O desacordo do acordo no poker

Quando há disposição para um acordo de premiação em torneios, cada jogador recebe duas cartas, uma de naipe vermelho e outra de naipe preto, escolhe uma delas e entrega facedown ao dealer. Carta vermelha é não para o acordo, preta é sim. Prontamente o dealer embaralha as cartas escolhidas e as abre duma vez, e só teremos acordo se todas forem pretas. Este é o procedimento ideal dessa situação, pois não temos assim a exposição dos jogadores. Bem, esse é o cenário idealizado, na prática raramente se dá desta forma. A coisa é decidida no papo, e encontramos recorrentemente o jogador piadista que já pede acordo quando a mesa final se forma, ou não raramente os que optam por garantir uma grana, e a turma do “acordo na cadeia”, dentre muitos outros.

Acordos são uma face comum do poker, principalmente nos clubes que organizam torneios em limites baixos. Se pegarmos as coberturas noticiadas nos sites veremos num relance que muitos deles terminam em acordo, seja no HU, 3-handed ou até envolvendo cinco ou seis jogadores. Fora da curva foi o acontecido há alguns dias num clube paulistano, na reta final do torneio regular com 15 mil reais garantidos, doze dos 66 entrantes decidiram dividir igualmente o prizepool que estava destinado originalmente aos sete primeiros. Esse foi o fato que pautou discussões nas redes.

O acordo dá a oportunidade aos frequentadores dos clubes de poker de minimizarem suas perdas ao longo do mês, o que para jogadores que estão periodicamente batendo cartão nos clubes é a possibilidade de poder continuar jogando. Pegar um prêmio oito vezes maior que o buy-in é igual a jogar cinco ou seis torneios parecidos no mês. Em algum sentido é como sustentar a própria diversão.

Quem tem um olhar mais matemático ou profissional para o poker pode defender o acordo justificando que está fazendo algo lucrativo ao aceitar o deal, ou pelo menos realizando a média de ganho que só vai aparecer lá na frente, no longo prazo. Desde que, claro, seja um acordo vantajoso.

Alguns defensores do não acordo entendem que numa situação como esta, onde doze jogadores repartem o prizepool antes de estourar a bolha, a competição se corrompe, há um dano ao desenvolvimento do esporte. E aqui vale uma ressalva, se por algum motivo é possível considerarmos o poker como esporte, é porque o esporte está inserido no poker e não o inverso. Poker é tão peculiar e multifacetado que quando tentamos encará-lo como esporte, algo escapa, e os acordos são um desses aspectos peculiares que diferenciam o nosso poker. Ademais, há de se observar que o esporte de fato talvez aconteça apenas numa esfera mais profissional, a grande maioria praticaria uma “atividade esportiva”, taí uma diferença importante. A pelada de domingo, mesmo quando muito organizada, está mais para brincadeira ou entretenimento do que o caráter sério empregado nas competições profissionais. O que está em jogo em cada atividade é diferente, pois o objeto é diferente mesmo para aqueles que encaram a diversão de forma mais séria.

É possível fazer um lista sem fim de definições para cada um desses olhares, uma sequência de cagação de regras, mas espero que não seja esse o ponto, pois estaríamos elencando idealidades, ou visões projetadas ideais, correndo o risco de substitui-las pela realidade.

Se fosse possível um acordo de opiniões sobre o assunto, aos moldes do descrito no início desse texto, mesmo se tivéssemos apenas cartas pretas apresentadas, teríamos um desacordo, pois cada carta pode carregar consigo um ideal projetado diferente. Por isso, se o acordo é bom ou não, depende de como projetamos nosso olhar. Com uma certa distância desses ideais e disposição para enxergar além disso, teríamos, concordem ou não, o desacordo.

A condição de desacordo é a que propicia o acordo, e assim sucessivamente. A tensão que há nesse ciclo é deveras mais interessante.

 

Imagem: M. Naccarato

Competição, show ou ambos?

José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

Poker gourmet, ou melhor, poker fetiche

Fala-se de poker de muitas maneiras, na conversa entre amigos, na mídia em geral e na especializada, entre quem vive do jogo e os que não sabem exatamente do que se trata, alguns com certa reserva, alguns assombrados pelos jogos de azar, enfim, cada um fala de um poker, e o entende à sua maneira, por vezes, até repetindo o que ouvem. Tantas são as formas de ver, que pudera, o formato ao final, acaba sendo mais importante do que o conteúdo nos dias de hoje. Não à toa, se temos ultimamente algo tão consagrado no mercado é a gourmetização de qualquer produto, e porque não, de uma ideia ou conceito. O brigadeiro de padaria dobra de tamanho e é vendido por cinco vezes o seu valor no shopping center, o cachorro-quente do final da balada se torna um food truck, e não tão distante, o já naturalizado selfie frente ao espelho da academia não é uma versão melhorada de si mesmo?

Se algo denominado gourmet é melhor, deixo para o seu gosto decidir, afinal a questão talvez não seja o produto em si, pois os novos brigadeiros parecem ser mesmo melhores, mas e o tal formato?

Quem não se lembra dos comerciais do PokerStars, muito bem produzidos e carregados de jogos de imagens repletas de conceitos e com uma trilha sonora matadora, abusando de conhecidos jogadores de poker, que outrora anunciavam we are poker! Dois ou três anos depois, o maior site de poker prefere Nadal e Ronaldo como garotos-propaganda, os jogos de azar virão com força nas plataformas online, e o slogan já carece ser reformulado… We are entertainment. E Ronaldo é melhor que Negreanu pra isso, impossível não perceber quem é mais conhecido, quem vai atrair mais gente pro gamble. Não é pra você, grinder, que eles estão falando, esqueça esse papo de team pro, eles já dispensaram a maioria, na nova gourmetização do poker o foco é atrair praticantes recreativos, que vão oscilar entre um sit and go e uma rodada de blackjack.

O gourmet não me parece um incremento no produto ou serviço, ainda que também o seja, mas exatamente um formato que faça com que você perceba esse produto melhor, ou que lhe chame mais atenção, um apelo de embalagem.

Agora que já temos uma nova, e cíclica, versão melhorada do poker, podemos seguir para o segundo ponto, o fetichismo. Dan Bilzerian, enquanto pateticamente não arremessa outra peladona telhado abaixo, é o fetiche que todo o poker pode produzir: belas garotas nuas, armas, iates, carrões e grana, muita grana, tudo aparentemente conquistado com o joguinho. Grana essa que pode tirá-lo da prisão e colocá-lo num jatinho particular. Uma matéria no site Terra fala da hispano-belga Gaëlle García Díaz, modelo e jogadora de poker, que afirma que joga alguns torneios com roupas sensuais afim de não ser eliminada pelos adversários. Segundo a reportagem, Gaëlle é “linda, ousada, tatuada e rica”. Fetiche puro.

Que baita moralismo chato, não? Não, não é isso ainda, não se trata de uma questão de certo e errado, já vamos chegar lá. Do outro lado temos todo um mercado, afirmando e reafirmando seu novo formato de poker, uma atividade esportiva, um esporte da mente. Um esforço pra tirar a pecha de jogo de azar, pra afastar de vez o tio viciado que perdeu a fazenda, e onde se pode ser um atleta dos feltros, e subir ao pódio segurando a bandeira. Nesse aparente paradoxo, vagas para o BSOP poderão ser conquistadas na roleta do PS? Contudo, o paradoxo é só aparente, tudo parece ser a mesma coisa, nivelada pelo formato.

Nada tão redutor quanto simplificar toda a complexidade do poker à um formato. Nada tão igualmente sedutor. Exatamente o que há de irresistível no formato, nos deixou com poucos recursos para refletir sobre o jogo. É como uma mão perdida antes de seu início, onde você segura par de ases, e sabe que aquilo é bom, mas não sabe o que fazer até o river.

 

Fontes: Terra e Canal do PokerStars no YouTube. Imagem: wavebreakmedia / Shutterstock (editada)

Quando o poker é um palco sem heróis

O palco, sabemos, é um espaço designado para apresentações de performance artística. Nada de novo, no palco é onde o artista faz valer seu desempenho, assim como na oficina o mecânico, no hospital o médico, ou à mesa o jogador de poker. Contudo é no palco que fica evidente a exposição da imagem do ator, afinal, o mecânico não é assistido por um bando de gente quando está simplesmente fazendo seu trabalho, mas no caso do ator, ou de qualquer outra atividade que é vista por muitos, tudo parece ser maior.

Acontece que, nessas situações, as falhas são amplificadas por uma plateia pronta ao julgamento, bem como acertos e superações são alçados à outro patamar, algo mais elevado e sobre-humano, onde a admiração da plateia toma contornos de heroísmo. É essa analogia que está presente nos esportes, no culto às celebridades, nas empresas etc.

Quando substituímos o lado humano do protagonista por um suposto lado sobre-humano, projetamos na figura do heroi nossos anseios, fazendo valer mais a imagem do que a realidade. É nessa linha tênue que surgem os herois, mas quem precisa de herois?

Você pode dizer que precisamos deles, ou que herois são importantes e necessários. Bem, vejamos.

Não é exatamente o palco em si que cria os herois, mas os valores atribuídos aos herois nas diferentes oportunidades que aparecem. O palco evidencia os feitos, mas a carga de valor que vem depois é uma construção social, que passa pela história, pela comunidade e pelos meios de comunicação. Estamos tão acostumados a tudo se tornar palco, que se perde de vista o caminho percorrido, e a imagem acaba valendo mais que o feito, o fim valendo mais que os meios. Nesse sentido, o principal é notar que há uma diferença abissal entre admirar e idolatrar.

Admirar está mais na linha de perceber o que há de excepcional no feito, enquanto idolatrar traz consigo venerar a imagem e atribuir valores. É aí que as obrigações do palco para o protagonista se tornam tão ou mais importantes do que o feito em si. É aqui que surge o heroi, numa construção de valores.

Marcos Cerqueira abordou um tema similar em seu artigo Verde, amarelo, azul e branco, e ai? Ele fala sobre a falta de reconhecimento e suporte que o país tem para com o poker, e nos convida a deixar um pouco de lado a bandeira. Fato é que, quando um campeão brasileiro ergue a bandeira, ele pode fazê-lo por inúmeros motivos, seja como sinal de pertencimento, em amor à pátria ou aos seus iguais, ou até de forma demagógica. Nesse ponto o que fica claro é que o formato e intenção são mais importantes do que o fato em si.

O desafio para quem assiste é conseguir olhar o feito sem venerar a imagem, é admirar o caminho, que é o fluxo constante da vida. É ali que encontramos algo genuíno, sem herois, e onde a potência está presente em todos e no poder do conjunto. Quando os jogadores souberem a força que têm quando unidos, o poker será cada vez mais para os jogadores e menos para os poucos herois e bandeiras.

Se falamos tanto do poker como esporte, podíamos mudar o palco por um pódio, pois no palco é só a atuação que vale, é blefar que vale. E já que estamos falando de palco e herois, deixo uma frase para se pensar, do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht: Infeliz do povo que precisa de herois.

 

Imagem: Shutterstock

Pôquer sem comparações

O pôquer brasileiro evoluiu em vários aspectos ao longo dos anos. O árduo e competente trabalho da CBTH gerou muitos e ricos frutos, e com exceção do Rio de Janeiro, os estados brasileiros reconheceram a legitimidade do evento e se renderam ao sucesso do BSOP.

Fazendo jus ao tema, gostaria de provocar a reflexão dos amigos leitores sobre a insistência da mídia brasileira em comparar o pôquer com alguns esportes. Será que essa estratégia ainda é necessária? Até que ponto vale a pena ficar insistindo em dizer que o jogo de cartas chamado pôquer é um esporte? Será que a incontestável comprovação de que o pôquer não é um jogo de azar não basta?

Dias atrás, li um artigo sobre acordos financeiros em torneios de pôquer, onde o autor mostrava-se contrário a esse costume, alegando que o acordo influenciava na maneira de jogar dos participantes. Até aí, tudo bem. Só que em seguida, com intuito de reforçar a sua tese, o autor comparou o pôquer ao tênis. Argumentou que o jogador A, estando em uma partida final com o jogador B, não poderia propor a divisão do prêmio. Logo pensei: é lógico que não pode. Tal comparação pareceu-me apelativa e incoerente.

O fato de não ser possível fazer acordos financeiros no tênis não serve de comparação e, muito menos, de argumento para discordar dos acordos que são feitos em torneios de pôquer. São características e costumes completamente diferentes.

Entendo que o patamar alcançado pelo pôquer no Brasil credencia-o a seguir seus próprios caminhos, com a sua própria identidade. Sugiro, por fim, um novo slogan: Oi, muito prazer, eu sou o pôquer. Sou legítimo, reconhecido mundialmente e não faço questão de me parecer com ninguém.

 

Imagem: Shutterstock (editada)