, e o recém lançado Queens of Poker, um espaço dedicado às mulheres e fruto do entusiasmo de Mercedes Henriques, Jessica Camargo e de Lizia Trevisan, que inclusive foi entrevistada pela Khatlen em sua coluna no site da CardPlayer (clique aqui para ver).

Mais do que a presença feminina nestes espaços, é fundamental que a visão delas sobre o jogo também esteja na mídia, pois se existe a diferença de gênero, é ela que ajuda a ampliar nosso entendimento de como o jogo se dá. Esta representatividade pode ser um elemento forte na compreensão da participação feminina no poker, pois elas ainda precisam lidar com a intimidação dos adversários nas mesas (refiro-me ao seu formato simbólico, que é elemento de estudo sociológico), e são subestimadas e alvo de preconceitos, como a Lizia apontou no artigo Poker, mulher e preconceito. Outra frase impactante é a de Vanessa Selbst, reconhecida jogadora norte-americana que afirmou que no mundo do poker nunca sofreu preconceito por ser gay, mas sim por ser mulher, confira aqui.

Lizia, Mercedes e Jessica, do Queens of Poker
Lizia, Mercedes e Jessica, do recém lançado Queens of Poker

Do mesmo modo, jogadoras com mais experiência usam os estereótipos a seu favor, e lidam com esses obstáculos de forma peculiar, como se pode notar nesse texto da Carol Ventura para o PokerGirls. Contudo jogadoras que alcançam grandes premiações em torneios ainda precisam afirmar o óbvio, que podem jogar em pé de igualdade com os homens, tema explorado na entrevista que a jogadora Milena Magrini deu para o PokerDoc.

Você pode até falar que a quantidade de boas jogadoras é pequena se comparada com o mesmo montante masculino, ou até se basear em amostragem para concluir que na média as garotas precisam melhorar, mas isso não muda a perspectiva dessa questão, pois essa verificação está ligada diretamente à mesma inversão citada acima, onde as características tidas como negativas para o jogo precedem e bloqueiam qualquer novo entendimento. É como se utilizar de uma estatística para validar um argumento pré-estabelecido.

A massificação do poker ainda não passa pelas mulheres, elas são exceção. No site oficial da WSOP, os buy-ins feitos por mulheres na edição 2013 chegaram a pequena fatia de 5,1%, e no Brasil esse número é ainda menor, o Ladies Event da 1.a etapa do BSOP teve apenas 39 entradas, e a participação feminina no main event é muito pequena, na ordem de menos de 4% segundo o site PokerDoc, na própria entrevista da mesa-finalista Milena Magrini.

Ainda assim, há um novo contingente de boas jogadoras, que a exemplo de nomes como Alê Braga e Larissa Metran, se destacam, pois além do talento, têm oportunidade de trocar impressões e aprendizados com outros jogadores, seja porque estudam mais o poker, fazem cursos, estão mais inseridas na comunidade ou por conta de seus laços pessoais como namorados, maridos e amigos. Elas penetraram neste ambiente e conseguem se desenvolver sem que seja necessário antes disso ser classificada como mulher. No momento em que jogadores e jogadoras são tratados em pé de igualdade, a diferenciação perde seu sentido.

O poker como esporte está em face de uma grande oportunidade, pois em sua essência tem um caráter agregador e plural, pois não faz distinção, e por isso é convidativo. Nesse sentido, os torneios exclusivos para mulheres, os sites e os blogs escritos por elas não parecem ser o outro lado da moeda do sexismo, mas buscam ser um convite para que elas ingressem no poker.

Ainda há poucas garotas no pano, e se for preciso existir uma resposta para isso, a investigação tem que começar necessariamente por elas, e não vir de estatísticas e preconceitos. Talvez a maioria das mulheres simplesmente não goste, ou não considere o poker como uma atividade que as agrada. Se há poucas mulheres, talvez seja porque a mecânica do jogo não desperte o mesmo tipo de fascínio e sentido que têm para os homens, ou não carregue em si o tipo de ação que elas procuram.

Se o poker necessita atrair mais praticantes, o que é assunto para outro artigo, o caminho está na forma com a qual ele atende as necessidades e os questionamentos dos jogadores, sendo mulheres ou não.

 

Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal (Lizia Trevisan). Fontes citadas: WSOP, Queens of Poker, Metro, PokerGirls, Barbarella Poker, MaisEV, Pokerdoc e CardPlayer Brasil