Relato de um jogador de pôquer

Conheci o jogo de pôquer como a maioria dos jogadores iniciantes da minha época. Comecei jogando torneios com valores pequenos, perto de casa e sem nenhuma pretensão. Tempos depois, fui aumentando a minha presença nos chamados “clubes de pôquer”. Começava aí o início radical de uma mudança perigosa de hábitos.

Sem perceber, passei a respirar pôquer 24 horas por dia: só queria conversar com quem falava de pôquer, substitui os programas de televisão por vídeos sobre pôquer, troquei os livros de temas diversos por livros de pôquer, troquei a minha confortável e cheirosa cama king size pelas imundas cadeiras das casas de pôquer, troquei a convivência com a minha família e com meus amigos pela convivência com as pessoas que jogavam pôquer, troquei o meu saudável sono noturno pelas horas diurnas mal dormidas. Como se não bastasse, quando não estava nas casas de pôquer, jogava no computador de casa.

Todos os meus exames rotineiros de saúde, sem exceção, passaram a mostrar acentuado declínio. A minha excelente forma física pouco a pouco foi regredindo, a minha alimentação deixou de ser regrada, mas o meu foco continuava sendo o pôquer, a adrenalina que o jogo me proporcionava junto com a ínfima possibilidade de ficar rico da noite para o dia. Isso tudo continuava falando mais alto.

Pois bem. Fui aumentando gradativamente os valores que jogava e troquei os clubes fedorentos pelos luxuosos cassinos. Nossa! Me hospedei em hotéis estrelares, frequentei alguns dos melhores restaurantes do mundo, degustei vinhos espetaculares, assisti shows fantásticos. Vivi uma vida surreal. Mesmo sem ter estudado o jogo (o que foi um grande erro), passei a jogar os grandes torneios do mundo: joguei com muitos que até então só tinha visto nas telas do computador.

Com o passar do tempo, com as longas ausências e sem alcançar os resultados realmente importantes, ou seja, ganhar dinheiro de verdade, os conflitos com a minha esposa foram se intensificando e de nada adiantavam os conselhos que recebia. O meu poder de persuasão era tão grande que, em determinado momento, a minha esposa deixou de me criticar para me apoiar. Hoje consigo enxergar que na realidade ela estava, de forma estratégica, quase que desesperadora, fazendo de tudo para não me perder definitivamente para o pôquer.

Até que um dia a conta chegou. E bem salgada, por sinal. Hoje, vigilante e consciente dos erros cometidos, tento juntar os cacos que restaram de uma escolha de vida equivocada. Voltei a valorizar a minha família, meus amigos, busco retornar às minhas atividades laborais, retornei com a minha atividade física, voltei a comer bem, dormir bem, retornei para o meu mundo, mundo este que nunca deveria ter saído.

Este relato não tem a intenção de julgar ou criticar aqueles que praticam o pôquer, até porque existem pessoas que fizeram fortunas jogando ou explorando o jogo. Simplesmente, comigo, por inexperiência, por falta de estudar o jogo, por falta de sorte ou simplesmente por falta de capacidade, não deu certo. Talvez, como forma de me desculpar com a minha família e meus amigos, tenha resolvido compartilhar a minha experiência mal sucedida. Sinto que seria covardia e egoísmo demais guardar comigo tanto conhecimento e experiência que adquiri por um preço altíssimo.

Portanto, falo principalmente para os mais jovens, para os mais sonhadores, para os mais suscetíveis a promessas de dinheiro fácil e de forma rápida. Não se iludam: a realidade não é bem essa que vocês veem nos canais de comunicação especializados em pôquer. Lá, de um modo geral, só se mostra um lado da moeda. NÃO TROQUEM OS SEUS ESTUDOS OU OS SEUS PROJETOS DE VIDA, nem que seja por um determinado tempo, pela árdua missão de tentar viver como um jogador profissional de pôquer no Brasil. A excelente atriz Lilia Cabral, que interpretou com maestria o papel de uma jogadora viciada em jogos, inclusive o pôquer, disse: “se eu conseguir ajudar ao menos uma pessoa com a mensagem que tentei passar, já me sentiria realizada”. É bem por aí.

 

Imagem: rudall30/shutterstock.com (editada)

A imagem no poker e na novela

Qualquer obra de ficção é fruto do imaginário ou é um reflexo dos nossos tempos? Trata-se de ambos? Será que estamos presos a imaginar somente o que está ao alcance de nossas visões de mundo fincadas no agora? Parecem boas questões, mas o fato é que um tema abordado na trama de uma novela se amplia não exatamente em qualidade como nessas perguntas apresentadas, senão precisamente em quantidade.

O termo quantidade diz muito sobre os objetivos de uma novela quando a consideramos como um produto, afinal, embora seja um tipo de atividade artística (que em potencial poderia provocar experiências estéticas interessantes), as novelas se orientam à audiência, e para tanto precisam estar de acordo com uma visão de mundo já aceita pela sociedade, com o que já está naturalizado. Ou seja, a precaução ao apresentar os temas e as mudanças que acontecem na trama em função dessa aceitação são baseadas no apelo que a experiência artística provoca e igualmente na manutenção deste público, que precisa se ver refletido nesse espelho que chamamos de televisão.

Nesse sentido, as novelas são reflexo da própria sociedade que legitima algumas narrativas com as quais se identifica, e num processo cíclico alimenta a trama ao mesmo tempo que é alimentada por ela, quer dizer, vemos nossos ideais na novela da mesma forma que ela nos municia de ideais. O possível problema com isso é que na falta de outras opções, esse tipo de entretenimento massificado passa a pautar os assuntos da sociedade, em parte porque tem uma penetração grande na vida social, mas fundamentalmente porque consagra o que esta mesma população já tem como “normal”.

Grosso modo, duas reações básicas acontecem, quem fica horrorizado ao ver um beijo gay na novela está projetando seu ideal conservador. Aqueles que entendem que é um avanço em relação à aceitação das diferenças comemora igualmente sua visão ideal. De forma alguma estou minimizando o ganho social que a tensão entre conservar e avançar provoca, mas podemos dizer que ambas visões não podem perder de vista que o beijo gay existe e vai se repetir enquanto a humanidade existir. O “susto” ao presenciar essa imagem vem da negação da realidade, como quando um viciado em jogo aparece na tela. Ou seja, o inconformismo provocado pela aparição da jogadora viciada na novela é o indicador de que mexeram num ideal, neste ideal do novo poker esportivo. O medo de que a imagem estigmatizada do poker se confirme pela imagem da novela revela o quanto este susto é concreto, é daí que partem os ataques.

Aparentemente aconteceu uma inversão, a verdade (use o termo com quantas aspas quiser) está na imagem simulada, enquanto que a realidade deixou de ter graça, no sentido que não mais favorece uma experiência estética considerada interessante. Vemos deflagrado algo do nosso tempo, a imagem por vezes toma o lugar da realidade, e é assim com a novela e seu potencial para pautar a sociedade.

A personagem é parte do nosso imaginário sobre o jogador viciado, o estereótipo consagrado. Vale lembrar que é daí também que saíram vários filmes sobre poker que atraíram muitos praticantes para o jogo. O herói de Rounders vive a mesma experiência devastadora do jogo, perde suas economias, a oportunidade de carreira na faculdade e também a namorada, só pra citar um dos filmes mais cultuados pelos jogadores. Se ao final da novela a jogadora viciada conseguir largar o vício, o que é bastante provável visto o arco dramático dessa personagem, o poker estará redimido?

É possível defender a novela levantando a bandeira da liberdade artística, de forma que qualquer intervenção ou imposição do que deve ou não aparecer na trama beira um tipo de censura, mas vejam, não é a própria busca pela audiência que censura a novela? Quer dizer, o que vai aparecer depende do que vai ser mais aceito. Além disso, atacar a novela porque ela mostra o lado ruim do jogo e querer que ela mostre o lado bom é de algum jeito ingênuo. Alguns ataques afirmam que o folhetim televisivo deveria ter o compromisso em também mostrar o lado positivo da atividade, o que é uma justificativa pobre, afinal novelas são consagradas porque a preocupação em tratar qualquer assunto com profundidade e complexidade não é parte principal de seus objetivos. No fundo, esperar que a novela, o programa de auditório, o reality show ou qualquer coisa do gênero apresente uma visão mais elaborada e profunda sobre um assunto é igual a comprometer todas as suas fichas pagando uma aposta pra acertar a broca no river, quer dizer, às vezes bate, mas trata-se de uma exceção.

Ademais, a face positiva do poker não é o assunto da novela, que pelo seu título nos demanda algumas interpretações. “A Força do Querer” nos diz sobre o impulso por vezes incontrolável (a força) do desejo (o querer), o que exprime com certa exatidão o vício. Ao mesmo tempo, a vontade de querer mudar de situação, ou seja, a força de querer largar o vício, fecharia o arco dramático da personagem, como acontece recorrentemente nas tramas. A jogadora perderia tudo no jogo e ao final se recuperaria, curiosamente uma estrutura narrativa idêntica ao aclamado Cartas na Mesa (Rounders, 1998).

Se você gosta de novelas, espero, não é pelo que ela pode produzir de reflexão, mas pelo que resta de expressão artística em sua dinâmica. Se você gosta de poker, espero, não seja pelo apelo de imagem que ele possui, pois com um curto período praticando já dá pra notar que esse apelo se desmancha como a fumaça de um cachimbo. Magritte diria (ou melhor, pintaria) em sua “Traição das imagens” que a imagem do cachimbo não é um cachimbo, para questionar o quão estamos presos à imagem.

A saída presente no imbróglio poker e novela é a oportunidade de perceber as estruturas por trás da superfície onde está a imagem, como fizemos quando deixamos de considerar o poker como jogo de azar. Na medida em que relacionamos mais conhecimentos abraçamos menos definições prontas e podemos tentar mais perguntas no lugar de aceitar a pauta.

 

Imagem: “La trahison des images” (1929) de René Magritte