Roxo é a cor mais quente do poker

Há no nordeste do Brasil uma expressão peculiar para designar alguém destemido, valente, corajoso. “Ter aquilo roxo“ é uma forma de enfatizar a bravura de alguém. De certa forma, o roxo sempre está ligado a alguma intensidade. Quando um torcedor é fanático pelo time, dizemos que é um torcedor roxo, e o rail que apoiou Renata, devidamente paramentado de perucas da mesma cor, passou o recado, e vimos tantos outros invadindo as mídias sociais com a cabeleira pintada em sinal de apoio.

A conquista de Renata Teixeira no LAPT chileno de Viña del Mar, em absoluto, é apenas uma conquista feminina. Impossível esquecer que era uma mulher disputando, mas talvez como poucas vezes, isso não importou. Não era uma batalha entre nações ou de gênero, era a afirmação de uma jornada de estudos de quem ralou muito, como se pode conferir no artigo certeiro de Leonardo Bueno em seu blog.

O LAPT do Chile teve boas histórias, como o suporte do marido de Renata, Felipe de Paulo, que voou o mais rápido que pôde para acompanhar a FT. E o que dizer do dilema dos Quezada, um filho que eliminou o pai deixando lágrimas. Casos como esses nos permitem uma metáfora: Num torneio latino americano, onde amigos, família, emoção e apoio não têm limites muitos marcados, e se misturam pela vontade, a intensidade, ou seja, o roxo, é a cor mais quente. O lado emotivo não atrapalha o racional, só ajuda.

Renata tem aquilo roxo, o cabelo, mas ela mostrou que é roxa em coragem de se aplicar, em ter um propósito. Seu segundo lugar é uma vitória, a vitória da dedicação.

 

 

Imagem: Shutterstock (editada)

Entrevista: Lizia Trevisan e Mercedes Henriques do Queens of Poker

Neste mês de fevereiro, o grupo Queens of Poker completa um ano de atividade promovendo o jogo entre as mulheres, e no dia 22 deste mês vai comemorar oferecendo um freeroll com premiação de 1.000 dólares na plataforma Betmotion. Mais informações podem ser encontradas no site do Queens of Poker e na fanpage no facebook. Aproveitando o ensejo do aniversário, nesta entrevista dupla, Lizia Trevisan e Mercedes Henriques, duas das fundadoras do grupo, falam um pouco sobre o que as motiva para o jogo, tecem suas opiniões sobre alguns assuntos específicos da realidade feminina nos panos, e falam como enxergam o mercado.


Como vocês veem a evolução da presença feminina no poker de um ano pra cá? Houve crescimento? O que se tira de positivo desse esforço? A criação do Queens gerou um engajamento maior de quem já está na comunidade do poker?

Lizia: 2014 foi muito importante para o poker feminino, tivemos resultados expressivos em grandes torneios, criação de iniciativas como o Akkari Team Micro Feminino, mais mulheres se profissionalizaram e houve aumento do field. O grande desafio do Queens of Poker foi reunir as jogadoras e promover oportunidades. Acredito que cumprimos com esses objetivos e, mais importante, temos o apoio das mulheres. A boa receptividade da comunidade do poker foi um termômetro para a nossa iniciativa, há carência desses espaços e buscamos agregar ao poker feminino.

Mercedes: Eu acredito que sim, temos ouvido falar mais de torneios femininos, e logo que criamos o grupo, teve uma febre de movimentos. Acho que houve uma maior participação tanto dos clubes quanto dos empresários, salas de poker se dispuseram a dar apoio, e as profissionais da área tiveram suas conquistas divulgadas, e isso não existia, quase não se ouvia falar dessas jogadoras com a frequência que elas mereciam.


No início do ano passado, o Akkari Team Micro montou sua primeira turma somente de mulheres, e o diretor técnico Leonardo Bueno escreveu em seu blog um artigo sobre as diferenças de treinamento e comportamento entre homens e mulheres (
Porque mulheres não têm tanto sucesso no poker). A Lizia Trevisan também deixou sua opinião no blog, que inclusive gerou uma boa troca de ideias em outro post. Como vocês entenderam a mensagem, e que posicionamento vocês têm em relação ao artigo dele?

Lizia Trevisan
Lizia Trevisan

L: O texto do Leonardo Bueno foi de opinião. Como o nome já diz, reflete uma visão pessoal. Algumas pessoas se identificam, outras não. Em síntese, ele atribui a falta de resultados das mulheres no poker à uma excessiva passionalidade da personalidade feminina. Ao final, ele encorajou que os leitores postassem a sua opinião, e foi o que fiz. Como jogadora, não me identifico com esse estereótipo. Acredito em estatística, e menos de 5% do field é feminino, logo o percentual de mulheres nas finais é muito inferior ao dos homens. Outra questão importante é o ingresso tardio das mulheres no poker, volume e estudo são primordiais para resultados. Super válidas tais discussões e somente com elas vamos entender a evolução e desafios do poker feminino.

M: Deixo por conta da Lizia a resposta, mas esse evento nos deu vontade de seguir em frente.


Também no início de 2014, a jogadora Milena Magrini alcançou a FT numa etapa da Brazilian Series of Poker, e posteriormente Igianne Bertoldi cravou o main event em Foz do Iguaçu. Até que ponto vocês entendem que isso contribui com uma maior participação feminina? Esse fato faz diferença para atrair as mulheres para os torneios ao vivo?

L: Feitos como os da Milena e Igianne são inspiradores, e acredito que motivou não só a mim. Elas provaram que é possível alcançar resultados, a revelia de um field numeroso, difícil e de maioria masculina esmagadora. Confesso que em ambas as situações torci e sofri muito, algo que o poker proporciona que acho fantástico.

M: Claro que sim, acho que as mulheres estão mais motivadas e confiantes. Nós aqui no grupo criamos alguns banners com os dizeres “Eu Vou”, então, a cada evento colocamos as jogadoras que estarão jogando, tanto no Ladies como no Main Event. Isso chama a atenção para a presença delas no BSOP, os organizadores também estão melhorando a premiação, e incluindo até outras formas de presentes na hora do evento feminine. Sentimos que isso tem influência de nosso grupo. Conseguimos apoio para oferecer buy-in no BSOP MIllions e criamos um ranking, o que motivou demais as meninas, e ter jogadoras como Milena Magrini, Igianne Bertoldi e Ale Braga, são exemplos de jogadoras batalhadoras que sabem o que querem.


Vocês ainda sentem que o público masculino, maioria nos fields, desdenha das mulheres como jogadoras de poker?

L: Quando ocorre, acredito que em maioria se dá de forma intrínseca. No online, por exemplo, é comum jogadores demonstrarem incredulidade quanto ao fato de eu ser mulher, e acredito que não ocorre só comigo. No live, onde temos mais impressões, há literalmente de tudo. Por experiência pessoal, vivenciei situações desagradáveis, mas felizmente a grande maioria é cordial e apoia a participação feminina. Minha percepção é que não é somente no poker que encontramos situações onde a mulher é subestimada, a história está aí como testemunha disso.

M: Não abertamente, eles respeitam as mulheres nas mesas e nos eventos, mas às vezes acontecem casos como o que o Vitão da TV Superpoker falou tão profundamente, sobre o cara que cravou o Ladies do EPT, e mais cinco homens foram para a mesa final, porque na França eles não podem impedir os homens de se registrarem. Nossa, particularmente fiquei chocada! Pois existem muito mais eventos para homens, e não vi necessidade desse comportamento, então eu presumo que ele queria provar superioridade masculina.


Justamente a próxima pergunta, Mercedes. Recentemente, no EPT Deauville, o torneio para mulheres teve uma massiva presença masculina no field, e como resultado, a vitória de um homem, derrotando uma mulher no heads up final. Como vocês entendem esse tipo de situação?

O card-protector das Queens no BSOP
O card-protector das Queens no BSOP

L: Faço uma crítica para nós mulheres. Tal fato ocorreu porque não nos organizamos como um público consumidor de poker, deixando de opinar e agir numa situação de interesse comum. No momento em que tomasse conhecimento da participação masculina, me recusaria a jogar o evento e exigiria o reembolso do buyn. Se todas agissem em conjunto, pressionariam a organização, visto que a proporção do field foi de 61 mulheres para 22 homens. Mesmo que tal atitude não culminasse com a retirada dos homens, demonstraria a insatisfação quanto ao fato, e promoveria o debate sobre o assunto. Quando cruzamos os braços, consentimos com o que está sendo imposto.

M: Lamentável, fiquei sem palavras quando li a notícia, e até postei no grupo. Lamento mais a nossa representante ter perdido para esse ser que se diz homem e se registra em um torneio feminino, na verdade 22 homens se registraram, e a direção do torneio não quiz ser acusada de sexismo. Muito absurdo pra mim, mas que sirva de exemplo para que não aconteça em nosso país.


O que vocês acham das artimanhas usadas pelas mulheres quando dizem explorar seu lado sensual no jogo para obter vantagem? Contextualizando, recentemente a jogadora e modelo belga Gaëlle García Díaz afirmou que usa decotes para que os oponentes evitem eliminá-la nos torneios.

L: Honestamente, nunca testemunhei nenhuma mulher afirmando que faz uso de tais artimanhas. Já vi fotos de jogadoras com decotes, o que é uma prerrogativa pessoal. Se vai contra a convenção social, que os organizadores façam regras quanto a vestimenta. No mais, acredito ser uma exposição gratuita. Para que nos trajar de forma sensual, se na maioria das vezes somos únicas nas mesas e isso já chama mais atenção do que gostaria? Às vezes sinto ter na minha testa os dizeres “big molezinha, mulher é ultra tight, só encontraremos resistência com o topo do range”.

M: Acho que, como em tudo na vida, existem comportamentos e comportamentos, toda mulher, seja jogadora ou não, deve se dar ao respeito se quer ser respeitada. Concordo que as mulheres se arrumem bem vestidas para jogar, mas isso de explorar o lado sensual foge do objetivo que é mostrar sua capacidade de jogar bem o jogo, mas não é uma atitude geral, são exceções que agem dessa forma.


Lízia, você comentou que o desdém masculino é exceção, mas agora falou do “big molezinha” como se fosse corriqueiro. Não é contraditório?

L: Por isso falei, às vezes. O poker é um jogo que envolve psicologia e é um evento social. Cada jogador opta por uma linha de estratégia psicológica, alguns preferem não interagir, outros falam por todos nas mesas. Há casos de alguns que têm como objetivo tiltar os oponentes. Se todas essas condutas são aceitáveis, por que fazer “charminho” não seria?

M: Como eu disse, são excessões que usam esse artifício, não dá para generalizar.

 

Mercedes Henriques
Mercedes Henriques

Mercedes, num artigo publicado no Metapoker em 2014, você sinalizou o contrassenso na exploração da imagem da mulher na propaganda do poker. A Lizia também manifestou em alguns artigos seu posicionamento em relação a participação das mulheres no jogo. Vocês acham que esse panorama mudou?

L: Acredito que o mercado foi focado por muito tempo no público masculino, por razões óbvias. Quando o mesmo resolveu alcançar o público feminino, o fez em algumas ocasiões de forma deturpada, utilizando imagens sensuais de mulheres, penso que no intuito de atrair ambos os públicos. O mercado amadureu, e em conjunto com o desafio de desmistificar o poker como jogo de azar, promove o esporte de forma mais séria, buscando associar sua imagem aos esportistas renomados, por exemplo. No cenário atual, não há como um clube ou evento passar credibilidade tendo como propaganda uma mulher seminua.

M: Na verdade, o artigo que escrevi teve um resultado imediato, o clube tinha usado a imagem de uma mulher semi-nua com fichas e cartas espalhadas sobre o corpo. Eles retiraram do ar e  colocaram de outra forma, e de lá pra cá, sim, mudou bastante a forma de abordagem da mídia sobre o assunto.


Falando em esporte, pra vocês, poker é esporte?

L: Eu tenho duas respostas para essa questão. Vejo jogadores, profissionais ou amadores, se esforçando para evoluir, lutando diariamente de forma responsável, tendo a consciência de toda a dificuldade e desafio quando optam pelo poker como profissão ou paixão. Para esses é esporte. Vejo também jogadores que focam no dinheiro, no prêmio. Para esses, o poker é bingo. Entendo o poker como esporte quando a premiação é secundária. O dia que eu não ficar feliz por cravar um torneio, por mais irrisória que seja a premiação, pararei de jogar poker.

M: Acho que é um jogo que conta com astúcia e sorte! Com treinamento certo funciona mais a inteligência!
 Essa é a forma que estão utilizando para desmistificar o jogo, gosto do nome esporte da mente. Realmente, alguns conseguem exercitar a mente, outros só fazem baralhadas.


Por que vocês acham importante aumentar a presença das mulheres no poker? Na opinião de vocês, o que as afasta?

L: A mulher eleva o nível do ambiente e dá credibilidade ao poker. Não entendo o poker como esporte democrático e inclusivo sem a participação feminina. Não me vejo frequentando um ambiente predominantemente noturno, em que eu seja a única mulher. O poker só tem a ganhar com a participação feminina. Vejo nas mulheres todas as qualidades necessárias para a prática do poker. Num artigo, arrisquei: Fica a pergunta, por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que você conhece que gostam de vídeo-game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas e namoradas não torcem o nariz quando o truco começa? Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Mas, se alguém tiver essa resposta, por favor avise-me.

M: Bom, aumentar a presença das mulheres no poker foi o motivo de criarmos o Queens, foi quando nos demos conta que era difícil ir à um clube jogar se não estivéssemos acompanhadas de marido, irmão ou amigo. Os locais de jogo eram meio marginalizados com presença só de homens, então nos sentíamos desconfortáveis nesses lugares. No online também era assim, 8 entre 9 jogadores eram homens, e se xingavam, altas baixarias nos sit & go’s, e nos torneios, mas agora isso já tem melhorado nas casas de poker, já se importam em ter um bom ambiente, e já promovem torneios femininos com mais frequência. Já não me sinto excluída quando entro em um clube.

 

Imagens: Arquivo pessoal, foto Lizia: Fabio Hamann

Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca!

Texto de Mercedes Henriques, do Queens of Poker

Meu nome é Mercedes, sou mulher, jogadora de poker e faço parte do grupo Queens of Poker, que promove a inclusão de mais mulheres nesse esporte da mente. Atualmente o percentual de mulheres jogando nos eventos live é estimado em 5%, e um dos nossos principais objetivos é incentivar a participação feminina para aumentar esse percentual e tornar perceptível o talento das mulheres para o poker. Tentarei me expressar de forma simples e objetiva, sem palavras difíceis, pois este não é o meu perfil.

Fui convidada a fazer este post, porque estava muito indignada com uma propaganda de um clube de poker, anunciando um jogo, que para as mulheres o buy-in seria grátis e blá, blá, blá. Os responsáveis pelo marketing utilizaram a figura de uma mulher seminua, com umas cartas de baralho por cima. Quando vi, primeiro achei que era propaganda de casa de massagem ou boate, demorei para associar a imagem a um convite para mulheres jogarem poker. Acho que tiveram a idéia errada para essa chamada, não somos um produto a venda e nem gostamos que nos associem a este tipo de imagem erotizada, somos mulheres e queremos respeito, não importa em que ambiente estejamos.

Não quero levantar bandeira feminista nem queimar peças íntimas na praça. Mas gostaria que os empresários das diversas áreas desse esporte, como donos de clubes, revistas, blogueiros e profissionais de marketing, se ligassem em fazer melhores chamadas. Utilizem mulheres jogando, pois isso sim chamaria a atenção de outras mulheres a jogar. Estamos em luta para atrair mais jogadoras femininas, temos maravilhosos exemplos de mulheres se destacando cada dia mais, como por exemplo Alê Braga, Milena Magrini, Beatriz Fonseca, Thalita Cascaes e Igianne Bertoldi, atual campeã da Etapa BSOP de Foz do Iguaçu. E isso porque só mencionei algumas jogadoras nacionais, peço desculpas as que não falei o nome aqui, pois ficaria muito longo meu post (hahaha).

Vamos respeitar essas profissionais que estão lutando para conquistar o espaço feminino nesse esporte. Para jogar poker não importa seu sexo, sua cor, sua crença ou idade. É preciso que se saiba jogar e que estude para se aperfeiçoar. Não queremos protecionismo por sermos mulheres, só queremos respeito, respeito nos clubes, nas salas de poker e nas mídias.

Sou mulher, sou jogadora de poker, sou Queen com orgulho.

PS.: Utilizei nesse post, algumas frases de amigas jogadoras, agradeço por isso, pois são pessoas comprometidas com um só ideal.

 

Foto: Blog Chez Meloni, sinal de trânsito na Alemanha

O par de damas que quebrou qualquer estatística

Providência simbólica a mão que definiu a cravada de Igianne Bertoldi na Brazilian Series of Poker desta madrugada. Quatro damas num baralho completo de 52 cartas representam aproximados 7,7% do total, um par delas, perto de 3,8%, o que é bem perto da quantidade de mulheres que se arriscam nos torneios. A metáfora possível é, tanto no baralho quanto nos fields, há pouco espaço, e estereótipos falam mais alto.

Há poucas mulheres no poker, o que não quer dizer menos capacidade, e nem mesmo significa que na média elas são piores que os homens. Para entender melhor, sugiro este artigo, sobre Perspectiva feminina no poker.

Igianne ainda carrega a pecha de ser dealer além de mulher. E o dealer você sabe, é aquele irresponsável que bate um out no river pra estragar a sua festa… Nessa escala de hostilização, jogador é vagabundo, mulher é insegura, intuitiva e não sabe jogar, e dealer tem mão de pântano. Até quando?

Na mesa final, a vencedora eliminou quatro oponentes, deu pelo menos por quatro vezes insta-call no chipleader puxando os potes (numa delas com K-high), certa de que estava a frente no river, e depois o eliminou num bordo sem surpresas. Ela estourou all in numa jogada de efeito e perdeu, já no heads-up, equilibrando a disputa, mas soube refazer seu stack e partir para a vitória. Mas se levássemos em consideração as estatísticas, ela nem deveria estar ali, se levássemos em consideração os estereótipos, ela não sabia o que estava fazendo.

A dama com seu par de damas em Foz do Iguaçu (Foz, que significa local onde o rio desemboca; e Iguaçu, que em tupi-guarani pode ser traduzido como água grande), pode e deve ser a representação da grande desembocada feminina do poker no Brasil.

Foto: Imagem da página pessoal do facebook de Igianne Bertoldi.

Credibilidade e competitividade das mulheres no poker

Fui desafiada a escrever sobre a competição feminina versus a participação da mulher no poker. Originalmente não é propriamente um desafio. É pura e simplesmente uma reflexão, mas para escrever sobre isso buscando de fato a verdade, é necessária uma análise sobre a tal “competitividade feminina”.

Na minha opinião esta é sinônimo de um monstrinho que habita nosso subconsciente, chamado machismo. Explico: somos tão auto críticas, baseadas em padrões estéticos inalcançáveis e machistas, que a comparação com as demais mulheres passa a ser uma busca de alto afirmação.

Sejamos honestos, vivemos em um mundo competitivo e o poker é sinônimo deste. Então por que a competitividade feminina não contribui ou não é responsável pelo aumento do field feminino?

Sinto muito, mas não tenho esta resposta.

O que posso falar é que me confronto com dois extremos, principalmente jogando live.

Encontro mulheres que torcem umas pelas outras nos torneios, mesmo sendo completas desconhecidas. Há outras que parecem ter como objetivo eliminar todas as demais do evento à revelia do montante muito maior de fichas disponíveis dos homens, sempre maioria esmagadora do field.

Acho isso muito triste por dois motivos. Primeiro, as do segundo time jogam mal, já que miram somente nas poucas jogadoras dos torneios e pagam com mãos e posições ruins afim de entrar em embate com as referidas. Segundo: somos tão poucas que não se justifica tal atitude. Não quero criar nenhum clube da Luluzinha, o Queens of Poker tem como objetivo apoiar as jogadoras e não compactuar com um acordo silencioso de collusion. Acredito que o bom resultado de mulheres beneficia a todas, criando respeito pelas jogadoras e estimulando mais mulheres a prática do esporte.

A verdade é que a mulher eleva o nível do ambiente. Com as mesmas presentes os homens são mais comedidos nos palavrões, nas falinhas ofensivas e tantas outras atitudes gratuitas e desnecessárias a prática sadia e prazerosa do esporte.

Não me sinto confortável em jogar live sem a companhia do meu esposo, justamente pelo número reduzido de jogadoras. Sou agraciada por tê-lo como parceiro, mas e as que não possuem um ou os respectivos não são praticantes do esporte?

Há homens que são desrespeitosos, ainda mais quando perdem para mulheres e isso piora quando estão desacompanhadas, já fui testemunha disso e ouvi vários relatos. Torneios podem adentrar madrugada e a mulher fica mais exposta a violência física e verbal em um ambiente tão masculino.

Os jogadores de poker convivem com o preconceito. As jogadoras convivem com preconceito duplo, por jogar poker e por ser mulher, jogadora de poker.

Não é à toa toda a campanha para aumento do field feminino. A mulher dá mais credibilidade ao poker. Mas empresários do ramo, por favor, não usem imagens de mulheres seminuas ou em poses sensuais em seus anúncios. Se querem de fato o aumento deste público, esta é a pior linha de marketing a se seguir.

Quem sabe utilizando imagens de mulheres jogando atraia mais jogadoras (independente se pela credibilidade ou competitividade feminina) e, por tabela, mais homens. 😉

Foto: Shutterstock (editada).

Poker, mulher e preconceito

Uma das mais fantásticas características do Poker é a inclusão. Qualquer pessoa, de variadas idades, de ambos os sexos, independente do grau de instrução, com ou sem deficiência física, pode praticar o esporte. Dá para mensurar o quão democrático isto é?! Apesar do grande apelo desta, vemos uma maioria esmagadora de homens, nos eventos live e online.

Acredito que o número de mulheres aumenta a cada dia, mas ainda assim a disparidade é absurda. Vamos aos números:

  • De acordo com o site IG: “O sexo feminino representa 5% dos jogadores.”
  • No ranking geral do Main Event do BSOP 2013, a mulher melhor colocada foi Simone Zanetti na 57ª colocação. A próxima jogadora melhor colocada no ranking foi Patricia Kim Yamashita, na 91ª colocação.
  • Ainda no ano de 2013, não tivemos nenhuma mulher em FTs do Main Event.
  • Até hoje, tivemos uma mulher campeã de um Main Event do BSOP. Gabriela Belizário venceu a etapa de Belo Horizonte em 2008.

Notório que a pouca representatividade das mulheres decorre do pequeno número de jogadoras. Fica a pergunta: Por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que conhecem que gostam de vídeo game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas/namoradas não torcem o nariz quando o truco começa?

Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Qual a opinião de vocês?

Em contrapartida, as mulheres que gostam de jogos e querem jogar poker tem dificuldade em encontrar pessoas para conversar/aprender. O preconceito com as jogadoras também é grande. Vejam o depoimento de jogadoras:

“Nunca passei por situações constrangedoras ou explícitas de machismo. Mas já tomei ‘falinhas’ desnecessárias e com segundas intenções. Algo insinuando eu ser fraca de poker apenas por ser mulher… falinha _ uhmm hoje está fácil… só mulheres na canhota ‘vo’ forrar…” Jessica Camargo

“O mais absurdo que ouvi foi um: “lugar de mulher é na cozinha, não é em mesa de poker não”. Aqui, eu sofro muito machismo no live sim. E sou muito caçada nas mesas… Mas isso acaba sendo mais motivador ainda. “ Luany de Macêdo

“Infelizmente ainda existe um pouco de machismo no poker – as mulheres, no live, ou são “caçadas” ou são “respeitadas” além do normal. Mas confesso que não acho ruim esse machismo no poker (no live uso a imagem de mulher para ser lucrativa).” Adriana Maia

Posso parecer controversa, mas sou contra torneios exclusivos para mulheres ou mesmo grupos como o nosso, onde homens não são aceitos. Acredito que essa separação de gênero vai contra o espírito do poker, como esporte democrático. Mas analisando como mulher, é deveras intimidador chegar num salão, onde no máximo 5% das pessoas são mulheres, sentar, jogar, calcular as fichas no pote, ouvir falinhas por ser mulher, ser subestimada (ok, esta parte acho vantajoso rsrs) encarar os outros jogadores (HOMENS) e ser encarada pelos mesmos.

Se é difícil para quem joga, é ainda mais para as jogadoras iniciantes.

No atual quadro é mais do que válido, são necessários torneios, teams, grupos, promoções e o que mais for ajudar a aumentar em quantidade e qualidade o field feminino. O grupo Queens of Poker visa ser um local democrático para que todas as jogadoras, em diferentes níveis de aprendizado, tenham um espaço só delas, mas sonho com o dia em que estes não terão mais razão de haver e que queens e kings dividirão o mesmo espaço, com igualdade e respeito.

Publicado originalmente em Queens of Poker.

Para as mulheres que amam e que amam o poker

O dia em que a mulher puder amar
com sua força e não com sua debilidade,
não para fugir de si mesma, senão para encontrar-se,
não para renunciar, senão para afirmar-se…
então o amor será uma fonte de vida e não um perigo mortal.

Simone de Beauvoir (1908 – 1986) – Filósofa francesa

Por uma perspectiva feminina no poker

Em junho do ano passado eu estava em Las Vegas, durante a WSOP, e aproveitava o intervalo de torneios noturnos da cidade pra me enfiar nas mesas de cash $1/$2 do Bally’s, algo que fiz repetidas vezes nesse cassino que nos hospedou. Em todas as noites que estive lá apanhando do baralho, notei dois jogadores regulares que faziam sessões longas e sempre saiam com dinheiro no bolso. Eram duas mulheres, uma mais jovem, sempre acompanhada pelo seu pai, também jogador, e outra, de origem oriental, mas provavelmente norte-americana.

Por três vezes presenciei a jogadora oriental como pivô de situações desconfortáveis e seguidas de bate-boca. Numa dessas, um senhor de estilo cowboy não poupou xingamentos depois de perder mais um pote pra ela. A falta de respeito foi logo coagida pelo floorman, mas mesmo assim ela continuava ouvindo insultos do “cavalheiro” a cada órbita. Pouco antes, ela tinha ganhado uma mão num spot confuso por conta de alguém ter mostrado as cartas antes do tempo, o que gerou os primeiros comentários negativos do cowboy, sempre atrelados ao fato da jogadora ser mulher.

Este é um exemplo do que ainda acontece, é incomum, é um extremo, mas serve para demonstrar um aspecto anterior, que é o estereótipo de que a mulher é sempre desatenta, não utiliza a lógica tanto quanto os homens, joga de forma emocional, joga na intuição. Uma mulher é café com leite, ou joga menos que você até o momento em que puxa um pote seu, e aí, quando isso acontece, a conclusão é que ela deve ter feito uma jogada errada e injustificável, ou em último caso, deu sorte. Este é parte do montante de características que refletem a ideia pronta do que é ser uma mulher nas mesas, mesmo sabendo que essas características estão presentes em ambos os gêneros. E assim, evidentemente, a repetição desse discurso o torna parte da verdade, senão toda ela.

O que incomoda é perceber que há uma inversão na forma como se coloca a questão, onde o fato de ser mulher pressupõe o estado das coisas. O poker é uma atividade de maioria masculina, onde o discurso dominante se apóia na técnica. Se um homem comete um erro por jogar de forma emocional, ou se ele perde o controle, isso se apresenta como uma falha, algo para ser corrigido. Porém no mesmo caso, se for uma mulher a cometer o erro, a diferenciação é automática, como se a capacidade feminina em lidar com aquilo fosse reduzida.

Esse é o erro de compreensão proveniente de um sexismo velado e presente no mundo do poker. Na medida em que se categoriza a mulher negativamente como um jogador diferente, os problemas delas também parecem ser diferentes, e seus erros identificáveis como típicos das mulheres. Ninguém identifica e destaca uma boa jogada feminina, apenas uma boa jogada, por outro lado, erros femininos são destacados como típicos.

Desta forma, o problema não está no fato dessas características estarem presentes e notáveis nas mulheres, o problema é que tomar isso como algo natural retira a possibilidade de discussão desses temas, afinal é algo considerado “normal”, não passível de questionamento.

Por isso é cada vez mais importante num jogo em expansão como o poker, que as mulheres se manifestem e gerem representatividade. Se a falta de mulheres é observada nas mesas, sua falta opinando sobre o mundo do poker também é notada. Felizmente temos iniciativas como o Barbarella Poker e a coluna Mulheres no Feltro da Khatlen Guse, o blog da Camila Kons no MaisEV, o PokerGirls, e o recém lançado Queens of Poker, um espaço dedicado às mulheres e fruto do entusiasmo de Mercedes Henriques, Jessica Camargo e de Lizia Trevisan, que inclusive foi entrevistada pela Khatlen em sua coluna no site da CardPlayer (clique aqui para ver).

Mais do que a presença feminina nestes espaços, é fundamental que a visão delas sobre o jogo também esteja na mídia, pois se existe a diferença de gênero, é ela que ajuda a ampliar nosso entendimento de como o jogo se dá. Esta representatividade pode ser um elemento forte na compreensão da participação feminina no poker, pois elas ainda precisam lidar com a intimidação dos adversários nas mesas (refiro-me ao seu formato simbólico, que é elemento de estudo sociológico), e são subestimadas e alvo de preconceitos, como a Lizia apontou no artigo Poker, mulher e preconceito. Outra frase impactante é a de Vanessa Selbst, reconhecida jogadora norte-americana que afirmou que no mundo do poker nunca sofreu preconceito por ser gay, mas sim por ser mulher, confira aqui.

Lizia, Mercedes e Jessica, do Queens of Poker
Lizia, Mercedes e Jessica, do recém lançado Queens of Poker

Do mesmo modo, jogadoras com mais experiência usam os estereótipos a seu favor, e lidam com esses obstáculos de forma peculiar, como se pode notar nesse texto da Carol Ventura para o PokerGirls. Contudo jogadoras que alcançam grandes premiações em torneios ainda precisam afirmar o óbvio, que podem jogar em pé de igualdade com os homens, tema explorado na entrevista que a jogadora Milena Magrini deu para o PokerDoc.

Você pode até falar que a quantidade de boas jogadoras é pequena se comparada com o mesmo montante masculino, ou até se basear em amostragem para concluir que na média as garotas precisam melhorar, mas isso não muda a perspectiva dessa questão, pois essa verificação está ligada diretamente à mesma inversão citada acima, onde as características tidas como negativas para o jogo precedem e bloqueiam qualquer novo entendimento. É como se utilizar de uma estatística para validar um argumento pré-estabelecido.

A massificação do poker ainda não passa pelas mulheres, elas são exceção. No site oficial da WSOP, os buy-ins feitos por mulheres na edição 2013 chegaram a pequena fatia de 5,1%, e no Brasil esse número é ainda menor, o Ladies Event da 1.a etapa do BSOP teve apenas 39 entradas, e a participação feminina no main event é muito pequena, na ordem de menos de 4% segundo o site PokerDoc, na própria entrevista da mesa-finalista Milena Magrini.

Ainda assim, há um novo contingente de boas jogadoras, que a exemplo de nomes como Alê Braga e Larissa Metran, se destacam, pois além do talento, têm oportunidade de trocar impressões e aprendizados com outros jogadores, seja porque estudam mais o poker, fazem cursos, estão mais inseridas na comunidade ou por conta de seus laços pessoais como namorados, maridos e amigos. Elas penetraram neste ambiente e conseguem se desenvolver sem que seja necessário antes disso ser classificada como mulher. No momento em que jogadores e jogadoras são tratados em pé de igualdade, a diferenciação perde seu sentido.

O poker como esporte está em face de uma grande oportunidade, pois em sua essência tem um caráter agregador e plural, pois não faz distinção, e por isso é convidativo. Nesse sentido, os torneios exclusivos para mulheres, os sites e os blogs escritos por elas não parecem ser o outro lado da moeda do sexismo, mas buscam ser um convite para que elas ingressem no poker.

Ainda há poucas garotas no pano, e se for preciso existir uma resposta para isso, a investigação tem que começar necessariamente por elas, e não vir de estatísticas e preconceitos. Talvez a maioria das mulheres simplesmente não goste, ou não considere o poker como uma atividade que as agrada. Se há poucas mulheres, talvez seja porque a mecânica do jogo não desperte o mesmo tipo de fascínio e sentido que têm para os homens, ou não carregue em si o tipo de ação que elas procuram.

Se o poker necessita atrair mais praticantes, o que é assunto para outro artigo, o caminho está na forma com a qual ele atende as necessidades e os questionamentos dos jogadores, sendo mulheres ou não.

 

Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal (Lizia Trevisan). Fontes citadas: WSOP, Queens of Poker, Metro, PokerGirls, Barbarella Poker, MaisEV, Pokerdoc e CardPlayer Brasil