BSOP ou KSOP?

Se há dois ou três anos alguém se atrevesse a comparar o BSOP com qualquer outro torneio no Brasil certamente seria motivo de chacota. Digo isso porque todos eventos que ousaram competir com o conceituado BSOP sucumbiram… Até que surgiu o KSOP.

O evento ocorrido no ano passado, na linda cidade de Camboriú, em parceria com o WPT, registrou 3.386 entradas e distribuiu mais de R$ 4.000.000,00 em prêmios só no evento principal. Não foi à toa que este episódio de inesperado sucesso provocou grande repercussão no meio. Seria o KSOP um adversário à altura para o BSOP?

A grande resposta para essa pergunta poderá ser revelada no mês de abril. É que nesse período os dois gigantes resolveram se confrontar realizando suas próximas etapas simultaneamente em Brasília e em São Paulo.

Seria esta a melhor estratégia? Este conflito de datas, a meu ver, mostra claramente que faltou diálogo e bom senso. Acredito que ambos sairão perdedores desse confronto de egos. Neste passo, enumerarei as principais características que considero relevantes de cada um para a próxima etapa. Vamos a elas.

BSOP (mais informações)
Credibilidade: o BSOP goza de reputação ilibada;
Organização: o BSOP possui os profissionais mais experientes e capacitados da América Latina;
Prêmio extra: o BSOP oferece nesta etapa quatro pacotes completos no valor de US$ 30 mil para o milionário evento PSPC que será realizado no ano de 2019 em Bahamas;
Custo benefício: o BSOP garante para a próxima etapa o valor de R$ 2.500.000,00 exclusivamente para a premiação do evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 2.600,00;
Imposto: o BSOP retém o imposto na fonte;
Local do evento: Brasília/DF;
Gentileza: o BSOP, ao contrário dos grandes torneios mundiais, não oferece sequer água para os jogadores.

KSOP (mais informações)
Credibilidade: o KSOP ainda necessita de um tempo de maturação para gozar de reputação ilibada;
Organização: o KSOP vem melhorando, mas ainda não se equipara ao rival;
Prêmio extra: o KSOP oferece aos participantes da etapa 10 pacotes de viagem para o Cassino Sun Monticello, no Chile;
Custo benefício: o KSOP garante nessa etapa o valor R$ 2.000.000,00 exclusivamente para o evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 1.500,00;
Imposto: o KSOP não retém o imposto na fonte;
Local do evento: São Paulo/SP;
Gentileza: o KSOP distribui gratuitamente lanches no dia 2 do evento.

Bom, expostos os comentários, cabe ao leitor a decisão de qual evento jogar. Agora, se você é um daqueles gorilas que ficam pagando 3-bet com mão marginal o tempo todo, é melhor não jogar nenhum deles.

 

Imagem: Onyx9/Shutterstock.com

Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

Matando os peixes, a lagoa seca

Grandes sites de poker estão se adequando para preservar o mercado e finalmente entenderam que as políticas até então praticadas estão na contramão. Tomara que achem um jeito. Somente no poker, se beneficia ainda mais quem é ganhador ou Pro, e se esquece que para um Pro sobreviver é preciso ter jogadores medianos sob pena de tubarão comer tubarão e o negócio deles se transformar em jogo para meia dúzia de picas.

Se optarem pela estratégia usada milenarmente pelos cassinos, onde quem deve ter algum tipo de bonificação é quem perde, a vida da indústria será longa. Sempre fui a favor do corte de software de ajuda e super-status aos jogadores, pelo fato de que hoje a imensa maioria é de jogadores recreativos nas mesas, que seja pela sua falta de profissionalismo, talento ou até vontade de crescer num jogo, que para eles é um passatempo, se transformam em simples doadores de $$$.

Influi demais na gurizada aquela história de sucesso que muitos contam, e de falsos “pra frente” que, pegando um cara de pouco miolo, fazem até largar faculdades que custaram aos seus pais milhares de reais para viver de poker. O poker precisa de jogadores recreativos para subsistir e manter os craques que interpretam o jogo de uma forma tão incrível que a cada dia nos emocionam com o seu talento. A eles deve ser oferecida toda vantagem possível para que continuem a logar seus sites e os mantenham funcionando.

Bom lembrar que apenas um porcentual pequeno tá pra frente nesse game, mesmo que tenha um monte de picareta, mentiroso e doente mental dizendo que tá pra frente.
Não mate todos os peixes que seca a lagoa, e vocês vão ter que catar serviço! É o recado.

 

Imagem: shutterstock.com (editada)

Competição, show ou ambos?

José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

Regulamentação do poker: uma busca por equidade

Podemos começar com um passado recente e outro muito recente. Em meados de 2009 conversava pela manhã com um amigo que varou a noite numa delegacia prestando depoimento, ele havia sido levado pela polícia junto dos demais jogadores durante a disputa de um torneio de poker, num dos poucos, e por isso conhecidos, clubes da capital paulista na época. Era sua primeira investida no poker ao vivo, com exceção das mesas em casa com os amigos. Por sorte correu tudo bem e ele encarou a situação com naturalidade, afinal, naqueles tempos isso era um fato comum. Vale lembrar, sair de um home game para jogar poker num clube, era por vezes, algo evitável para uma parte dos jogadores recreativos há 7 ou 8 anos, em função de ocasiões como esta.

Em dezembro de 2014, numa mesa de cash game num grande cassino na Flórida, ganhei o jackpot da high hand, 200 dólares para a mão mais alta que segurasse até o final daquela hora, e como minha quadra não foi batida, aguardei a chegada do floorman para receber o prêmio. Em meia hora ele estava ao meu lado, pediu passaporte, coçou a cabeça, foi ao cashier e depois de mais meia hora retornou com uma papelada e a grana na mão. Preso ao prendedor da prancheta, um tipo de recibo e algumas folhas cor de rosa em duas ou três vias, era o imposto referido aos estrangeiros, que beliscou 30% do prêmio. Assinei. Satisfeito com o capilé, pero no mucho.

Bom, nessa pequena linha do tempo espero ter mostrado dois lados da mesma atividade, o poker. Dois lados opostos que ainda hoje expõem as contradições de um mercado. O H2, famoso clube paulistano de poker, foi fechado pela polícia em março deste ano, enquanto que na mesma época, os jogadores da etapa da Brazilian Series of Poker em Balneário Camboriú pagavam impostos sobre seus ganhos por terem concluído suas participações no torneio dentro da faixa de premiação. Um contrassenso, não?

É justo ser detido pela polícia por jogar poker? É justo pagar 1/3 do prêmio em impostos? Precisamos de justiça? Bem, Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga, nos diria que precisamos ir além da justiça. Em Ética à Nicômaco, uma de suas principais obras, ele desenvolveu um conceito de justiça que é usado no Direito até os dias atuais, baseado num saber prático que está relacionado diretamente à ética. Aristóteles entende a justiça como virtude, e divide seu conceito primeiramente em justiça geral e justiça particular. A primeira trata da observância da lei, já a segunda tem como objetivo realizar uma igualdade proporcional entre os envolvidos.

Dentro da justiça particular de Aristóteles está a ideia de equidade, a forma justa da aplicação do Direito, uma adaptação da regra que considera igualdade e justiça, interpretando a lei e levando em conta a especificidade de cada tema, algo que vai até onde a lei não alcança. Parece um pouco diferente da noção que temos no poker, onde equidade está relacionada com a parte do pote que o jogador espera ganhar no longo prazo dependendo das suas chances de vitória, da probabilidade da sua mão. Mas não, no fundo o conceito está presente em ambas definições, precisamos da equidade de Aristóteles na regulamentação da atividade, a parte do pote que nos convém.

Ou seja, precisamos ir além da justiça, precisamos de equidade em seu sentido mais amplo. Uma regra específica para uma atividade específica. É o papel que se espera deste novo grupo de trabalho, levar ao Ministério dos Esportes subsídios para que a atividade se regulamente da melhor forma para jogadores, dealers, clubes e operadores do mercado. Que permita nosso amigo ir ao torneio sem ser preso, que retire da atividade a clandestinidade que nela resta, e onde o imposto pago pode ser o justo, equitativamente justo nesse pote. Um marco para um longo prazo.

Evidente que o poker é igual a trabalho pra muita gente, e há certa quantidade de jogadores receosos, principalmente profissionais que jogam online, pois o que está por vir é uma incógnita. Alguns mercados na Europa já passaram e estão passando pelo mesmo processo, e cada um está experimentando os resultados, que bons ou ruins servem de modelo, pois regulamentar o poker não é uma questão de escolha, mas uma condição. A regulamentação é também uma preocupação dos operadores de poker online, o risco de operar num país sem mercado regulado é alto, por vezes inviável. Portanto, as reações contrárias a regulamentação por uma parte da comunidade de poker online são legítimas e precisam ser consideradas desde que lúcidas. Parece simples, teremos o funcionamento das salas de forma regulamentada, ou não teremos salas, o que deve acontecer num médio prazo. Por isso as reclamações em favor do “deixa como está” ou “pra que foram mexer aí”, parecem negações de uma realidade evidente, por isso precisamos de jogadores conscientes, com discurso coerente e disposição para o debate.

Atacar o início do processo de regulamentação do poker no Brasil é uma opção, mas uma opção de vítima apenas. Nesse caso, atacar não é escolha, é defesa, defesa contra uma suposta injustiça. Primordial é notar que a escolha a ser feita, afinal, reside na forma com a qual cada jogador de poker brasileiro pode atuar nesse processo, e isso inclui ser crítico e contributivo nessa questão. Xingar é ser acrítico, apoiar cegamente e incondicionalmente, idem. Ser ético é uma saída atuante, é se abrir para a possibilidade do outro, ter imaginação para com o outro. Nossa participação se dá em várias direções, pode ser um texto como esse, uma conversa com os amigos, nos clubes, discussões nos fóruns de poker, cobrar esclarecimentos e uma atuação direta nas federações. Fazer o que está ao alcance, municiando quem vai representar o mercado do poker com aquilo que nos aflige e beneficia.

Hoje, precisamos perceber que o poker no Brasil é uma indústria, tem interesses, política, valores, e está sujeita a todo um sistema, contudo é uma atividade que escolhemos participar, seja lá por qual denominação cada um a entenda, esporte, trabalho, jogo de habilidade ou entretenimento. E como qualquer mercado, caminha para uma regulamentação que precisa assegurar a própria existência, esse é o ponto de partida de qualquer discussão numa sociedade que aprende a lidar com um mundo interligado e cheio de novas alternativas de negócio. Uber, Netflix e similares são exemplos de que a força inovadora presente em qualquer mercado, demanda dos governos, atitudes. Poker é uma dessas novas atividades.

Por todos essas questões que pressionam o nosso poker por todos os lados, e farão surgir uma remodelada atividade, precisamos de equidade.

 

 

Imagem: Konstantin Faraktinov/shutterstock.com (editada)

Ao defender o poker online, Tim James expões as contradições de Sheldon Adelson. E as próprias?

O discurso moralista de Sheldon Adelson contra o poker online é conhecido. Possuidor de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos, o dono do complexo que compreende os cassinos Venetian e Palazzo, em Las Vegas, defende que “atividades pecadoras” tais como o jogo valendo dinheiro (uma das sin activities, como ele denomina), devem ser controladas, e ele acredita que num cassino físico isso é possível, enquanto que no ambiente online não. O principal ataque de Adelson ao poker online é que não se pode verificar com segurança se menores de idade estão jogando, ou se está se jogando com responsabilidade, de forma que é difícil proteger cidadãos e principalmente menores dessas atividades. Para ele, somente num cassino físico há condições de uma atividade regulamentada.

Tim James, jogador de poker, resolveu expor as contradições de Adelson criando o documentário Sheldon Adelson Exposed, no site The Tim James Show, uma undercover story, como ele define, que parte das premissas de Adelson para mostrar que tudo aquilo que o dono do Venetian condena, acontece no interior de suas propriedades. James denuncia o que há de incongruente no discurso de Adelson logo no teaser do documentário, mostrando a presença de menores de idade jogando e circulando nas áreas do cassino, inclusive consumindo bebidas alcoólicas. Para tanto, Tim James infiltrou menores de idade no cassino Venetian (nesse caso menores de 21 anos, proibidos pela lei do país de jogar), que portando documentos de identidade falsificados, conseguiram consumir bebidas e ter acesso às áreas de jogo. Confira abaixo o teaser trailer (em inglês).

Discutível, de ambos os lados. James se utiliza de menores portando documentos de identidade falsos, mas parece que isso não tem importância, afinal o resultado justificaria a atitude. Justifica?

A lógica ambígua de James fica clara quando ele tenta abrir uma conta no site wsop.com usando o documento de identidade falso, e evidentemente no cruzamento dos dados, o site não aceita o cadastro, fato que supostamente demonstraria que o ambiente online é seguro. Conseguir abrir uma conta sem ter idade suficiente é improvável, só que não é essa a prática, afinal, um menor tentaria com um documento real, válido, e jogaria no lugar da pessoa titular da conta.

Falsear a identidade (a sua ou um documento), a prática usada pelos jovens do documentário para burlar o cassino físico, também é vista no ambiente online, como por exemplo o chamado ghost, jogador mais bem preparado que nas retas finais toma o lugar do dono da conta (o podcast PosRiver abordou o tema no ano passado). Sem falar nos casos de multi-accounting, que voltaram a ser assunto depois das suspeitas dessa prática pelo profissional Brian Hastings.

Os argumentos de James parecem fazer sentido apenas em si mesmos, e sua abordagem aparenta como uma reação prevista na regra, pois não há surpresa reveladora alguma no documentário. Em ambos os lados, não há profundidade suficiente. Se a intenção dos ataques de Adelson é não perder mercado para os cassinos online, ou se James procura defender o poker online trazendo à tona uma “verdade”, não há por parte dos dois uma disposição para discutir o assunto, apenas um discurso reduzido pelos interesses de cada um, apresentados como um interesse comum a todos.

É a lógica do “atacar para se defender”. Mas, no momento que ambos defendem suas visões (onde supostamente estão atacando o rival), demonstram a própria fragilidade de seus argumentos. De certa forma, tanto James quanto Adelson atiram contra aquilo que defendem. Ora, partindo de ambos, se não é possível assegurar que menores não tenham acesso à “atividades pecadoras”, o caminho natural seria proibir tais atividades para todos, e nessa escalada em nome do que é preciso defender, o controle e as proibições se expandiriam até um ponto onde nada mais é permitido. Similar a ideia de que quando se está acuado, o medo é a reação norteadora das ações, e pelo medo continuamos atacando. O desejo de controlar, começa da constatação que vamos nos desviar, ou seja, não surge apenas porque desconfiamos do outro, senão porque temos certeza que somos capazes de cometer os desvios. É por isso que a balança para decidir sempre está em nossas mãos, mesmo quando o critério parece ser externo.

Portanto, construir um caminho para lidar com esse tipo de questão começa consigo, é deliberar por si, e não agir apenas porque os outros estão olhado. Pra resumir, podemos complicar um pouco mais: Raramente se erra, quando se liga as ações extremas à vaidade, as medíocres ao costume e as mesquinhas ao medo. (Friederich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”)

Por sorte, neste jogo, não é preciso escolher um lado, mas escolher.

 

Fonte: site The Tim James Show. Imagem e vídeo retirados do mesmo local.

O campeão Jorge Moutella e as ressalvas

Em época de bracelete de um jogador dos mais conceituados como Decano, e de um quase November Nine de Negreanu, o poker carrega ressalvas. Não basta ganhar, e mesmo na sociedade do resultado, por vezes, o resultado não é suficiente. O desempenho de Jorge Moutella, campeão da etapa de São Paulo da Brazilian Series of Poker, dividiu opiniões. De um lado, o ineditismo de um feito, pela primeira vez o vencedor do evento principal eliminou todos os adversários na mesa final. Por outro lado, a relação de blinds e stacks teria favorecido o melhor conjunto de cartas, as certeiras mãos jogadas por Moutella na FT, jogador do interior de São Paulo que nunca havia disputado um field maior que quarenta jogadores. Parece a velha discussão sorte e habilidade.

Voltemos um tanto no tempo. Quem se lembra de Jamie Gold, falastrão que levou um Main Event de WSOP na base da falinha e anos depois leiloou o cobiçado bracelete. Pra citar outro amador, Jerry Yang, que passou a WSOP de 2007 gritando yes, yes! beijando a foto de seus filhos, apostando de pé, e pedindo à Deus para ganhar cada mão, nada muito técnico no final das contas, senão por uma técnica bem peculiar de meter ficha no pano (se ficou curioso, confira aqui um vídeo com as mãos de Yang no ME). Mais um que foi tido como um não bom embaixador para o poker, pelo menos na visão de outro campeão de WSOP, Joe Hachem, famoso pelos gritos de aussie, aussie, aussie! quando colocou as mãos no troféu máximo do poker. O discurso é tão presente quanto a gritaria, algo como: você deveria ter feito o que eu deveria ter feito, ou em suas palavras “O poker está morrendo”.

Em contraponto, ainda me recordo das manchetes quando o jovem Cada foi campeão do ME, “Joe Cada salvou o poker”. Sabemos que salvou a si mesmo da eliminação, acertando trincas improváveis por duas vezes na FT, e “nos” salvou também de termos na galeria dos campeões um lenhador que deixaria todo o prestígio do poker para voltar à sua terra natal, Maryland, e assim realizar a profecia de ser mais um não embaixador. Seria improvável ver um Darvin Moon de roupa preta empunhando a espada vermelha e estrelada do patrocinador nas contracapas das principais revistas de poker, no meio de uma floresta com o machado à tiracolo. Já, para Hachem, caiu bem.

Pois bem, entre embaixadores, amadores, fiascos e resultados, o poker criativo e bem jogado permanece tanto quanto o pouco técnico, e sistematicamente, uma grande maioria de amadores continua jogando e perdendo, tanto quanto uma parte dos vencedores vai dar cabo de representar o poker e deixar o sonho suspenso, algo que não é nem bom nem ruim, mas é a natureza cíclica do jogo e do mercado. Mas, questões como a legitimação de um campeão continuam não sendo balizadas apenas pelo resultado, e embora esse seja o primeiro passo, é a comunidade do poker que dá o aval, ou melhor, quem alimenta a opinião pública é quem dá o aval.

Na discussão contínua de quem é melhor, fenômenos aparecem, permanecem e somem, e suas posturas gritam tão alto quanto seus resultados. Evidentemente, debates ampliam qualquer diálogo, mas algumas vezes a própria indústria e a opinião pública parecem se esquecer do seu principal embaixador, o amador que em 2003 mudou o panorama do jogo. A vitória de Moneymaker é emblemática, a típica boa história americana, a mitologia do herói no ocidente, o soldado que foi à guerra, o amador que venceu.

Todo o trabalho de construção de um ídolo depende da façanha, e valorizar ou desprestigiar uma vitória são os lados para se escolher no momento de contar uma história. Afinal, Moutella teve um bom desempenho pelo fato de ter eliminado todos os mesa-finalistas ou ele deu sorte? O prestígio de Moneymaker veio do bracelete ou da história que propiciou uma explosão do poker? O ponto não é defender ou atacar os amadores, não é esse o caso, mas quando tratamos uma vitória no poker como um acidente, mais ou menos como uma margem aceitável de erro na regra, esquecemos que poker é um jogo. Por outro lado, Moneymaker e a legião de amadores expõem o paradoxo dessa questão, a maior propaganda para o poker vem pelas mãos de amadores.

O bom jogador continua ganhando, e mesmo a contragosto, o poker continua real, mas a pergunta fica, a competição legitima o quê?

 

Imagem: pogonici/Shutterstock.com (editada)

Rankings são feitos de jogadores, não de pontos

A adoção do sistema de pontuação do GPI (Global Poker Index) para o ranking da temporada 2015 da Brazilian Series of Poker se tornou um imbróglio assim que foi feita a divulgação dos resultados da primeira etapa. João Bauer, campeão do main event, figurava apenas na nona posição do ranking, enquanto que o campeão do high roller Ariel Bahia, era o líder da competição. João Bauer manifestou sua indignação, e encontrou apoio de diversos jogadores. Na tentativa de encontrar uma solução para o impasse, a direção da série brasileira voltou atrás, modificando o ranqueamento para o sistema de pontuação usado nas edições anteriores. Agora, foi a vez de Ariel Bahia colocar a decisão em xeque, também apoiado por vários jogadores.

A BSOP é sem dúvida a principal e melhor organizada série de torneios do país, uma empreitada de anos nadando contra a maré (e porque não dizer, continua nadando, há tempos não temos uma etapa do Rio), mas nesse caso faltou planejamento. Qualquer simulação na página principal do site do GPI mostraria que o ranking deles dá mais peso ao valor do buy-in do que ao tamanho do field. Atribuir o impasse ao GPI é um caminho fácil, (mesmo porque, até o incidente, o GPI era tido com muito prestígio). Admitir o erro, fundamental. Voltar atrás, improvável para uma competição, mas foi o escolhido, afinal, o evento principal não pode ficar desprestigiado em detrimento dos eventos paralelos, mesmo os mais caros, pois a vitrine da série é o main event, é ele que distribui a maior premiação, é ele a atração da série. Ariel e os demais que pontuaram bem na etapa de São Paulo, pagaram o pato.

Aliar BSOP e GPI evidencia o que acontece em qualquer mercado, empresas se associam para abarcar o quanto puderem de espaço, e obviamente crescerem mais. Alinhar interesses e se associar é condição fundamental, o que deixa a questão mais de mercado do que em pró dos jogadores.

Mas há um aspecto anterior com o problema do ranking, que não está no sistema de pontuação, no cálculo, no favorecimento de determinado jogador, no valor do buy in ou mesmo na cotação do dólar. Falta uma representatividade dos jogadores ou de algum grupo ou associação formada por eles. Um ranking esportivo deveria alinhar interesses dos jogadores, com participação dos praticantes, organizadores, mercado e mídia especializada. Num quadro como esse, talvez não tivéssemos o melhor ranking possível, mas certamente um ranking consentido, e por isso mais próximo de todos.

 

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