Os tipos de jogadores que as mulheres encontram nas mesas

É sabido que há diversas nomenclaturas para classificar os jogadores de poker no que tange ao estilo de jogo. Mas a que proponho aqui é para ilustrar o comportamento dos homens quando há mulheres nas mesas. Algumas meninas podem sentir-se intimidadas em participar de eventos live justamente pelo número reduzido de mulheres. Quero tentar transmitir um pouco da minha experiência.

O pro: serve também para os regulares. Esses pintam um alvo na tua testa no quesito roubo de blinds. Temos a fama de “ultra tight”, então prepare-se para muita ação, principalmente quando estiver no BB. A ideia é que não enfrentarão muita resistência aumentando pré flop, somente quando a oponente estiver no topo do range. Se perceber que um malandro está fazendo isso, 3bet na cachola dele, use da imagem de mulher. Comigo já não dá certo faz tempo, acho que tenho cara de mentirosa ou dou muito tell – o que seria bom se viesse valor para mim com mais frequência do que o Cometa Halley.

O pavão: são uns fofos. Sempre gentis e educados, puxam conversa e tendem a não se envolver em mãos contigo. O fato de serem atenciosos não quer dizer que estão te cantando; alguns homens são por natureza “pavão”, sentem necessidade de se sobressair sobre os demais “machos”, exibindo-se para as mulheres afim de monopolizar a sua atenção. Como eles querem mantê-la na mesa, cuidado redobrado quando estiverem disputando uma mão. Se estão envolvidos, tem caroço nesse angu! Há uma variação desse tipo que tenta fazer charminho ao mesmo tempo em que arma AQUELA trap.

O flopeiro: com esses tu pode tiltar. Pagam os teus aumentos na maldade com quaisquer duas cartas, geralmente baixas, para te quebrar. Com a imagem “ultra tight” da mulher o plano é acertar um board baixo, que não conecte com o range da agressora. Mesmo se não acertarem, acreditam que podem puxar o pote blefando. Já ouvi falinha como “vejamos se eu consigo quebrar o teu par”. Pior é que conseguiu, call com J2s, flush runner runner. Eu tinha QQ. Maldita memória de elefante!

O tiozão: não se engane, não tem idade. São indiferentes a nós. Muito limp/call, de AA a 54. É um tipo de flopeiro, só que passivo pré flop. Quando betam ou donk betam, pode crer que acertaram. Cuidado quando tomarem 3bet. Perdi um pote grande com AQo por causa de kicker (o indivíduo limpou AK). Todo castigo para quem “limpa” AK é pouco, mas não foi dessa vez…

O neanderthal: ao contrário do que afirma a comunidade científica, eles não estão extintos, creia. É uma espécie que acredita que o último lugar do mundo em que uma mulher deve estar é numa mesa de poker. São grosseiros, mal educados e podem chegar a ser desrespeitosos. Infelizmente, já tive algumas experiências. Ouvi coisas como “gosto de jogar contra quem sabe, não com quem só enfeita a mesa”. O fato é que para eles é inaceitável perder para uma mulher. Eu acredito que a melhor resposta seja na mesa, jogando e tirando as fichas da criatura. Mas se as indiretas virarem diretas e ultrapassarem o teu limite de tolerável, peça para que o dealer chame o floor/diretor de torneio e explique a situação. O poker é antes de tudo um evento social, deve ser divertido e prazeroso. Não é justo que tirem isso de você ou de qualquer jogador. A boa notícia é que são burros e farão de tudo para te tirar da mesa, uma ótima oportunidade para fazer fichas. Aconselho que apostem por valor contra esses oponentes porque, minha amiga, eles vão te pagar, ahhh vão!

O marido: para os casais, parceiros no poker, ocasionalmente cairão na mesma mesa. Aqui és tu quem manda. Pensa nisso como uma extensão da tua casa. Se ele for do tipo rebelde, nada que uma noite no sofá não resolva. “Meu marido. Meu amor. Encare isso como licença poética”.

O restante: quer suas fichas, como os anteriores.

O live para mim é diversão, meu momento de descontração depois de uma semana de trabalho, de rever os amigos, de dar e levar bads e rir em ambas as situações. Convenhamos, a variância no live é absurda e fazer volume é difícil. Então, divirta-se!

 

Imagem: Francesco Abrignani (editada) / Shutterstock

A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

Entrevista: Lizia Trevisan e Mercedes Henriques do Queens of Poker

Neste mês de fevereiro, o grupo Queens of Poker completa um ano de atividade promovendo o jogo entre as mulheres, e no dia 22 deste mês vai comemorar oferecendo um freeroll com premiação de 1.000 dólares na plataforma Betmotion. Mais informações podem ser encontradas no site do Queens of Poker e na fanpage no facebook. Aproveitando o ensejo do aniversário, nesta entrevista dupla, Lizia Trevisan e Mercedes Henriques, duas das fundadoras do grupo, falam um pouco sobre o que as motiva para o jogo, tecem suas opiniões sobre alguns assuntos específicos da realidade feminina nos panos, e falam como enxergam o mercado.


Como vocês veem a evolução da presença feminina no poker de um ano pra cá? Houve crescimento? O que se tira de positivo desse esforço? A criação do Queens gerou um engajamento maior de quem já está na comunidade do poker?

Lizia: 2014 foi muito importante para o poker feminino, tivemos resultados expressivos em grandes torneios, criação de iniciativas como o Akkari Team Micro Feminino, mais mulheres se profissionalizaram e houve aumento do field. O grande desafio do Queens of Poker foi reunir as jogadoras e promover oportunidades. Acredito que cumprimos com esses objetivos e, mais importante, temos o apoio das mulheres. A boa receptividade da comunidade do poker foi um termômetro para a nossa iniciativa, há carência desses espaços e buscamos agregar ao poker feminino.

Mercedes: Eu acredito que sim, temos ouvido falar mais de torneios femininos, e logo que criamos o grupo, teve uma febre de movimentos. Acho que houve uma maior participação tanto dos clubes quanto dos empresários, salas de poker se dispuseram a dar apoio, e as profissionais da área tiveram suas conquistas divulgadas, e isso não existia, quase não se ouvia falar dessas jogadoras com a frequência que elas mereciam.


No início do ano passado, o Akkari Team Micro montou sua primeira turma somente de mulheres, e o diretor técnico Leonardo Bueno escreveu em seu blog um artigo sobre as diferenças de treinamento e comportamento entre homens e mulheres (
Porque mulheres não têm tanto sucesso no poker). A Lizia Trevisan também deixou sua opinião no blog, que inclusive gerou uma boa troca de ideias em outro post. Como vocês entenderam a mensagem, e que posicionamento vocês têm em relação ao artigo dele?

Lizia Trevisan
Lizia Trevisan

L: O texto do Leonardo Bueno foi de opinião. Como o nome já diz, reflete uma visão pessoal. Algumas pessoas se identificam, outras não. Em síntese, ele atribui a falta de resultados das mulheres no poker à uma excessiva passionalidade da personalidade feminina. Ao final, ele encorajou que os leitores postassem a sua opinião, e foi o que fiz. Como jogadora, não me identifico com esse estereótipo. Acredito em estatística, e menos de 5% do field é feminino, logo o percentual de mulheres nas finais é muito inferior ao dos homens. Outra questão importante é o ingresso tardio das mulheres no poker, volume e estudo são primordiais para resultados. Super válidas tais discussões e somente com elas vamos entender a evolução e desafios do poker feminino.

M: Deixo por conta da Lizia a resposta, mas esse evento nos deu vontade de seguir em frente.


Também no início de 2014, a jogadora Milena Magrini alcançou a FT numa etapa da Brazilian Series of Poker, e posteriormente Igianne Bertoldi cravou o main event em Foz do Iguaçu. Até que ponto vocês entendem que isso contribui com uma maior participação feminina? Esse fato faz diferença para atrair as mulheres para os torneios ao vivo?

L: Feitos como os da Milena e Igianne são inspiradores, e acredito que motivou não só a mim. Elas provaram que é possível alcançar resultados, a revelia de um field numeroso, difícil e de maioria masculina esmagadora. Confesso que em ambas as situações torci e sofri muito, algo que o poker proporciona que acho fantástico.

M: Claro que sim, acho que as mulheres estão mais motivadas e confiantes. Nós aqui no grupo criamos alguns banners com os dizeres “Eu Vou”, então, a cada evento colocamos as jogadoras que estarão jogando, tanto no Ladies como no Main Event. Isso chama a atenção para a presença delas no BSOP, os organizadores também estão melhorando a premiação, e incluindo até outras formas de presentes na hora do evento feminine. Sentimos que isso tem influência de nosso grupo. Conseguimos apoio para oferecer buy-in no BSOP MIllions e criamos um ranking, o que motivou demais as meninas, e ter jogadoras como Milena Magrini, Igianne Bertoldi e Ale Braga, são exemplos de jogadoras batalhadoras que sabem o que querem.


Vocês ainda sentem que o público masculino, maioria nos fields, desdenha das mulheres como jogadoras de poker?

L: Quando ocorre, acredito que em maioria se dá de forma intrínseca. No online, por exemplo, é comum jogadores demonstrarem incredulidade quanto ao fato de eu ser mulher, e acredito que não ocorre só comigo. No live, onde temos mais impressões, há literalmente de tudo. Por experiência pessoal, vivenciei situações desagradáveis, mas felizmente a grande maioria é cordial e apoia a participação feminina. Minha percepção é que não é somente no poker que encontramos situações onde a mulher é subestimada, a história está aí como testemunha disso.

M: Não abertamente, eles respeitam as mulheres nas mesas e nos eventos, mas às vezes acontecem casos como o que o Vitão da TV Superpoker falou tão profundamente, sobre o cara que cravou o Ladies do EPT, e mais cinco homens foram para a mesa final, porque na França eles não podem impedir os homens de se registrarem. Nossa, particularmente fiquei chocada! Pois existem muito mais eventos para homens, e não vi necessidade desse comportamento, então eu presumo que ele queria provar superioridade masculina.


Justamente a próxima pergunta, Mercedes. Recentemente, no EPT Deauville, o torneio para mulheres teve uma massiva presença masculina no field, e como resultado, a vitória de um homem, derrotando uma mulher no heads up final. Como vocês entendem esse tipo de situação?

O card-protector das Queens no BSOP
O card-protector das Queens no BSOP

L: Faço uma crítica para nós mulheres. Tal fato ocorreu porque não nos organizamos como um público consumidor de poker, deixando de opinar e agir numa situação de interesse comum. No momento em que tomasse conhecimento da participação masculina, me recusaria a jogar o evento e exigiria o reembolso do buyn. Se todas agissem em conjunto, pressionariam a organização, visto que a proporção do field foi de 61 mulheres para 22 homens. Mesmo que tal atitude não culminasse com a retirada dos homens, demonstraria a insatisfação quanto ao fato, e promoveria o debate sobre o assunto. Quando cruzamos os braços, consentimos com o que está sendo imposto.

M: Lamentável, fiquei sem palavras quando li a notícia, e até postei no grupo. Lamento mais a nossa representante ter perdido para esse ser que se diz homem e se registra em um torneio feminino, na verdade 22 homens se registraram, e a direção do torneio não quiz ser acusada de sexismo. Muito absurdo pra mim, mas que sirva de exemplo para que não aconteça em nosso país.


O que vocês acham das artimanhas usadas pelas mulheres quando dizem explorar seu lado sensual no jogo para obter vantagem? Contextualizando, recentemente a jogadora e modelo belga Gaëlle García Díaz afirmou que usa decotes para que os oponentes evitem eliminá-la nos torneios.

L: Honestamente, nunca testemunhei nenhuma mulher afirmando que faz uso de tais artimanhas. Já vi fotos de jogadoras com decotes, o que é uma prerrogativa pessoal. Se vai contra a convenção social, que os organizadores façam regras quanto a vestimenta. No mais, acredito ser uma exposição gratuita. Para que nos trajar de forma sensual, se na maioria das vezes somos únicas nas mesas e isso já chama mais atenção do que gostaria? Às vezes sinto ter na minha testa os dizeres “big molezinha, mulher é ultra tight, só encontraremos resistência com o topo do range”.

M: Acho que, como em tudo na vida, existem comportamentos e comportamentos, toda mulher, seja jogadora ou não, deve se dar ao respeito se quer ser respeitada. Concordo que as mulheres se arrumem bem vestidas para jogar, mas isso de explorar o lado sensual foge do objetivo que é mostrar sua capacidade de jogar bem o jogo, mas não é uma atitude geral, são exceções que agem dessa forma.


Lízia, você comentou que o desdém masculino é exceção, mas agora falou do “big molezinha” como se fosse corriqueiro. Não é contraditório?

L: Por isso falei, às vezes. O poker é um jogo que envolve psicologia e é um evento social. Cada jogador opta por uma linha de estratégia psicológica, alguns preferem não interagir, outros falam por todos nas mesas. Há casos de alguns que têm como objetivo tiltar os oponentes. Se todas essas condutas são aceitáveis, por que fazer “charminho” não seria?

M: Como eu disse, são excessões que usam esse artifício, não dá para generalizar.

 

Mercedes Henriques
Mercedes Henriques

Mercedes, num artigo publicado no Metapoker em 2014, você sinalizou o contrassenso na exploração da imagem da mulher na propaganda do poker. A Lizia também manifestou em alguns artigos seu posicionamento em relação a participação das mulheres no jogo. Vocês acham que esse panorama mudou?

L: Acredito que o mercado foi focado por muito tempo no público masculino, por razões óbvias. Quando o mesmo resolveu alcançar o público feminino, o fez em algumas ocasiões de forma deturpada, utilizando imagens sensuais de mulheres, penso que no intuito de atrair ambos os públicos. O mercado amadureu, e em conjunto com o desafio de desmistificar o poker como jogo de azar, promove o esporte de forma mais séria, buscando associar sua imagem aos esportistas renomados, por exemplo. No cenário atual, não há como um clube ou evento passar credibilidade tendo como propaganda uma mulher seminua.

M: Na verdade, o artigo que escrevi teve um resultado imediato, o clube tinha usado a imagem de uma mulher semi-nua com fichas e cartas espalhadas sobre o corpo. Eles retiraram do ar e  colocaram de outra forma, e de lá pra cá, sim, mudou bastante a forma de abordagem da mídia sobre o assunto.


Falando em esporte, pra vocês, poker é esporte?

L: Eu tenho duas respostas para essa questão. Vejo jogadores, profissionais ou amadores, se esforçando para evoluir, lutando diariamente de forma responsável, tendo a consciência de toda a dificuldade e desafio quando optam pelo poker como profissão ou paixão. Para esses é esporte. Vejo também jogadores que focam no dinheiro, no prêmio. Para esses, o poker é bingo. Entendo o poker como esporte quando a premiação é secundária. O dia que eu não ficar feliz por cravar um torneio, por mais irrisória que seja a premiação, pararei de jogar poker.

M: Acho que é um jogo que conta com astúcia e sorte! Com treinamento certo funciona mais a inteligência!
 Essa é a forma que estão utilizando para desmistificar o jogo, gosto do nome esporte da mente. Realmente, alguns conseguem exercitar a mente, outros só fazem baralhadas.


Por que vocês acham importante aumentar a presença das mulheres no poker? Na opinião de vocês, o que as afasta?

L: A mulher eleva o nível do ambiente e dá credibilidade ao poker. Não entendo o poker como esporte democrático e inclusivo sem a participação feminina. Não me vejo frequentando um ambiente predominantemente noturno, em que eu seja a única mulher. O poker só tem a ganhar com a participação feminina. Vejo nas mulheres todas as qualidades necessárias para a prática do poker. Num artigo, arrisquei: Fica a pergunta, por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que você conhece que gostam de vídeo-game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas e namoradas não torcem o nariz quando o truco começa? Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Mas, se alguém tiver essa resposta, por favor avise-me.

M: Bom, aumentar a presença das mulheres no poker foi o motivo de criarmos o Queens, foi quando nos demos conta que era difícil ir à um clube jogar se não estivéssemos acompanhadas de marido, irmão ou amigo. Os locais de jogo eram meio marginalizados com presença só de homens, então nos sentíamos desconfortáveis nesses lugares. No online também era assim, 8 entre 9 jogadores eram homens, e se xingavam, altas baixarias nos sit & go’s, e nos torneios, mas agora isso já tem melhorado nas casas de poker, já se importam em ter um bom ambiente, e já promovem torneios femininos com mais frequência. Já não me sinto excluída quando entro em um clube.

 

Imagens: Arquivo pessoal, foto Lizia: Fabio Hamann

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker

O saldo da WSOP 2014

Chega ao fim (ou quase) a WSOP 2014. Como espectadora pude perceber a invasão de brasileiros na Sin City, o que é muito bacana pois nos dá uma ideia da proporção que o Poker está tomando no Brasil. Porém há dois fatos, ou melhor, personalidades que se destacaram: Daniel Colman e Bruno Politano, o Foster.

Daniel Colman protagonizou uma polêmica no Big One for One Drop, evento com buy-in de um milhão de dólares, após vencer Daniel Negreanu no HU e sagrar-se campeão. Sua recusa em dar entrevistas somada a declaração justificando a mesma (que pode ser conferida neste link, matéria do Pokerdoc), foram mais emblemáticas que sua vitória.

Fato que me levou à uma reflexão, pois sou uma apaixonada pelo Poker. Isso nunca me impediu de ter uma visão crítica, tampouco de tomar atitudes afim de ao menos tentar contribuir para uma mudança positiva no que acredito ser necessário. Que o Poker é um universo ainda majoritariamente masculino, é sabido. Falando muito honestamente, me incomoda a pouca representatividade feminina e passei a questionar sobre os motivos para tal. Tentar buscar respostas se mostrou mais que improdutivo, assim nasceu o Queens of Poker. Ele ainda é um “bebê”, criado há poucos meses, mas tive gratas surpresas quanto ao Grupo: pessoas que acreditaram no nosso projeto e a união das gurias, sempre super receptivas para conosco e principalmente, torcendo umas pelas outras. Isso muito me comove, se tratando de uma atividade individual e altamente competitiva.

O Grupo demanda trabalho e tempo, que é muito restrito para mim, além dos parcos recursos que disponho. Sempre tive em mente a inserção e crescimento das mulheres no Poker, com o cuidado de não virarmos uma “distribuidora de brindes”. Queríamos algo que agregasse e criasse oportunidades. Com isso em mente, batemos de “porta em porta”, onde encontramos o “sim”, o “não” e as vezes nem a resposta. É bem triste esta última, pois tentamos fazer algo diferente, visando o crescimento do esporte em um público mais que promissor. Uma resposta é mais que gentileza, é consideração, humildade e respeito.

Sou muito grata a minha amiga Mercedes Henriques que mais que contribui, sem ela este não seria possível, ao Betmotion, nas pessoas do Leonardo Baptista e Fabrício Murakami que acreditam em nosso projeto e o tornaram possível. Khatlen Guse e Marco Naccarato são dois presentes que o Poker me trouxe, obrigada amigos! Tio Max, agradeço pelo espaço que nos cedeu e por proporcionar a mim, uma jogadora amadora, disputar eventos que minha bankroll não permite. A vocês amigos e parceiros do Poker que nos ajudam na divulgação do Queens of Poker, muito obrigada.

Dito isto, gostaria muito que Daniel Colman tomasse uma atitude afim de mudar o que acredita estar errado no Poker. Se eu posso fazer algo, ele com mais recursos e sob todos os holofotes do Poker, pode fazer muito mais. Acredito que atitudes falam mais que palavras e não gostaria que uma discussão tão pertinente quanto a levantada por ele findasse com uma imagem, a imagem de um homem sobre uma montanha de dinheiro com a mensagem “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”.

Deixando o “lado sombrio”, Bruno Foster: que belo presente nos deu. Empunhando nossa bandeira com orgulho de ser brasileiro, dividindo conosco esta grande conquista, o primeiro brasileiro na FT do Main Event da WSOP. Deste show de poker e patriotismo, obrigada! Obrigada principalmente por mostrar o “lado bom” do Poker.

Publicado originalmente em Queens of Poker. Foto: Naccarato

Credibilidade e competitividade das mulheres no poker

Fui desafiada a escrever sobre a competição feminina versus a participação da mulher no poker. Originalmente não é propriamente um desafio. É pura e simplesmente uma reflexão, mas para escrever sobre isso buscando de fato a verdade, é necessária uma análise sobre a tal “competitividade feminina”.

Na minha opinião esta é sinônimo de um monstrinho que habita nosso subconsciente, chamado machismo. Explico: somos tão auto críticas, baseadas em padrões estéticos inalcançáveis e machistas, que a comparação com as demais mulheres passa a ser uma busca de alto afirmação.

Sejamos honestos, vivemos em um mundo competitivo e o poker é sinônimo deste. Então por que a competitividade feminina não contribui ou não é responsável pelo aumento do field feminino?

Sinto muito, mas não tenho esta resposta.

O que posso falar é que me confronto com dois extremos, principalmente jogando live.

Encontro mulheres que torcem umas pelas outras nos torneios, mesmo sendo completas desconhecidas. Há outras que parecem ter como objetivo eliminar todas as demais do evento à revelia do montante muito maior de fichas disponíveis dos homens, sempre maioria esmagadora do field.

Acho isso muito triste por dois motivos. Primeiro, as do segundo time jogam mal, já que miram somente nas poucas jogadoras dos torneios e pagam com mãos e posições ruins afim de entrar em embate com as referidas. Segundo: somos tão poucas que não se justifica tal atitude. Não quero criar nenhum clube da Luluzinha, o Queens of Poker tem como objetivo apoiar as jogadoras e não compactuar com um acordo silencioso de collusion. Acredito que o bom resultado de mulheres beneficia a todas, criando respeito pelas jogadoras e estimulando mais mulheres a prática do esporte.

A verdade é que a mulher eleva o nível do ambiente. Com as mesmas presentes os homens são mais comedidos nos palavrões, nas falinhas ofensivas e tantas outras atitudes gratuitas e desnecessárias a prática sadia e prazerosa do esporte.

Não me sinto confortável em jogar live sem a companhia do meu esposo, justamente pelo número reduzido de jogadoras. Sou agraciada por tê-lo como parceiro, mas e as que não possuem um ou os respectivos não são praticantes do esporte?

Há homens que são desrespeitosos, ainda mais quando perdem para mulheres e isso piora quando estão desacompanhadas, já fui testemunha disso e ouvi vários relatos. Torneios podem adentrar madrugada e a mulher fica mais exposta a violência física e verbal em um ambiente tão masculino.

Os jogadores de poker convivem com o preconceito. As jogadoras convivem com preconceito duplo, por jogar poker e por ser mulher, jogadora de poker.

Não é à toa toda a campanha para aumento do field feminino. A mulher dá mais credibilidade ao poker. Mas empresários do ramo, por favor, não usem imagens de mulheres seminuas ou em poses sensuais em seus anúncios. Se querem de fato o aumento deste público, esta é a pior linha de marketing a se seguir.

Quem sabe utilizando imagens de mulheres jogando atraia mais jogadoras (independente se pela credibilidade ou competitividade feminina) e, por tabela, mais homens. 😉

Foto: Shutterstock (editada).

Poker, mulher e preconceito

Uma das mais fantásticas características do Poker é a inclusão. Qualquer pessoa, de variadas idades, de ambos os sexos, independente do grau de instrução, com ou sem deficiência física, pode praticar o esporte. Dá para mensurar o quão democrático isto é?! Apesar do grande apelo desta, vemos uma maioria esmagadora de homens, nos eventos live e online.

Acredito que o número de mulheres aumenta a cada dia, mas ainda assim a disparidade é absurda. Vamos aos números:

  • De acordo com o site IG: “O sexo feminino representa 5% dos jogadores.”
  • No ranking geral do Main Event do BSOP 2013, a mulher melhor colocada foi Simone Zanetti na 57ª colocação. A próxima jogadora melhor colocada no ranking foi Patricia Kim Yamashita, na 91ª colocação.
  • Ainda no ano de 2013, não tivemos nenhuma mulher em FTs do Main Event.
  • Até hoje, tivemos uma mulher campeã de um Main Event do BSOP. Gabriela Belizário venceu a etapa de Belo Horizonte em 2008.

Notório que a pouca representatividade das mulheres decorre do pequeno número de jogadoras. Fica a pergunta: Por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que conhecem que gostam de vídeo game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas/namoradas não torcem o nariz quando o truco começa?

Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Qual a opinião de vocês?

Em contrapartida, as mulheres que gostam de jogos e querem jogar poker tem dificuldade em encontrar pessoas para conversar/aprender. O preconceito com as jogadoras também é grande. Vejam o depoimento de jogadoras:

“Nunca passei por situações constrangedoras ou explícitas de machismo. Mas já tomei ‘falinhas’ desnecessárias e com segundas intenções. Algo insinuando eu ser fraca de poker apenas por ser mulher… falinha _ uhmm hoje está fácil… só mulheres na canhota ‘vo’ forrar…” Jessica Camargo

“O mais absurdo que ouvi foi um: “lugar de mulher é na cozinha, não é em mesa de poker não”. Aqui, eu sofro muito machismo no live sim. E sou muito caçada nas mesas… Mas isso acaba sendo mais motivador ainda. “ Luany de Macêdo

“Infelizmente ainda existe um pouco de machismo no poker – as mulheres, no live, ou são “caçadas” ou são “respeitadas” além do normal. Mas confesso que não acho ruim esse machismo no poker (no live uso a imagem de mulher para ser lucrativa).” Adriana Maia

Posso parecer controversa, mas sou contra torneios exclusivos para mulheres ou mesmo grupos como o nosso, onde homens não são aceitos. Acredito que essa separação de gênero vai contra o espírito do poker, como esporte democrático. Mas analisando como mulher, é deveras intimidador chegar num salão, onde no máximo 5% das pessoas são mulheres, sentar, jogar, calcular as fichas no pote, ouvir falinhas por ser mulher, ser subestimada (ok, esta parte acho vantajoso rsrs) encarar os outros jogadores (HOMENS) e ser encarada pelos mesmos.

Se é difícil para quem joga, é ainda mais para as jogadoras iniciantes.

No atual quadro é mais do que válido, são necessários torneios, teams, grupos, promoções e o que mais for ajudar a aumentar em quantidade e qualidade o field feminino. O grupo Queens of Poker visa ser um local democrático para que todas as jogadoras, em diferentes níveis de aprendizado, tenham um espaço só delas, mas sonho com o dia em que estes não terão mais razão de haver e que queens e kings dividirão o mesmo espaço, com igualdade e respeito.

Publicado originalmente em Queens of Poker.

Por uma perspectiva feminina no poker

Em junho do ano passado eu estava em Las Vegas, durante a WSOP, e aproveitava o intervalo de torneios noturnos da cidade pra me enfiar nas mesas de cash $1/$2 do Bally’s, algo que fiz repetidas vezes nesse cassino que nos hospedou. Em todas as noites que estive lá apanhando do baralho, notei dois jogadores regulares que faziam sessões longas e sempre saiam com dinheiro no bolso. Eram duas mulheres, uma mais jovem, sempre acompanhada pelo seu pai, também jogador, e outra, de origem oriental, mas provavelmente norte-americana.

Por três vezes presenciei a jogadora oriental como pivô de situações desconfortáveis e seguidas de bate-boca. Numa dessas, um senhor de estilo cowboy não poupou xingamentos depois de perder mais um pote pra ela. A falta de respeito foi logo coagida pelo floorman, mas mesmo assim ela continuava ouvindo insultos do “cavalheiro” a cada órbita. Pouco antes, ela tinha ganhado uma mão num spot confuso por conta de alguém ter mostrado as cartas antes do tempo, o que gerou os primeiros comentários negativos do cowboy, sempre atrelados ao fato da jogadora ser mulher.

Este é um exemplo do que ainda acontece, é incomum, é um extremo, mas serve para demonstrar um aspecto anterior, que é o estereótipo de que a mulher é sempre desatenta, não utiliza a lógica tanto quanto os homens, joga de forma emocional, joga na intuição. Uma mulher é café com leite, ou joga menos que você até o momento em que puxa um pote seu, e aí, quando isso acontece, a conclusão é que ela deve ter feito uma jogada errada e injustificável, ou em último caso, deu sorte. Este é parte do montante de características que refletem a ideia pronta do que é ser uma mulher nas mesas, mesmo sabendo que essas características estão presentes em ambos os gêneros. E assim, evidentemente, a repetição desse discurso o torna parte da verdade, senão toda ela.

O que incomoda é perceber que há uma inversão na forma como se coloca a questão, onde o fato de ser mulher pressupõe o estado das coisas. O poker é uma atividade de maioria masculina, onde o discurso dominante se apóia na técnica. Se um homem comete um erro por jogar de forma emocional, ou se ele perde o controle, isso se apresenta como uma falha, algo para ser corrigido. Porém no mesmo caso, se for uma mulher a cometer o erro, a diferenciação é automática, como se a capacidade feminina em lidar com aquilo fosse reduzida.

Esse é o erro de compreensão proveniente de um sexismo velado e presente no mundo do poker. Na medida em que se categoriza a mulher negativamente como um jogador diferente, os problemas delas também parecem ser diferentes, e seus erros identificáveis como típicos das mulheres. Ninguém identifica e destaca uma boa jogada feminina, apenas uma boa jogada, por outro lado, erros femininos são destacados como típicos.

Desta forma, o problema não está no fato dessas características estarem presentes e notáveis nas mulheres, o problema é que tomar isso como algo natural retira a possibilidade de discussão desses temas, afinal é algo considerado “normal”, não passível de questionamento.

Por isso é cada vez mais importante num jogo em expansão como o poker, que as mulheres se manifestem e gerem representatividade. Se a falta de mulheres é observada nas mesas, sua falta opinando sobre o mundo do poker também é notada. Felizmente temos iniciativas como o Barbarella Poker e a coluna Mulheres no Feltro da Khatlen Guse, o blog da Camila Kons no MaisEV, o PokerGirls, e o recém lançado Queens of Poker, um espaço dedicado às mulheres e fruto do entusiasmo de Mercedes Henriques, Jessica Camargo e de Lizia Trevisan, que inclusive foi entrevistada pela Khatlen em sua coluna no site da CardPlayer (clique aqui para ver).

Mais do que a presença feminina nestes espaços, é fundamental que a visão delas sobre o jogo também esteja na mídia, pois se existe a diferença de gênero, é ela que ajuda a ampliar nosso entendimento de como o jogo se dá. Esta representatividade pode ser um elemento forte na compreensão da participação feminina no poker, pois elas ainda precisam lidar com a intimidação dos adversários nas mesas (refiro-me ao seu formato simbólico, que é elemento de estudo sociológico), e são subestimadas e alvo de preconceitos, como a Lizia apontou no artigo Poker, mulher e preconceito. Outra frase impactante é a de Vanessa Selbst, reconhecida jogadora norte-americana que afirmou que no mundo do poker nunca sofreu preconceito por ser gay, mas sim por ser mulher, confira aqui.

Lizia, Mercedes e Jessica, do Queens of Poker
Lizia, Mercedes e Jessica, do recém lançado Queens of Poker

Do mesmo modo, jogadoras com mais experiência usam os estereótipos a seu favor, e lidam com esses obstáculos de forma peculiar, como se pode notar nesse texto da Carol Ventura para o PokerGirls. Contudo jogadoras que alcançam grandes premiações em torneios ainda precisam afirmar o óbvio, que podem jogar em pé de igualdade com os homens, tema explorado na entrevista que a jogadora Milena Magrini deu para o PokerDoc.

Você pode até falar que a quantidade de boas jogadoras é pequena se comparada com o mesmo montante masculino, ou até se basear em amostragem para concluir que na média as garotas precisam melhorar, mas isso não muda a perspectiva dessa questão, pois essa verificação está ligada diretamente à mesma inversão citada acima, onde as características tidas como negativas para o jogo precedem e bloqueiam qualquer novo entendimento. É como se utilizar de uma estatística para validar um argumento pré-estabelecido.

A massificação do poker ainda não passa pelas mulheres, elas são exceção. No site oficial da WSOP, os buy-ins feitos por mulheres na edição 2013 chegaram a pequena fatia de 5,1%, e no Brasil esse número é ainda menor, o Ladies Event da 1.a etapa do BSOP teve apenas 39 entradas, e a participação feminina no main event é muito pequena, na ordem de menos de 4% segundo o site PokerDoc, na própria entrevista da mesa-finalista Milena Magrini.

Ainda assim, há um novo contingente de boas jogadoras, que a exemplo de nomes como Alê Braga e Larissa Metran, se destacam, pois além do talento, têm oportunidade de trocar impressões e aprendizados com outros jogadores, seja porque estudam mais o poker, fazem cursos, estão mais inseridas na comunidade ou por conta de seus laços pessoais como namorados, maridos e amigos. Elas penetraram neste ambiente e conseguem se desenvolver sem que seja necessário antes disso ser classificada como mulher. No momento em que jogadores e jogadoras são tratados em pé de igualdade, a diferenciação perde seu sentido.

O poker como esporte está em face de uma grande oportunidade, pois em sua essência tem um caráter agregador e plural, pois não faz distinção, e por isso é convidativo. Nesse sentido, os torneios exclusivos para mulheres, os sites e os blogs escritos por elas não parecem ser o outro lado da moeda do sexismo, mas buscam ser um convite para que elas ingressem no poker.

Ainda há poucas garotas no pano, e se for preciso existir uma resposta para isso, a investigação tem que começar necessariamente por elas, e não vir de estatísticas e preconceitos. Talvez a maioria das mulheres simplesmente não goste, ou não considere o poker como uma atividade que as agrada. Se há poucas mulheres, talvez seja porque a mecânica do jogo não desperte o mesmo tipo de fascínio e sentido que têm para os homens, ou não carregue em si o tipo de ação que elas procuram.

Se o poker necessita atrair mais praticantes, o que é assunto para outro artigo, o caminho está na forma com a qual ele atende as necessidades e os questionamentos dos jogadores, sendo mulheres ou não.

 

Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal (Lizia Trevisan). Fontes citadas: WSOP, Queens of Poker, Metro, PokerGirls, Barbarella Poker, MaisEV, Pokerdoc e CardPlayer Brasil