Uma análise sobre a nova grade do Pokerstars

Após jogar por mais de um mês com a nova grade, passar pelo SCOOP e juntar tudo isso com minha experiência de vários anos se dedicando a ter uma boa perfomance na arena do poker online, posso e devo fazer novamente comentários sobre as decisões da empresa Amaya/PokerStars.

Nós, como jogadores de MTT, fomos os últimos a serem afetados pelas novas diretrizes dessa companhia. Por um momento achávamos que seríamos poupados e tudo continuaria igual a antes. Eu preciso dizer pra vocês que nada ficou igual a antes. Podemos facilmente comparar as ações recentes do PS, e suas consequências, com as consequências que tiveram a Black Friday. Muitos e muitos players vão ficar sem chão pra trabalhar pelas medidas adotadas pela empresa. Claro que isso não vai ficar tão aparente num curto prazo, como foi quando o país com mais jogadores caiu fora do mercado de forma repentina, mas já está aparecendo nos garantidos, nos torneios disponíveis e nos payouts.

Relacionado a torneios, praticamente tudo piorou:

  1. Estruturas pioraram. Jogamos menos mãos a cada torneio, temos menos decisões difíceis e temos menos retorno por decidir menos. Vocês acreditam que eu já cheguei a jogar 10 mil mãos em apenas um domingo? isso foi meu recorde, mas em geral jogava de 7 a 8 mil mãos por domingo. Agora, mesmo se começo bem cedo, o que pra mim é ali pelo meio dia, acabo o domingo jogando de 5 a 6 mil mãos. O PS conseguiu eliminar 1/4 das minhas decisões e provavelmente esta levando uma quantidade similar de rake da minha conta! Não foram os outros sites que diminuiram a ação. Well played.
  2. Com a bagunça irresponsável que fizeram em todos os torneios, mudando-os de horário, alterando buy ins e transformando-os na maioria em turbos/hypers ou progressivos knock out, conseguiram despencar todos os Garantidos, atraindo progressivamente menos jogadores.
    Eles não sacaram que cada pessoa era apegada a um determinado torneio, naquela hora do dia, com aquele buy in. A grade anterior foi sendo moldada ao longo de vários anos, e tinha clientes específicos pra cada faixa de horário e buy in. E não me digam que a desculpa é a WSOP. Não é! Já estava ocorrendo antes mesmo da WSOP começar.
  1. Retiraram muitos torneios de extremo valor para os jogadores, aqueles que eram o ganha-pão dos low e mid stakers. Vou dar um exemplo, na faixa de horário das 17 até às 19 horas tínhamos estes torneios (que consigo me lembrar):

– Big 162, obviamente a mudança de buy in de 162 pra 215 não foi um sucesso. O torneio é muito inferior em clientes que o anterior.

– Turbos que eram torneios limpos, digo isso porque não eram progressive KO, nao eram hypers, tinham bons garantidos e conseguiam nos piores dias pagar de 2 a 3 mil dólares para o campeão: Hot 16, Turbo 16, Turbo 27, 55 Turbo 6max, 109 Turbo 9max, 27 Hyper (2x), 11 Turbo.

– Eliminaram da grade a estrutura de 1 rebuy e 1 add on, uma das melhores estruturas do site, com rake mais baixo e grande jogabilidade. Tiraram o 109 1r1a e colocaram um 109+R Turbo, com rake em todos rebuys e add ons! Que agora mal consegue juntar 20 cabeças em dia de semana. Piada!

– Havia diversos $5 2r 1add, havia também alguns bons que eram com knock out e progressivos, mas não eram exagerados, pois não ocupavam toda a grade da tarde. Como eu não jogava os low stakes, não sei o que rolou tanto por lá. Eu sei que, relacionado a satélites, a coisa também foi muito afetada, muitos sumiram sem reposição. Total falta de resposabilidade de quem sacou a grade anterior e teve preguiça ou má fé de repor a grade nova com tudo que a anterior oferecia.

Eu te garanto que esse novo conjunto de torneios, nessa faixa de duas horas, comparado com os anteriores (e não é exclusividade dessa faixa, são em todos os horários) vai contra os jogadores e o ecossistema do poker.

Pra continuar, deixe-me falar sobre os torneios que são progressivos knock out. Deixe-me te dizer que estes torneios são apenas torneios com RAKE MAIS ALTO, disfarçados no modo “divertido” Progressive KO. Mas, vou explicar essa minha declaração futuramente, em outro post. Tenho uma boa dose de confiança que estou certo nessa afirmação.

Mas, e não teve nada de bom, João? Os torneios novos em azul não são ótimos? Os torneios novos são ótimos, mas isso não merece elogios, por conta de todo o movimento retrógrado que a empresa fez. Adicionar alguns torneios não vai compensar todo o resto que fizeram contra nós. Nem de perto. O que então eles tão querendo fazer? A resposta é muito simples, mas é preciso apreciar todas as mudanças que eles já fizeram e analisar de forma holística. Aí a resposta vem bem clara.

O que eles querem evitar, como uma estratégia mais ampla de empresa, é que jogadores mais fortes se sobressaiam sobre os mais fracos de forma muito rápida. Por isso que:

  1. Acabaram e mentiram sobre o programa SUPERNOVA ELITE;
  2. Por isso que mataram os HIGH STAKES cash games, eliminando o rake back e eliminando certos jogos;
  3. Por isso que colocaram tantos Progressives KOs e transformaram tudo em hyper e turbos;
  4. Por isso que tiraram tantos dos torneios mais deep e mais jogáveis de mid e low stakes, evitando que as decisões de certos jogadores se sobressaiam financeiramente sobre os outros.

Através destas estratégias, a idéia seria manter o dinheiro com os jogadores mais fracos por mais tempo, até que a casa possa, através de cobrança de rake agressiva, Spin & Go’s, jogos de cassino e apostas esportivas, rapar o bankroll destes, antes que eles percam para o pool de jogadores de poker em torneios justos e equilibrados, onde cada parte envolvida tenha chances decentes e também diversão no processo.

Tenho mais a dizer sobre isso. Vou manter vocês informados sobre as últimas ações da Amaya contra a comunidade do poker. Como estou sem tantos torneios decentes pra jogar, então posso escrever no facebook, né?

 

Texto publicado originalmente na página pessoal do jogador. Imagem: welcomia/Shutterstock.com (editada)

Por fim, a regulamentação do poker

O poker no Brasil cresceu mais até que na maioria dos países, chamando a atenção das autoridades. Chegou-se no ponto do vai ou racha. Mais cedo ou mais tarde teria que ser ou legalizado e regulamentado, ou poderia ser proibido. O Brasil atravessa uma situação de crise moral e fiscal graves, e nas crises é que surgem as oportunidades. Quando se estuda maneiras de arrecadar mais taxas, impostos e tributos, se coloca para escanteio os princípios de falsa moralidade que não permitia a regulamentação de jogos de azar.

O caminho que se estava desenhando, e que talvez ainda pode ser o escolhido, é de se regulamentar o jogo de azar, e o poker poderia ser incluído nessa regulamentação. Por ironia, apesar de defendermos que o poker não é jogo de azar, teríamos que admitir que seria um jogo de azar para ser regulamentado.

Como seria essa regulamentação? Os focos principais seriam a tributação e a fiscalização contra lavagem de dinheiro. Os projetos que já tramitavam no congresso, previam a possibilidade de liberar o jogo em cidades turísticas. Esse caminho não interessa aos atuais empresários do poker live. Vejo que a alternativa que a CBTH está buscando no lado esportivo é um projeto paralelo que fugiria dessa regulamentação do jogo de azar e manteria o status quo.

Há mais benefícios com a regulamentação do jogo de azar e do poker live, do que continuar meio que na clandestinidade. Os benefícios da legalização dos jogos de azar, inclusive o poker, seriam: maiores investimentos, geração de emprego, renda, impostos em benefício da sociedade e economia de divisas propiciando turismo interno. Para o poker live, seria bom para os empregados do setor, para os jogadores se organizarem, para a criação de times em empresas jurídicas para pagarem menos impostos, melhor aceitação da sociedade aos jogadores etc.

Sei que olhando para o nosso umbigo de grinder, vamos ter que pagar taxas e impostos, que hoje conseguimos muitas vezes omitir, mas é o preço a ser pago. Qual o caminho que vai ser escolhido não se sabe, mas creio que serão dias melhores. O que a galera está mais preocupada é o que ocorreria com o online. Será que vão restringir a liberação aos jogadores domésticos? É uma possibilidade. Acredito que vão regulamentar o jogo em sites internacionais como é hoje, porém cobrando impostos e uma fiscalização mais rígida com as transferências internacionais.

Não é o fim do mundo galera, creio que todos continuarão jogando como hoje, mas pagando um tributo obrigatório.

 

 

Imagem: blablo101/shutterstock.com (editada)

Ao defender o poker online, Tim James expões as contradições de Sheldon Adelson. E as próprias?

O discurso moralista de Sheldon Adelson contra o poker online é conhecido. Possuidor de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos, o dono do complexo que compreende os cassinos Venetian e Palazzo, em Las Vegas, defende que “atividades pecadoras” tais como o jogo valendo dinheiro (uma das sin activities, como ele denomina), devem ser controladas, e ele acredita que num cassino físico isso é possível, enquanto que no ambiente online não. O principal ataque de Adelson ao poker online é que não se pode verificar com segurança se menores de idade estão jogando, ou se está se jogando com responsabilidade, de forma que é difícil proteger cidadãos e principalmente menores dessas atividades. Para ele, somente num cassino físico há condições de uma atividade regulamentada.

Tim James, jogador de poker, resolveu expor as contradições de Adelson criando o documentário Sheldon Adelson Exposed, no site The Tim James Show, uma undercover story, como ele define, que parte das premissas de Adelson para mostrar que tudo aquilo que o dono do Venetian condena, acontece no interior de suas propriedades. James denuncia o que há de incongruente no discurso de Adelson logo no teaser do documentário, mostrando a presença de menores de idade jogando e circulando nas áreas do cassino, inclusive consumindo bebidas alcoólicas. Para tanto, Tim James infiltrou menores de idade no cassino Venetian (nesse caso menores de 21 anos, proibidos pela lei do país de jogar), que portando documentos de identidade falsificados, conseguiram consumir bebidas e ter acesso às áreas de jogo. Confira abaixo o teaser trailer (em inglês).

Discutível, de ambos os lados. James se utiliza de menores portando documentos de identidade falsos, mas parece que isso não tem importância, afinal o resultado justificaria a atitude. Justifica?

A lógica ambígua de James fica clara quando ele tenta abrir uma conta no site wsop.com usando o documento de identidade falso, e evidentemente no cruzamento dos dados, o site não aceita o cadastro, fato que supostamente demonstraria que o ambiente online é seguro. Conseguir abrir uma conta sem ter idade suficiente é improvável, só que não é essa a prática, afinal, um menor tentaria com um documento real, válido, e jogaria no lugar da pessoa titular da conta.

Falsear a identidade (a sua ou um documento), a prática usada pelos jovens do documentário para burlar o cassino físico, também é vista no ambiente online, como por exemplo o chamado ghost, jogador mais bem preparado que nas retas finais toma o lugar do dono da conta (o podcast PosRiver abordou o tema no ano passado). Sem falar nos casos de multi-accounting, que voltaram a ser assunto depois das suspeitas dessa prática pelo profissional Brian Hastings.

Os argumentos de James parecem fazer sentido apenas em si mesmos, e sua abordagem aparenta como uma reação prevista na regra, pois não há surpresa reveladora alguma no documentário. Em ambos os lados, não há profundidade suficiente. Se a intenção dos ataques de Adelson é não perder mercado para os cassinos online, ou se James procura defender o poker online trazendo à tona uma “verdade”, não há por parte dos dois uma disposição para discutir o assunto, apenas um discurso reduzido pelos interesses de cada um, apresentados como um interesse comum a todos.

É a lógica do “atacar para se defender”. Mas, no momento que ambos defendem suas visões (onde supostamente estão atacando o rival), demonstram a própria fragilidade de seus argumentos. De certa forma, tanto James quanto Adelson atiram contra aquilo que defendem. Ora, partindo de ambos, se não é possível assegurar que menores não tenham acesso à “atividades pecadoras”, o caminho natural seria proibir tais atividades para todos, e nessa escalada em nome do que é preciso defender, o controle e as proibições se expandiriam até um ponto onde nada mais é permitido. Similar a ideia de que quando se está acuado, o medo é a reação norteadora das ações, e pelo medo continuamos atacando. O desejo de controlar, começa da constatação que vamos nos desviar, ou seja, não surge apenas porque desconfiamos do outro, senão porque temos certeza que somos capazes de cometer os desvios. É por isso que a balança para decidir sempre está em nossas mãos, mesmo quando o critério parece ser externo.

Portanto, construir um caminho para lidar com esse tipo de questão começa consigo, é deliberar por si, e não agir apenas porque os outros estão olhado. Pra resumir, podemos complicar um pouco mais: Raramente se erra, quando se liga as ações extremas à vaidade, as medíocres ao costume e as mesquinhas ao medo. (Friederich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”)

Por sorte, neste jogo, não é preciso escolher um lado, mas escolher.

 

Fonte: site The Tim James Show. Imagem e vídeo retirados do mesmo local.

A variância da rotina

Nas altas horas, suando nos flips, o barulho irritante do tempo esgotando, o café já frio, o clique que escapa e dá call, o ferro que insiste em permanecer, o bet no draw, o check no redraw, fold. Cinco minutos para o banheiro, pensando no fold errado, o piranha na canhota que não pára de dar 3-bet, busca no OPR, turn blank, leva dois outs, pára de registrar, lamenta e dá call. Repete a música, deixando em looping, e o teclado recebendo o café frio, puta que o pariu! Pega um pano e folda KK, quatro telas piscando, chega a tempo de dar all in, é lixo mas segura. A manhã já dá as caras, um flush vermelho, aquele pote, aquela hora, puxa, faz tudo de novo, diferente.

Poker gourmet, ou melhor, poker fetiche

Fala-se de poker de muitas maneiras, na conversa entre amigos, na mídia em geral e na especializada, entre quem vive do jogo e os que não sabem exatamente do que se trata, alguns com certa reserva, alguns assombrados pelos jogos de azar, enfim, cada um fala de um poker, e o entende à sua maneira, por vezes, até repetindo o que ouvem. Tantas são as formas de ver, que pudera, o formato ao final, acaba sendo mais importante do que o conteúdo nos dias de hoje. Não à toa, se temos ultimamente algo tão consagrado no mercado é a gourmetização de qualquer produto, e porque não, de uma ideia ou conceito. O brigadeiro de padaria dobra de tamanho e é vendido por cinco vezes o seu valor no shopping center, o cachorro-quente do final da balada se torna um food truck, e não tão distante, o já naturalizado selfie frente ao espelho da academia não é uma versão melhorada de si mesmo?

Se algo denominado gourmet é melhor, deixo para o seu gosto decidir, afinal a questão talvez não seja o produto em si, pois os novos brigadeiros parecem ser mesmo melhores, mas e o tal formato?

Quem não se lembra dos comerciais do PokerStars, muito bem produzidos e carregados de jogos de imagens repletas de conceitos e com uma trilha sonora matadora, abusando de conhecidos jogadores de poker, que outrora anunciavam we are poker! Dois ou três anos depois, o maior site de poker prefere Nadal e Ronaldo como garotos-propaganda, os jogos de azar virão com força nas plataformas online, e o slogan já carece ser reformulado… We are entertainment. E Ronaldo é melhor que Negreanu pra isso, impossível não perceber quem é mais conhecido, quem vai atrair mais gente pro gamble. Não é pra você, grinder, que eles estão falando, esqueça esse papo de team pro, eles já dispensaram a maioria, na nova gourmetização do poker o foco é atrair praticantes recreativos, que vão oscilar entre um sit and go e uma rodada de blackjack.

O gourmet não me parece um incremento no produto ou serviço, ainda que também o seja, mas exatamente um formato que faça com que você perceba esse produto melhor, ou que lhe chame mais atenção, um apelo de embalagem.

Agora que já temos uma nova, e cíclica, versão melhorada do poker, podemos seguir para o segundo ponto, o fetichismo. Dan Bilzerian, enquanto pateticamente não arremessa outra peladona telhado abaixo, é o fetiche que todo o poker pode produzir: belas garotas nuas, armas, iates, carrões e grana, muita grana, tudo aparentemente conquistado com o joguinho. Grana essa que pode tirá-lo da prisão e colocá-lo num jatinho particular. Uma matéria no site Terra fala da hispano-belga Gaëlle García Díaz, modelo e jogadora de poker, que afirma que joga alguns torneios com roupas sensuais afim de não ser eliminada pelos adversários. Segundo a reportagem, Gaëlle é “linda, ousada, tatuada e rica”. Fetiche puro.

Que baita moralismo chato, não? Não, não é isso ainda, não se trata de uma questão de certo e errado, já vamos chegar lá. Do outro lado temos todo um mercado, afirmando e reafirmando seu novo formato de poker, uma atividade esportiva, um esporte da mente. Um esforço pra tirar a pecha de jogo de azar, pra afastar de vez o tio viciado que perdeu a fazenda, e onde se pode ser um atleta dos feltros, e subir ao pódio segurando a bandeira. Nesse aparente paradoxo, vagas para o BSOP poderão ser conquistadas na roleta do PS? Contudo, o paradoxo é só aparente, tudo parece ser a mesma coisa, nivelada pelo formato.

Nada tão redutor quanto simplificar toda a complexidade do poker à um formato. Nada tão igualmente sedutor. Exatamente o que há de irresistível no formato, nos deixou com poucos recursos para refletir sobre o jogo. É como uma mão perdida antes de seu início, onde você segura par de ases, e sabe que aquilo é bom, mas não sabe o que fazer até o river.

 

Fontes: Terra e Canal do PokerStars no YouTube. Imagem: wavebreakmedia / Shutterstock (editada)

Crítica do documentário Nosebleed, e o esforço conjunto dos usuários do MaisEV


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Nosebleed é o documentário do diretor Victor Saumont, lançado independente e com recursos próprios, que retrata dois jovens jogadores franceses de cash game high stakes movidos pelo desejo de conquistar um bracelete na World Series of Poker. Alex Luneau e Sebastien Sabic são os protagonistas apresentados logo no início do filme num apartamento em Londres, jogando milhares de dólares no poker online, ao que parece, da cozinha de casa.

noseLuneau e Sabic olham para o poker de forma bastante realista, falam do início de suas carreiras e o que os levou para os mixed games, e mostram que mesmo nos limites mais altos, sempre há espaço para contar uma parada, reclamar da jogada dos parceiros, e comemorar um pote. Ambos são, apesar de terem 27 anos, veteranos do universo restrito dos high stakes, e perder e ganhar quantias milionárias é corriqueiro. Como consequência disso a atmosfera que envolve os franceses é a de que nada os afeta de fato, o que pode aparentemente mostrá-los como dois jovens metidos, mas ao que parece, não é esse o ponto. Para usar um termo em francês, a indiferença deles em relação a tudo que os circunda confere aos dois um ar blasé, talvez por isso o pouco ânimo e a expressão de tédio. Nesse sentido, a vida de ambos parece ser uma espera por um fish na mesa, e seja na parede de escalada, no treino de boxe, na balada ou nos inúmeros e caros jantares, o tempo fora do poker é espera. As vigílias que eles se referem na época em que Hansen e Isildur doavam uma boa grana nas mesas de cash ilustram bem esse ponto.

É por isso que a busca por um bracelete se torna a busca pelo que falta, algo pelo que batalhar, o que trará um prestígio ainda não conquistado, um sentido. Mas ao longo do documentário os hábeis jogadores de cash se deparam com uma barreira ao disputar os eventos da WSOP, mas esta barreira não é falta de capacidade, é a confirmação da natureza única dos torneios, uma maratona que por vezes pune um poker bem jogado. Contudo, as palavras de Luneau são contundentes, há alguma coisa de especial, um adrenalina quando se alcança a mesa final. Por isso, o ponto forte do filme está em evidenciar uma realidade pouco mostrada pela mídia do poker, em Nosebleed, o real sobrepõe as visões idealizadas da propaganda do jogo, e é desta forma que o documentário retrata com êxito os bastidores e tenta explorar a essência do poker.

Há passagens interessantes no documentário, como por exemplo quando Luneau cita o jogador Davidi Kitai, que segundo ele construiu um estilo de jogo todo baseado em tells, de forma a fazer um jogo que beira o perfeito. Ou quando Luneau conversa com o compatriota Bruno Fitoussi, e fala que foi bom o período que passou na Tailândia, mas que depois de um tempo é bom voltar para vida real, ainda que sua vida real possa parecer irreal para a grande maioria dos jogadores. Noutro momento, Luneau está reunido na recepção do hotel com alguns amigos, incluindo Sabic, e faz uma brincadeira entre as odds de morrer contra as odds de vencer o ME da WSOP. E a melhor passagem de Sabic está na parte final do filme, quando durante uma caminhada, fala de como vê o jogo e do apelo de mercado que os torneios têm.

De outro lado, o escárnio direcionado principalmente à Gus Hansen chega a ser demasiado, não apenas nos momentos em que o Great Dane é citado com deboche repetidamente pelos franceses, mas exatamente na hora em que, durante a WSOP de 2014, Hansen não recebe atenção ao se aproximar de Luneau, que está disputando um evento da série. A imagem nesse momento diz mais que as palavras, e a filmagem segue com Gus indo de um lado para o outro, e depois sentando numa mesa vazia. Na tomada seguinte, uma rápida aparição do dinamarquês, pra confirmar que na cadeia alimentar do poker, alguém precisa perder, e por vezes, muita grana. Curioso notar também que Hansen, apesar de ser o fish preferido da dupla francesa, ganhou um bracelete da WSOPE, justamente o que Luneau e Sabic almejam.

Aparte disso, é importante lembrar que a versão do documentário traduzida para o português foi um esforço conjunto dos frequentadores do fórum MaisEV, que fizeram uma vaquinha para custear o trabalho de tradução executado por Airton_Neto e luigibr. Posteriormente, em comum acordo, todos optaram por liberar o vídeo gratuitamente, e não mantê-lo restrito apenas para quem contribuiu. A versão legendada em português está criteriosa e bem feita, principalmente porque os tradutores entendem do assunto e optaram por usar termos comuns que usamos aqui no Brasil para falar do jogo, sem forçar traduções literais. O vídeo tem sido compartilhado e publicado em alguns sites, mas poucos se atentam em dar o crédito. O Pokerdoc mencionou, e fica aqui também registrado.

hansen1euroE para quem gostou da iniciativa de Victor Saumont e de seu documentário, doações podem ser feitas para o diretor nesta página. E saiba você que até Gus Hansen doou, apenas um euro, talvez seja a forma que ele encontrou de devolver o escárnio, depois de ser o coadjuvante mais falado do filme.

 

 

Fontes: Pokerdoc, Fórum TwoPlusTwo, Fórum MaisEV, WSOP.com. Créditos: Nosebleed de Victor Saumont no YouTube, legendas em português por Airton_Neto e luigibr do MaisEV.

O custo moral do poker na discussão entre Newsweek e Pokernews

Em artigo publicado no site da revista americana Newsweek, em 14 de agosto, a autora Leah McGrath Goodman aponta o dedo para o poker online, mostrando vários aspectos negativos do jogo na internet, que passam pela regulamentação, Black Friday e vício juvenil.

O texto de Goodman, fortemente criticado pelo Pokernews, já abre o primeiro parágrafo mostrando ao que veio, citando uma frase de Leslie Bryant, chefe da unidade de crimes cibernéticos do FBI em 2007, “You can go to Vegas. You can go to Atlantic City. You can go to a racetrack. You can go to those places and gamble legally. But don’t do it online. It’s against the law.” Algo como, você pode jogar em todos os lugares onde os jogos de aposta são liberados como Vegas e Atlantic City, mas não faça isso no online, pois é contra a lei.

Abordar o tema da regulamentação e da fraude não só é importante, mas necessário, visto as cagadas que as empresas de poker online cometeram há poucos anos. Porém o artigo de Goodman avalia uma outra questão para a sociedade, quando relaciona ao assunto o vício que pode ser gerado nos adolescentes e jovens pelo apelo do ambiente da internet, onde a oferta é vasta. O enfoque do artigo fica evidente quando a imagem que ilustra o texto é a capa da edição de 22 de agosto da revista impressa, que estampa uma criança triste, segurando um tablet que tem a imagem de um royal flush e a frase Poker Face. É o poder da imagem, tão utilizado em tempos atuais, para transmitir um valor, na tentativa de atingir emocionalmente os leitores.

A potência do vício está na relação do indivíduo com o jogo, nesse caso, um transtorno chamado jogo patológico, que não é exclusividade do poker online, mas também presente e prejudicial nele. Se uma criança vai ao jogo e se torna viciada, a regulamentação é uma das ferramentas para impedir seu acesso prematuro, mas parece melhor não encarar a realidade, e criar um mundo idealizado, um mundo sem jogo, um mundo onde só há certo e errado.

Mas como quebrar um conservadorismo disfarçado de interesses? São os jovens da nova geração, que por um dado estatístico qualquer, têm maior propensão de se tornarem adultos viciados? Justamente numa sociedade que já prepara seus jovens desde muito novos a serem consumidores vorazes e pouco críticos, que reitera o ter ao invés do ser. Ou se trata da falta de regulamentação e recolhimento de impostos? É o lobby dos cassinos tentando diminuir a concorrência? Ou uma estratégia de como atacar o jogo online sem atacar os cassinos?

Todos esses pontos são passíveis de discussão, e evidentemente pertinentes, mas até quando os que atacam o poker online vão continuar operando pela tática do medo (que seguramente gera apenas medo), e achando que a melhor forma de lidar com o assunto é tapar o sol com a peneira, classificando-o como algo moralmente ruim na tentativa de esconder uma realidade que nos rodeia? Talvez o vício em jogos só não seja pior que a própria falta de reflexão, que é largamente maior na sociedade.

 

Fontes: Newsweek e Pokernews. Imagem: Shutterstock

O poker no Brasil pode ser considerado jogo de azar para ter sua atividade regulamentada?

O senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, apresentou projeto de lei que prevê a regulamentação dos jogos de azar em todo o território nacional. O projeto, com a sigla PLS 186/2014, pode ser consultado na íntegra aqui, e propõe legalizar o que funciona na clandestinidade, estabelecer requisitos para quem for explorar o jogo de azar, incluindo regularidade fiscal, além de promover novos empregos e desenvolvimento regional através do turismo.

O texto trata especificamente os seguintes jogos de azar: jogo do bicho, jogos eletrônicos, vídeo-loteria e vídeo-bingo, bingo, jogos de cassinos em resorts, apostas esportivas online, bingo online e cassino online. Contudo, o poker é citado no PLS 186/2014 quando o texto se refere a quantidade de brasileiros que jogam poker online, um volume estimado de 2 milhões de praticantes.

A questão interessante é que sob essa afirmativa, o poker é categorizado como jogo de aposta online, e portanto carece de regulamentação. Evidente que não há regulamentação para o poker online sendo ou não jogo de azar, mas esta parece ser uma oportunidade, embora o esforço de toda a comunidade brasileira de poker nos últimos anos seja a de desvincular o poker dos jogos de azar.

Vale a pena? É este o caminho? O poker vai de fato se beneficiar com isso? Muitos dos grinders online são avessos e defendem a bandeira do “deixa como está”, ou temem por um mercado fechado. Mas o que parece inevitável ultimamente é a necessidade de regulamentação, como vem acontecendo nos mercados da Europa e Estados Unidos. Ou seja, cedo ou tarde, essa necessidade também vai aparecer por aqui.

Se você é a favor ou contra o PLS 186/2014, pode opinar pelo portal e-Cidadania do Senado Federal clicando aqui. Para acompanhar a tramitação do projeto, que ainda precisa passar em diversos comitês, clique aqui.

 

Fonte: Reportagem do MaisEV e site do Senado Federal. Imagem: xtock / Shutterstock