Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

As duas pontas do poker: Libratus e William Kassouf

O termo duas pontas, no poker brasileiro, é o apelido para o open-ended straight draw, a chamada para completar uma sequência que precisa de uma carta por qualquer um dos lados. Numa abordagem mais abstrata, também podemos imaginar uma linha ou régua onde num extremo está o jogo puramente matemático e do outro lado estão os aspectos psicológicos presentes no poker. Diametralmente opostos, a forma matemática seria representada pelo computador Libratus, a inteligência artificial que “aprendeu” e venceu os humanos, e em oposição, o controverso jogador britânico William Kassouf representaria as estratégias de ordem emocional.

O computador Libratus, batizado com uma expressão do latim que significa equilibrado, desequilibrou a disputa humanidade versus inteligência artificial, (ou Brain vs. AI como ficou denominado), levando a melhor de lavada no desafio contra quatro jogadores profissionais durante o mês de Janeiro deste ano, onde jogaram 120 mil mãos. A máquina foi desenvolvida sobre algoritmos capazes de interpretar situações e criar estratégias para sair delas, e por isso “aprendeu” com os jogadores humanos como consertar seus próprios erros.

No vídeo abaixo, do canal do profissional Doug Polk, os quatro jogadores falam sobre suas experiências ao enfrentar Libratus, e levantam questões como a melhora do computador durante a disputa, algumas mãos muito estranhas, o fato de terem subestimado a máquina e a impossibilidade de parar o jogo quando não estão praticando seu A-game. É interessante e vale a pena conferir, além de estar legendado (embora um trecho do vídeo parece se repetir ao longo dos 20 minutos):

O jogador catarinense Alexandre Santos, do blog Um Out no River, discorreu sobre o assunto respaldando a opinião de Sean Chaffin, do Pokernews: o computador não tem medo do risco, enquanto que os humanos ponderam sobre isso. Contudo, o risco evidente nessa disputa em específico não parece ser exatamente a perda financeira (o dinheiro em jogo era fictício, os stacks reestabelecidos a cada mão etc.), senão a honra ou qualquer outro aspecto moral. Portanto, o que parece sobrepor a questão do risco é o fato de que Libratus não se abala como os outros jogadores durante a disputa, e isso pode ser determinante para o desfecho, afinal o computador não oscila emocionalmente.

E falando em jogo emocional, na outra ponta dessa linha imaginária estão as estratégias de base psicológica que são o diferencial de William Kassouf, que obteve seu melhor desempenho na WSOP em seu deep run no Main Event do último ano, sendo eliminado na 17.a posição e embolsando pouco mais de 338 mil dólares pelo feito. A caixa de ferramentas de Kassouf é uma mistura de falatório e longas pausas de tempo, que desestabilizavam seus oponentes e traziam como resultado algum tipo de vantagem para o britânico. Contudo, nem por isso podemos considerá-lo um dos melhores jogadores do mundo. O que é certo é que contra determinadas pessoas, seu estilo falastrão cria condições favoráveis de jogo pra si.

O paradoxo interessante dessa linha imaginária se apresenta justamente na oposição entre humanos e máquinas, psicologia e matemática, emoção e razão. O pokerbot calcula num nível inalcançável para humanos, e jogadores de pele e osso perdem porque tentam imitar o robô, pois buscam a matemática perfeita e inexplorável para vencer a calculadora no longo prazo (um verdadeiro trabalho de Sísifo). Enquanto o humano que tenta não imitar os humanos, pois cria uma maneira própria de jogo, vence justamente porque apresenta a si mesmo, e contudo, vai perder na maioria das vezes, pois o jogo se trata de muitas derrotas e algumas vitórias, e seu repertório pode ou não ter efeito.

Uma conclusão possível é a de que o eixo entre Libratus e Kassouf não exista, pois há inúmeras outras formas de aprendizado possíveis além das duas pontas, um combo-draw cheio de variantes e com menos definições. Não há nada mais sólido do que a boa matemática aplicada e o nervosismo ao blefar, elementos que são facetas entrelaçadas de um todo, e não o inverso.

É certo que Kassouf seria derrotado pelo computador, também de lavada, mas não é esse o ponto se necessariamente jogamos apenas contra humanos. Ademais, as realizações matemáticas alcançadas por Libratus podem abrir novas possibilidades de saber, ampliar o conhecimento sobre o jogo, e até descrever o que há de lógico numa jogada maluca e carregada de impulso do seu adversário. Nesses termos há um caminho potencialmente mais proveitoso do que tentar derrotar o computador.

 

Imagem: Shutterstock.com (editada)

Competição, show ou ambos?

José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

O campeão Jorge Moutella e as ressalvas

Em época de bracelete de um jogador dos mais conceituados como Decano, e de um quase November Nine de Negreanu, o poker carrega ressalvas. Não basta ganhar, e mesmo na sociedade do resultado, por vezes, o resultado não é suficiente. O desempenho de Jorge Moutella, campeão da etapa de São Paulo da Brazilian Series of Poker, dividiu opiniões. De um lado, o ineditismo de um feito, pela primeira vez o vencedor do evento principal eliminou todos os adversários na mesa final. Por outro lado, a relação de blinds e stacks teria favorecido o melhor conjunto de cartas, as certeiras mãos jogadas por Moutella na FT, jogador do interior de São Paulo que nunca havia disputado um field maior que quarenta jogadores. Parece a velha discussão sorte e habilidade.

Voltemos um tanto no tempo. Quem se lembra de Jamie Gold, falastrão que levou um Main Event de WSOP na base da falinha e anos depois leiloou o cobiçado bracelete. Pra citar outro amador, Jerry Yang, que passou a WSOP de 2007 gritando yes, yes! beijando a foto de seus filhos, apostando de pé, e pedindo à Deus para ganhar cada mão, nada muito técnico no final das contas, senão por uma técnica bem peculiar de meter ficha no pano (se ficou curioso, confira aqui um vídeo com as mãos de Yang no ME). Mais um que foi tido como um não bom embaixador para o poker, pelo menos na visão de outro campeão de WSOP, Joe Hachem, famoso pelos gritos de aussie, aussie, aussie! quando colocou as mãos no troféu máximo do poker. O discurso é tão presente quanto a gritaria, algo como: você deveria ter feito o que eu deveria ter feito, ou em suas palavras “O poker está morrendo”.

Em contraponto, ainda me recordo das manchetes quando o jovem Cada foi campeão do ME, “Joe Cada salvou o poker”. Sabemos que salvou a si mesmo da eliminação, acertando trincas improváveis por duas vezes na FT, e “nos” salvou também de termos na galeria dos campeões um lenhador que deixaria todo o prestígio do poker para voltar à sua terra natal, Maryland, e assim realizar a profecia de ser mais um não embaixador. Seria improvável ver um Darvin Moon de roupa preta empunhando a espada vermelha e estrelada do patrocinador nas contracapas das principais revistas de poker, no meio de uma floresta com o machado à tiracolo. Já, para Hachem, caiu bem.

Pois bem, entre embaixadores, amadores, fiascos e resultados, o poker criativo e bem jogado permanece tanto quanto o pouco técnico, e sistematicamente, uma grande maioria de amadores continua jogando e perdendo, tanto quanto uma parte dos vencedores vai dar cabo de representar o poker e deixar o sonho suspenso, algo que não é nem bom nem ruim, mas é a natureza cíclica do jogo e do mercado. Mas, questões como a legitimação de um campeão continuam não sendo balizadas apenas pelo resultado, e embora esse seja o primeiro passo, é a comunidade do poker que dá o aval, ou melhor, quem alimenta a opinião pública é quem dá o aval.

Na discussão contínua de quem é melhor, fenômenos aparecem, permanecem e somem, e suas posturas gritam tão alto quanto seus resultados. Evidentemente, debates ampliam qualquer diálogo, mas algumas vezes a própria indústria e a opinião pública parecem se esquecer do seu principal embaixador, o amador que em 2003 mudou o panorama do jogo. A vitória de Moneymaker é emblemática, a típica boa história americana, a mitologia do herói no ocidente, o soldado que foi à guerra, o amador que venceu.

Todo o trabalho de construção de um ídolo depende da façanha, e valorizar ou desprestigiar uma vitória são os lados para se escolher no momento de contar uma história. Afinal, Moutella teve um bom desempenho pelo fato de ter eliminado todos os mesa-finalistas ou ele deu sorte? O prestígio de Moneymaker veio do bracelete ou da história que propiciou uma explosão do poker? O ponto não é defender ou atacar os amadores, não é esse o caso, mas quando tratamos uma vitória no poker como um acidente, mais ou menos como uma margem aceitável de erro na regra, esquecemos que poker é um jogo. Por outro lado, Moneymaker e a legião de amadores expõem o paradoxo dessa questão, a maior propaganda para o poker vem pelas mãos de amadores.

O bom jogador continua ganhando, e mesmo a contragosto, o poker continua real, mas a pergunta fica, a competição legitima o quê?

 

Imagem: pogonici/Shutterstock.com (editada)

Call

No centro do clube há uma mesa elevada sobre um palco acima dos olhos, contornada por luzes, aparelhada com cadeiras confortáveis, embaralhador automático, hole cams, diretor e floor, e um dealer comandando tudo. Isso faz com que a mesa não seja vista em sua totalidade, mas apenas em partes por uma grande e crescente plateia.

O efeito esperado é conseguido, o destaque para a mesa principal, e a chance de não vê-la, faz com que todos nutram interesse e queiram assistir e participar. Contudo, nessa mesa jogam poucos, a seleção é criteriosa, é preciso ser convidado, legitimado. Jogadores em alternate raramente são chamados, pois os assentos livres estão reservados. Além do que, nessa mesa apenas se joga de um jeito um jogo previamente combinado, conluio tácito, descarado apenas para poucos que somente por estarem longe o suficiente da mesa, conseguem decifrá-lo.

Para esses poucos, cartas não têm naipe, fichas não têm valor, e fica perceptível que e a cada aposta o pote aumenta, mas ninguém puxa. Assim, todos à mesa são não-ganhadores, o que gera o paradoxo do jogo, onde ninguém pode ser derrotado ou eliminado. Mas há uma escolha, você pode comprar sua entrada na mesa cobiçada, basta pagar mais no rake do que no buy in, o que descaracterizaria o jogo, o que não teria graça, e se mesmo assim você decidir entrar, um pensamento prevalecerá: dar um call que de tão pequeno não tem como não ser dado ou foldar frente a derrota evidente. O que escolher se quem está na mesa nunca perde?

Enquanto isso, o dealer distribui as cartas sorrindo, fazendo parecer que o jogo continua normalmente, com regras que se desconhece, com o mesmo flop de sempre e rodadas que nunca chegam ao river, numa mesa onde o jogo ocorre apenas por encenação.

 

Imagem: Bruno Teramoto (editada)

Entre as últimas streets

Era tarde, madrugada longa no pano sob um silêncio confortável entre os jogadores à mesa, onde dava para se ouvir o barulho das cartas a cada flop. No entanto, para ele, o poker já era desconfortável, já não valia a pena. Ele não estava mais pelo jogo, não havia nada que provocasse nele qualquer tipo de sentimento ou pensamento mais elaborado. Todo o lado negativo da rotina era o todo que somente ele percebia.

Ele dividia os jogadores em três tipos, os que não percebem o quanto o poker ficou técnico, e por isso se divertem; os que percebem e por isso mesmo acham fascinante; e os desiludidos, com os quais ele mais se identificava. Tal desilusão o afastava, já há algum tempo, de qualquer propósito maior, fazendo com que uma melancolia interna vencesse sua vontade. Foi aos poucos, e como num conta gotas, encheu.

Era tarde, a vida estava chata, achatada, sem perspectivas, e o jogo havia se tornado obrigação, e em seu sentido estéril havia se tornado sem sentido. A vida é um jogo, dizem, e para ele, o jogo era, apesar de tudo, a vida que lhe restava.

Quando o bordo todo em preto mostrava no turn dois ases e dois oitos assentados no pano rubro, ele enfim percebeu, ele sabia o que estava acontecendo, sabia o porquê. Era a vida que lhe restava, mas era tarde. E no mais profundo silêncio, sem ao menos o barulho do baralho, ele ficou imóvel de repente, sentado, segurando um ás, vermelho sangue, a primeira e última carta do baralho, a derradeira do bordo que não teve fim. Os jogadores demoraram um pouco a perceber, o river levou um tempo maior que o normal, só por isso notaram o dealer, que morreu em silêncio, entre as últimas streets, sem bater a última carta.

Pra ele, um dealer cansado de gastar as mãos no feltro, aquela mão nunca terminou, foi o jogo que o libertou do martírio de estar tão perto do jogo e não jogar.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

Poker gourmet, ou melhor, poker fetiche

Fala-se de poker de muitas maneiras, na conversa entre amigos, na mídia em geral e na especializada, entre quem vive do jogo e os que não sabem exatamente do que se trata, alguns com certa reserva, alguns assombrados pelos jogos de azar, enfim, cada um fala de um poker, e o entende à sua maneira, por vezes, até repetindo o que ouvem. Tantas são as formas de ver, que pudera, o formato ao final, acaba sendo mais importante do que o conteúdo nos dias de hoje. Não à toa, se temos ultimamente algo tão consagrado no mercado é a gourmetização de qualquer produto, e porque não, de uma ideia ou conceito. O brigadeiro de padaria dobra de tamanho e é vendido por cinco vezes o seu valor no shopping center, o cachorro-quente do final da balada se torna um food truck, e não tão distante, o já naturalizado selfie frente ao espelho da academia não é uma versão melhorada de si mesmo?

Se algo denominado gourmet é melhor, deixo para o seu gosto decidir, afinal a questão talvez não seja o produto em si, pois os novos brigadeiros parecem ser mesmo melhores, mas e o tal formato?

Quem não se lembra dos comerciais do PokerStars, muito bem produzidos e carregados de jogos de imagens repletas de conceitos e com uma trilha sonora matadora, abusando de conhecidos jogadores de poker, que outrora anunciavam we are poker! Dois ou três anos depois, o maior site de poker prefere Nadal e Ronaldo como garotos-propaganda, os jogos de azar virão com força nas plataformas online, e o slogan já carece ser reformulado… We are entertainment. E Ronaldo é melhor que Negreanu pra isso, impossível não perceber quem é mais conhecido, quem vai atrair mais gente pro gamble. Não é pra você, grinder, que eles estão falando, esqueça esse papo de team pro, eles já dispensaram a maioria, na nova gourmetização do poker o foco é atrair praticantes recreativos, que vão oscilar entre um sit and go e uma rodada de blackjack.

O gourmet não me parece um incremento no produto ou serviço, ainda que também o seja, mas exatamente um formato que faça com que você perceba esse produto melhor, ou que lhe chame mais atenção, um apelo de embalagem.

Agora que já temos uma nova, e cíclica, versão melhorada do poker, podemos seguir para o segundo ponto, o fetichismo. Dan Bilzerian, enquanto pateticamente não arremessa outra peladona telhado abaixo, é o fetiche que todo o poker pode produzir: belas garotas nuas, armas, iates, carrões e grana, muita grana, tudo aparentemente conquistado com o joguinho. Grana essa que pode tirá-lo da prisão e colocá-lo num jatinho particular. Uma matéria no site Terra fala da hispano-belga Gaëlle García Díaz, modelo e jogadora de poker, que afirma que joga alguns torneios com roupas sensuais afim de não ser eliminada pelos adversários. Segundo a reportagem, Gaëlle é “linda, ousada, tatuada e rica”. Fetiche puro.

Que baita moralismo chato, não? Não, não é isso ainda, não se trata de uma questão de certo e errado, já vamos chegar lá. Do outro lado temos todo um mercado, afirmando e reafirmando seu novo formato de poker, uma atividade esportiva, um esporte da mente. Um esforço pra tirar a pecha de jogo de azar, pra afastar de vez o tio viciado que perdeu a fazenda, e onde se pode ser um atleta dos feltros, e subir ao pódio segurando a bandeira. Nesse aparente paradoxo, vagas para o BSOP poderão ser conquistadas na roleta do PS? Contudo, o paradoxo é só aparente, tudo parece ser a mesma coisa, nivelada pelo formato.

Nada tão redutor quanto simplificar toda a complexidade do poker à um formato. Nada tão igualmente sedutor. Exatamente o que há de irresistível no formato, nos deixou com poucos recursos para refletir sobre o jogo. É como uma mão perdida antes de seu início, onde você segura par de ases, e sabe que aquilo é bom, mas não sabe o que fazer até o river.

 

Fontes: Terra e Canal do PokerStars no YouTube. Imagem: wavebreakmedia / Shutterstock (editada)

Aparente e oculto

O sorteio dos assentos garantiu uma disposição frente a frente com o algoz da noite. A posição nove, aquela cadeira de merda que te faz perder a visão de boa parte do lado esquerdo da mesa, parecia ditar que a noite de poker não seria das mais fáceis. Percepção, a que talvez seja a mais contundente qualidade, só poderia ser usada com toda força pelo lado de cá, e precisamente, logo a frente. O algoz, barba por fazer e braço tatuado, lembrava os revoltados dos anos 80, numa época em que ter tatuagem ainda era considerado algo marginal, algo que metia medo. Aliás, tatuagem indecifrável, sempre coberta por parte da manga ou pela pilha de fichas do stack que não parava de crescer.

Você passa algum tempo tentando perceber a dinâmica toda, entender os oponentes, tentando sacar em cada movimento, em cada valor de aposta, quem o baralho vai ajudar. Mas no caso do algoz, o baralho não só estava o ajudando, mas era quase impossível não percebê-lo, afinal dificilmente uma mão não seria jogada por ele, que via todos os flops e quase todos os boards. De início você evita o adversário, deixa passar uma ou outra oportunidade, depois começa a perceber que alguns flops valem a pena, e quando você está chegando até o turn e foldando, se dá conta de que o seu jogo ficou pra trás, e que não é o fato de ele estar acertando tudo, mas que você é que esqueceu de fazer seu próprio jogo.

O algoz não larga uma mão, quando aposta alto, acerta, e quando só paga, acerta no final, no river, sempre ele. E ele paga, pode ter certeza, até a última carta religiosamente.

É hora de tomar um ar, esquentar os pulmões com um cigarro amassado, ouvir a parada do parceiro, que acabou de ser eliminado pelo nosso algoz, que flushou runner-runner depois de pagar até o river, horrível, sempre ele. Voltando a mesa, mais um eliminado, dessa vez, o algoz achou uma trinca, mais uma vez no river, e acabou com o top pair de mais um desavisado, que deixou a mesa gritando: – Mas como acerta! Mas como?!

Nem tudo está perdido, e depois do raise do algoz, um all in no momento certo, que ele chorou até decidir pagar, mas o fez, e você estava a frente, AJ x KJ, que o flop tratou de aumentar a vantagem, mas que só segurou até o river barbudo que te sacou da merda do assento nove, o assento míope, onde a percepção tarda. Seu algoz agora tem nome, é Lucas, que vem te cumprimentar após a eliminação, e estica o braço para revelar a tatuagem, uma frase, assinada por Lucas, seguida da notação 12:2 e o versículo: Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido.

O que sua percepção deixou de ver não foi o lado esquerdo da mesa, mas que o algoz acredita mais nas cartas, ou em si, do que você.

 

Imagem: Shutterstock (editada)