Vegas em junho de 2015 e o tal poker

No forno que é a Sin City, o final da tarde é as oito da noite, é confortante, o calor abranda e o céu vai de azul pálido para escuro, mas tudo parece meio azul, laranja ou vermelho pelo reflexo das luzes que começam a gritar nos letreiros. A moldura cafona da noite vai se desenhando num emaranhado de neons, substituindo o deserto no horizonte. E o tal poker?

Bem, há quinze dias que é assim, mas essa paisagem fica mais na memória do que na vista, pois a mesa de poker é a morada do baralhão. Duas semanas atrás, as poker rooms da Strip cancelaram seus torneios diários, fila de 71 jogadores no cash $1/$2 do Flamingo, 45 pangarés no Harrah’s, 31 no Bally’s… Para se inscrever no único torneio aberto, no Caesars, 30 alternates, 150 dólares, 20 minutos de blinds e um bando de tiozão abrindo raise de 12xBBs no primeiro nível. Tudo culpa dos gigantes Colossus e Goliath, os torneios de buy in de $565 que encheram Las Vegas de amadores e profissionais para encarar a WSOP e a série do cassino Planet Hollywood (além da série Aria Classic WPT, que teve seu dia 1 no começo de junho, e só volta para o dia 2 em julho, pode?). É preciso ser Daví para runnar e vencer o Golias.

Claro que para aproveitar essa enxurrada de jogadores, algumas poker rooms criaram promoções. Os Porões de Las Vegas continuam chamando, Vitão. A espelhada sala de poker do Flamingo tem o jackpot mais atrativo, 20 mil pratas para quem perder com quadra de 5 ou maior. Impossível? Que nada, a foto do topo deixou a galera em festa na primeira noite do mês, 40% do jackpot para a quadra de 8, 20% para a de Ás, e o restante dividido para todos os presentes. Só em Vegas, 0,1% de chance no flop para a quadra de ases runner runner vencer e perder ao mesmo tempo. Agora entendi o motivo de ter chovido por duas vezes aqui.

De resto, a cidade que sempre muda, mas tem a mesma pegada de sempre, trouxe novidades. A poker room do TI, que já ficou ao lado da sempre presente fila para um dos espetáculos do Cirque du Soleil, foi parar em outro canto, ao lado de uma lanchonete, o que faz fichas, cartas e cachorro-quente parecerem uma coisa só. The Quad finalmente assumiu o nome The Linq (ex-Imperial Palace que já tem há mais de um ano uma roda gigante iluminada em seu quintal), e lamentavelmente fechou sua sala de poker em definitivo. Mirage fez o inverso, reformou a poker room na véspera da virada do mês, mas arrancou 2/3 dela para fazer um cashier. Numa dessas noites no fucking Mirage, na última mesa do fundo do salão, Jooryt van Hoof, terceiro colocado no main event do ano passado, jogava mixed games com uma parceirada animada e stacks monstruosos de fichas de $1.

O poker de Vegas tem de tudo, no início de junho parecia que tinha até mais poker player francês do que americano, muita piranha jogando $1/$2, e torneios voltando a grade usual depois do dia 5. Parada tem de monte, claro, jumento dá call com KJoff num all in monstro e perde, sobra com 1,5BB, fica queimado e vai all in na mão seguinte, mostra 44, e o BB dá call com 43off, mas esse 3 de couve é perigoso, e flusha no river. Andam dizendo por aqui que AQ de couve é mais forte que qualquer AK, quando começa a bater brócolis no bordo não pára mais, vira horta… Aqui tem jogador, e muito, e tem gambler daqueles que sempre deixam um troco na roleta, mas tem o tipo de cara que é ambos, e os que vieram atrás do sonho, embora a realidade crua me convença mais. Mas se você veio só para o poker, faça como Igor Marani, Pedro Marte & Cia, grinders dos satélites da WSOP, três brasucas contra a rapa num esquema +EV para sit and go de uma mesa. Para quem não veio, uma boa pedida é acompanhar o vlog do Gui Cardoso, que criou o diário 4 Cartas em Vegas, onde conta dia a dia sua rotina nos cashes de PLO da cidade, o capítulo um está aqui, e não esqueça de clicar no chinês.

E o tal poker? Termina na madrugada, e sentado à beira de uma das entradas do Flamingo, fumando um dos últimos cigarros entre mendigos, casais convencionais, velhotes, bêbados, grupos de garotas peitudas, garotos engomados e outros segurando suas calças caídas abaixo das cuecas; os acordes da melhor música do não tão bom Aerosmith: Dream on. Um trecho é significativo para muitos tantos jogadores, I know, it’s everybody’s sin, you gotta lose to know how to win. O pecado é a sina.

 

Foto: Cash game no cassino Flamingo (Rodrigo Saito)

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker

Mais um 7 a 1, agora no poker

Nesse último dia 10 de Novembro acompanhamos um capítulo importante da história do poker brasileiro, e tivemos muitas coisas interessantes nessa mesa final.

Vimos Mark Newhouse se transformar em um dos personagens mais singulares do poker mundial. Conquistou o mérito enorme de chegar duas vezes seguidas na mesa final mais cobiçada do mundo e caiu em nono lugar novamente. Na minha opinião, toda essa situação agregou carisma para o Newhouse.

Onde antes víamos uma personalidade aparentemente arrogante, hoje o vemos como um personagem engraçado, um cara desleixado, sem postura, com olheiras, realizando apostas displiscentes, jogando a mesa final da World Series of Poker como se fosse o torneio da pizza, e sempre se dando mal.

Também tivemos jogadas de destaque como a mão de Van Hoof contra Larrabe, onde o holandês transforma sua mão em blefe no river e faz o oponente foldar uma sequência, jogada típica do cenário de cash games high stakes de Omaha, onde sempre cabe blefe se não há nuts no range do oponente.

Mas queria dedicar esse texto ao nosso representante Bruno Foster.

Desde que conheço o Foster ele sempre foi um bom jogador com bons resultados e pudemos ver nas transmissões referentes ao torneio de Julho lampejos de craque nele, de top player mundial, como no 6-bet de Q8o pra cima do norueguês Stephensen, porém não vimos o mesmo brilho na mesa final, onde ressaltou uma diferença de preparo entre Foster e os adversários estrangeiros.

Essa situação me lembra a nossa Seleção de Futebol na Copa de 2014, tínhamos todo talento ao nosso lado mas ficou clara a diferença de preparação entre nós e a Seleção da Alemanha, culminando no inesquecível 7 a 1. Fomos pegos de surpresa e depois ficamos discutindo o que deveríamos ter feito, e chegamos a conclusão que eles não são, porém estão melhores que nós graças a um planejamento sólido.

Na minha opinião, nós do poker tomamos o nosso 7 a 1.

Não tenho dúvidas de que a preparação com Ariel Bahia, pessoa com talento inato para o jogo e um dos melhores jogadores de poker do Brasil, agregou muita coisa para o jogo do Foster e foi um ganho fundamental para a preparação dele, e tenho certeza de que ambos discutiram todas as possíveis estratégias para adotar em cada situação porém, como diria Garrincha, “só faltou combinar com os adversários”.

Foster mergulhou na mesma bolha que nossa Seleção de Futebol quando negou ter coachs estrangeiros, ao contrário dos seus oponentes que estavam se preparando com pessoas do mundo inteiro.

O sueco Martin Jacobsson não fez oficialmente um “coach” mas teve auxílio de mais de 20 jogadores do mundo todo, alemães, suecos, americanos, canadenses, top players de diversos países, e essa preparação técnica maior ficou evidente na mesa final, Jacobson estava em uma situação semelhante ao Foster, mesmo stack e obteve os mesmos spots, chegou inclusive a ficar na última colocação e agora está lá, campeão do mundo, com o bracelete em mãos e todas as glórias merecidas.

A situação de negar auxílios técnicos que vêm de fora é semelhante, guardadas as devidas proporções, a que impede, por exemplo, que o técnico da Seleção seja o Guardiola, nós brasileiros temos uma espécie de arrogância em relação a ajudas estrangeiras e isso, é claro, não é bom.

O poker vem lá de fora, eles jogam há muito mais tempo que nós, nós temos vantagens, temos talento para o jogo e coisas que eles nunca terão como torcida forte, comunidade unida etc, porém isso não nos torna os melhores do mundo. Os melhores livros de poker não estão em português, os melhores vídeos, artigos, tópicos de fórum também não.

O fato é que existe um mundo inteiro jogando poker além dos oceanos, milhares de pessoas que jogam poker todos os dias e não gritam “Vamoo” e aparentemente o Foster não se ligou muito nisso, teve a chance de ter coachs com quem quisesse e optou por se recolher ao universo brasileiro.

Na mão derradeira, all-in pré flop QT x 77, todos nós brasileiros, presentes na arquibancada, em casa ou asssitindo em clubes de poker gritamos alto no ouvido do baralho: “Dama! Dama!! Dama!!! Dez! Dez!! Dez!!!”.

Mas, lá em Las Vegas, os baralhos falam inglês.

 

Foto: Naccarato