As duas pontas do poker: Libratus e William Kassouf

O termo duas pontas, no poker brasileiro, é o apelido para o open-ended straight draw, a chamada para completar uma sequência que precisa de uma carta por qualquer um dos lados. Numa abordagem mais abstrata, também podemos imaginar uma linha ou régua onde num extremo está o jogo puramente matemático e do outro lado estão os aspectos psicológicos presentes no poker. Diametralmente opostos, a forma matemática seria representada pelo computador Libratus, a inteligência artificial que “aprendeu” e venceu os humanos, e em oposição, o controverso jogador britânico William Kassouf representaria as estratégias de ordem emocional.

O computador Libratus, batizado com uma expressão do latim que significa equilibrado, desequilibrou a disputa humanidade versus inteligência artificial, (ou Brain vs. AI como ficou denominado), levando a melhor de lavada no desafio contra quatro jogadores profissionais durante o mês de Janeiro deste ano, onde jogaram 120 mil mãos. A máquina foi desenvolvida sobre algoritmos capazes de interpretar situações e criar estratégias para sair delas, e por isso “aprendeu” com os jogadores humanos como consertar seus próprios erros.

No vídeo abaixo, do canal do profissional Doug Polk, os quatro jogadores falam sobre suas experiências ao enfrentar Libratus, e levantam questões como a melhora do computador durante a disputa, algumas mãos muito estranhas, o fato de terem subestimado a máquina e a impossibilidade de parar o jogo quando não estão praticando seu A-game. É interessante e vale a pena conferir, além de estar legendado (embora um trecho do vídeo parece se repetir ao longo dos 20 minutos):

O jogador catarinense Alexandre Santos, do blog Um Out no River, discorreu sobre o assunto respaldando a opinião de Sean Chaffin, do Pokernews: o computador não tem medo do risco, enquanto que os humanos ponderam sobre isso. Contudo, o risco evidente nessa disputa em específico não parece ser exatamente a perda financeira (o dinheiro em jogo era fictício, os stacks reestabelecidos a cada mão etc.), senão a honra ou qualquer outro aspecto moral. Portanto, o que parece sobrepor a questão do risco é o fato de que Libratus não se abala como os outros jogadores durante a disputa, e isso pode ser determinante para o desfecho, afinal o computador não oscila emocionalmente.

E falando em jogo emocional, na outra ponta dessa linha imaginária estão as estratégias de base psicológica que são o diferencial de William Kassouf, que obteve seu melhor desempenho na WSOP em seu deep run no Main Event do último ano, sendo eliminado na 17.a posição e embolsando pouco mais de 338 mil dólares pelo feito. A caixa de ferramentas de Kassouf é uma mistura de falatório e longas pausas de tempo, que desestabilizavam seus oponentes e traziam como resultado algum tipo de vantagem para o britânico. Contudo, nem por isso podemos considerá-lo um dos melhores jogadores do mundo. O que é certo é que contra determinadas pessoas, seu estilo falastrão cria condições favoráveis de jogo pra si.

O paradoxo interessante dessa linha imaginária se apresenta justamente na oposição entre humanos e máquinas, psicologia e matemática, emoção e razão. O pokerbot calcula num nível inalcançável para humanos, e jogadores de pele e osso perdem porque tentam imitar o robô, pois buscam a matemática perfeita e inexplorável para vencer a calculadora no longo prazo (um verdadeiro trabalho de Sísifo). Enquanto o humano que tenta não imitar os humanos, pois cria uma maneira própria de jogo, vence justamente porque apresenta a si mesmo, e contudo, vai perder na maioria das vezes, pois o jogo se trata de muitas derrotas e algumas vitórias, e seu repertório pode ou não ter efeito.

Uma conclusão possível é a de que o eixo entre Libratus e Kassouf não exista, pois há inúmeras outras formas de aprendizado possíveis além das duas pontas, um combo-draw cheio de variantes e com menos definições. Não há nada mais sólido do que a boa matemática aplicada e o nervosismo ao blefar, elementos que são facetas entrelaçadas de um todo, e não o inverso.

É certo que Kassouf seria derrotado pelo computador, também de lavada, mas não é esse o ponto se necessariamente jogamos apenas contra humanos. Ademais, as realizações matemáticas alcançadas por Libratus podem abrir novas possibilidades de saber, ampliar o conhecimento sobre o jogo, e até descrever o que há de lógico numa jogada maluca e carregada de impulso do seu adversário. Nesses termos há um caminho potencialmente mais proveitoso do que tentar derrotar o computador.

 

Imagem: Shutterstock.com (editada)

A falha do robô de poker Cepheus é humana?

Cepheus é o programa de computador desenvolvido pelos pesquisadores da University of Alberta, no Canadá, que promete resolver o jogo de poker. Segundo artigo do site Cartas na Mesa, trata-se de um software que joga um poker perfeito, sem cometer falhas, e imbatível no longo prazo mesmo quando perde uma série de mãos. Cepheus foi treinado contra si mesmo, e o que o torna imbatível é seu enorme banco de dados de bilhões e bilhões de mãos e o fato de aprender com seus erros passados, tudo isso aliado a uma alta capacidade de processamento, o que faz o programa e seu algoritmo encontrarem respostas eficazes para os mais variados tipos de situações.

Fascinante, não? A promessa dos pesquisadores em matar o jogo com o Cepheus é interessante, e gera conhecimento para ser aproveitado em muitas outras áreas com seu modelo matemático. Aliás, falando em promessa, o próprio nome do software é uma, Cefeu (Cepheus em português), é uma constelação que tem como estrela principal a Gamma Cephei, que deverá ser, até meados do ano 3000, a estrela mais brilhante do céu no hemisfério norte. A escolha do nome está relacionada ao programa antecessor, chamado Polaris, que também foi desenvolvido pela mesma universidade e faz menção a outra estrela, que conhecemos como Polar, a mais brilhante atualmente.

O programa Cepheus é um evidente avanço nos estudos do jogo, contudo há outras formas de olhar a questão, como já explorado na crônica O improvável futuro possível do poker. Cepheus não resolve o poker como um todo, apenas parte dele, através de um modelo desenhado para uma disputa de limit hold’em heads up. O jornalista Christopher Hall escreveu no The Guardian sua experiência de 400 mãos contra Cepheus, e embora a amostra seja muito pequena, ele afirma que o pokerbot tem uma falha: ele não se adapta.

O ponto principal é perceber que Cepheus não joga os jogadores, não considera o adversário, não reconhece o oponente, mas apenas joga seu próprio modelo, e o aplica com precisão. Se o software aprende a cada mão jogada, é porque está computando mais um dado, e não necessariamente aprendendo. Isso gera uma hipótese, onde o “vírus“ humano pode jogar de maneira completamente não convencional, e talvez contaminar a base de dados do software de forma a fazer com que o programa aprenda errado. Mas isso é muita viagem. Ou não. Contudo, queremos vencer Cepheus?

Vencer Cepheus pode parecer um trabalho de Sísifo, e espero, esse não deve ser o desafio. É evidente que uma calculadora faz contas mais rápido que você, e em alguns casos, alguns cálculos que você nem tem ideia. Desafio maior é conseguir enxergar Cepheus como um modelo, e não como condição para um jogo perfeito. Quem joga poker online e sente o quão mecânico se torna o clicar de botões, que o diga.

Os modelos não são o jogo em si, mas ferramentas. Ferramentas essas para tentar fazer com que você não jogue exatamente de forma mecânica, mas acima de tudo, crie através delas.

 

 

Fontes: Cartas na Mesa, Cepheus Poker Project – University of Alberta, The Guardian, texto de Sarah Zhang para Gizmodo Brasil. Imagem: Ociacia/Shutterstock (editada)

O flush e o joão-de-barro

O paraíso da foto acima fica a 300 quilômetros de Fortaleza, mais ou menos umas cinco horas de jipe desde a capital do Ceará, por uma das paisagens mais secas que já pude presenciar, ainda que se encontre muita vegetação pelo caminho. Entre cajueiros e rios sem água marcados apenas pela terra, a pergunta inevitável ao guia foi — Por que está tão seco assim?

Pois bem, a cultura popular diz que andorinha voando baixo é sinal de chuva, e ontem mesmo, pude conferir a profecia se realizando, enquanto os primeiros pingos de chuva acertavam minha careca após algumas andorinhas terem sobrevoado a região.

Algo parecido com a resposta dada pelo guia, pelo menos em essência. Ele nos disse que embora as chuvas não tenham visitado com rigor aquela região do Ceará nos últimos quatro anos, os joões-de-barro já estão avisando que desta vez as chuvas virão com força naquela região. Ele explicou que estes pássaros estão construindo seus ninhos com as entradas mais fechadas que o usual, supostamente uma proteção para as chuvas nos próximos meses.

Andorinhas e joões-de-barro têm lá seus motivos. Os das andorinhas você pode conferir clicando aqui, mas o que parece ser mais interessante é como o homem relaciona esses fatos, pois independente de explicações, todos tiramos conclusões pela observação e frequência dos acontecimentos. O guia que o diga, afinal, para ele, pássaros e chuvas têm uma relação prática, independente dos motivos.

É como a mão que um amigo me contou há alguns dias num torneio. Numa guerra de falinhas com o adversário, ele tentava convencê-lo de não pagar a aposta alta para formar o flush no river. O oponente apenas disse que não iria se perdoar se foldasse, e optou pelo call, que veio premiado para o desprazer do herói.

Para o herói, não é todo flush que bate, e ele conhece bem a explicação matemática para isso, mas para o vilão, a lembrança da frequência com que ele acerta os flushes é mais evidente, e dita sua forma de jogar, desde a escolha inicial das cartas (digamos que seu range é qualquer duas cartas naipadas). O vilão sequer levou em consideração as chances matemáticas de acertar o flush, ficou tomado pela possibilidade de acertá-lo de novo, e fatalmente vai jogar desta forma por um bom tempo, pois o fato pra ele é que o flush bate. Ao herói só resta procurar tirar proveito, nem que for para controlar o pote e perder menos, pois o fato para o herói é que seu adversário não vai largar até ver a última street.

A briga eterna entre jogar com expectativa positiva e jogar apenas para ganhar uma mão pode nunca ter fim, pois há muita chuva por vir, mas o que pode mudar seu jogo é justamente a forma de olhar pra ele e para o adversário.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker. Editado para Metapoker. Foto: M. Naccarato

Se…

Dois jogadores quase se pegando a tapa após a mesa do cash ser encerrada. Fulano criticou o shove no flop, falou que a jogada era ruim, que ele só seria pago perdendo. Sicrano rebateu, falou que com top pair e flush draw nuts valia o risco, e que estava aproveitando o histórico contra aquele jogador.

Fulano retrucou, e se você apostasse meio pote no Flop? Sicrano emendou, e se o adversário achar que estou só no draw? E se o cara tem flush draw também? E se dobra o bordo? E se não fosse esse dealer do pântano? E se a parceirada não jogasse tão loose? E se você estivesse num clube maior? E se os jogadores fossem todos profissionais? E se o adversário fosse Phil Ivey? E se estivéssemos na mesa final da World Series? E se valesse um bracelete?

A suposição é o espaço infinito do jogo finito.

O improvável futuro possível do poker

No futuro, o poker é uma indústria de escala mundial, não somente nos EUA onde foi seu berço, mas fortemente desenvolvida no resto do globo. Contudo, o principal custo dessa expansão parece ser uma onda conservadora na sociedade, que ainda vê o poker como jogo de azar. Visto este quadro, uma associação mundial, por força de uma pressão de mercado cada vez mais presente, queria provar ao mundo que o jogo de poker consistia essencialmente de habilidade.

Neste futuro, jogadores de poker não são classificados pelos ganhos ao longo da carreira, mas por um sistema de pontuação similar ao xadrez, que os qualifica por um rating. Esse novo modelo atendeu a uma demanda muito solicitada pelos jogadores, pois grandes torneios com fields gigantescos estavam gerando prêmios cada vez maiores aos campeões, que não necessariamente eram os melhores competidores, mas vinham ocupando os primeiros lugares nas listas. Por pelo menos duas décadas este sistema vigorou, e foram selecionados os dez melhores ratings dos últimos anos, que jogariam uma partida que definiria o melhor dentre eles.

Prontamente a mídia verificou que poderia explorar essa oportunidade, e evidentemente, a modalidade torneio foi a escolhida, pois uma mesa de cash game, independentemente da qualidade dos jogadores, não traria o drama e a adrenalina presentes e necessárias para gerar um espetáculo.

Assim que a competição começou, matemáticos e psicólogos foram chamados para comentar, jogadores da velha guarda e teóricos destrinchavam cada mão em busca do jogo perfeito, o apresentador ressaltava a qualidade técnica de cada um, ainda que deixasse clara as suas preferências e julgamentos. Comentários e estratégias que ficavam restritas aos bastidores começaram a ser televisionadas, e a cada transmissão, a quantidade de patrocinadores só aumentava. O jogo e o espetáculo não se diferenciavam mais.

Durante meses, sete torneios foram realizados, um play-off para não deixar dúvidas e, ao final, dois competidores terminaram empatados para o delírio dos espectadores. Foi então realizada uma nova série, agora mano-a-mano, para definir o melhor entre os dois. Acontece que, quando a série chegou ao seu desfecho, o jogador derrotado pediu uma revanche, alegando que o adversário havia recebido um melhor conjunto de cartas durante a disputa. A derrota é sempre amarga, e como o show tem que continuar, o pedido foi atendido. Ao término, o jogador derrotado na primeira série sagrou-se vencedor.

Sem solução para a contenda e com receio de perder público, os organizadores definiram uma nova regra. O heads-up final seria disputado com uma quantidade infinita de fichas e o campeão seria declarado pelo critério de submissão, ou seja, o perdedor teria que anunciar derrota por incapacidade de bater o adversário. Algo difícil de imaginar visto que nenhum jogador admitiria tão facilmente uma derrota neste formato.

Contudo, os dois jogadores toparam, e a nêga durou quase quatro dias seguidos. Com a estafa tomando conta de ambos, o improvável aconteceu e um deles pediu trégua, pois não suportava mais ficar de olhos abertos, não conseguia mais raciocinar e encontrar forças para o embate.

O jogador vencedor foi muito comemorado, finalmente havia o representante de um poker bem jogado, pelo resultado e pelo poder mental e perseverança. Contudo um desafio maior se apresentava, os organizadores levaram o campeão a disputar uma série contra um robô. Um software insistentemente testado numa máquina parruda, que mesmo no futuro, ainda não conseguia gerar o algoritmo que solucionaria o jogo, mas tinha um banco de dados quase incomensurável e uma capacidade de processamento idem.

No desafio contra a máquina, o campeão ganhou três partidas em dez, da metade pra frente da disputa, quando começou a perceber que quanto mais incomuns eram suas jogadas, mais difícil ficava para o computador resolver a partida. Mas neste ponto a mídia não estava mais tão interessada, a bola da vez já era outra, talvez um escândalo, talvez a gostosa da vez, talvez uma guerra televisionada.

O que restou disso tudo foi notar que o espetáculo trouxe mais praticantes para o poker, que máquinas não jogam, apenas fazem cálculos, e que jogadores são simultaneamente falíveis e criativos, e experimentam situações onde o entendimento que cada um tem do outro é um dos inúmeros fatores das vitórias e derrotas. Assim como no passado.

 

Foto: shutterstock (editada)

Monty Hall, o indiano maluco e um pouco de Teoria dos Jogos

O filme Quebrando a Banca (título original “21”, de 2008), que tem como cenário Las Vegas e principalmente o cassino Planet Hollywood, conta a história do grupo de estudantes do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que desenvolveu um método de contagem de cartas para tirar vantagem nas mesas de blackjack da cidade. Jogando em equipe, eles conseguem ganhar uma boa grana, mas enfrentam vários problemas no desenrolar da história. Até aí, nada demais, é uma bela sessão da tarde, não fosse por uma cena que chamou minha atenção no início do filme. Nela, você pode conferir o professor, que é o cabeça do grupo, apresentando um problema para o novato da turma, que posteriormente se transforma no seu principal pupilo na empreitada dos estudantes para Las Vegas. O problema apresentado no vídeo é o Paradoxo de Monty Hall, que você pode conferir abaixo (em inglês):

Este problema ficou muito conhecido na década de 70 devido ao programa de televisão que o popularizou (Monty Hall, inclusive, é o nome do apresentador). Muitos Ph.D’s em matemática de várias universidades norte-americanas torceram o nariz para a resposta não convencional do problema. Bom, vejamos o porquê. O problema é simples, você está num concurso televisivo e o apresentador te mostra três portas, dizendo que atrás de uma delas há um carro zero km, e uma cabra em cada uma das outras duas portas. Ele pede então que você escolha uma das portas, e se acertar o carro, o prêmio é seu.

Acontece que após sua primeira escolha, o apresentador abre uma das portas não escolhidas e revela uma cabra. Claro que o apresentador sabe de antemão onde está o carro, e pra conferir um tom dramático ao programa, ele pergunta se você deseja trocar de porta.

Aparentemente, se sobraram duas portas apenas, uma com carro e outra com o ruminante, a chance é de 50% de acertar o prêmio, mas não é bem assim, pois a resposta que te dá mais probabilidade de acerto é contra-intuitiva. A troca das portas eleva sua chance de vitória para 2/3, pois o fato de haver uma porta revelada não modifica sua chance, mas fazer a troca sim. Quando você escolheu a porta, a chance de ter escolhido uma cabra é de 2/3, e quando efetua a troca, a chance de acertar a caranga aumenta para 2/3, como é falado no vídeo. Se você quiser tentar na prática, peça para um amigo separar duas cartas de espadas e uma de ouros, coloque-as facedown, e simule o problema algumas vezes, pelo menos umas dez vezes mantendo sua escolha inicial, e depois mais dez fazendo a troca, e confira os resultados.

Sabemos agora que a melhor escolha é aquela que aumenta a probabilidade de vencer, ou seja, como no poker, a melhor jogada é a que respeita a matemática, e traz uma melhor expectativa de ganho. Esse paralelo torna o paradoxo de Monty Hall bastante interessante por si só, mas levanta questões muito interessantes para o poker.

Muitas vezes, no feltro, somos enganados pela facilidade aparente de uma lógica que nem sempre representa a realidade, e estaremos frente à escolhas que parecem ser racionais e pautadas em verdades absolutas, mas vamos quebrar a cara, pois temos que olhar a situação sobre vários pontos de vista, e em algumas vezes, essencialmente de forma contra-intuitiva.

Pois bem, em 2010 eu estava em Las Vegas, jogando o torneio da noite na poker room do já citado Planet Hollywood Cassino. Nessa mesa havia um misto de bons jogadores e recreativos, mas um deles, um indiano mal encarado, não poupava fichas nas inúmeras mãos que disputava. Uma dessas mãos me chamou muita atenção, pela linha inusitada que o indiano utilizou. Depois de um jogador dar limp em early position, ele abriu um raise de 3xBB em MP, e tomou três calls, incluindo o limper original, SB e BB.

Embora estivesse fora da mão, fiquei observando a ação, e vimos o flop do capeta, 666. Todos mesaram, o indiano meteu meio pote, blinds deram fold e a ação voltou ao jogador em EP, que deu insta-call. No turn, um 3, EP deu check e o indiano check-behind. No river outro 3, formando um full house na mesa, e após o terceiro check do jogador em EP, o indiano estoura all in. Minutos depois, ele resolve dar o call e mostra 99, enquanto o indiano ameaça o muck, mas mostra A6 e puxa o pote.

Na visão do indiano, o limp em early position podia indicar um par de valor baixo, e talvez fosse improvável que ao menos um dos callers não tivesse um par na mão, fato que o fez apostar no flop estando nuts. Já no river, com um bordo desses, não duvido que ele se aproveitou da situação para extrair o máximo de fichas do seu adversário. Você certamente concluiria que o indiano estava jogando com o bordo, ou na melhor das hipóteses, que tivesse um full com um par na mão. Na visão do jogador em EP, seria improvável alguém apostar dessa forma com uma quadra ou um full maior na mão, o que deixou a aposta do indiano mais parecida com um blefe do que com valor.

Esse é um exemplo extremo, e vale dizer que era um torneio turbo, e que o indiano estava muito agressivo à mesa, mas isso mostra que linhas de jogo não convencionais, mudam a dinâmica do jogo (empurrar os blinds do UTG é um bom exemplo de jogada não convencinal que virou comum no poker). Pela cartilha, o indiano deveria cozinhar o adversário até que ele melhorasse sua mão, e só então apostar por valor no river, mas ao criar uma dúvida razoável ele sacou o oponente da mesa. As vezes o adversário parece querer te tirar da mão, o que parece lógico, mas de fato ele está apostando para tomar todas suas fichas. Essa mão me lembra a final hand do Main Event de 1998 da WSOP, não tanto pela linha de apostas, pois afinal Scotty Nguyen apenas deu call até o turn, mas pelo shove ao final da mão com direito a falinha, para confundir o adversário, induzindo-o ao erro.

Outro exemplo é o Jogo do Ultimato, que nada mais é do que uma aplicação prática da famosa Teoria dos Jogos (ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno). No Jogo do Ultimato, uma banca oferece um prêmio para o jogador A, digamos 100 fichas. Esse jogador deve dividir, à seu critério, uma porcentagem das fichas e oferecer ao jogador B. Se o jogador B não aceitar a oferta (ele apenas pode dizer sim ou não, sem qualquer tipo de barganha), a banca não paga nenhum dos dois. A saber, a banca faz isso apenas uma vez, ou seja, os jogadores não terão um novo turno de oferta e aceite, de forma que matematicamente o jogador B deveria aceitar qualquer quantia, pois ganhar uma ficha é melhor do que nenhuma, mas estudos mostraram que na prática, 2/3 das pessoas no papel de jogador A, fizeram divisões de 50/50 ou próximo disso, e, jogadores que ofereceram menos de 20% dos ganhos, perderam o prêmio, pois parece pouco lógico e até injusto, gerando um resultado com um desfecho emocional.

Em todos estes exemplos, seja no paradoxo de Monty Hall, na mão do indiano no Planet Hollywood ou no Jogo do Ultimato, aprendemos que a busca de qualquer jogador que decide se empenhar em aprender poker, seja recreativamente ou profissionalmente, esbarra sempre num método de jogo com expectativa positiva e numa compreensão dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem o jogo, e embora haja sorte e azar envolvidos em todas as mãos, poker é um excelente jogo mental, onde seu nível de jogo só vai melhorar quando você se der conta que a qualidade das suas escolhas na mesa são mais importantes que vencer ou perder a mão.

Para uma explicação mais detalhada do paradoxo de Monty Hall, acesse este link da Wikipedia, e para saber mais sobre a Teoria dos Jogos, acesse este link, também da Wikipedia e pesquise ainda mais, pois afinal, um poker bem jogado é fruto de muita prática, mas também de dedicação e pesquisa.

 

Foto: Jason Patrick Ross / Shutterstock.com. Publicado originalmente em Pokerdicas.

Galileu, a probabilidade e uma visão para o poker

Galileu Galilei, sim, ele mesmo, matemático, físico, astrônomo e filósofo, além de todo legado deixado para a humanidade, solucionou em seu “Considerações sobre o Jogo de Dados” um problema simples, mas curioso. No século XVII alguns jogadores questionaram Galilei sobre o desequilíbrio dos resultados 9 e 10 no lançamento de três dados, visto que as combinações possíveis para cada um era de seis opções:

Resultado 9: 126, 135, 144, 225, 234 e 333
Resultado 10: 136, 145, 226, 235, 244 e 334

Por força da prática, os jogadores tinham percebido que a soma 10 ocorria mais vezes que a soma 9, embora as combinações aparentemente fossem as mesmas. Isso parecia um problema sem solução, fazendo com que a prática desafiasse a lógica, pois quanto mais eles jogavam, mais ficava aparente a vantagem da soma 10. Galileu notou que havia mais inversões, ou modos diferentes de se obter cada uma dessas combinações, verificando que o total de combinações para a soma 10 era de 27, enquanto que para soma 9 era de 25 inversões. Por exemplo, para se obter a somatória 10 com as faces 1,3 e 6, havia seis possibilidades (136, 163, 316, 361, 613 e 631), e não apenas uma combinação, como imaginavam os jogadores. Clicando aqui, um link para um apêndice que explica bem o problema.

Situações onde a lógica aparente não reflete a realidade são mais frequentes do que se imagina, e são um dos alicerces do chamado deception game, ferramenta fundamental do poker, que consiste basicamente em induzir o adversário ao erro. Porém o foco deste artigo é outro. Note que mesmo esses jogadores do século XVII tendo prática e conhecimento com o jogo de dados, tinham como certo e lógico o equilíbrio de resultados, o que não estava permitindo que eles chegassem a um raciocínio mais apurado, pois estavam condicionados em seu entendimento. No poker, a curva de aprendizado, talvez como em qualquer atividade humana, é bem acentuada no começo, porém constantemente os jogadores alcançam um ponto onde o conhecimento que têm sobre o jogo e as relações que conseguem estabelecer parecem chegar à um teto razoável de entendimento, e é aí que reside o problema, quando a capacidade de análise no poker fica condicionada.

Invariavelmente isso ocorre quando o jogador compreende a parte matemática do jogo, e acaba supervalorizando ou compreendendo de forma equivocada os dados de probabilidade de vitória numa mão. Você já deve ter visto diversos exemplos disso, quando, mesmo tendo uma chance de vitória bem maior que o adversário, a combinação de cartas no bordo não ajuda, e o oponente que nem mesmo tem conhecimento de teoria do poker ganha a mão.

Bem, você já deve ter ficado muito puto da cara com isso, e até se sentido injustiçado, mas afinal o ponto principal dessa discussão é exatamente esse, pois o fato de estar favorito numa mão não significa que você vai vencê-la. A probabilidade é somente uma representação teórica que demonstra a incidência de determinada ocorrência. Ela não faz “justiça” e nem te faz merecedor de vencer uma mão, simples assim. Fato é que muito jogador, pautado no jogo lógico e matemático não se conforma com as derrotas ocasionadas por situações onde o adversário está underdog e acaba vencendo. Se basear apenas e exclusivamente na matemática dá uma falsa noção de domínio do jogo e acaba por pautar suas conclusões acerca de como se deve jogar, sem levar em consideração os aspectos emocionais e situacionais presentes a todo o momento em cada decisão e mão jogada.

Chega de mimimi, ou você escolhe usar a probabilidade a seu favor e arrisca enfiar ficha no jogador que está buscando o flush até o river, ou você controla o pote para perder menos se ele acertar, pois sabe como é o padrão de jogo dele. O curioso é ver o jogador matemático/lógico reclamar da baralhada num estado febril de descontrole emocional, sendo que supostamente seu ponto forte seria exatamente ter controle emocional. Não faz sentido aplicar uma abordagem matemática à jogadores não teóricos e gamblers, e se você frequentemente compromete grande parte, senão todo, o seu stack numa mão porque tem  um bom par ou similar, é bom observar seu jogo e tentar diversas maneiras diferentes de jogar essa mão, identificando onde estão seus leaks e buscando um método de contra-jogo para esse tipo de adversário.

Sem perceber os próprios erros, muitos jogadores de poker procuram um motivo externo para dar vazão as derrotas, creditando ao azar ou a suposta forma errada que o adversário jogou, o amargo resultado negativo. Mas, não se preocupe, isso é um recurso de defesa natural do ser humano, só não vale ficar nessa sempre, pois ficar puto é normal, mas experimentar o poker carregando esse entendimento, só traz prejuízos a você mesmo, e vai ocasionar uma estagnada no seu método de jogo, deixando-o condicionado. Se você perdeu por azar, mas jogou bem, não há motivo aparente para se preocupar, embora muitas vezes seja uma merda, e determinada oportunidade seja única (digamos que você está na bolha da mesa final do ME da WSOP), elevar e enaltecer a falta de sorte, só significa que sua visão do poker é similar a de um jogo de azar.

Jogadores profissionais e os que estudam o jogo trabalham sua expectativa de ganho num período de tempo suficiente para ter uma amostragem apurada, e poderem analisar suas falhas e consertá-las. Pergunte a qualquer bom jogador de poker se ele fica verificando, ou sabe a frequência de vezes que seu par de bicudos foi quebrado pra justificar seu tremendo azar? Aposto que ele está tentando ver uma melhor forma de jogar AA do que ficar preocupado com isso.

Concluindo, deixe um pouco de lado a justiça aparente das probabilidades, e comece a trabalhar a cabeça para aguentar o tranco quando a baralhada vier, e aprenda a perder, pois isso vai te dar subsídios para não tiltar no meio do caminho.

 

Foto: Michael Avory/Shutterstock. Publicado originalmente em Pokerdicas