Campeão na canhota

Depois de uma década fazendo viagens para Las Vegas na mesma época do ano, você começa a reencontrar com certa frequência alguns personagens, gente que visita os cassinos e aproveita as atrações da cidade, e claro, aqueles que trabalham para que tudo isso aconteça. Assim, o ambiente começa a se tornar familiar, a cada ano pode-se testemunhar os dealers envelhecendo, o costumeiro jeito das garçonetes (e o mau humor de uma ou duas), e ser reconhecido pelo diretor de torneio, que foi de dealer à floorman e agora comanda a sala.

Mas, jogadores são sempre mais interessantes, prato cheio para boas histórias, afinal, os que se envolvem em jogar, de certa maneira têm um tipo de predisposição a serem conduzidos pelo jogo, pois se colocam precisamente “em jogo”. Embora pareça algo abstrato demais, creio que essa abertura, esse deixar-se levar pelo jogo, faz com que o jogador deixe escapar algo de singular sobre si afora a própria maneira de jogar.

Essa característica não fica tão estranha se apresentada assim: num jogo como o poker, onde todos estão tentando não transparecer nervosismos e emoções variadas, deixar escapar no comportamento algo assim pode significar um tell e um bocado de fichas a menos.

Pois bem, numa dessas viagens para Vegas conheci um sujeito dos mais peculiares, que reencontrei algumas vezes, e ele deixava escapar de tudo. Cabelos grisalhos quase brancos e sempre desarrumados; um relógio de pulso todo colorido que parecia de brinquedo, daqueles que a criançada ganha em quermesse; dois pares de óculos, ora um no rosto e um dependurado; e maneirismos dos mais diferentes, do jeito de arrumar as fichas até a forma de apostá-las. Sem falar nas anotações constantes que fazia num bloco de papel amassado.

Esse velhote me chamou a atenção, conversava com todos da mesa, seu sorriso fácil tinha um dente pra cada lado e alguns faltando, e tinha a mania de mordiscar a própria língua enquanto pensava nas jogadas. O conjunto ajudava a construir uma imagem das mais interessantes que já vi ao longo dos anos no poker, jogador tem de tudo quanto é jeito, mas esse sujeito era entusiasmado e estava se divertindo como ninguém na mesa, totalmente oposto ao estereótipo do jovem jogador online que mete o fone de ouvido e joga poker como se estivesse apostando a própria vida.

Em certo momento o velhote se envolveu em raises e reraises e chumbou tudo com um par de duques, de um jeito meio estabanado, pois entrou na onda do adversário que lhe puxou todas as fichas numa mesa $1/$2 cheia de bêbados, incluindo-me, claro. Perdeu a mão, disse “quack, quack!” e levantou-se. A maior parte da parceirada debochou um pouco da jogada, mas um deles avisou: esse senhor é um gênio, escreveu até livro.

Vou partir do seguinte pressuposto, gente interessante normalmente é interessada, e isso não é clichê nenhum. Noutro ano, época de WSOP, encontrei numa tarde o mesmo velhote, fincado numa mesa $1/$2 do Bally’s. Sentei ao seu lado, ele me cumprimentou e lembrei dele no ato. Jogamos algumas mãos, ele continuava repetindo o mantra “quack, quack!”, e dessa vez me ouviu conversando com um amigo em português e ficou intrigado:

– Que língua vocês estão falando? Romeno?
– Não, falamos em português.
– Mas soa tão diferente de português!
– É que somos brasileiros.
Awesome!

Por horas, conversamos sobre algumas mãos e línguas originárias do latim. Quando saí da mesa, ele me avisou que estaria ali no dia seguinte no mesmo horário, e poderíamos continuar o bom papo. Nunca imaginei que o campeão mundial de gamão de 1978 tinha jogado poker na minha canhota por uma tarde toda. Paul Magriel faleceu no começo desse mês, nos deixou o conceito de M do poker, e mudou o jogo de gamão com seu livro. Pena mesmo vai ser não revê-lo nesses encontros casuais para continuar o bom papo.

 

Imagem: Kajura/Shutterstock.com. Fontes: PokerPT.com, Pokernews, CardPlayer.

BSOP ou KSOP?

Se há dois ou três anos alguém se atrevesse a comparar o BSOP com qualquer outro torneio no Brasil certamente seria motivo de chacota. Digo isso porque todos eventos que ousaram competir com o conceituado BSOP sucumbiram… Até que surgiu o KSOP.

O evento ocorrido no ano passado, na linda cidade de Camboriú, em parceria com o WPT, registrou 3.386 entradas e distribuiu mais de R$ 4.000.000,00 em prêmios só no evento principal. Não foi à toa que este episódio de inesperado sucesso provocou grande repercussão no meio. Seria o KSOP um adversário à altura para o BSOP?

A grande resposta para essa pergunta poderá ser revelada no mês de abril. É que nesse período os dois gigantes resolveram se confrontar realizando suas próximas etapas simultaneamente em Brasília e em São Paulo.

Seria esta a melhor estratégia? Este conflito de datas, a meu ver, mostra claramente que faltou diálogo e bom senso. Acredito que ambos sairão perdedores desse confronto de egos. Neste passo, enumerarei as principais características que considero relevantes de cada um para a próxima etapa. Vamos a elas.

BSOP (mais informações)
Credibilidade: o BSOP goza de reputação ilibada;
Organização: o BSOP possui os profissionais mais experientes e capacitados da América Latina;
Prêmio extra: o BSOP oferece nesta etapa quatro pacotes completos no valor de US$ 30 mil para o milionário evento PSPC que será realizado no ano de 2019 em Bahamas;
Custo benefício: o BSOP garante para a próxima etapa o valor de R$ 2.500.000,00 exclusivamente para a premiação do evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 2.600,00;
Imposto: o BSOP retém o imposto na fonte;
Local do evento: Brasília/DF;
Gentileza: o BSOP, ao contrário dos grandes torneios mundiais, não oferece sequer água para os jogadores.

KSOP (mais informações)
Credibilidade: o KSOP ainda necessita de um tempo de maturação para gozar de reputação ilibada;
Organização: o KSOP vem melhorando, mas ainda não se equipara ao rival;
Prêmio extra: o KSOP oferece aos participantes da etapa 10 pacotes de viagem para o Cassino Sun Monticello, no Chile;
Custo benefício: o KSOP garante nessa etapa o valor R$ 2.000.000,00 exclusivamente para o evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 1.500,00;
Imposto: o KSOP não retém o imposto na fonte;
Local do evento: São Paulo/SP;
Gentileza: o KSOP distribui gratuitamente lanches no dia 2 do evento.

Bom, expostos os comentários, cabe ao leitor a decisão de qual evento jogar. Agora, se você é um daqueles gorilas que ficam pagando 3-bet com mão marginal o tempo todo, é melhor não jogar nenhum deles.

 

Imagem: Onyx9/Shutterstock.com

Crônica de uma noite estrelada

A última etapa do XXIV campeonato de Texas Hold’em organizado pelo clube ADT, que congrega grandes jogadores da modalidade, foi concluída na madrugada do dia 15 de novembro de 2017. Acirradíssima, a final contava com cinco jogadores em condições de vencer o campeonato, sendo que a diferença entre os três primeiros colocados estava em míseros 15 pontos (valor que qualquer jogador que participe da etapa já pontua).

Venci a etapa e o campeonato, o primeiro em minha trajetória no clube. Após três campeonatos consecutivos amargurando segundos e terceiros lugares consegui erguer, finalmente, o troféu de campeão. Entretanto, a construção da vitória não foi no dia 15, mas sim uma semana antes, quando se revelaram os jogadores aptos na última etapa a conquistar o campeonato. Como liderava o ranking por uma diferença mínima, tracei minha estratégia durante a semana, simulando posições, número de participantes, mãos com jogabilidade, e de quais jogadores devia me defender.

A vitória foi consequência de estudos, e não pela sorte que alguns atribuem. Embora tenha construído a liderança com um bom pôquer durante as etapas, não me descuidei em lembrar das boas e más jogadas, reler os posts e analisar os áudios de nosso grupo de estudos no WhatsApp, e sobretudo dos debates entre os colegas sobre as análises de mãos. Bem verdade, que como todo jogo de cartas, por definição, o pôquer tem um componente de sorte, caso contrário a vantagem matemática sempre prevaleceria. A imprevisibilidade e a jogabilidade fazem com que este jogo seja, talvez, o jogo que mais valorize a técnica, tática, análise de riscos e sobre o controle psicoemocional.

Talvez, neste contexto psicológico é que se desenhou minha conquista: O estudo minucioso e holístico (matemática, psicologia, economia, algoritmos, entre outros) que propicia ao jogador segurança e estabilidade. Por isto, é fundamental estudar os textos, áudios, vídeos e treinamentos disponíveis em livros ou na internet. Além disso, o coaching, seja entre grupos de jogadores (como no nosso caso) ou profissionais, e a troca de experiências.

O caminho para a vitória foi desenhado durante as 14 etapas preliminares, minha evolução no estudo do esporte e o estudo específico para a batalha na última etapa. Verdade também que liderava o ranking e sabia o que era necessário fazer para obter a vitória: permanecer na mesa até que os concorrentes fossem derrotados. Ligeira vantagem, porém, crucial para aplicação da minha técnica. A noite derradeira iniciou-se no sorteio da minha posição na mesa. Sabia, pelas minhas simulações, que de todas, a sorteada era a que mais me favorecia. Sorte.

Primeira mão: QQ. Soube lidar com esta mão extraindo um bom pote. Talvez o máximo possível.

Segunda mão: KK. Também puxei um bom número de fichas.

Claro que isto não ocorreria até o final da etapa, mas como me esforcei e me preparei tanto, parecia um sinal de que: “Hoje é seu dia”. Um reforço emocional, que me confortou até a última mão.

Escolhi a posição da mesa, o valor relativo das mãos para minhas ações e com quem eu poderia jogá-las para não comprometer a etapa e consequentemente o campeonato. Um algoritmo previamente elaborado e que segui à risca. Após os sete primeiros níveis, meu stack já havia triplicado e na mesa final já tinha quase 50 blinds e era chipleader. Não havia eliminado nenhum jogador até então, não joguei nenhuma mão que me comprometesse, não usei de agressividade excessiva (que é o meu ponto forte, mas também fraco e explorável). Nenhum All In. Nenhuma mão perigosa com jogadores tecnicamente estudados e concorrentes ao título. Meu “Kernel” do algoritmo.

Algumas jogadas foram cruciais:

1. Mão de Hollywood:
Jogador short, na posição UTG+1 da all In de uns 10BBs;
Jogador em UTG+2 da call;
Jogador em MP1 estoura all In de 20BBs;
Jogador em HJ dá call por baixo.

As mãos respectivas, (TQ de ouros), (88), (KK) e (AA). Minha mão (JJ). Penso por uns cinco minutos. Será que está tudo encavalado e meu JJ é bom? Algoritmo novamente: fold.

MP1 com KK leva trincando no bordo. Ganha um jogador fora da disputa do ranking, mas vejo um concorrente direto eliminado. E se eu estivesse na posição UTG+2 e tentasse isolar? Provavelmente teria perdido muitas fichas, mas a sorte me possibilitou jogar ou não aquela situação, estava na BB. Mais um reforço emocional, embora, meu fold fosse correto.

2. Quatro jogadores, com um único oponente brigando pelo título.
Dou call de 2,5BBs com KQ no BB, do raise de um não concorrente. Bordo AK555, que foi check-call até o river. Oponente da all In. Penso uns cinco minutos, e de novo o algoritmo: fold. Oponente dá showdown cortesia com 88. Se eu desse call e ele tivesse o “A”, trocaria minha liderança em fichas com ele e comprometeria a etapa. Um grande bluff. Embora estivesse claro que eu estava ganhando, fiquei muito feliz com meu fold. O algoritmo errou, mas me deu ainda mais segurança.

3. Três jogadores.
Eu chipleader e somente um outro concorrente ao título. Mais do que nunca tinha que eliminá-lo. All In do concorrente e eu no SB com AK de paus: call. Ele mostra TQ de ouros.

Naquele momento, tamanha era minha confiança, que levantei já comemorando o título. Não podia ter bad, era meu momento, era meu destino, era minha vez.

Break antes do heads-up final, fotos, congratulações, um sorriso aberto e aliviado, e uma lágrima escondida, prestes a cair e engolida. Para os jovens é uma conquista de muitas que virão, mas para um quase quinquagenário, uma das últimas de outras que virão.

A última etapa também era especial, disputa-se o chamado Grand Prix, torneio que vale troféu, com buy in mais alto, deepstack e premiação maior. Faria eu o chamado: barba, cabelo e bigode? Sim. Depois de uma longa disputa, um call seguro e de alma de K8 de ouros contra A2 off. Nenhum Ás, e meu 8 no river. Tinha que ser assim. Na última carta de longas 15 etapas.

Chego em casa às 5:00 da manhã. Acordo todos em casa e exibo meus dois troféus, ambos escritos “CAMPEÃO”. Congratulações, fotos e alegria. Agora sim, meus três troféus de 2º e 3º lugares, já expostos no meu cantinho de conquistas, recebem o Rei e a Rainha, completando o sentido no conjunto e demonstrando minha evolução. Juntos demonstram coesão, coerência e finalidade.

Por fim, como disse anteriormente, o ADT é um grande clube de pôquer, com jogadores excepcionais. É fonte de amizades e troca de conhecimento. Arrisco aqui: O ADT é o melhor. Para finalizar, acordo durante o resto dia 15/11/2017 em um devaneio de sonho, do qual eu não me retorno, gritando: “ALL IN!!!!”

 

Imagem: ADT Poker

O desacordo do acordo no poker

Quando há disposição para um acordo de premiação em torneios, cada jogador recebe duas cartas, uma de naipe vermelho e outra de naipe preto, escolhe uma delas e entrega facedown ao dealer. Carta vermelha é não para o acordo, preta é sim. Prontamente o dealer embaralha as cartas escolhidas e as abre duma vez, e só teremos acordo se todas forem pretas. Este é o procedimento ideal dessa situação, pois não temos assim a exposição dos jogadores. Bem, esse é o cenário idealizado, na prática raramente se dá desta forma. A coisa é decidida no papo, e encontramos recorrentemente o jogador piadista que já pede acordo quando a mesa final se forma, ou não raramente os que optam por garantir uma grana, e a turma do “acordo na cadeia”, dentre muitos outros.

Acordos são uma face comum do poker, principalmente nos clubes que organizam torneios em limites baixos. Se pegarmos as coberturas noticiadas nos sites veremos num relance que muitos deles terminam em acordo, seja no HU, 3-handed ou até envolvendo cinco ou seis jogadores. Fora da curva foi o acontecido há alguns dias num clube paulistano, na reta final do torneio regular com 15 mil reais garantidos, doze dos 66 entrantes decidiram dividir igualmente o prizepool que estava destinado originalmente aos sete primeiros. Esse foi o fato que pautou discussões nas redes.

O acordo dá a oportunidade aos frequentadores dos clubes de poker de minimizarem suas perdas ao longo do mês, o que para jogadores que estão periodicamente batendo cartão nos clubes é a possibilidade de poder continuar jogando. Pegar um prêmio oito vezes maior que o buy-in é igual a jogar cinco ou seis torneios parecidos no mês. Em algum sentido é como sustentar a própria diversão.

Quem tem um olhar mais matemático ou profissional para o poker pode defender o acordo justificando que está fazendo algo lucrativo ao aceitar o deal, ou pelo menos realizando a média de ganho que só vai aparecer lá na frente, no longo prazo. Desde que, claro, seja um acordo vantajoso.

Alguns defensores do não acordo entendem que numa situação como esta, onde doze jogadores repartem o prizepool antes de estourar a bolha, a competição se corrompe, há um dano ao desenvolvimento do esporte. E aqui vale uma ressalva, se por algum motivo é possível considerarmos o poker como esporte, é porque o esporte está inserido no poker e não o inverso. Poker é tão peculiar e multifacetado que quando tentamos encará-lo como esporte, algo escapa, e os acordos são um desses aspectos peculiares que diferenciam o nosso poker. Ademais, há de se observar que o esporte de fato talvez aconteça apenas numa esfera mais profissional, a grande maioria praticaria uma “atividade esportiva”, taí uma diferença importante. A pelada de domingo, mesmo quando muito organizada, está mais para brincadeira ou entretenimento do que o caráter sério empregado nas competições profissionais. O que está em jogo em cada atividade é diferente, pois o objeto é diferente mesmo para aqueles que encaram a diversão de forma mais séria.

É possível fazer um lista sem fim de definições para cada um desses olhares, uma sequência de cagação de regras, mas espero que não seja esse o ponto, pois estaríamos elencando idealidades, ou visões projetadas ideais, correndo o risco de substitui-las pela realidade.

Se fosse possível um acordo de opiniões sobre o assunto, aos moldes do descrito no início desse texto, mesmo se tivéssemos apenas cartas pretas apresentadas, teríamos um desacordo, pois cada carta pode carregar consigo um ideal projetado diferente. Por isso, se o acordo é bom ou não, depende de como projetamos nosso olhar. Com uma certa distância desses ideais e disposição para enxergar além disso, teríamos, concordem ou não, o desacordo.

A condição de desacordo é a que propicia o acordo, e assim sucessivamente. A tensão que há nesse ciclo é deveras mais interessante.

 

Imagem: M. Naccarato

O jogador certo na mesa errada

A Brazilian Series of Poker começou nesta quarta-feira 25/11 com salão lotado, expectativa de um grande festival de poker, e com cinco eventos programados para o primeiro dia de competição. Dois torneios chamaram mais a atenção, o #1 NLH 750K Garantidos, com um buy in mais acessível de R$460,00 e que promete um dos maiores fields de BSOP, e o #2 LAPT Grand Final, que vai definir o campeão da edição 8 do Latin American Poker Tour, com buy in salgado de R$10.000,00.

Acontece que num evento desse porte, mesmo para uma organização competente como a do BSOP, a chance de algo sair da linha aumenta, e é aqui que começa essa pequena história. O jogador H. (nome fictício), recreativo que frequenta algumas casas de poker na capital paulista foi para sua primeira investida na série brasileira, fez sua inscrição, caminhou até a mesa, entregou o comprovante para o dealer e começou sua batalha no feltro.

E ele caiu numa mesa daquelas, com o chileno Oscar Alache, líder do ranking do LAPT, Fernando Konishi, mesa-finalista da WSOP e o francês Sébastien “Seb86” Sabic, conhecido jogador de high stakes poker online que foi um dos protagonistas do documentário Nosebleed. Enfrentando esses profissionais, H. tinha tudo pra ser engolido, mas logo no começo da disputa, imprimindo seu estilo peculiar, chegou a subir bem seu stack, alcançando aproximadamente 60 mil fichas (o equivalente ao dobro do stack inicial), segundo relatos.

Crente que estava jogando o torneio que havia se inscrito, ele começou a notar que “os blinds estavam demorando muito”, e foi então que a ficha caiu. H. se inscreveu no evento #1, o de 750K garantidos, mas sentou na mesa do evento #2, o LAPT Grand Final. Segundo informações dadas pelo jogador, alguém da equipe de organização lhe indicou o setor errado, e posteriormente o dealer que estava pagando o jogo na mesa conferiu seu cartão de assento e entregou as fichas, permitindo que ele jogasse.

Após avisar o floorman, o jogador foi transferido prontamente pela direção do torneio para o evento #1, com stack inicial, e não se sabe o que foi feito com as fichas que ele havia conquistado no evento #2. Perdemos a chance de ter o campeão certo no torneio errado.

Solverde Poker Season 2015

Neste ano de 2015, depois de fase conturbada, resolvi visitar a Europa pela primeira vez em 41 anos de vida. E aliado à minha vontade de viajar e sair da rotina, tentei montar um calendário com algum torneio de poker para jogar, pela primeira vez, um torneio internacional de alto nível, embora eu já tenha jogado alguns torneios em Vegas, os pequenos e acelerados regulares dos cassinos de lá.

Bom, a princípio, eu iria passar a maior parte da minha viagem em Vilamoura, região do Algarve e durante as minhas pesquisas encontrei o PokerStars Solverde Poker Season. Nessa grade regular de torneios em Portugal haveria um, com um bom valor de buy in e uma estrutura bacana bem próximo de onde eu estaria. Resolvi as minhas datas da viagem para estar livre nos dias da etapa Classic, no Cassino Algarve, na Praia da Rocha (€110 + uma recompra). O PokerStars Solverde Poker Season é o mais antigo circuito de torneios live em Portugal. São 12 etapas com um Main Event de €750, etapas regulares de €250, as novas etapas Classic de buy in €110 (da qual participei de uma), e ainda quatro Special Events de €300.

Consegui as informações básicas no site pokernews.pt – depois, enviei um email para o Bloco da Barra (Bruno), que me respondeu prontamente. Muito atencioso, me passou todos os detalhes de como seria a estrutura, horários, como me inscrever e tal. Fiz um depósito na conta e minha inscrição via site do Solverde. Uma dica, pagar a partir do Brasil foi importante para não perder a inscrição, mas o torneio não atingiu o cap de 220 participantes. Muitas pessoas se inscreveram na hora que o cassino abriu, acredito que se você não tem certeza se vai participar, possa ter tranquilidade para inscrever-se na hora mesmo. Mas é bom consultar o Bruno dependendo da etapa que você quer participar, que pode ser mais concorrida.

Mas vamos ao jogo. Sentei à mesa e comecei a bater papo, saber de onde eram, essas coisas. Começamos com 25 – 50, um stack de 20.000 fichas e blinds de 30 minutos (bem confortável, deep, suficiente para uma boa jogabilidade). Da esquerda para a direita, um rapaz de uns 19 anos, na canhota dele um tiozão falastrão, seguido um português sério, um outro rapaz que parecia o Johnny Bravo. Ao lado dele, um cara alto, que conhecia todos os dealers, parecia bem regular na série, ao lado dele um estereotipado jogador (com camiseta do PS, fone grande, óculos escuros, bonezinho 888.. Todo paramentado), e mais uns que pouco conversei. De cara, já deu pra perceber que o field era formado de pessoas experientes na sua maioria e com tempo no pano. Não parecia em nada com os turistas de Vegas, nem com os conhecidos baralhões dos clubes brasileiros… Era poker sério e justo. Não vi exageros à mesa, mas claro, tinha sua cota justa de jogadores bem ruins.

Fichas do Solverde Poker Season
Fichas do Solverde Poker Season

Já na terceira mão, fiz uma enorme cagada. Eu com A9 off, abri 2,5BBs de MP e levei um call do BB e do regular ao lado dele. Flop, Axx. A mesa chega em gap pra mim, que faço tudo… 10.050!! Shit… dei um missclick ao vivo. As fichas de 100 e 10.000 eram respectivamente, pretas e roxas escuras. Naquela ansiedade inicial, com 400 no pote, minha intenção era apostar os 150 e acabei apostando 201 big blinds… O jogador no BB me alertou, mas não havia mais o que fazer. As fichas estavam na mesa, e torci para que não tivessem acertado o flop maior que o meu. O grandão chorou para largar o Ás dele me contando que também tinha o A, mas com kicker menor.

Bom, depois dessa besteira, passei a prestar mais atenção e fui subindo o stack. Perdi uma mão para o “paramentado” e assisti o tiozão perder um monte de fichas pra todo mundo (incluindo pra mim) quando ele buscava flushes e brocas. Dei bons reraises em horas certas, larguei quando tinha que largar, vi o Johnny “extra tight” Bravo cair com AK e ganhei uma boa mão do cara serião à minha frente. Ele abriu um raise em MP, eu completei do small e o rapaz à minha esquerda, no BB, foldou. Ele teve que fazer um rebuy depois que eu tomei tudo dele com uma trinca de 4 no flop com Ás pareado. Em seguida, depois de uma discussão do “super jogador paramentado” com o tiozão perturbando todo mundo, sacamos ele da mesa (todos nós tomamos as fichas e o rebuy dele ainda) e assim, entramos no intervalo bem na troca de mesas. Fui para a outra mesa, depositei minhas fichas no meu lugar e saí para fumar com um stack bem sadio. Nessa hora, conversei bastante com o cara que perdeu tudo pra mim, ele elogiou a jogada e defendeu a dele (par de Ás).

Assim que me sentei, observei por um tempo os jogadores e as jogadas. Perdi uma órbita fazendo isso, incluindo largar um AJ do small. Havia um português na minha direita que veio short da mesa anterior, ao lado direito dele um beef (Inglês), uma mulher toda desajeitada com o cabelo desgrenhado, mas que falava inglês impecável e também conhecia os dealers, à minha esquerda mais um portuga short da outra mesa, à esquerda dele um outro muito chato. Se achando o Phill Hellmuth, enchia a paciência de todo mundo. Ganhei o respeito dele na primeira mão que me envolvi, do BB, com 47 de espadas. Após um raiser inicial, que recebeu quatro calls, incluindo o beef, eu completei do botão. Meu sonho cresceu quando todos deram check no flop com um 4, e meu 7 bater no turn. O beef veio roubar a parada com uma over e eu só paguei. River blank, check dos dois… Eu abro as cartas e ele dá muck resmungando.

Bom, após essa mão, ele me perseguiu por um tempo, até que eu perdi pra ele umas fichas… Ok, ainda rondando os 25 BBs, me sentindo tranquilo de estar jogando um bom poker, chegamos na última mão antes do intervalo do jantar. Eu e a desgrenhada. Eu no BB e ela no botão. Chega em gap, ela com 17BBs aproximadamente, chumba all in. Com os antes e o small, tinha praticamente, 20BBs na mesa. Eu abro as cartas e vejo – AJoff. Ô decisão difícil… Após pensar por um minuto, só vi uma coisa na cabeça dela… Intervalo, gap, vou chumbar com overs e ver todos foldarem e eu vou pro intervalo melhor que antes. Ok, call… Ela apresenta JQ e eu levo a parada sem surpresa, eliminando a moça que fica tentando justificar a jogada.

Na volta do jantar, o torneio deu umas rasteiras em mim e perdi um flip com par de Ronaldos. Aí, berei os 15BBs por um bom tempo, até mudar de mesa e começar a pensar se realmente eu queria passar para o segundo dia com um stack curto. Abro do cut off com JJ depois da mesa rodar em gap. Isso representava nesse momento uma aposta de 5.000 fichas nos blinds 1.000 – 2.000, e tomo uma volta de 15.000 do botão. A mesa gira em fold e eu penso por muito, muito tempo. Foldo aberto o JJ e o portuga elogia, conversa e mostra o QQ. Coisas do poker.

Pra encerrar a minha participação, abri com J2s pra tentar roubar blinds do botão e o mesmo português dá call, assim como o BB. No flop, fico flush draw e chumbo tudo, tomando instacall do portuga com QK também de espadas e, sem surpresas, ele me derruba com K high. Em muitas mãos aprendi coisas novas, visualizei erros passados, vi acertos e erros dos jogadores, mas sempre com muita atenção à real experiência, e isso tudo, valeu por cada minuto das nove horas que passei no cassino jogando esse torneio. Foi realmente muito bom.

Quem quiser se aventurar num torneio dessa série, recomendo muito. E aproveitem a boa disposição da rapaziada do pokernews.pt que são muito atenciosos. Encontrei o Bruno por lá, fazendo a cobertura do torneio e conseguimos bater um papo. Parabéns cara!

 

Fotos: Thiago Fabrette, Evento Classic do Solverde Poker Open

Por fim, a regulamentação do poker

O poker no Brasil cresceu mais até que na maioria dos países, chamando a atenção das autoridades. Chegou-se no ponto do vai ou racha. Mais cedo ou mais tarde teria que ser ou legalizado e regulamentado, ou poderia ser proibido. O Brasil atravessa uma situação de crise moral e fiscal graves, e nas crises é que surgem as oportunidades. Quando se estuda maneiras de arrecadar mais taxas, impostos e tributos, se coloca para escanteio os princípios de falsa moralidade que não permitia a regulamentação de jogos de azar.

O caminho que se estava desenhando, e que talvez ainda pode ser o escolhido, é de se regulamentar o jogo de azar, e o poker poderia ser incluído nessa regulamentação. Por ironia, apesar de defendermos que o poker não é jogo de azar, teríamos que admitir que seria um jogo de azar para ser regulamentado.

Como seria essa regulamentação? Os focos principais seriam a tributação e a fiscalização contra lavagem de dinheiro. Os projetos que já tramitavam no congresso, previam a possibilidade de liberar o jogo em cidades turísticas. Esse caminho não interessa aos atuais empresários do poker live. Vejo que a alternativa que a CBTH está buscando no lado esportivo é um projeto paralelo que fugiria dessa regulamentação do jogo de azar e manteria o status quo.

Há mais benefícios com a regulamentação do jogo de azar e do poker live, do que continuar meio que na clandestinidade. Os benefícios da legalização dos jogos de azar, inclusive o poker, seriam: maiores investimentos, geração de emprego, renda, impostos em benefício da sociedade e economia de divisas propiciando turismo interno. Para o poker live, seria bom para os empregados do setor, para os jogadores se organizarem, para a criação de times em empresas jurídicas para pagarem menos impostos, melhor aceitação da sociedade aos jogadores etc.

Sei que olhando para o nosso umbigo de grinder, vamos ter que pagar taxas e impostos, que hoje conseguimos muitas vezes omitir, mas é o preço a ser pago. Qual o caminho que vai ser escolhido não se sabe, mas creio que serão dias melhores. O que a galera está mais preocupada é o que ocorreria com o online. Será que vão restringir a liberação aos jogadores domésticos? É uma possibilidade. Acredito que vão regulamentar o jogo em sites internacionais como é hoje, porém cobrando impostos e uma fiscalização mais rígida com as transferências internacionais.

Não é o fim do mundo galera, creio que todos continuarão jogando como hoje, mas pagando um tributo obrigatório.

 

 

Imagem: blablo101/shutterstock.com (editada)