O pôquer venceu

Imediatamente após a vitória incontestável do talentoso sueco Martin Jacobson recebi uma ligação inusitada. Foi assim:

– Fala Cerqueira! Tudo bem? O que achou do resultado da WSOP?
Antes mesmo da minha resposta, a voz empolgada do outro lado da linha continuou:
– Fiquei muito satisfeito, aliviado e feliz. Venceu o melhor, o mais concentrado, o mais técnico, o mais inteligente, o mais preparado mentalmente…
E ainda continuou:
– Essa mesa final foi mais uma prova irrefutável que eu não sou sorte.
Foi aí então que eu interrompi:
– Espera aí amigo, como assim você não é sorte?! Quem está do outro lado da linha?
– Eu, Cerqueira!
– Eu quem?
Questionei, obtendo a seguinte resposta:
– Sou eu, o seu amigo!
– Que amigo, porra?!
– Calma! Eu sou o pôquer bem jogado. 

Nessa hora eu já estava na segunda garrafa de vinho e pensei: não é que o cara me ligou mesmo? Escrever alcoolizado dá nisso.

Apesar de uma certa frustração pela eliminação precoce do nosso representante brasileiro, a mesa final deste ano foi bem agradável de assistir. O primeiro dia de competição ficou marcado pelo domínio técnico do holandês Jorryt van Hoof e pela quase inexplicável jogada do espanhol Andoni Larrabe, que ignorou a sua trinca no river e deu um medonho chek behind. Uau! Quase derrubei a minha taça de vinho. Merece destaque também o shove imbecil com TT do back-to-back Mark Newhouse. Fora isso, um fold discutível de AJ do nosso Fostera e nada mais.

Depois de seis competidores eliminados no dia anterior, o seguinte e decisivo dia da competição começou com três heróicos sobreviventes: um confiante e muito habilidoso holandês, um pouco expressivo norueguês e um memorável jogador sueco. Não demorou muito para a confiança holandesa sucumbir a frieza e a determinação do excelente jogador da Suécia. E, para surpresa de muitos que esperavam ver o holandês no HU, o duelo final foi protagonizado pelo “iceman” Martin Jacobson e teve o norueguês Stephensen apenas como coadjuvante. A superioridade de Jacobson, que já era visível, ficou incontestável: o HU foi um verdadeiro massacre mental imposto pelo sueco. O Main Event da WSOP, dessa vez, não decepcionou. E, como disse meu amigo, coroou o melhor e o mais bem preparado jogador da mesa final. O sueco Martin Jacobson, com méritos, colocou o bracelete de diamantes no pulso e alguns milhões de dólares na conta.

A WSOP de 2014 ficará na memória de todos nós brasileiros pela imensurável façanha do cearense Bruno Foster em conseguir um lugar na mesa final de pôquer mais cobiçada do mundo. Sinceramente, para mim, depois disso, pouco importou o desempenho do Fostera na mesa final. Como já tinha dito, ele tornou-se um campeão já em julho de 2014. E nada e nem ninguém poderá apagar o seu memorável feito.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

O par de damas que quebrou qualquer estatística

Providência simbólica a mão que definiu a cravada de Igianne Bertoldi na Brazilian Series of Poker desta madrugada. Quatro damas num baralho completo de 52 cartas representam aproximados 7,7% do total, um par delas, perto de 3,8%, o que é bem perto da quantidade de mulheres que se arriscam nos torneios. A metáfora possível é, tanto no baralho quanto nos fields, há pouco espaço, e estereótipos falam mais alto.

Há poucas mulheres no poker, o que não quer dizer menos capacidade, e nem mesmo significa que na média elas são piores que os homens. Para entender melhor, sugiro este artigo, sobre Perspectiva feminina no poker.

Igianne ainda carrega a pecha de ser dealer além de mulher. E o dealer você sabe, é aquele irresponsável que bate um out no river pra estragar a sua festa… Nessa escala de hostilização, jogador é vagabundo, mulher é insegura, intuitiva e não sabe jogar, e dealer tem mão de pântano. Até quando?

Na mesa final, a vencedora eliminou quatro oponentes, deu pelo menos por quatro vezes insta-call no chipleader puxando os potes (numa delas com K-high), certa de que estava a frente no river, e depois o eliminou num bordo sem surpresas. Ela estourou all in numa jogada de efeito e perdeu, já no heads-up, equilibrando a disputa, mas soube refazer seu stack e partir para a vitória. Mas se levássemos em consideração as estatísticas, ela nem deveria estar ali, se levássemos em consideração os estereótipos, ela não sabia o que estava fazendo.

A dama com seu par de damas em Foz do Iguaçu (Foz, que significa local onde o rio desemboca; e Iguaçu, que em tupi-guarani pode ser traduzido como água grande), pode e deve ser a representação da grande desembocada feminina do poker no Brasil.

Foto: Imagem da página pessoal do facebook de Igianne Bertoldi.

Riess, “a besta”, é o melhor do Main Event, mas soltou a pior falinha de campeão

Na última madrugada de terça para quarta-feira o jovem Ryan Riess levou o bracelete multi-cravejado do Main Event da World Series deste ano. Logo após recebê-lo, em entrevista com a repórter Kara Scott, soltou a falinha bestial “Sou o maior jogador do mundo”, muito mal recebida pela comunidade do poker (confira aqui neste vídeo publicado no Poker.co.uk, o momento da entrevista).

Riess pode ter falado no calor do momento, sem pensar muito sobre, mas definitivamente não é o tipo de coisa que se pode afirmar, pois mesmo que ele fosse o melhor, ele apenas estaria o melhor, o que é bem diferente. O melhor jogador do mundo é proclamado por outros, não se auto-proclama.

Ao longo da transmissão e nos comentários, a pressão por um poker bem jogado é constante e presente, seja dos especialista ou mesmo dos jogadores que olham cada move com bastante critério. Todas as sequências de erros, as apostas equivocadas, o range e a falta de ação serão apontadas e faladas, o que mostra que não basta ser o campeão, é preciso apresentar o melhor jogo possível.

Desta forma, o melhor jogador do mundo pode não existir, pois ele precisaria errar pouco ou nada, tomar fatiadas monstruosas e não tiltar, blefar e nunca ser pago, cravar o torneio tendo recebido cartas medianas, e ainda dar a melhor declaração possível após a vitória.

Ao menos agora sabemos que Reiss ainda pode provar ser um dia um dos melhores, mas definitivamente, num torneio de falinhas, ele teria ficado milhas de distância de um November Nine.

November Nine chegou! A mesa final do ME da WSOP

Finalmente, a tão aguardada mesa final inicia-se hoje. O Main Event da WSOP 2013, novamente realizado no Hotel Rio em Las Vegas – Nevada, teve Buy In de US$10k e 6.352 inscritos, gerando um prizepool de mais de US$60 milhões. Após 7 dias de fichas no pano, a FT foi formada: 9 sobreviventes e um deles vai faturar (sem deal), a bagatela de US$8,4 milhões!

A mesa final do WSOP ME sem deal é um dos motivos que deixam essa FT mais interessante (embora vários grandes torneios também não tenham). Não encontrei pela internet nenhuma discussão a respeito disso, mas afinal, você faria deal? Eu entendo que os valores envolvidos são extremamente impactantes e capazes de mudar a tomada de decisão de um jogador em favor de uma posição a mais na premiação, portanto, não vou estranhar se fulano largar um par de valetes caso tome um 3bet (tanto faz se for em posição ou fora de posição). O fato de não haver negociação na premiação por parte dos jogadores, faz com que o jogo seja jogado de uma maneira mais comedida por alguns, e quem se beneficia com isso são os jogadores mais técnicos, que sabem aproveitar spots.

Logo abaixo, a lista dos jogadores e seus respectivos stacks

  1. JC Tran (38.000.000 – EUA)
  2. Amir Lehavot (29.700.000 – Israel)
  3. Marc-Etienne McLaughlin (26.525.000 – Canadá)
  4. Jay Farber (25.975.000 – EUA)
  5. Ryan Riess (25.875.000 – EUA)
  6. Sylvain Loosli (19.600.000 – França)
  7. Michiel Brummelhuis (11.275.000 – Holanda)
  8. Mark Newhouse (7.350.000 – EUA)
  9. David Benefield (6.375.000 – EUA)

E a premiação final

  • Campeão US$8.361.570,00
  • Vice US$5.174.357,00
  • 3.o US$3.727.823,00
  • 4.o US$2.792.533,00
  • 5.o US$2.106.893,00
  • 6.o US$1.601.024,00
  • 7.o US$1.225.356,00
  • 8.o US$944.650,00
  • 9.o US$733.224,00

O horário de início da mesa final será as 23:30h pelo horário de verão brasileiro (17:30h em Las Vegas), e no site da WSOP dá pra acompanhar a cobertura ao vivo, clique aqui: Live Stream. Se você quiser acompanhar toda a caminhada até a mesa final, seguem os links para todos os vídeos:

Dias 3, 4 e 5: clique aqui
Dias 6 e 7: clique aqui

Fonte: WSOP