Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

Competição, show ou ambos?

José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

Poker, a Serra Pelada dos nossos dias

Bamburrar, no início de 1980, foi a expressão que representava a busca dos milhares de garimpeiros que, vindos de todas as partes do Brasil, rumaram para o sul do estado do Pará atrás do sonho de enriquecer, no que se tornaria o maior garimpo a céu aberto do mundo, a Serra Pelada (retratada acima pelo ilustre fotógrafo Sebastião Salgado).

Traduzindo para o vocabulário do poker, bamburrar é forrar. Mas há mais semelhanças por aí. O garimpo é o grind, e o garimpeiro, o grinder, que vivenciam o mesmo trabalho árduo. Se o poker tem rake, em Serra Pelada não era diferente. Logo no início da exploração da região, o governo brasileiro interveio no local, e montou um posto da Caixa Econômica Federal, que era o único comprador oficial do ouro coletado por lá. Contudo, o valor pago chegava a 60% do valor real. Para o poker, impraticável até para aquelas contas mais premiadas, ou seja, não é tão fácil assim, e tanto em Serra Pelada quanto no poker, alguns fizeram fortunas, mas a maioria não. Foram notórias as mortes e condições precárias no garimpo, bem como no poker, é preciso respeitar o ferro e a natureza do jogo.

Contudo, o que atraiu os garimpeiros para a região foi um boato que se espalhou rápido, brotava ouro do córrego que ficava ao pé da serra, e em pouco tempo milhares foram atraídos pelo sonho, e a fazenda que ficava por lá se tornou uma jazida de 100 metros de profundidade. O boom de Serra Pelada lembra a história do boom do poker, protagonizada pelo contador Chris Moneymaker, amador que conquistou sua vaga para a WSOP num satélite online e cravou o Main Event da edição de 2003.

“A propaganda é a alma do negócio”, e o boom do poker é fruto da melhor propaganda possível: Qualquer um pode ficar rico do dia pra noite, basta tentar, basta jogar, basta garimpar.

Esta então é a coincidência mais contundente entre o garimpo de Serra Pelada e o Poker, pois o boato e a propaganda surgem de um fato, que quando amplificado, mostra apenas um lado idealizado das duas atividades, fazendo parecer fascinante e fácil a dura realidade das cartas ou bateias. É quando a propaganda se torna sentido e condição da verdade, que nos tornamos parte do formigueiro humano no garimpo, esperando por um golpe de sorte.

 

Fonte: Leandro Narloch para Aventuras na História (Guia do Estudante – Editora Abril). Foto: Sebastião Salgado

O que a luta do século entre Muhammad Ali e George Foreman ensina sobre o poker

Em Kinshasa, há quarenta anos, Muhammad Ali e George Foreman travaram a chamada luta do século, ou como ficou conhecida, The Rumble in the Jungle, o combate na selva, no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo.

Neste heads-up antológico do boxe, Ali era o underdog frente a potência do adversário, alguns anos mais novo e atual campeão mundial. É como se um grande jogador de poker de antigamente, há tempos sem jogar, estivesse enfrentando a mais nova revelação do poker, com uma considerável desvantagem em fichas.

Ali, como um bom lutador, tentou imprimir sua estratégia inicial de ficar dançando em torno do ringue, mas logo notou que não seria possível, afinal ele já não era mais tão jovem, e cansado, seria alvo fácil para o peso das luvas de Foreman, que partira para definir a luta nos rounds iniciais. Muhammad Ali mudou seu plano, se escorou nas cordas, e passou os assaltos seguintes se esquivando e levando uma saraivada de golpes de Foreman, com o intuito de cansar o campeão. Pelo menos é o que conta a revista The Ring, reproduzindo trechos do livro de Thomas Hauser, Muhammad Ali: His Life and Times.

Assim, no oitavo round, e percebendo o adversário exaurido, Ali aplicou uma sequência de golpes que levaram o oponente à lona. Foi a vitória da inteligência sobre a força.

A luta foi organizada pelo até então desconhecido Don King, que pagou uma bolsa de cinco milhões a cada pugilista para que a luta fosse realizada do outro lado do oceano, no meio do continente africano. Quem financiou? O ditador do Zaire, Mobutu Sese Seko, e somente assim King conseguiu promover a contenda. De fato, o evento não contou apenas com a luta entre os pesos-pesados, houve também um festival de música e apresentações de caras como B. B. King e James Brown.

Para convencer Foreman, Don King usou os cifrões e o argumento de que milhares de negros foram levados da África para serem escravos, mas que agora dois campeões negros retornariam ao continente para disputar o título mundial e celebrar a liberdade! Se é um marketing dos bons ou papo-furado, não sabemos, mas Big George aceitou, perdeu a luta, e anos depois reconquistou o título de campeão dos peso-pesados aos 45 anos de idade.

Além disso, há um contexto histórico interessante que precede os anos anteriores a luta. Muhammad Ali havia sofrido perseguição política ao se negar lutar pelo exército norte-americano na guerra do Vietnã. Ficou de escanteio no mundo do pugilismo e foi criticado pela opinião pública mais conservadora numa sociedade racista. Estava diretamente ligado ao líder Malcolm-X, além de ter se convertido ao islã.

O que esta luta ensina aos jogadores de poker, é que ter uma estratégia é tão importante quanto ter criatividade para mudá-la, e que qualquer atividade tem aspectos econômicos e culturais envolvidos, independente do que o pugilismo representa e justamente por ele representar algo. Como no boxe, o poker não é somente fichas e cartas.

Então, a luta na selva se torna uma boa história simplesmente porque conseguimos ver um feito notável em meio a uma situação onde um promotor oportunista, organiza uma luta financiada por um ditador, entre um desertor, que deseja restaurar seus direitos, e um jovem promissor que subestimou seu adversário.

 

 

Fontes: Site do PCO, Coluna de Eduardo Ohata para Folha de S. Paulo, Examiner.com e Revista The Ring. Foto: Poker Room desativada do Caesars Palace em Las Vegas (M. Naccarato)

Os vulcões da demagogia

Prometi para mim mesmo que não escreveria mais sobre pôquer. Entretanto, quando me deparo com um texto inteligente como este, que aborda de forma imparcial um tema polêmico, que mexe diretamente com os interesses dos exploradores do jogo, sinto-me excitado em quebrar a minha promessa. Da mesma forma que é difícil discursar imediatamente depois de um bom orador, também não é tarefa fácil enriquecer com comentários um texto tão bem escrito. Tentemos!

Quando o corajoso Daniel Colman declarou que o pôquer é um jogo sombrio, BOOM! Os vulcões da demagogia entraram imediatamente em forte erupção, atirando suas lavas na direção do atrevido campeão. Quem é esse moleque que ousa contrariar o poderoso sistema de exploração do jogo? Chamaram o jovem campeão de demagogo, prepotente, imaturo e algumas coisas mais. Entretanto, ninguém escreveu ou disse algo que provasse que o menino abusado estava errado.

Entendo que as declarações do Daniel Colman retratam a realidade, são rigorosamente verdadeiras e fundamentais para abrir os olhos daqueles que estão ingressando no mundo do pôquer. Temos que falar das consequências pós perda de grandes valores, do tempo em que um jogador profissional passa ausente dos familiares, do perigo iminente de sucumbir ao vício, da dificuldade de manter hábitos alimentares saudáveis, da falta de motivação para praticar atividades físicas por causa das longas jornadas dedicadas ao jogo e muitas outras consequências não menos relevantes.

Após ler o último parágrafo, você deve estar pensando que eu detesto pôquer. Afirmo categoricamente que não. Adoro jogar pôquer, amo invadir a mente do adversário, amo blefar, amo aprender e evoluir com jogadores diferenciados. Enfim, curto demais. Entretanto, a minha paixão pelo pôquer não é suficientemente capaz de inibir o meu senso crítico. Não posso fechar os olhos para o rabo preso que a mídia especializada tem com os seus patrocinadores, também não concordo com a tendência nociva de incentivo para as recompras ilimitadas nos torneios. Outro ponto intrigante diz respeito aos impostos cobrados em alguns torneios. Por que somente em alguns?

Enfim, muito ainda tem que ser feito pelo pôquer, principalmente aqui no Brasil, para que possamos discordar das declarações feitas pelo milionário Daniel Colman.

Além de humildes, temos que ser imparciais e realistas. Abraços!

Imagem: Shutterstock

Considerações sobre a polêmica de Daniel Colman no One Drop

Sobre a declaração de Colman

Daniel Colman poderia ter falado com a imprensa após a vitória, e se dissesse o que queria, possivelmente não seria mostrado da forma que desejava. Por isso quando ele opta por responder pelo canal que julga independente e mais próximo dele, o fórum de poker Two Plus Two, ele quer garantir a qualidade e a totalidade do que deseja falar. É principalmente para quem pensa o jogo que ele está falando.

Aparte o conteúdo de seu discurso, que pode ser interpretado de diversas maneiras, e colocado de uma forma maniqueísta que divide as coisas apenas como certas ou erradas, o importante é que sua reação trouxe para a superfície um assunto que o mercado não lida muito, e esse parece ser seu grande mérito nisso tudo. Se sua posição é boa ou não, o relevante é o fato de ter detonado a discussão.

 

Julgamentos e argumentações

É tão inadmissível para os que promovem o jogo aceitarem a argumentação de Colman, que a única estratégia de contra-ataque possível à eles é desmerecer o adversário, julgando-o como imaturo, criança petulante, muito jovem, hipócrita, controverso e impreciso demais. E é assim que o ponto fundamental da discussão, que é o formato pelo qual se promove o jogo, é deixado de lado, e a maioria das reações ficam pautadas pela ótica da grana, da culpa por tê-la e da redenção presente no ato de transformá-la em altruísmo. Se você não aceita levar vantagem num jogo cruel, então devolva todo o dinheiro, ou reverta para quem precisa, é o que dizem dos fóruns de poker e comentários nos blogs.

Seguindo essa linha de argumentação, porque então os demais jogadores não fazem o mesmo e revertem seus ganhos para a grande maioria que perde no jogo? Afinal ninguém discorda que a maior parte dos jogadores não é vencedora. É por isso que essa defesa parece fraca, e deixa a discussão estagnada, numa busca por quem está certo ou errado, tentando passar a culpa de um para o outro. Não se sabe se Colman ou Negreanu ajudam a alguém ou a alguma instituição, mas isso não altera essa perspectiva do jogo, afinal os mais preparados vão continuar ganhando, e a propaganda vai continuar sendo feita para atrair mais e mais praticantes.

 

O lado sombrio

Não é porque diversas outras atividades têm em comum com o poker o tal lado “sombrio” que temos que deixar de discutir o jogo e o mercado, e ao que parece, não é esse o ponto quando Colman critica a cultura do ego e do sucesso, e principalmente a propaganda do jogo. Em nenhum momento ele falou alguma mentira, tanto é que não se pode negar o que ele disse, só resta procurar entender sua atitude e discutir o assunto. Mas o caminho comum é o julgamento. Os organizadores sempre vão promover o jogo transformando-o em espetáculo, mas as mídias podem fazer mais mostrando as realidades que permeiam o poker.

 

A resposta de Negreanu

Negreanu claramente concorda em partes com Colman, mas seu pedido direto para o campeão do One Drop passa a mensagem velada de que há uma verdade maior a ser seguida, de forma a abrandar a discussão e terminar logo com a polêmica, afinal ele é apenas um garoto de 24 anos, e possivelmente não sabe o que está fazendo. Só que grande parte das pessoas que não são mais tão jovens quanto Colman parecem ter percebido com sua “experiência” que é mais importante dar manutenção à um sistema que fazem parte do que discutir ou considerar seu discurso. Colocar em pauta esse e outros diversos assuntos é informar e gerar não apenas jogadores mais pensantes sobre sua atividade, mas também um mercado mais preparado.

O que está se perdendo de vista é que independente do formato da comunicação ou dos aspectos presentes no poker, sempre haverá um mercado e alguém o explorando, mas talvez apenas Colman tenha uma inclinação, perceptível em suas palavras, de que o mais importante é a forma com a qual lidamos, interpretamos e nos posicionamos no poker. Isso é ser crítico, e não hipócrita.

 

Links importantes para a discussão

Reportagem do Pokernews (em inglês)
Reportagem de Case Keefer no Las Vegas Sun (em inglês)
Declaração de Colman no Two Plus Two (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Colman
Opinião de Thiago Pessoa no Quero Ser Shark
Artigo de Naccarato no Metapoker sobre a atitude do campeão
Tópico no fórum MaisEV
Metagame especial WSOP com Sergio Prado e Vitão Marques
Resposta de Daniel Negreanu (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Negreanu
Opinião de André Akkari
Opinião de João Simão
Opinião de Vitão Marques
Vitão entrevistando jogadores sobre a polêmica

Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água

Daniel, não o tão esperado Negreanu, mas seu adversário, cravou o torneio de poker de buy-in mais estratosférico da WSOP deste ano. Afora todo o torneio, as jogadas, mãos decisivas e  eliminações, o assunto mais contundente após a cravada foi o comportamento do campeão em relação à imprensa, se negando a ceder entrevista e alheio às fotos e poses esperadas. Para se interar do ocorrido, recomendo a reportagem do Pokerdoc, que conta com a resposta do campeão sobre a polêmica, e que você pode ler clicando aqui.

Na ótica de quem promove o jogo, Colman não pode se abster de participar da promoção estimulada pela imprensa, não pode parecer contraditório ou conflitante, pois julga-se que tal atitude é falta de posicionamento, ou pelo menos uma forma imatura de posicionamento. Contudo, a imaturidade veio do lado de quem critica.

Por sorte, Colman permanece em dúvida, pois através dela é possível ponderar sobre o mundo ao redor e dar mais um passo em direção ao entendimento, considerando as inúmeras realidades e visões intrínsecas ao jogo. Colman não precisa dar manutenção ao espetáculo que não criou, e escolheu veementemente não se utilizar desse canal para tanto. É desta forma que seu não discurso se torna discurso.

Importante perceber nesse mesmo discurso, que a racionalidade que Colman encontrou no poker, a mesma que o atrai e faz com que ele permaneça no jogo, se tornou parâmetro para a própria crítica ao mercado, visto que a propaganda da indústria do poker está majoritariamente voltada para o apelo emocional na busca por novos praticantes.

Talvez ele não careça dos tão almejados louros da vitória, ou de todo o status e exposição envolvidos numa conquista cobiçada e representativa como esta. Talvez ele não precise se jogar em frente aos holofotes deflagrando sintomas de alguém que está perdido e carente de qualquer tipo de atenção, ou não queira capitalizar qualquer outro valor além da vitória em si.

Colman com sua opinião, em tempos onde não se deve emitir opinião, torna-se o não heroi do poker (e não o inimigo), pelo simples fato de que não há nada a ser salvo senão nossas próprias relações em sociedade e a necessidade de reflexão há tanto deixada de lado. E falando nisso, se ele não deve nada ao poker, como disse em seu post no Two Plus Two, o poker deve à ele uma pausa para reflexão.

 

Créditos: Pokerdoc, e post original em inglês de Colman no fórum Two Plus Two. Foto: Shutterstock