Poker viciante e vício no poker

Aparentemente idênticos, o poker viciante, aquela vontade de estar a beira do feltro, é ligeiramente diferente do vício no jogo, a ludopatia. Vários aspectos sobre essa questão do vício forçosamente esbarram em como a sociedade o entende, claro que partimos do indivíduo e de como ele se afeta com o objeto do vício, mas o que me refiro é o padrão social para definirmos o que é vício e quem é o viciado. Em certa medida algumas convenções nos ensinam o que é um viciado.

Se um indivíduo é viciado em trabalho, por mais que haja um contraponto para que ele invista mais tempo com a família e em outras atividades, esse tipo de viciado nunca é inteiramente mal visto socialmente, ser workaholic é por vezes algo bem aceito ou até charmoso (biografias de conhecidos empreendedores e suas obsessões confirmam essa premissa). Outros exemplos deixam mais evidente como essa relação é entendida na sociedade, o tabagista é um viciado cujo incômodo social é até certo ponto tolerável, pois o fumante é mal visto quando “fuma ao meu lado” ou no geral quando se torna um prejuízo à saúde dos outros. Já o alcoólatra, nos casos mais extremos, causa com seu comportamento um dano social maior, derrapando para violência com os familiares, perigo de vida ao volante, brigas, etc., embora o estímulo ao consumo frequentemente se apresente. O jogador viciado nunca é bem visto, digo aqueles que colocam dinheiro na mesa e não a usual fézinha na loteria, pra eles o peso moral é muito maior.

A tentativa aqui não é colocar tudo num mesmo balaio, já vamos chegar ao ponto, mas o que é um atleta de alto nível senão um obstinado, um viciado pela sua atividade? E por conta disso e por força da competição, quantos deles deixam de lado o ideal esportivo por algum estimulante que o coloque em condições de vencer. O velocista Ben Johnson foi uma dessas exceções que ainda recorrem nos dias de hoje, daí a burocracia do antidoping, uma tentativa de controle. Há de se mencionar igualmente a questão do equilíbrio na vida, inúmeros atletas passam anos de privação, desde o convívio com a família até dietas. Por vezes o esporte também se torna campo de privações e impacta a vida social do atleta, e também do workaholic, de maneira similar.

Mas, temos uma grande diferença entre tudo isso, os vícios em substâncias químicas seriam passivos, quero dizer, o viciado tem uma relação de espectador com o objeto do vício e a anestesia que ele oferece. De certa forma o workaholic ou o esportista de alto nível ao menos atuam por meio dos seus vícios, o que é uma diferença notável. Mas, o que quero dizer com tudo isso é que tanto o esporte quanto o trabalho higienizam nosso olhar para o vício. Não estou exatamente falando do dano que determinado viciado causa socialmente, mas de como, como indivíduos sociais entendemos o fenômeno do vício, e é essa forma de entender que nos é pautada.

O ponto, ao final, é que o problema em si do vício passa consideravelmente pela sociedade, mas afeta o indivíduo o despossuindo de si mesmo, no sentido de retirar sua autonomia e torná-lo refém somente dos próprios impulsos. Nesse caso, a condição para o viciado ser feliz é o objeto, para o viciado em jogos é a química gerada pelo jogo, não o jogo como tal. Quando essa disposição do indivíduo chega na intensidade de tirá-lo de si, temos o mesmo quadro passivo do viciado em substâncias químicas. Digamos que o poker viciante se torna uma patologia quando coisas que têm mais valor para o indivíduo foram corrompidas pela experiência do jogo, quando ele se tornou objeto, como se o jogo ficasse menos atrativo do que a descarga emocional que ele provoca.

A diferença apareceria quando a possibilidade sensível do jogo (fascinante e por isso viciante) perde espaço para a anestesia que ele causa (o vício). Considerar este critério, que é muito pessoal, parece ser mais potente do que os alertas, mesmo sendo um caminho difícil. As mensagens fortes da propaganda negativa do tabagismo no verso dos maços de cigarro não provocam nos jovens identificação, pois o fumante não se vê naquela situação precisamente. O garoto que começa com drogas também, dizem tanto que faz mal, mas ele vai lá, experimenta e acha bom. Temos então um problemão!

Ainda que toda mensagem possa ter um efeito, pois entendemos e damos sentido ao mundo por narrativas, o impacto dos alertas podem ser pequenos quando seu teor não sensibiliza mais. Numa sociedade fissurada perdemos a capacidade de sensibilização, por isso nosso vício só pode ser a anestesia.

 

 

Imagem: Placa fixada no cashier do cassino Caesars Palace, em Las Vegas (Naccarato)

A bolha estourou para Fedor Holz

Um dos sentidos da palavra aposentar é abrigar-se, alojar-se. Contudo, em seu entendimento mais comum está relacionada ao ato de suspender suas atividades de trabalho. Enfim, aposentar é encerrar a carreira, mas o que o jovem vencedor Fedor Holz parece propor com sua saída é a primeira ideia, ou seja, sua retirada é a opção de abrigar-se da rotina de jogador profissional, podendo assim jogar apenas as 400 horas anuais de poker que lhe agradam, conforme afirmou em entrevistas. De certo modo, abrigando-se, ele abriga em si outro sentido dentre infinitos possíveis.

Embora somente o tempo vá dizer, não se parece com uma aposentadoria de fato. Em entrevista ao Pokernews, Holz considera o poker uma atividade individualista e deseja fazer algo de mais útil para as pessoas. O alemão de 22 anos declara gostar do poker, mas não vê na atividade algo que deseja fazer para o resto da vida, e quer se retirar para empreender, se considerando agora um businessman. Ele explica melhor sua escolha no início do Life Podcast de Joey Ingram.

A retirada de Holz se tornou um grande assunto nas mídias a exemplo do que já ocorreu com outros jovens campeões do poker como Eastgate e Heinz. Sua declaração abriu espaço para alguns vereditos que vão desde o já conhecido “parou no auge” até certo descontentamento por sua decisão prematura, afinal ele poderia alcançar muito mais, correr atrás de recordes e braceletes e assim representar mais e melhor o poker.

Entre a ideia de “quase afronta” e de “merecimento”, o que estrutura esses discursos fica num espaço previsto de entendimento, preso a um eixo onde só é permitido se posicionar desde que se jogue o jogo, ou melhor, onde o jogo é o balizador de qualquer pensamento. Ele deve continuar porque é isso que todos buscam no poker (é quase uma afronta a aposentadoria), ou deve parar porque é válido e a grana o permite (atingiu seus objetivos no poker e é merecedor dessa recompensa).

Um desafio interessante seria o de ficar distante o suficiente da questão para perceber essa estrutura, e assim tentar escapar dessa dicotomia. Olhando de longe percebemos mais coisas, e a qualidade da escolha ganharia um critério próprio e não externo, não é a grana nem o sonho que condicionariam a decisão de Holz, não é o merecimento e nem a busca que pautariam os comentários. É como quando a bolha do torneio importante estoura, onde alguns ficam felizes por estar na grana enquanto outros apenas pensam na vitória.

A bolha estourou para Fedor Holz, e ele pode se distanciar (ou abrigar-se) para assim perceber melhor, ou pode fazer parte de outro eixo estrutural, o da catequese do empreendedorismo, que pode ou não entender o poker como “útil”.

Talvez Holz tenha passado os últimos anos de poker fazendo o que poucos fazem, para agora fazer o que poucos entendem. A próxima bolha dirá.

 

Fontes: Blog Sergio Prado na ESPN, Pokertube e Pokernews. Imagem: Fedor Holz durante a final da Copa do Mundo de Futebol, retirada de sua conta no twitter (@CrownUpGuy)

Amarillo Slim, prop bets e a não aposta

As prop bets (proposition bets, ou também conhecidas como side bets), são por convenção separadas em dois tipos: apostas que são feitas sobre a ocorrência de um evento, como por exemplo apostar que o flop vai trazer apenas cartas pretas ou qualquer outro tipo de combinação no bordo; e apostas que consistem em propor ao adversário um desafio, colocando-o numa situação em que ele tenha que cumprir alguma tarefa. Exemplos para essas apostas não faltam, vão desde o famoso last longer (onde o último jogador a ser eliminado num torneio ganha dos demais eliminados o montante apostado), até bets mais peculiares como ficar um ano sem comer carne, ou sem fazer sexo.

As side bets entre jogadores de poker eventualmente são noticiadas quando envolvem figurões, grandes quantias de dinheiro ou algo inusitado. Foi o caso da prop bet contra o profissional Antonio Esfandiari durante o Main Event do PCA no começo de 2016, que acabou por desclassificá-lo. The Magician, como é conhecido Esfandiari, resolveu tentar a mágica de urinar à beira da mesa, dentro de uma garrafa, para não ter que caminhar até o banheiro, pois a condição da aposta que ele aceitou consistia em andar de um jeito estranho, apoiando os joelhos no chão a cada passo, por longas 48 horas. Durante esse período e com as pernas já em frangalhos, o jogador decidiu transformar o salão do PCA em banheiro e uma garrafinha em mictório. A direção não gostou, e ele ganhou a própria eliminação do torneio, contudo, levou a aposta.

Para se redimir publicamente, o mágico optou por doar o dinheiro ganho na aposta para instituições de caridade, seguido de um pedido de desculpas. Em suas palavras: “I believe in balance, and my life would not be in balance if I kept this money for myself.” Algo como: Eu acredito em equilíbrio, e minha vida não estaria equilibrada se eu mantivesse esse dinheiro comigo.

Por vezes, esse tipo de prop bet é usada como forma de estímulo, como se o jogador apostasse contra si mesmo, aceitando uma condição apresentada (a aposta) para estimular a chegada a um objetivo, por exemplo quando Ivey e Negreanu propuseram na WSOP de 2014 que um dos dois levaria um bracelete de campeão, dobrando o valor de quem apostasse contra. Nessa mesma linha de auto-desafio, o jogador brasileiro Marcelo Freire, conhecido no poker online pelo apelido de Urubu, lançou há dois anos uma prop bet no conhecido fórum de poker Two Plus Two. O bet consistia em jogar 500 mil mãos de Pot Limit Omaha online num período de 45 dias e ainda sim sair lucrativo. Urubu jogou a toalha antes de completar a empreitada, mas mesmo assim ganhou o respeito da comunidade de poker pelo seu empenho, como você pode conferir nesse post do fórum Two Plus Two. A prop bet do momento: Vanessa Selbst apostou contra Jason Mercier que ele não conseguiria ganhar três braceletes na WSOP deste ano, mas acontece que Mercier já faturou duas jóias da World Series e aceitou a aposta casando 10 mil dólares, mas Selbst pode ter que amargar o pagamento de 1,8 milhões de dólares se o desafiado conquistar o terceiro.

Pois bem, há algo de interessante sobre essas apostas. Nas side bets do primeiro caso, a ocorrência do evento não é controlável, quero dizer, um flop de cartas apenas vermelhas é um acaso com chances de acontecer conhecidas, porém uma casualidade. No segundo caso, quando há o desafiado, está presente uma ideia de controle, no sentido que há um agente que é parte atuante na dinâmica da aposta, ou seja, em tese, depende mais do desafiado do que do acaso. Em tese, pois o desafiado pretende o controle, enquanto que o desafiador aposta na falta dele.

Esfandiari aceitou a prop bet acreditando que manteria o controle da situação, o que acabou por ficar mais na teoria, pois não basta apenas mentalizar o objetivo, é preciso considerar uma relação com o próprio corpo, e porque não dizer, com o corpo social. Mesmo tendo ganhado a aposta ele não conseguiu ficar com o prêmio, afinal, em sociedade, aspectos morais são tão ou mais valiosos que dinheiro, o que abre outra questão.

Antes de tudo, o desafiado precisa crer numa troca simbólica, ou seja, considerar se o esforço vale à pena moralmente e não apenas em função da quantia em dinheiro. Relação que, no caso de Esfandiari, ficou perceptível no desfecho, quando ele optou por devolver o prêmio por ter infringido uma moral maior que o jogo. Na recente prop bet de 600 mil dólares contra Dan Bilzerian também há uma situação onde aspectos morais estão presentes, aceitar percorrer em 48 horas quilômetros de bicicleta de Los Angeles até Las Vegas geraria aparições na mídia e nas redes sociais. Sair bem na foto (ou no Instagram) é um modo de se relacionar socialmente muito comum de nosso tempo, algo já considerado usual.

Acontece que as apostas paralelas fazem parte da cultura do poker, como se fossem manifestações de um comportamento natural dos jogadores de poker.

Na época da gênese do poker moderno, no final da década de 60, Doyle Brunson, Sailor Roberts e Amarillo Slim, antes de jogadores de poker, eram apostadores em busca de qualquer vantagem, e talvez aqui esteja a origem desse comportamento comum e das prop bets tão difundidas na comunidade do poker. E, em se tratando de apostas e desse trio de notáveis, é preciso destacar um deles, Thomas Austin Preston Jr, mais conhecido como Amarillo Slim. Carregando e forjando o estereótipo do caubói-jogador, que supreendentemente ajudou a mudar o estigmatizado poker participando de várias entrevistas em programas de TV após sua vitória no Main Event da WSOP de 1974, e que ficou muito mais conhecido por suas extravagantes proposition bets.

Amarillo Slim se utilizava de uma lógica peculiar, ao invés de “achar o pato na mesa” como de costume, ele transformava o campeão em pato, desafiando seus adversários em seus campos de atuação. Dentre suas tantas prop bets conhecidas, podemos citar duas: Amarillo apostou contra o lendário cavalo campeão Seabiscuit, propondo que o venceria numa corrida de 100 jardas. A única condição imposta por ele foi a de escolher a pista, e o fez num trajeto ida e volta de 50 jardas. Seabiscuit, um cavalo sabidamente veloz, disparou na primeira metade da corrida, mas o jóquei que o montava teve um problema esperado por Amarillo, o de desacelerar e acalmar seu pilotado no momento de fazer o retorno. Enquanto isso, Amarillo alcançava a linha de chegada, puxando a aposta com uma estratégia vencedora. Noutra ocasião, propôs para o já aposentado campeão de tênis Bobby Riggs que poderia vencê-lo numa mesa de ping-pong desde que pudesse escolher as raquetes. Slim treinou previamente antes da partida, e bateu o tenista quando apresentou frigideiras no lugar das raquetes.

De algum jeito, o que há de incomum entre todas as prop bets apresentadas é exatamente a qualidade da troca. Enquanto Bilzerian e Esfandiari já perderam de vista o porquê da aposta mesmo seguindo o costume, e Mercier e Urubu usam as apostas como desafio extra-jogo, as side bets do caubói Amarillo Slim vão em outra direção, são apostas no sentido mais estrito da ideia de jogo, pois o risco e o blefe são a dinâmica própria criada por ele para vencer o desafio, ou seja, não bastava para Amarilo seguir a regra, mas inventá-la. Para o campeão da WSOP de 74, simplesmente seguir o jogo seria como uma não aposta, talvez porque ele não acreditasse na tal “naturalidade”, no costume, no comportamento comum.

Que tipo de jogador você gostaria de ser? Um que inventa um jogo dentro do jogo, ou alguém que tem muitos seguidores no Instagram? Alguns diriam que nenhum deles, senão o mais ganhador. Mas não se engane, se há algo sobre apostas que devemos considerar é que cada jogador as faz em função da troca simbólica que lhe convém, e por vezes, por trocas que nem mesmo percebem.

 

Fontes: Pokernews, Two Plus Two, MaisEV, Telegraph e Wikipedia. Imagem: Shutterstock.com (editada)