Monty Hall, o indiano maluco e um pouco de Teoria dos Jogos

O filme Quebrando a Banca (título original “21”, de 2008), que tem como cenário Las Vegas e principalmente o cassino Planet Hollywood, conta a história do grupo de estudantes do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que desenvolveu um método de contagem de cartas para tirar vantagem nas mesas de blackjack da cidade. Jogando em equipe, eles conseguem ganhar uma boa grana, mas enfrentam vários problemas no desenrolar da história. Até aí, nada demais, é uma bela sessão da tarde, não fosse por uma cena que chamou minha atenção no início do filme. Nela, você pode conferir o professor, que é o cabeça do grupo, apresentando um problema para o novato da turma, que posteriormente se transforma no seu principal pupilo na empreitada dos estudantes para Las Vegas. O problema apresentado no vídeo é o Paradoxo de Monty Hall, que você pode conferir abaixo (em inglês):

Este problema ficou muito conhecido na década de 70 devido ao programa de televisão que o popularizou (Monty Hall, inclusive, é o nome do apresentador). Muitos Ph.D’s em matemática de várias universidades norte-americanas torceram o nariz para a resposta não convencional do problema. Bom, vejamos o porquê. O problema é simples, você está num concurso televisivo e o apresentador te mostra três portas, dizendo que atrás de uma delas há um carro zero km, e uma cabra em cada uma das outras duas portas. Ele pede então que você escolha uma das portas, e se acertar o carro, o prêmio é seu.

Acontece que após sua primeira escolha, o apresentador abre uma das portas não escolhidas e revela uma cabra. Claro que o apresentador sabe de antemão onde está o carro, e pra conferir um tom dramático ao programa, ele pergunta se você deseja trocar de porta.

Aparentemente, se sobraram duas portas apenas, uma com carro e outra com o ruminante, a chance é de 50% de acertar o prêmio, mas não é bem assim, pois a resposta que te dá mais probabilidade de acerto é contra-intuitiva. A troca das portas eleva sua chance de vitória para 2/3, pois o fato de haver uma porta revelada não modifica sua chance, mas fazer a troca sim. Quando você escolheu a porta, a chance de ter escolhido uma cabra é de 2/3, e quando efetua a troca, a chance de acertar a caranga aumenta para 2/3, como é falado no vídeo. Se você quiser tentar na prática, peça para um amigo separar duas cartas de espadas e uma de ouros, coloque-as facedown, e simule o problema algumas vezes, pelo menos umas dez vezes mantendo sua escolha inicial, e depois mais dez fazendo a troca, e confira os resultados.

Sabemos agora que a melhor escolha é aquela que aumenta a probabilidade de vencer, ou seja, como no poker, a melhor jogada é a que respeita a matemática, e traz uma melhor expectativa de ganho. Esse paralelo torna o paradoxo de Monty Hall bastante interessante por si só, mas levanta questões muito interessantes para o poker.

Muitas vezes, no feltro, somos enganados pela facilidade aparente de uma lógica que nem sempre representa a realidade, e estaremos frente à escolhas que parecem ser racionais e pautadas em verdades absolutas, mas vamos quebrar a cara, pois temos que olhar a situação sobre vários pontos de vista, e em algumas vezes, essencialmente de forma contra-intuitiva.

Pois bem, em 2010 eu estava em Las Vegas, jogando o torneio da noite na poker room do já citado Planet Hollywood Cassino. Nessa mesa havia um misto de bons jogadores e recreativos, mas um deles, um indiano mal encarado, não poupava fichas nas inúmeras mãos que disputava. Uma dessas mãos me chamou muita atenção, pela linha inusitada que o indiano utilizou. Depois de um jogador dar limp em early position, ele abriu um raise de 3xBB em MP, e tomou três calls, incluindo o limper original, SB e BB.

Embora estivesse fora da mão, fiquei observando a ação, e vimos o flop do capeta, 666. Todos mesaram, o indiano meteu meio pote, blinds deram fold e a ação voltou ao jogador em EP, que deu insta-call. No turn, um 3, EP deu check e o indiano check-behind. No river outro 3, formando um full house na mesa, e após o terceiro check do jogador em EP, o indiano estoura all in. Minutos depois, ele resolve dar o call e mostra 99, enquanto o indiano ameaça o muck, mas mostra A6 e puxa o pote.

Na visão do indiano, o limp em early position podia indicar um par de valor baixo, e talvez fosse improvável que ao menos um dos callers não tivesse um par na mão, fato que o fez apostar no flop estando nuts. Já no river, com um bordo desses, não duvido que ele se aproveitou da situação para extrair o máximo de fichas do seu adversário. Você certamente concluiria que o indiano estava jogando com o bordo, ou na melhor das hipóteses, que tivesse um full com um par na mão. Na visão do jogador em EP, seria improvável alguém apostar dessa forma com uma quadra ou um full maior na mão, o que deixou a aposta do indiano mais parecida com um blefe do que com valor.

Esse é um exemplo extremo, e vale dizer que era um torneio turbo, e que o indiano estava muito agressivo à mesa, mas isso mostra que linhas de jogo não convencionais, mudam a dinâmica do jogo (empurrar os blinds do UTG é um bom exemplo de jogada não convencinal que virou comum no poker). Pela cartilha, o indiano deveria cozinhar o adversário até que ele melhorasse sua mão, e só então apostar por valor no river, mas ao criar uma dúvida razoável ele sacou o oponente da mesa. As vezes o adversário parece querer te tirar da mão, o que parece lógico, mas de fato ele está apostando para tomar todas suas fichas. Essa mão me lembra a final hand do Main Event de 1998 da WSOP, não tanto pela linha de apostas, pois afinal Scotty Nguyen apenas deu call até o turn, mas pelo shove ao final da mão com direito a falinha, para confundir o adversário, induzindo-o ao erro.

Outro exemplo é o Jogo do Ultimato, que nada mais é do que uma aplicação prática da famosa Teoria dos Jogos (ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno). No Jogo do Ultimato, uma banca oferece um prêmio para o jogador A, digamos 100 fichas. Esse jogador deve dividir, à seu critério, uma porcentagem das fichas e oferecer ao jogador B. Se o jogador B não aceitar a oferta (ele apenas pode dizer sim ou não, sem qualquer tipo de barganha), a banca não paga nenhum dos dois. A saber, a banca faz isso apenas uma vez, ou seja, os jogadores não terão um novo turno de oferta e aceite, de forma que matematicamente o jogador B deveria aceitar qualquer quantia, pois ganhar uma ficha é melhor do que nenhuma, mas estudos mostraram que na prática, 2/3 das pessoas no papel de jogador A, fizeram divisões de 50/50 ou próximo disso, e, jogadores que ofereceram menos de 20% dos ganhos, perderam o prêmio, pois parece pouco lógico e até injusto, gerando um resultado com um desfecho emocional.

Em todos estes exemplos, seja no paradoxo de Monty Hall, na mão do indiano no Planet Hollywood ou no Jogo do Ultimato, aprendemos que a busca de qualquer jogador que decide se empenhar em aprender poker, seja recreativamente ou profissionalmente, esbarra sempre num método de jogo com expectativa positiva e numa compreensão dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem o jogo, e embora haja sorte e azar envolvidos em todas as mãos, poker é um excelente jogo mental, onde seu nível de jogo só vai melhorar quando você se der conta que a qualidade das suas escolhas na mesa são mais importantes que vencer ou perder a mão.

Para uma explicação mais detalhada do paradoxo de Monty Hall, acesse este link da Wikipedia, e para saber mais sobre a Teoria dos Jogos, acesse este link, também da Wikipedia e pesquise ainda mais, pois afinal, um poker bem jogado é fruto de muita prática, mas também de dedicação e pesquisa.

 

Foto: Jason Patrick Ross / Shutterstock.com. Publicado originalmente em Pokerdicas.

Don’t tell anyone

Cinco horas antes dessa FT no Aria, percebi um tell que me acompanha nos últimos 10 anos.

 

São Paulo, sala de reunião, fevereiro de 2003
As três da matina finalmente percebi o que significava aquela aposta. Não exatamente pelo valor, que variava conforme o pote, mas exatamente pelo movimento que o adversário fazia.
Éramos quatro bêbados numa mesa do escritório jogando um mixed poker de inúmeros formatos, ora o tradicional poker fechado (5-card draw), ora um texas hold’em inventado, onde as cartas são dispostas em formato de cruz na mesa, e você pode combinar suas duas cartas da mão com a linha vertical ou horizontal do bordo, ou ainda mover as cartas das pontas pra formar uma mão melhor. Explico, o flop é dado na vertical, turn na esquerda e river na direta, e quando o bordo está completo com as 5 cartas, é possível mover turn e river para cima ou para baixo para formar um linha horizontal e completar seu jogo, ou ainda mover a primeira e terceira cartas do flop para qualquer um dos lados, e montar um jogo nas linhas verticais (nem me pergunte quem inventou isso…)

Outra variante era o comedor de fichas chamado “parol”, onde eram abertas na mesa 9 cartas ao total, respeitando a configuração de 3 cartas na largura por 3 cartas na altura, com rodadas de apostas em cada uma dessas aberturas. Se não bastasse, a cada carta disposta no bordo, os jogadores envolvidos na mão poderiam optar por manter a carta ou trocá-la por uma nova, verbalizando “passar” quando o desejo era manter a carta, e “parol” quando a opção era a troca. As trocas somente eram efetuadas em consenso, e bastava um dos jogadores “passar” para que ela não fosse feita.

Bem, eu já tinha perdido 60 pratas nessa brincadeira (o equivalente a 6 cacifes), quando me liguei na jogada que o japonês baixinho fazia todas as vezes em que três cartas do mesmo naipe pintavam na mesa. Como quem estava no botão escolhia o jogo da rodada, a sacada dele foi sempre optar pelas variações de poker aberto que traziam muitos draws, para poder roubar os potes fingindo ter um flush.  Estava muito fácil pra ele numa mesa inexperiente, mas numa dessas investidas, ele apostou arremeçando as fichas com o braço esticado, e com um cuidado estratégico de deixar todos os valores de cada uma bem aparentes, numa linha reta de fichas que terminava bem na minha frente, com a de maior valor em cima.

Achei estranho, e paguei pra ver com um parzinho safado. O japa, meio puto da cara, nem mostrou as cartas, muckou, levantou e foi direto ao frigobar, pegou um gelada, bateu a porta e gritou, ­­— Vamos mudar pra poker fechado!

São Paulo, bairro da Mooca, setembro de 2009
Não era exatamente um clube de poker, mas nesse bilhar rolava um torneio de hold’em de buy in barato nas três mesas disponíveis ao lado do caixa. As mesas foram fabricadas pelo próprio dono do lugar, redondas e sem bordas para apoiar os braços. São as mesas de tranca e caxeta, que os coroas surram pela noite toda até sobrar um campeão. Por conta do formato, davam uma visão melhor dos adversários, mas em compensação essas mesas esfolavam seu par de antebraços, por conta do feltro áspero e gasto aproveitado das mesas de snooker do lugar.

Dessa vez, já na FT, quem fez a macaquice fui eu, arremeçando com o braço estirado minhas fichas em all in, num flop pareado, segurando apenas Ace high. O adversário, um libanês de jogo técnico e apurado, armou a cama certinho dando call no meu raise pré flop, e chamando o estouro no flop, segurando um par de damas na mão. No turn ele solta uma falinha, no river quem ri sou eu com o Ás implacável. O brimo saiu puto, chutando cadeira, praguejando…

Punta del Este, Cassino Conrad, outubro de 2009
Não importa em que canto do mundo você esteja, nunca é raro encontrar um brasileiro. Claro, o Uruguai é logo ao lado, mas é engraçado achar um brazuca na sua canhota, numa mesa de torneio na poker room do Conrad. Era um coroa sorridente e falante, que puxou um cigarro amassado do bolso da camisa, e colocou na boca sem acendê-lo, no melhor estilo Sam Farha. Estava orgulhoso de ter guardado o último deles após ter parado de fumar há alguns anos, e só levava o amuleto para as mesas de poker em ocasiões especiais.

O torneio de cem dólares e 15 minutos de blinds, tradicional das terças-feiras, tinha rebuys ilimitados até o quarto nível, e uma parceirada disposta a enfiar ficha até secar a carteira. Não era o meu caso, mas nosso clone de Sammy Farha, numa noite especial, foi levado pelo movimento da mesa e se empolgou um pouco, tentando passar um blefe em cima de mim jogando as fichas com o medonho braço esticado…

Las Vegas, WSOP, junho de 2012
Parei por bons minutos bem próximo à mesa de um dos eventos da série, pra ver ali debaixo do meu nariz o monstro do nosso joguinho, Caio Pimenta, lotado de fichas e dominando a ação na mesa. Numa dessas, ele se envolveu numa mão com raises e reraises até o river. Com o bordo completo, ele puxou um montante considerável de fichas e arremessou sua aposta de um jeito desproporcional, mais para o alto do que de costume, espalhando as fichas no meio da mesa, sem deixar nenhuma escapar, e com uma tremenda cara de desfaçatez.

O adversário fez cara de bunda, e enquanto deliberava o call, muita gente no railbird entrou na frente para assistir ao desfecho da mão. Não consegui ver o que rolou, mas quando o pessoal abriu espaço, pude ver um dos jogadores perguntando ao outro — Você realmente não sabe quem é ele?!

Las Vegas, Cassino Aria, junho de 2012
Alguns dias depois, fui pro pano no torneio das sete da noite do Aria, um dos mais novos e maneiros cassinos da Strip. Numa mesa de cash ao lado, o mesmo profissional que me fatiou no evento #44 da WSOP daquele ano estava jogando solto, com algumas pilhas enormes de fichas de cinco e vinte e cinco dólares. Foldei minha mão e numa olhada rápida para a mesa dele, o vi arremeçando as fichas no pote, tal qual somente os profissionais fazem, tal qual Caio Pimenta.

Moral da história
O melhor tell é aquele que só você percebe, e seu adversário não tem a mínima ideia que está cometendo. Nunca valorize demais um tell, e também nunca menospreze, apenas coloque-o na equação que vai te ajudar a fazer a melhor escolha, pois um tell isolado do raciocínio da mão pode te dar uma leitura errada. Se você se dedicar, estudar e praticar muito, seu jogo vai evoluir, pois o caminho é sempre o mesmo, apanhar no começo, aprender e aplicar, incorporar e quando você acha que sabe, pinta uma coisa nova pra começar o ciclo novamente.

Se você não gostou, don’t tell anyone. Se gostou, idem, mas não dê tell pra ninguém, ou pelo menos, não exatamente este que insiste em me perseguir e eu insisto em não entendê-lo, desde quando eu nem mesmo entendia o mínimo desse joguinho.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker

Mil dólares, hero-calls e filmes

Sua conta num mundo de faz de conta

 

O Planet Hollywood, em Las Vegas, começou a oferecer no ano de 2.012, um prêmio garantido de mil dólares para o campeão, nos seus quatro torneios diários de poker. Desconheço exatamente quando isso começou, mas suspeito que foi no meio do ano, para aproveitar o contingente de pessoas que vão jogar e assistir a WSOP e aqueles que vão curtir o verão tórrido que se aproxima na Sin City.

Uma boa estratégia para a casa, visto a quantidade de jogadores que se inscrevem e ajudam o prizepool a ultrapassar facilmente o valor garantido. Contudo, sob a ótica de alguns jogadores mais experientes, parece mais uma isca para atrair turistas (claro, a maioria é turista, mas me refiro aos jogadores ocasionais que estão de férias na cidade e vez ou outra trocam as mesas de roleta e blackjack pra tentar a sorte no poker), pois a estrutura de seis mil fichas e blinds de 20 minutos não agradaria a grande maioria deles. Mas, afinal, vale a pena?

Certamente para os turistas vale, e o field é repleto deles. Para os profissionais, definitivamente não, raramente você topa um deles no feltro, mas, alguns caras que têm uma noção razoável e conseguem jogar bem em estruturas mais rápidas aproveitam o edge, focam no prêmio e não ficam reclamando da curta pilha de fichas, afinal, uma boa chance de levantar um barão e arriscar um evento de mil dólares na Série Mundial.

Nunca tive um bom retrospecto nessa poker room, embora tenha sido a primeira sala que joguei em Vegas. Na minha última tentativa, em junho de 2.011, levei uma trinca na orelha bem no início. Uma tiazona limpa no UTG e eu acordo no BB com AQ, mando um raise depois de alguns limpers, e somente ela dá o call. O flop premiado ditou o meu destino, dois pares pra mim e trinca de cincos pra ela.

Eu já tinha notado que todos os dealers do Planet, que são rápidos e espertos, têm um crachá com seu nome preso a camisa, algo comum nos cassinos, e normalmente abaixo do nome, sua cidade natal (ou país). Peculiarmente, no Planet, abaixo do nome aparece seu filme favorito. Curioso perceber, especialmente nessa mão onde a tiazona me rapelou, que o filme escolhido por essa dealer era Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy, 1.989), quase um recado pra eu conduzir melhor minha dama pareada no flop… Um aviso cinematográfico, que tratei de deixar de lado enquanto dava call no all in e amargava a eliminação.

Bem, após um ano voltei lá, e depois de casar as 70 pratas pra jogar o torneio, entrei num chorrilho daqueles, mão após mão puxando tudo. Quando você entra num momento desses tudo faz mais sentido, a percepção fica mais apurada, a lógica por trás das jogadas fica clara e você ganha uma confiança tremenda. Aliás, confiança é algo pouco explorado pela literatura do poker, mas nesse caso, o excesso de confiança foi tão ou mais prejudicial do que a falta dele. E, alguns minutos depois de entrar nesse chorrilho, comecei a dar os piores hero-calls daquela temporada em Vegas. Três seguidos, e em todos os potes, independente de ter high card, bottom ou middle pair, fui vencido por um top pair que rasgou o river. O hero-call é um dos termos mais estranhos do poker, pois faz sentido quando o jogador acerta, mas o torna um bobalhão quando o vilão está a frente. No meu caso, inversamente, os três piores hero-calls foram precedidos por um hero-call genial, que me deu um pote monstro e uma confiança além do habitual, mas aquém da lógica, que me fez cegar de vez à mesa, desqualificando os adversários.

Atordoado e sem ação, fiquei aguardando um bom spot pra estourar tudo. Inerte por duas órbitas, assisti a um alemão, que foi movido para minha mesa, dobrar e ficar curto pelo menos por três vezes. Ele tomava aquela fatiada, encarava um flip, dobrava… Fatiada, flip, dobrada… E então recebi um AQ no meio da mesa, e como num flashback, olhei para o dealer, conferi o filme favorito dele, Duro de Matar (Die Hard, 1.988), e botei tudo no pano. A ação chega ao alemão que embora tivesse praticamente a mesma quantidade de fichas da minha pilha, personificava a frase “Arriscar nada é arriscar tudo”, e tomei um call de 33.

O desfecho? Dama na tampa do flop, trinca no river pra ele, duro, duro mesmo de matar. Faz sentido num mundo de faz de conta tal como é Hollywood e seu cassino. Só que não, joguei mal mesmo.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker.

Vermelho 29

Era uma noite qualquer. Não, não era. No meio da madruga, pregado numa das três mesas $1/$2 de cash do Bally’s Casino, em Las Vegas. É o último resto de noite na Sin City, e estar à mesa faz todo o sentido, é o novo ritual de despedida, numa tradição que só se inicia quando termina, quando a Strip cabe na janela do avião.

Dealers cordiais, jogadores nem tanto, uma pequena fatiada me sacou da mesa pra respirar ar puro, pra esquentar os pulmões com uns tragos e com o ar quente da entrada. Mais um grupo enorme de orientais falando alto enquanto ocupam o lobby para fazer check in. Lembrei da mala, aliás lembrei-a como obrigação. Tinha apenas mais alguns minutos para subir pro quarto, tomar uma ducha, jogar as tranqueiras na mala e fazer o check out rumo ao aeroporto.

Voltei à mesa, um cashout gordo e uma gorjeta de acordo seguida de um “I appreciate”. Deu vontade colocar tudo no vermelho 29, forrar de vez. Não sei da onde veio isso, na roleta o 29 é preto, é uma brincadeira, alguém falou errado em algum momento, mas a tiração de sarro ficou, e para toda sessão positiva no cash, o barato era se atrever a colocar tudo no número que não existe naquela cor, jogando com o azar do improvável, do não possível.

É como quando você está socando ficha no pano achando que está a frente, mas está sendo manipulado. É o flush second nuts que te elimina do torneio, ou a falinha do oponente dizendo “paga pra ver”, e você folda e ele mostra o blefe amargo. É como buscar o segredo do poker, aquela coisa que só os profissionais mais experientes sabem, e não contam. Viktor Blom disse que o segredo é parar no momento certo, segundo reportagem do Codigopoker. Então você não acredita, ele erra grande e acerta tanto ou mais, todos os dias, mas parar é o segredo? E então se vai em busca de outro segredo, e outro, e mais um, mas nenhum contenta.

A cada viagem para Vegas o cenário muda, os jogadores mudam, um cassino ou outro é aberto, aquela cardroom cheia de fishes não existe mais, tá na outra ponta do salão, cheia de regulares de olho na sua pilha. Você atravessa as portas de cada lugar depois de uma noite em claro, e o sol escaldante acerta seu rosto enquanto você pensa “qual é o segredo?”. O que era fácil, virou osso duro, a grana na mão virou ferro, o tiozão que arruma as fichas pela cor das bordas irrita, mais uma temporada se vai.

No ano anterior, a última noite foi uma mesa final, foi bom, um punhado de fichas de prêmio. Vamos pro vermelho 29? Esquece, brinde regado a Guinness de garrafa, no mesmo calor abafado, do lado de fora do cassino assistindo mais uma leva de orientais chegando de táxi, construindo a nova tradição, o novo ritual de despedida, a ida necessária para a volta…. e o segredo? O segredo, de fato, não é um método ou uma sacada, ou mesmo a união de tudo isso. O segredo é fazer os outros pensarem que há um.

 

Imagem: Shutterstock.com

Floating in Vegas, um retrato descontraído do small stakes poker da Sin City

Não basta apenas dizer raise para falar um bom inglês nas cardrooms de Las Vegas, é preciso equilibrar emoção e lógica para vencer na cidade mundial do jogo. O autor Marco Naccarato disputou, ao longo de um ano e meio, 52 torneios dos mais variados em suas três viagens, e com uma linguagem despojada, relata a dinâmica do poker na Sin City. Floating in Vegas pode parecer um livro técnico, e de fato contém alguns debates e interpretações sobre o hold’em e as diversas mãos disputadas, além de trazer um tutorial para os iniciantes no jogo, mas seu forte não está exatamente aí. A autenticidade da narrativa e sua estrutura, contribuem para o livro ser diferente da maioria das obras no mercado, e mostra que poker não é apenas flop, turn e river, mas tudo o que está em sua volta.

fivA primeira parte do livro é bastante descritiva, vinculando os acontecimentos à narrativa das mãos jogadas e dos tipos de jogadores que habitam o small stakes da cidade. Já na segunda parte, Naccarato incrementa o texto com algumas análises sobre o jogo e as poker rooms, além de relatar o caminho até conseguir o buy in para jogar um evento da World Series of Poker. O autor encerra o livro narrando a Vegas do entretenimento, uma cidade que não é só do jogo e que está sempre pronta para receber turistas e oferecer uma grande variedade de atrações, e talvez, todo esse conjunto torne o livro uma espécie de guia para os futuros viajantes.

“Floating in Vegas – Um relato sobre os torneios de poker de buy in baixo dos cassinos de Las Vegas”, foi lançado em setembro de 2012, e pode ser comprado na Loja MaisEV pelo preço de R$19,90 ou na versão ebook por R$13,32 na loja online da Amazon. Confira abaixo um dos capítulos na íntegra:

Floating in Vegas – Capítulo 13

A única coisa que consegui fazer bem na noite de sexta-feira foi dormir bastante, acordando às dez e apreciando a paisagem da janela. Desta vez pegamos um quarto na torre sul do Bally’s e nossa vista era animal, no último andar, de frente para a torre Eiffel e a piscina do Paris e com vista para o southbound da Strip. Dava até para ver metade do lago artificial do Bellagio e assistir seu espetáculo de dança das águas*, nada mal. Ao cair da noite, aquilo fica um emaranhado de luzes, é de encher os olhos. O que ainda incomodava – tal qual no ano anterior – era o lacre nas enormes janelas de vidro, estrategicamente fechadas num quarto de fumantes. Impossível não sair defumado lá de dentro. Até tentamos arrancar os parafusos dos batentes, sem sucesso. Eles devem trancar as janelas para que nenhum maluco adicto perdedor se atreva a voar pelas finestra.

Depois de um banho, desci até a Poker Room do hotel e peguei a fila para a inscrição. Muita gente havia chegado, como é de costume nos finais de semana, e o field do regular das onze bateu 35 jogadores. Não havia mudanças no espaço, mas a estrutura estava bem melhor, apesar do aumento do buy in para 75 dólares. O stack inicial aumentou para cinco mil fichas e o primeiro nível de blinds subiu para 50/100. Como as dobras são de vinte minutos, posso dizer que há um bom espaço de manobra em comparação aos torneios do dia anterior e, se você mostrar a que veio nos primeiros dois níveis, a chance de se colocar bem na mesa final é grande. Havia melhores jogadores, mas havia muito pato também, então o jeito foi atacar. Dominei a mesa na primeira hora e consegui dar muitos nocautes, até a mesa ser quebrada. Na nova configuração, adversários mais difíceis, mas eu tinha ficha para contra-atacar e, por sorte, não tomei nenhuma trombada no caminho para FT. Quando a bolha se aproximou, estávamos 5-handed e shovei tudo com AQoff. Encontrei AA no big e levei uma boa fatiada, que me deixou prestes a ser o bubble-boy. Sem outra opção, empurrei dois all ins seguidos, que me fizeram recuperar parte do stack. Na mão seguinte, assisti o quarto e quinto colocados serem eliminados duma só vez e agora eu estava frente a um prêmio razoável. Fui para a batalha contra um americano local e um portuga.

Naquele momento eu estava eufórico. Já tinha garantido 327 dólares de prêmio, o que me deixava com um lucro de praticamente metade do valor do buy in da World Series, mas o objetivo era abocanhar o primeiro prêmio, uma pequena bolada de 800 pratas! Comecei então a reavaliar e classificar os dois adversários; o americano certamente era o mais casca, tinha a manha do jogo e estava bem concentrado. Curiosamente, ele simpatizou comigo e a cada boa jogada que eu fazia, ele elogiava, porém não deixava de betar forte quando entrava numa mão contra mim. Ele era o chipleader e certamente seria o adversário da final. O portuga era do tipo turista agressivo, que também betava forte, mas sem muita técnica, e blefava sem contar a história direito. Logo mirei o Camões e empurrei os blinds dele por algumas mãos sem a intervenção do americano, o que me deu um fôlego até a primeira dobrada. Estourei all in com um par e ele pagou com Ás fraco. Pronto, agora o portuga e eu estávamos praticamente iguais em fichas e foi na mão seguinte que a cagada aconteceu. Com blinds altos, paguei o all in dele segurando AK naipado e ele mostrou KJoff. Dois valetes no flop acabaram com a festa. Levei somente os 327 dólares.

Ainda fiquei um tempo assistindo o portuga levar uma sova do ianque. Ele nem ao menos durou quatro mãos. Tentou passar mais um blefe sem sucesso, levando uma fatiada monstro. Ele jogava o típico jogo do fraco é forte: quando estava com boas cartas limpava, cartas ruins, shovava. Assim ficou previsível demais e acabou sendo eliminado pelo americano, com uma trinca na orelha. Ao final da contenda, fui ao Imperial tentar o torneio das três da tarde. Mais 40 pratas num field relativamente fraco, com 35 caras. Fiquei chipleader na minha mesa, mas tomei duas boas fatiadas e, no quinto nível de blinds (300/600), empurrei os 6k restantes com AKoff e tomei call de um par de putas. Caímos entre os 14.

Ficou bem claro que não havia nos fields jogadores profissionais, mas, regularmente, pintavam dois ou três caras que tinham um pouco mais de experiência no baralho. Aos poucos eu estava conseguindo traçar o perfil dos jogadores médios desses torneios. Basicamente, os jogadores com mais idade jogam assim: um terço quase sempre busca as brocas e os draws de straight e de flush após o flop e, independente do valor apostado no flop e no turn, vão dando call até o river sem pensar muito. Típico do jogador que pensa somente nas próprias cartas, a ponto de ser possível betar com nada na mão e ser pago em todas as streets até o fold deles no river. Esses velhotes também não largam a mão se acertarem top pair, mesmo que o kicker seja um patético 3 e, quando acertam dois pares, apostam furiosamente, ficando muito fácil largar. Eles também vão limpar qualquer par, mesmo ases e reis, então, se um deles mostrar força no flop, também fica fácil foldar. Os dois terços restantes praticamente se inscrevem no torneio para assistir a batalha e ficam pacientemente esperando boas mãos, vendo seu stack sangrar. Jogando assim, eles não recebem muita ação da mesa, ou melhor, só recebem ação de jogadores mal intencionados, como eu. O que se pode fazer é pagar com cartas marginais e espantá-los com uma c-bet em flops que não contenham ases ou reis. Na maioria das vezes isso funciona bem, caso contrário, se você preferir não se arriscar, basta dar fold, porque esses coroas não entendem muito da dinâmica do torneio – principalmente da relação de stack e blinds – e dependem muito de cartas para ir longe, o que acaba deixando-os sem opções quando as dobras sobem demais. Eles são sempre engolidos pela estrutura e se, eventualmente, um deles pegar boas cartas no caminho e conseguir chegar a uma final, é só jogar bem agressivo que eles não aguentam o tranco. No geral, eles já ficam felizes quando alcançam a faixa de premiação. Os coroas de Vegas que jogam bem obtêm seus resultados porque jogam de forma agressiva e não hesitam em botar tudo no pano para espantar os adversários.

A maioria dos jogadores americanos é turista de cidades próximas ou de outros Estados e não estão em Vegas pelo jogo em si. São caras entre 25 e 40 anos que estão lá para se divertir e que encaram o poker da mesma forma que jogam nas mesas de blackjack, craps ou roleta, inscrevendo-se nos torneios pela adrenalina e pela emoção de encontrar a sorte numa mão ou outra. Eles têm uma noção básica do jogo, ficam nervosos à mesa, dão muitos tells e também não largam top pair, mesmo que haja uma sequência óbvia no bordo. Quando estão em algum tipo de draw no flop, pagam rapidamente a sua aposta, mas desitem frente a segunda barreira** no turn. O curioso é que todos conhecem bem as regras – o poker é algo muito familiar para eles, tanto quanto o futebol é muito próximo de nós –, mas é como dizer que eles sabem jogar xadrez, quando na verdade só sabem mexer as peças sem estratégia alguma. Eles são os fishes que pagam a conta. Apenas uma parte dos americanos, os jogadores locais, joga bem, e se você trombar um desses na mesa, terá que gastar alguns neurônios porque eles têm um acervo variado de jogadas e estão lá exclusivamente pela grana.

Principalmente nessa época do ano, os torneios quase sempre têm um viciadão todo paramentado, boné e blusão do WSOP, uma réplica de bracelete no braço e todos os maneirismos de um jogador profissional, o legítimo wannabe. O fato é que a maior parte deles não passa de um reclamão azarado fazendo o papel de sabichão, sem perceber as próprias falhas no jeito de jogar. Eles são comentaristas e vão discutir quase todas as mãos em que estão envolvidos, soltando repetidamente um “eu sabia***” quando perdem suas mãos. Curiosamente, esses caras são fortíssimos pára-raios de baralhada, verdadeiros colecionadores de bad beats, o que deixa tudo muito tragicômico. Desconfie deles, pois não são fortes oponentes. Eles querem mais o poker do que o poker os quer. Há também maníacos em Vegas, mas eles são ligeiramente diferentes dos de São Paulo. Na Sin City, e nesse tipo de torneio de buy in baixo, eles são em menor número e, para pegar um deles, basta dar check/call até o river, ou então esperar um bom spot para tirá-los da mesa – diferente de Sampa, onde funciona muito mais deixá-los desconfortáveis com um reraise. Mulheres, no geral, jogam de forma tight e dão poucos tells, mas o nível de habilidade varia muito.

Quanto à legião estrangeira, jogadores escandinavos são mais frios e calculistas, dão poucos tells, e invariavelmente são jogadores tight e meticulosos, com padrões de apostas e moves muito bem definidos. Basta ficar alerta e entender o modo como eles jogam. Turistas italianos são agressivos e baralhões, como se fossem mais espertos ou malandros que os outros. O restante dos europeus em geral não joga bem, são os típicos turistas de férias em Vegas, exceto os britânicos, que são um pouco acima da média.

Claro que tudo isso é um pouco de estereótipo e existem alguns desvios na análise, mas há muita coisa que procede em se tratando dos turistas médios que se arriscam nos feltros da cidade. O ponto principal que não deve sair de sua atenção é mostrar a que veio na mesa. Ser agressivo faz diferença e vai te dar uma vantagem nos torneios. Outra coisa que funciona muito bem é aguçar a percepção para os tells; os turistas praticamente entregam suas mãos com o olhar e a postura. Para todos os tipos há exceções e se você encontrar um verdadeiro bom jogador, pode esquecer toda essa classificação, porque aí não interessa se ele é local, turista ou coroa. Você vai ter que se virar para ganhar dele.

A noite de sábado foi longa e cheia de birita. Hora de descansar para encarar o domingo em Vegas.

* As fontes do Bellagio ficam bem em frente ao cassino, no cruzamento da Strip com a Flamingo Road, e o balé das águas rola a cada meia hora
** Segunda barreira ou second barrel é a aposta continuada no turn. Às vezes, mesmo uma third barrel funciona no river
*** Se sabia, porque pagou?