Regulamentação do poker: uma busca por equidade

Podemos começar com um passado recente e outro muito recente. Em meados de 2009 conversava pela manhã com um amigo que varou a noite numa delegacia prestando depoimento, ele havia sido levado pela polícia junto dos demais jogadores durante a disputa de um torneio de poker, num dos poucos, e por isso conhecidos, clubes da capital paulista na época. Era sua primeira investida no poker ao vivo, com exceção das mesas em casa com os amigos. Por sorte correu tudo bem e ele encarou a situação com naturalidade, afinal, naqueles tempos isso era um fato comum. Vale lembrar, sair de um home game para jogar poker num clube, era por vezes, algo evitável para uma parte dos jogadores recreativos há 7 ou 8 anos, em função de ocasiões como esta.

Em dezembro de 2014, numa mesa de cash game num grande cassino na Flórida, ganhei o jackpot da high hand, 200 dólares para a mão mais alta que segurasse até o final daquela hora, e como minha quadra não foi batida, aguardei a chegada do floorman para receber o prêmio. Em meia hora ele estava ao meu lado, pediu passaporte, coçou a cabeça, foi ao cashier e depois de mais meia hora retornou com uma papelada e a grana na mão. Preso ao prendedor da prancheta, um tipo de recibo e algumas folhas cor de rosa em duas ou três vias, era o imposto referido aos estrangeiros, que beliscou 30% do prêmio. Assinei. Satisfeito com o capilé, pero no mucho.

Bom, nessa pequena linha do tempo espero ter mostrado dois lados da mesma atividade, o poker. Dois lados opostos que ainda hoje expõem as contradições de um mercado. O H2, famoso clube paulistano de poker, foi fechado pela polícia em março deste ano, enquanto que na mesma época, os jogadores da etapa da Brazilian Series of Poker em Balneário Camboriú pagavam impostos sobre seus ganhos por terem concluído suas participações no torneio dentro da faixa de premiação. Um contrassenso, não?

É justo ser detido pela polícia por jogar poker? É justo pagar 1/3 do prêmio em impostos? Precisamos de justiça? Bem, Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga, nos diria que precisamos ir além da justiça. Em Ética à Nicômaco, uma de suas principais obras, ele desenvolveu um conceito de justiça que é usado no Direito até os dias atuais, baseado num saber prático que está relacionado diretamente à ética. Aristóteles entende a justiça como virtude, e divide seu conceito primeiramente em justiça geral e justiça particular. A primeira trata da observância da lei, já a segunda tem como objetivo realizar uma igualdade proporcional entre os envolvidos.

Dentro da justiça particular de Aristóteles está a ideia de equidade, a forma justa da aplicação do Direito, uma adaptação da regra que considera igualdade e justiça, interpretando a lei e levando em conta a especificidade de cada tema, algo que vai até onde a lei não alcança. Parece um pouco diferente da noção que temos no poker, onde equidade está relacionada com a parte do pote que o jogador espera ganhar no longo prazo dependendo das suas chances de vitória, da probabilidade da sua mão. Mas não, no fundo o conceito está presente em ambas definições, precisamos da equidade de Aristóteles na regulamentação da atividade, a parte do pote que nos convém.

Ou seja, precisamos ir além da justiça, precisamos de equidade em seu sentido mais amplo. Uma regra específica para uma atividade específica. É o papel que se espera deste novo grupo de trabalho, levar ao Ministério dos Esportes subsídios para que a atividade se regulamente da melhor forma para jogadores, dealers, clubes e operadores do mercado. Que permita nosso amigo ir ao torneio sem ser preso, que retire da atividade a clandestinidade que nela resta, e onde o imposto pago pode ser o justo, equitativamente justo nesse pote. Um marco para um longo prazo.

Evidente que o poker é igual a trabalho pra muita gente, e há certa quantidade de jogadores receosos, principalmente profissionais que jogam online, pois o que está por vir é uma incógnita. Alguns mercados na Europa já passaram e estão passando pelo mesmo processo, e cada um está experimentando os resultados, que bons ou ruins servem de modelo, pois regulamentar o poker não é uma questão de escolha, mas uma condição. A regulamentação é também uma preocupação dos operadores de poker online, o risco de operar num país sem mercado regulado é alto, por vezes inviável. Portanto, as reações contrárias a regulamentação por uma parte da comunidade de poker online são legítimas e precisam ser consideradas desde que lúcidas. Parece simples, teremos o funcionamento das salas de forma regulamentada, ou não teremos salas, o que deve acontecer num médio prazo. Por isso as reclamações em favor do “deixa como está” ou “pra que foram mexer aí”, parecem negações de uma realidade evidente, por isso precisamos de jogadores conscientes, com discurso coerente e disposição para o debate.

Atacar o início do processo de regulamentação do poker no Brasil é uma opção, mas uma opção de vítima apenas. Nesse caso, atacar não é escolha, é defesa, defesa contra uma suposta injustiça. Primordial é notar que a escolha a ser feita, afinal, reside na forma com a qual cada jogador de poker brasileiro pode atuar nesse processo, e isso inclui ser crítico e contributivo nessa questão. Xingar é ser acrítico, apoiar cegamente e incondicionalmente, idem. Ser ético é uma saída atuante, é se abrir para a possibilidade do outro, ter imaginação para com o outro. Nossa participação se dá em várias direções, pode ser um texto como esse, uma conversa com os amigos, nos clubes, discussões nos fóruns de poker, cobrar esclarecimentos e uma atuação direta nas federações. Fazer o que está ao alcance, municiando quem vai representar o mercado do poker com aquilo que nos aflige e beneficia.

Hoje, precisamos perceber que o poker no Brasil é uma indústria, tem interesses, política, valores, e está sujeita a todo um sistema, contudo é uma atividade que escolhemos participar, seja lá por qual denominação cada um a entenda, esporte, trabalho, jogo de habilidade ou entretenimento. E como qualquer mercado, caminha para uma regulamentação que precisa assegurar a própria existência, esse é o ponto de partida de qualquer discussão numa sociedade que aprende a lidar com um mundo interligado e cheio de novas alternativas de negócio. Uber, Netflix e similares são exemplos de que a força inovadora presente em qualquer mercado, demanda dos governos, atitudes. Poker é uma dessas novas atividades.

Por todos essas questões que pressionam o nosso poker por todos os lados, e farão surgir uma remodelada atividade, precisamos de equidade.

 

 

Imagem: Konstantin Faraktinov/shutterstock.com (editada)

A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

Gratuito no lançamento, o livro Floating in Miami é mais um capítulo despretensioso da baralhada que se iniciou em Las Vegas

Um jogador de poker aproveita o tempo vago numa viagem a trabalho para cidade de Miami, e se embrenhar por um circuito de poker criado pelo acaso. Esse é o mote da jornada do autor Marco Naccarato por uma das mais latinas cidades dos Estados Unidos. Entre as inúmeras rodovias e vias expressas percorridas, num total de cinco cassinos visitados, o novo livro segue a fórmula já conhecida de Floating in Vegas, com muitos relatos de mãos, humor, análises e um retrato de como o jogo se desenrola nas poker rooms de Miami.

Capa do ebook Floating in Miami
Capa de Floating in Miami

Quem espera uma abordagem técnica ao ler Floating in Miami não vai encontrar exatamente isso, afinal há inúmeras obras no mercado que abordam o jogo pelo seu lado metodológico e matemático, mas o que torna o livro diferente é a narrativa, repleta da percepção peculiar do autor, que mostra um ambiente interessante para quem gosta do joguinho. É o que se nota a partir da capa, a imagem de uma rodovia de Miami ao entardecer, que não tem relação direta com o poker, e foge do óbvio por conta disso. De ponta-a-ponta, o mérito do texto é mostrar o que está no entorno do jogo, e evidentemente o que passa pela cabeça de um jogador.

Floating in Miami, somente em formato ebook, está sendo lançado nesta segunda-feira, 23 de fevereiro, no site da Amazon, e pode ser baixado gratuitamente até o dia 27. Depois desse período o preço do livro volta aos R$8,35, podendo variar conforme a cotação do dólar, pois o valor é fixado em US$3,00. Importante dizer que não é preciso ter um kindle para baixar e ler, pois você também encontra no site da Amazon o aplicativo de leitura que funciona em Windows, Apple e Android, o que permite ler em qualquer smartphone, tablet ou computador.

Junto deste lançamento, o autor disponibilizou a segunda edição do livro anterior, Floating in Vegas, também em formato digital no site da Amazon, pelo preço de R$13,35. Também é possível baixar uma amostra gratuita, que contém apenas as primeiras páginas do ebook, e traz um tutorial de poker para os iniciantes, acessível sem necessidade de comprar o livro todo. A compra de Floating in Vegas, em livro físico, ainda pode ser efetuada na loja online do portal MaisEV e na Pokerholic.

 

Imagem: Divulgação

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker

Aparente e oculto

O sorteio dos assentos garantiu uma disposição frente a frente com o algoz da noite. A posição nove, aquela cadeira de merda que te faz perder a visão de boa parte do lado esquerdo da mesa, parecia ditar que a noite de poker não seria das mais fáceis. Percepção, a que talvez seja a mais contundente qualidade, só poderia ser usada com toda força pelo lado de cá, e precisamente, logo a frente. O algoz, barba por fazer e braço tatuado, lembrava os revoltados dos anos 80, numa época em que ter tatuagem ainda era considerado algo marginal, algo que metia medo. Aliás, tatuagem indecifrável, sempre coberta por parte da manga ou pela pilha de fichas do stack que não parava de crescer.

Você passa algum tempo tentando perceber a dinâmica toda, entender os oponentes, tentando sacar em cada movimento, em cada valor de aposta, quem o baralho vai ajudar. Mas no caso do algoz, o baralho não só estava o ajudando, mas era quase impossível não percebê-lo, afinal dificilmente uma mão não seria jogada por ele, que via todos os flops e quase todos os boards. De início você evita o adversário, deixa passar uma ou outra oportunidade, depois começa a perceber que alguns flops valem a pena, e quando você está chegando até o turn e foldando, se dá conta de que o seu jogo ficou pra trás, e que não é o fato de ele estar acertando tudo, mas que você é que esqueceu de fazer seu próprio jogo.

O algoz não larga uma mão, quando aposta alto, acerta, e quando só paga, acerta no final, no river, sempre ele. E ele paga, pode ter certeza, até a última carta religiosamente.

É hora de tomar um ar, esquentar os pulmões com um cigarro amassado, ouvir a parada do parceiro, que acabou de ser eliminado pelo nosso algoz, que flushou runner-runner depois de pagar até o river, horrível, sempre ele. Voltando a mesa, mais um eliminado, dessa vez, o algoz achou uma trinca, mais uma vez no river, e acabou com o top pair de mais um desavisado, que deixou a mesa gritando: – Mas como acerta! Mas como?!

Nem tudo está perdido, e depois do raise do algoz, um all in no momento certo, que ele chorou até decidir pagar, mas o fez, e você estava a frente, AJ x KJ, que o flop tratou de aumentar a vantagem, mas que só segurou até o river barbudo que te sacou da merda do assento nove, o assento míope, onde a percepção tarda. Seu algoz agora tem nome, é Lucas, que vem te cumprimentar após a eliminação, e estica o braço para revelar a tatuagem, uma frase, assinada por Lucas, seguida da notação 12:2 e o versículo: Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido.

O que sua percepção deixou de ver não foi o lado esquerdo da mesa, mas que o algoz acredita mais nas cartas, ou em si, do que você.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

Poker, a Serra Pelada dos nossos dias

Bamburrar, no início de 1980, foi a expressão que representava a busca dos milhares de garimpeiros que, vindos de todas as partes do Brasil, rumaram para o sul do estado do Pará atrás do sonho de enriquecer, no que se tornaria o maior garimpo a céu aberto do mundo, a Serra Pelada (retratada acima pelo ilustre fotógrafo Sebastião Salgado).

Traduzindo para o vocabulário do poker, bamburrar é forrar. Mas há mais semelhanças por aí. O garimpo é o grind, e o garimpeiro, o grinder, que vivenciam o mesmo trabalho árduo. Se o poker tem rake, em Serra Pelada não era diferente. Logo no início da exploração da região, o governo brasileiro interveio no local, e montou um posto da Caixa Econômica Federal, que era o único comprador oficial do ouro coletado por lá. Contudo, o valor pago chegava a 60% do valor real. Para o poker, impraticável até para aquelas contas mais premiadas, ou seja, não é tão fácil assim, e tanto em Serra Pelada quanto no poker, alguns fizeram fortunas, mas a maioria não. Foram notórias as mortes e condições precárias no garimpo, bem como no poker, é preciso respeitar o ferro e a natureza do jogo.

Contudo, o que atraiu os garimpeiros para a região foi um boato que se espalhou rápido, brotava ouro do córrego que ficava ao pé da serra, e em pouco tempo milhares foram atraídos pelo sonho, e a fazenda que ficava por lá se tornou uma jazida de 100 metros de profundidade. O boom de Serra Pelada lembra a história do boom do poker, protagonizada pelo contador Chris Moneymaker, amador que conquistou sua vaga para a WSOP num satélite online e cravou o Main Event da edição de 2003.

“A propaganda é a alma do negócio”, e o boom do poker é fruto da melhor propaganda possível: Qualquer um pode ficar rico do dia pra noite, basta tentar, basta jogar, basta garimpar.

Esta então é a coincidência mais contundente entre o garimpo de Serra Pelada e o Poker, pois o boato e a propaganda surgem de um fato, que quando amplificado, mostra apenas um lado idealizado das duas atividades, fazendo parecer fascinante e fácil a dura realidade das cartas ou bateias. É quando a propaganda se torna sentido e condição da verdade, que nos tornamos parte do formigueiro humano no garimpo, esperando por um golpe de sorte.

 

Fonte: Leandro Narloch para Aventuras na História (Guia do Estudante – Editora Abril). Foto: Sebastião Salgado

O que a luta do século entre Muhammad Ali e George Foreman ensina sobre o poker

Em Kinshasa, há quarenta anos, Muhammad Ali e George Foreman travaram a chamada luta do século, ou como ficou conhecida, The Rumble in the Jungle, o combate na selva, no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo.

Neste heads-up antológico do boxe, Ali era o underdog frente a potência do adversário, alguns anos mais novo e atual campeão mundial. É como se um grande jogador de poker de antigamente, há tempos sem jogar, estivesse enfrentando a mais nova revelação do poker, com uma considerável desvantagem em fichas.

Ali, como um bom lutador, tentou imprimir sua estratégia inicial de ficar dançando em torno do ringue, mas logo notou que não seria possível, afinal ele já não era mais tão jovem, e cansado, seria alvo fácil para o peso das luvas de Foreman, que partira para definir a luta nos rounds iniciais. Muhammad Ali mudou seu plano, se escorou nas cordas, e passou os assaltos seguintes se esquivando e levando uma saraivada de golpes de Foreman, com o intuito de cansar o campeão. Pelo menos é o que conta a revista The Ring, reproduzindo trechos do livro de Thomas Hauser, Muhammad Ali: His Life and Times.

Assim, no oitavo round, e percebendo o adversário exaurido, Ali aplicou uma sequência de golpes que levaram o oponente à lona. Foi a vitória da inteligência sobre a força.

A luta foi organizada pelo até então desconhecido Don King, que pagou uma bolsa de cinco milhões a cada pugilista para que a luta fosse realizada do outro lado do oceano, no meio do continente africano. Quem financiou? O ditador do Zaire, Mobutu Sese Seko, e somente assim King conseguiu promover a contenda. De fato, o evento não contou apenas com a luta entre os pesos-pesados, houve também um festival de música e apresentações de caras como B. B. King e James Brown.

Para convencer Foreman, Don King usou os cifrões e o argumento de que milhares de negros foram levados da África para serem escravos, mas que agora dois campeões negros retornariam ao continente para disputar o título mundial e celebrar a liberdade! Se é um marketing dos bons ou papo-furado, não sabemos, mas Big George aceitou, perdeu a luta, e anos depois reconquistou o título de campeão dos peso-pesados aos 45 anos de idade.

Além disso, há um contexto histórico interessante que precede os anos anteriores a luta. Muhammad Ali havia sofrido perseguição política ao se negar lutar pelo exército norte-americano na guerra do Vietnã. Ficou de escanteio no mundo do pugilismo e foi criticado pela opinião pública mais conservadora numa sociedade racista. Estava diretamente ligado ao líder Malcolm-X, além de ter se convertido ao islã.

O que esta luta ensina aos jogadores de poker, é que ter uma estratégia é tão importante quanto ter criatividade para mudá-la, e que qualquer atividade tem aspectos econômicos e culturais envolvidos, independente do que o pugilismo representa e justamente por ele representar algo. Como no boxe, o poker não é somente fichas e cartas.

Então, a luta na selva se torna uma boa história simplesmente porque conseguimos ver um feito notável em meio a uma situação onde um promotor oportunista, organiza uma luta financiada por um ditador, entre um desertor, que deseja restaurar seus direitos, e um jovem promissor que subestimou seu adversário.

 

 

Fontes: Site do PCO, Coluna de Eduardo Ohata para Folha de S. Paulo, Examiner.com e Revista The Ring. Foto: Poker Room desativada do Caesars Palace em Las Vegas (M. Naccarato)

Quando o poker é um palco sem heróis

O palco, sabemos, é um espaço designado para apresentações de performance artística. Nada de novo, no palco é onde o artista faz valer seu desempenho, assim como na oficina o mecânico, no hospital o médico, ou à mesa o jogador de poker. Contudo é no palco que fica evidente a exposição da imagem do ator, afinal, o mecânico não é assistido por um bando de gente quando está simplesmente fazendo seu trabalho, mas no caso do ator, ou de qualquer outra atividade que é vista por muitos, tudo parece ser maior.

Acontece que, nessas situações, as falhas são amplificadas por uma plateia pronta ao julgamento, bem como acertos e superações são alçados à outro patamar, algo mais elevado e sobre-humano, onde a admiração da plateia toma contornos de heroísmo. É essa analogia que está presente nos esportes, no culto às celebridades, nas empresas etc.

Quando substituímos o lado humano do protagonista por um suposto lado sobre-humano, projetamos na figura do heroi nossos anseios, fazendo valer mais a imagem do que a realidade. É nessa linha tênue que surgem os herois, mas quem precisa de herois?

Você pode dizer que precisamos deles, ou que herois são importantes e necessários. Bem, vejamos.

Não é exatamente o palco em si que cria os herois, mas os valores atribuídos aos herois nas diferentes oportunidades que aparecem. O palco evidencia os feitos, mas a carga de valor que vem depois é uma construção social, que passa pela história, pela comunidade e pelos meios de comunicação. Estamos tão acostumados a tudo se tornar palco, que se perde de vista o caminho percorrido, e a imagem acaba valendo mais que o feito, o fim valendo mais que os meios. Nesse sentido, o principal é notar que há uma diferença abissal entre admirar e idolatrar.

Admirar está mais na linha de perceber o que há de excepcional no feito, enquanto idolatrar traz consigo venerar a imagem e atribuir valores. É aí que as obrigações do palco para o protagonista se tornam tão ou mais importantes do que o feito em si. É aqui que surge o heroi, numa construção de valores.

Marcos Cerqueira abordou um tema similar em seu artigo Verde, amarelo, azul e branco, e ai? Ele fala sobre a falta de reconhecimento e suporte que o país tem para com o poker, e nos convida a deixar um pouco de lado a bandeira. Fato é que, quando um campeão brasileiro ergue a bandeira, ele pode fazê-lo por inúmeros motivos, seja como sinal de pertencimento, em amor à pátria ou aos seus iguais, ou até de forma demagógica. Nesse ponto o que fica claro é que o formato e intenção são mais importantes do que o fato em si.

O desafio para quem assiste é conseguir olhar o feito sem venerar a imagem, é admirar o caminho, que é o fluxo constante da vida. É ali que encontramos algo genuíno, sem herois, e onde a potência está presente em todos e no poder do conjunto. Quando os jogadores souberem a força que têm quando unidos, o poker será cada vez mais para os jogadores e menos para os poucos herois e bandeiras.

Se falamos tanto do poker como esporte, podíamos mudar o palco por um pódio, pois no palco é só a atuação que vale, é blefar que vale. E já que estamos falando de palco e herois, deixo uma frase para se pensar, do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht: Infeliz do povo que precisa de herois.

 

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