WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

WSOP, séries de Las Vegas e muito poker

Daqui quatro dias começa a 45.a edição da World Series of Poker, com 65 eventos entre os dias 27 de maio e 14 de julho em Las Vegas. O tão falado torneio Big One for One Drop está de volta com o buy-in quase modesto de um milhão de dólares, e se o field chegar a 56 jogadores, a expectativa de premiação para o campeão é de mais de 20 milhões, além de um bracelete de platina.

Além do Big One e dos tradicionas Poker Player Champioship ($50 mil de buy-in) e o aguardado Main Event, outros torneios notáveis são o Evento #08 – Millionaire Maker NLH, com buy-in de 1.500 dólares e um milhão garantido ao campeão; e o Evento #41 – Dealer’s Choice, um 6-handed com buy-in de dez mil pratas e 16 modalidades de poker à escolha do jogador que estiver no assento do botão. Deepstacks diários e com preços mais em conta, mas sem valer bracelete, ocorrem em três horários, 3 e 6 da tarde e 10 da noite. Para o cronograma completo da WSOP, clique aqui.

Importante saber que nesta edição da WSOP, jogadores não-americanos terão que apresentar, além de um documento como o passaporte, um comprovante de residência para efetuar sua inscrição em qualquer um dos eventos, conforme divulgado pelo PokerNews nessa quinta-feira, após a organização da WSOP informar a novidade pelo seu canal no twitter.

Nesse período, Vegas não é apenas WSOP, e há uma enxurrada de séries e torneios que acontecem na cidade. Além dos torneios diários em grande parte dos cassinos, Golden Nugget, Venetian, Bellagio, Planet Hollywood e Aria também divulgaram as agendas de suas séries de poker. Pra quem vai à Sin City, uma grata iniciativa, o jogador belga Kenny Hallaert (@SpaceyFCB) divulgou no fórum TwoPlusTwo uma planilha bem trabalhada, compilando a listagem de todas as séries de poker que ocorrem entre maio e julho deste ano. Para ver o tópico no TwoPlusTwo, clique aqui, e para baixar a planilha, clique aqui.

Pra quem vai e pra quem fica, mas está curioso sobre a dinâmica do poker em las Vegas, uma dica de leitura é o livro Floating in Vegas, que fala do small stakes poker da cidade, e pode ser comprado por R$ 29,90 na Loja MaisEV.

Fontes: PokerNews, WSOP.com, Loja MaisEV, TwoPlusTwo e Kenny Hallaert. Foto: Las Vegas Strip (M. Naccarato)

Monty Hall, o indiano maluco e um pouco de Teoria dos Jogos

O filme Quebrando a Banca (título original “21”, de 2008), que tem como cenário Las Vegas e principalmente o cassino Planet Hollywood, conta a história do grupo de estudantes do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que desenvolveu um método de contagem de cartas para tirar vantagem nas mesas de blackjack da cidade. Jogando em equipe, eles conseguem ganhar uma boa grana, mas enfrentam vários problemas no desenrolar da história. Até aí, nada demais, é uma bela sessão da tarde, não fosse por uma cena que chamou minha atenção no início do filme. Nela, você pode conferir o professor, que é o cabeça do grupo, apresentando um problema para o novato da turma, que posteriormente se transforma no seu principal pupilo na empreitada dos estudantes para Las Vegas. O problema apresentado no vídeo é o Paradoxo de Monty Hall, que você pode conferir abaixo (em inglês):

Este problema ficou muito conhecido na década de 70 devido ao programa de televisão que o popularizou (Monty Hall, inclusive, é o nome do apresentador). Muitos Ph.D’s em matemática de várias universidades norte-americanas torceram o nariz para a resposta não convencional do problema. Bom, vejamos o porquê. O problema é simples, você está num concurso televisivo e o apresentador te mostra três portas, dizendo que atrás de uma delas há um carro zero km, e uma cabra em cada uma das outras duas portas. Ele pede então que você escolha uma das portas, e se acertar o carro, o prêmio é seu.

Acontece que após sua primeira escolha, o apresentador abre uma das portas não escolhidas e revela uma cabra. Claro que o apresentador sabe de antemão onde está o carro, e pra conferir um tom dramático ao programa, ele pergunta se você deseja trocar de porta.

Aparentemente, se sobraram duas portas apenas, uma com carro e outra com o ruminante, a chance é de 50% de acertar o prêmio, mas não é bem assim, pois a resposta que te dá mais probabilidade de acerto é contra-intuitiva. A troca das portas eleva sua chance de vitória para 2/3, pois o fato de haver uma porta revelada não modifica sua chance, mas fazer a troca sim. Quando você escolheu a porta, a chance de ter escolhido uma cabra é de 2/3, e quando efetua a troca, a chance de acertar a caranga aumenta para 2/3, como é falado no vídeo. Se você quiser tentar na prática, peça para um amigo separar duas cartas de espadas e uma de ouros, coloque-as facedown, e simule o problema algumas vezes, pelo menos umas dez vezes mantendo sua escolha inicial, e depois mais dez fazendo a troca, e confira os resultados.

Sabemos agora que a melhor escolha é aquela que aumenta a probabilidade de vencer, ou seja, como no poker, a melhor jogada é a que respeita a matemática, e traz uma melhor expectativa de ganho. Esse paralelo torna o paradoxo de Monty Hall bastante interessante por si só, mas levanta questões muito interessantes para o poker.

Muitas vezes, no feltro, somos enganados pela facilidade aparente de uma lógica que nem sempre representa a realidade, e estaremos frente à escolhas que parecem ser racionais e pautadas em verdades absolutas, mas vamos quebrar a cara, pois temos que olhar a situação sobre vários pontos de vista, e em algumas vezes, essencialmente de forma contra-intuitiva.

Pois bem, em 2010 eu estava em Las Vegas, jogando o torneio da noite na poker room do já citado Planet Hollywood Cassino. Nessa mesa havia um misto de bons jogadores e recreativos, mas um deles, um indiano mal encarado, não poupava fichas nas inúmeras mãos que disputava. Uma dessas mãos me chamou muita atenção, pela linha inusitada que o indiano utilizou. Depois de um jogador dar limp em early position, ele abriu um raise de 3xBB em MP, e tomou três calls, incluindo o limper original, SB e BB.

Embora estivesse fora da mão, fiquei observando a ação, e vimos o flop do capeta, 666. Todos mesaram, o indiano meteu meio pote, blinds deram fold e a ação voltou ao jogador em EP, que deu insta-call. No turn, um 3, EP deu check e o indiano check-behind. No river outro 3, formando um full house na mesa, e após o terceiro check do jogador em EP, o indiano estoura all in. Minutos depois, ele resolve dar o call e mostra 99, enquanto o indiano ameaça o muck, mas mostra A6 e puxa o pote.

Na visão do indiano, o limp em early position podia indicar um par de valor baixo, e talvez fosse improvável que ao menos um dos callers não tivesse um par na mão, fato que o fez apostar no flop estando nuts. Já no river, com um bordo desses, não duvido que ele se aproveitou da situação para extrair o máximo de fichas do seu adversário. Você certamente concluiria que o indiano estava jogando com o bordo, ou na melhor das hipóteses, que tivesse um full com um par na mão. Na visão do jogador em EP, seria improvável alguém apostar dessa forma com uma quadra ou um full maior na mão, o que deixou a aposta do indiano mais parecida com um blefe do que com valor.

Esse é um exemplo extremo, e vale dizer que era um torneio turbo, e que o indiano estava muito agressivo à mesa, mas isso mostra que linhas de jogo não convencionais, mudam a dinâmica do jogo (empurrar os blinds do UTG é um bom exemplo de jogada não convencinal que virou comum no poker). Pela cartilha, o indiano deveria cozinhar o adversário até que ele melhorasse sua mão, e só então apostar por valor no river, mas ao criar uma dúvida razoável ele sacou o oponente da mesa. As vezes o adversário parece querer te tirar da mão, o que parece lógico, mas de fato ele está apostando para tomar todas suas fichas. Essa mão me lembra a final hand do Main Event de 1998 da WSOP, não tanto pela linha de apostas, pois afinal Scotty Nguyen apenas deu call até o turn, mas pelo shove ao final da mão com direito a falinha, para confundir o adversário, induzindo-o ao erro.

Outro exemplo é o Jogo do Ultimato, que nada mais é do que uma aplicação prática da famosa Teoria dos Jogos (ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno). No Jogo do Ultimato, uma banca oferece um prêmio para o jogador A, digamos 100 fichas. Esse jogador deve dividir, à seu critério, uma porcentagem das fichas e oferecer ao jogador B. Se o jogador B não aceitar a oferta (ele apenas pode dizer sim ou não, sem qualquer tipo de barganha), a banca não paga nenhum dos dois. A saber, a banca faz isso apenas uma vez, ou seja, os jogadores não terão um novo turno de oferta e aceite, de forma que matematicamente o jogador B deveria aceitar qualquer quantia, pois ganhar uma ficha é melhor do que nenhuma, mas estudos mostraram que na prática, 2/3 das pessoas no papel de jogador A, fizeram divisões de 50/50 ou próximo disso, e, jogadores que ofereceram menos de 20% dos ganhos, perderam o prêmio, pois parece pouco lógico e até injusto, gerando um resultado com um desfecho emocional.

Em todos estes exemplos, seja no paradoxo de Monty Hall, na mão do indiano no Planet Hollywood ou no Jogo do Ultimato, aprendemos que a busca de qualquer jogador que decide se empenhar em aprender poker, seja recreativamente ou profissionalmente, esbarra sempre num método de jogo com expectativa positiva e numa compreensão dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem o jogo, e embora haja sorte e azar envolvidos em todas as mãos, poker é um excelente jogo mental, onde seu nível de jogo só vai melhorar quando você se der conta que a qualidade das suas escolhas na mesa são mais importantes que vencer ou perder a mão.

Para uma explicação mais detalhada do paradoxo de Monty Hall, acesse este link da Wikipedia, e para saber mais sobre a Teoria dos Jogos, acesse este link, também da Wikipedia e pesquise ainda mais, pois afinal, um poker bem jogado é fruto de muita prática, mas também de dedicação e pesquisa.

 

Foto: Jason Patrick Ross / Shutterstock.com. Publicado originalmente em Pokerdicas.

Mil dólares, hero-calls e filmes

Sua conta num mundo de faz de conta

 

O Planet Hollywood, em Las Vegas, começou a oferecer no ano de 2.012, um prêmio garantido de mil dólares para o campeão, nos seus quatro torneios diários de poker. Desconheço exatamente quando isso começou, mas suspeito que foi no meio do ano, para aproveitar o contingente de pessoas que vão jogar e assistir a WSOP e aqueles que vão curtir o verão tórrido que se aproxima na Sin City.

Uma boa estratégia para a casa, visto a quantidade de jogadores que se inscrevem e ajudam o prizepool a ultrapassar facilmente o valor garantido. Contudo, sob a ótica de alguns jogadores mais experientes, parece mais uma isca para atrair turistas (claro, a maioria é turista, mas me refiro aos jogadores ocasionais que estão de férias na cidade e vez ou outra trocam as mesas de roleta e blackjack pra tentar a sorte no poker), pois a estrutura de seis mil fichas e blinds de 20 minutos não agradaria a grande maioria deles. Mas, afinal, vale a pena?

Certamente para os turistas vale, e o field é repleto deles. Para os profissionais, definitivamente não, raramente você topa um deles no feltro, mas, alguns caras que têm uma noção razoável e conseguem jogar bem em estruturas mais rápidas aproveitam o edge, focam no prêmio e não ficam reclamando da curta pilha de fichas, afinal, uma boa chance de levantar um barão e arriscar um evento de mil dólares na Série Mundial.

Nunca tive um bom retrospecto nessa poker room, embora tenha sido a primeira sala que joguei em Vegas. Na minha última tentativa, em junho de 2.011, levei uma trinca na orelha bem no início. Uma tiazona limpa no UTG e eu acordo no BB com AQ, mando um raise depois de alguns limpers, e somente ela dá o call. O flop premiado ditou o meu destino, dois pares pra mim e trinca de cincos pra ela.

Eu já tinha notado que todos os dealers do Planet, que são rápidos e espertos, têm um crachá com seu nome preso a camisa, algo comum nos cassinos, e normalmente abaixo do nome, sua cidade natal (ou país). Peculiarmente, no Planet, abaixo do nome aparece seu filme favorito. Curioso perceber, especialmente nessa mão onde a tiazona me rapelou, que o filme escolhido por essa dealer era Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy, 1.989), quase um recado pra eu conduzir melhor minha dama pareada no flop… Um aviso cinematográfico, que tratei de deixar de lado enquanto dava call no all in e amargava a eliminação.

Bem, após um ano voltei lá, e depois de casar as 70 pratas pra jogar o torneio, entrei num chorrilho daqueles, mão após mão puxando tudo. Quando você entra num momento desses tudo faz mais sentido, a percepção fica mais apurada, a lógica por trás das jogadas fica clara e você ganha uma confiança tremenda. Aliás, confiança é algo pouco explorado pela literatura do poker, mas nesse caso, o excesso de confiança foi tão ou mais prejudicial do que a falta dele. E, alguns minutos depois de entrar nesse chorrilho, comecei a dar os piores hero-calls daquela temporada em Vegas. Três seguidos, e em todos os potes, independente de ter high card, bottom ou middle pair, fui vencido por um top pair que rasgou o river. O hero-call é um dos termos mais estranhos do poker, pois faz sentido quando o jogador acerta, mas o torna um bobalhão quando o vilão está a frente. No meu caso, inversamente, os três piores hero-calls foram precedidos por um hero-call genial, que me deu um pote monstro e uma confiança além do habitual, mas aquém da lógica, que me fez cegar de vez à mesa, desqualificando os adversários.

Atordoado e sem ação, fiquei aguardando um bom spot pra estourar tudo. Inerte por duas órbitas, assisti a um alemão, que foi movido para minha mesa, dobrar e ficar curto pelo menos por três vezes. Ele tomava aquela fatiada, encarava um flip, dobrava… Fatiada, flip, dobrada… E então recebi um AQ no meio da mesa, e como num flashback, olhei para o dealer, conferi o filme favorito dele, Duro de Matar (Die Hard, 1.988), e botei tudo no pano. A ação chega ao alemão que embora tivesse praticamente a mesma quantidade de fichas da minha pilha, personificava a frase “Arriscar nada é arriscar tudo”, e tomei um call de 33.

O desfecho? Dama na tampa do flop, trinca no river pra ele, duro, duro mesmo de matar. Faz sentido num mundo de faz de conta tal como é Hollywood e seu cassino. Só que não, joguei mal mesmo.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker.