Campeão na canhota

Depois de uma década fazendo viagens para Las Vegas na mesma época do ano, você começa a reencontrar com certa frequência alguns personagens, gente que visita os cassinos e aproveita as atrações da cidade, e claro, aqueles que trabalham para que tudo isso aconteça. Assim, o ambiente começa a se tornar familiar, a cada ano pode-se testemunhar os dealers envelhecendo, o costumeiro jeito das garçonetes (e o mau humor de uma ou duas), e ser reconhecido pelo diretor de torneio, que foi de dealer à floorman e agora comanda a sala.

Mas, jogadores são sempre mais interessantes, prato cheio para boas histórias, afinal, os que se envolvem em jogar, de certa maneira têm um tipo de predisposição a serem conduzidos pelo jogo, pois se colocam precisamente “em jogo”. Embora pareça algo abstrato demais, creio que essa abertura, esse deixar-se levar pelo jogo, faz com que o jogador deixe escapar algo de singular sobre si afora a própria maneira de jogar.

Essa característica não fica tão estranha se apresentada assim: num jogo como o poker, onde todos estão tentando não transparecer nervosismos e emoções variadas, deixar escapar no comportamento algo assim pode significar um tell e um bocado de fichas a menos.

Pois bem, numa dessas viagens para Vegas conheci um sujeito dos mais peculiares, que reencontrei algumas vezes, e ele deixava escapar de tudo. Cabelos grisalhos quase brancos e sempre desarrumados; um relógio de pulso todo colorido que parecia de brinquedo, daqueles que a criançada ganha em quermesse; dois pares de óculos, ora um no rosto e um dependurado; e maneirismos dos mais diferentes, do jeito de arrumar as fichas até a forma de apostá-las. Sem falar nas anotações constantes que fazia num bloco de papel amassado.

Esse velhote me chamou a atenção, conversava com todos da mesa, seu sorriso fácil tinha um dente pra cada lado e alguns faltando, e tinha a mania de mordiscar a própria língua enquanto pensava nas jogadas. O conjunto ajudava a construir uma imagem das mais interessantes que já vi ao longo dos anos no poker, jogador tem de tudo quanto é jeito, mas esse sujeito era entusiasmado e estava se divertindo como ninguém na mesa, totalmente oposto ao estereótipo do jovem jogador online que mete o fone de ouvido e joga poker como se estivesse apostando a própria vida.

Em certo momento o velhote se envolveu em raises e reraises e chumbou tudo com um par de duques, de um jeito meio estabanado, pois entrou na onda do adversário que lhe puxou todas as fichas numa mesa $1/$2 cheia de bêbados, incluindo-me, claro. Perdeu a mão, disse “quack, quack!” e levantou-se. A maior parte da parceirada debochou um pouco da jogada, mas um deles avisou: esse senhor é um gênio, escreveu até livro.

Vou partir do seguinte pressuposto, gente interessante normalmente é interessada, e isso não é clichê nenhum. Noutro ano, época de WSOP, encontrei numa tarde o mesmo velhote, fincado numa mesa $1/$2 do Bally’s. Sentei ao seu lado, ele me cumprimentou e lembrei dele no ato. Jogamos algumas mãos, ele continuava repetindo o mantra “quack, quack!”, e dessa vez me ouviu conversando com um amigo em português e ficou intrigado:

– Que língua vocês estão falando? Romeno?
– Não, falamos em português.
– Mas soa tão diferente de português!
– É que somos brasileiros.
Awesome!

Por horas, conversamos sobre algumas mãos e línguas originárias do latim. Quando saí da mesa, ele me avisou que estaria ali no dia seguinte no mesmo horário, e poderíamos continuar o bom papo. Nunca imaginei que o campeão mundial de gamão de 1978 tinha jogado poker na minha canhota por uma tarde toda. Paul Magriel faleceu no começo desse mês, nos deixou o conceito de M do poker, e mudou o jogo de gamão com seu livro. Pena mesmo vai ser não revê-lo nesses encontros casuais para continuar o bom papo.

 

Imagem: Kajura/Shutterstock.com. Fontes: PokerPT.com, Pokernews, CardPlayer.

O rush de Las Vegas

O painel do elevador do hotel não mostra o décimo terceiro andar, a superstição norte-americana torna a falta, presença. É a deixa, 13 é o palpite para uma passada rápida na roleta, 60 dólares na mesa pela mesma quantidade em fichas, uma pilha com dez delas no preto, outras dez distribuídas em pares sobre cinco números. Basta repetir por três vezes, esse é o método de aposta consagrado pela experiência, acertando um dos escolhidos com a aposta no número, o prêmio é de $70, que melhora para $90 se coincidir com a cor. São 13% de chance nos números e 48% na cor. Três tentativas depois, sessenta pratas a menos.

Em qualquer cassino de Vegas há um mostrador em cima da roleta com as estatísticas das últimas rodadas, o jogador desavisado vê uma sequência de números pretos e logo aposta no vermelho. Besteira, cada rodada da roleta é um evento único, uma sequência de 20 vezes seguidas na mesma cor não diz nada, não é à toa que o próprio cassino exibe toda a série de números e cores. A aposta combinada acima tampouco, mas jogamos cada um de nós um sistema próprio, um método que privilegia um número favorito, uma conta um pouco mais a favor ou até superstição. Com um pouco de bebida na cabeça e alguns amigos, a coragem coloca vinte dólares no 10, e começa o coro: Pelé, Pelé… Um casal argentino embala, e a senhorinha grita “Pelê”. Embriagados na outra ponta do pit embalam “Pelew, Pelew”. Deu 19, vermelho.

As caça-níqueis deveriam chamar-se “slut machines”, e não slot. A slut seria aquela que por uns poucos minutos te dá um enorme prazer e ao final leva todo seu dinheiro. Depois de torrar $80 na roleta, não custa tentar, mas novamente procuramos por um método, garimpar as máquinas com maior valor acumulado e bater aposta máxima até soltar o prêmio. Slots com o tema peixes/mar não, elas te afundam. Slots com 777’s, essas sim. Slots com tema oriental, sim. Slots com búfalos ou monstros, não. Achamos a Quick Hit, que é uma daquelas que reúne muitas atrações, bebidas de graça (que nunca são de graça), setes flamejantes, cerejas, sinos, e um bônus que faz a slot trabalhar sozinha… Depois de atolar 50 trumps pinta o tal bônus, vinte rodadas pagando três vezes o que você acertar, e depois de cinco minutos a “slut” te devolve trinta e poucos dólares.

O jeito é engatar no último torneio de poker da noite, ou como diz a turma do meio copo cheio, o primeiro torneio diário da Strip de Las Vegas, o torneio da meia-noite do Flamingo, cassino do famigerado Bugsy Siegel, gângster que impulsionou a empreitada mafiosa do jogo em Vegas, mas que hoje é apenas uma estátua no Madame Tussauds e um pouco de marketing. Sobre o torneio de poker? Ah, deixo contigo, você sabe exatamente com que espírito estamos depois dessa sequência, provavelmente agora, tentando nos convencer de que é melhor por dinheiro onde “sabemos”.

Vegas trata seus impulsos com carinho, espera de você somente aquilo que você pode dar e uma racionalização qualquer que te coloque na frente de uma roleta, slot ou feltro. O rush na cidade formada pelo pecado é ao contrário, pois só há pecado quando se acredita.

 

Imagem: Slots do Casino Royale, em Las Vegas (Naccarato)

WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

Como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

O que me agrada neste joguinho? Não é o fato de ser o jogo da mente. Aplicar a matemática, a psicologia ou a leitura da linguagem corporal. Nada disso. Agrada-me no joguinho o barulho das fichas, o baralho falando, a dinâmica do dealer orquestrando cada mão da órbita. É o coração que quase pára ao descobrir o full house no river quebrando o cara monstro em fichas.

Estive em Las Vegas e lá me conquistaram as luzes e o dia que nunca termina, sentava no torneiozinho do Treasure Island ainda com o sol rachando o asfalto e saía de lá com a lua acima das nossas cabeças e os neons ligados. E ali eu debutei para o poker, mas não é début com príncipe e valsa. É regada à cerveja. Corona with lime, please! E barulho de ficha.

O jogo da mente se transforma em jogo de quem mente quando passa o blefe de 35off que não leva a lugar nenhum, mas na minha cabeça ansiosa, precisa ser jogado. Jogo de demente quando eu decido shovar meu K5 naipadinho, mais uma vez por falta de paciência, mas vai que cola né? Daí eu dobro, continuo, vou pra bolha, da bolha para o ITM, isso tudo sem ter a menor ideia de como contar as odds e os outs. Na simplicidade da minha donkisse, não consigo lembrar o que rolou na última mão que entrei. Como foram as ações pré-flop, o que o dealer bateu no flop, quem deu c-bet, quem foldou. E o turn? Completou a sequência runner-runner? Sei lá. Só sei que adoro ouvir falar isso tudo, algumas coisas eu entendo, outras nem tanto, daí vou a procura desse conhecimento, mas não é pra aplicar no feltro, é só pra entender as resenhas do dia seguinte, quando os meus amigos começarem a falar no grupo.

Ahh! Mas eu gosto desse joguinho, mas nada de online onde as fichas não fazem barulho nos stacks, nem os outros jogadores têm cara. Gosto de ver a mão tremer pra dar o call, daquele caminhão de fichas que foram empurradas pelo vilão. E depois ouvir o grito da galera no showdown. E órbita em órbita, nível de blind em nível de blind, a noite passa, a cerveja mais gela a garganta que embriaga, até que se dá o three-handed, o HU, e enfim o vencedor do torneio. Alguém ganhou, não fui eu, mas mesmo assim, de ali estar gargalhando com as invenções dos meus amigos, das musiquinhas e das piadas do último livro do Ary Toledo, já foi suficiente, e como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

 

Imagem: iordani/shutterstock.com

Ao defender o poker online, Tim James expões as contradições de Sheldon Adelson. E as próprias?

O discurso moralista de Sheldon Adelson contra o poker online é conhecido. Possuidor de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos, o dono do complexo que compreende os cassinos Venetian e Palazzo, em Las Vegas, defende que “atividades pecadoras” tais como o jogo valendo dinheiro (uma das sin activities, como ele denomina), devem ser controladas, e ele acredita que num cassino físico isso é possível, enquanto que no ambiente online não. O principal ataque de Adelson ao poker online é que não se pode verificar com segurança se menores de idade estão jogando, ou se está se jogando com responsabilidade, de forma que é difícil proteger cidadãos e principalmente menores dessas atividades. Para ele, somente num cassino físico há condições de uma atividade regulamentada.

Tim James, jogador de poker, resolveu expor as contradições de Adelson criando o documentário Sheldon Adelson Exposed, no site The Tim James Show, uma undercover story, como ele define, que parte das premissas de Adelson para mostrar que tudo aquilo que o dono do Venetian condena, acontece no interior de suas propriedades. James denuncia o que há de incongruente no discurso de Adelson logo no teaser do documentário, mostrando a presença de menores de idade jogando e circulando nas áreas do cassino, inclusive consumindo bebidas alcoólicas. Para tanto, Tim James infiltrou menores de idade no cassino Venetian (nesse caso menores de 21 anos, proibidos pela lei do país de jogar), que portando documentos de identidade falsificados, conseguiram consumir bebidas e ter acesso às áreas de jogo. Confira abaixo o teaser trailer (em inglês).

Discutível, de ambos os lados. James se utiliza de menores portando documentos de identidade falsos, mas parece que isso não tem importância, afinal o resultado justificaria a atitude. Justifica?

A lógica ambígua de James fica clara quando ele tenta abrir uma conta no site wsop.com usando o documento de identidade falso, e evidentemente no cruzamento dos dados, o site não aceita o cadastro, fato que supostamente demonstraria que o ambiente online é seguro. Conseguir abrir uma conta sem ter idade suficiente é improvável, só que não é essa a prática, afinal, um menor tentaria com um documento real, válido, e jogaria no lugar da pessoa titular da conta.

Falsear a identidade (a sua ou um documento), a prática usada pelos jovens do documentário para burlar o cassino físico, também é vista no ambiente online, como por exemplo o chamado ghost, jogador mais bem preparado que nas retas finais toma o lugar do dono da conta (o podcast PosRiver abordou o tema no ano passado). Sem falar nos casos de multi-accounting, que voltaram a ser assunto depois das suspeitas dessa prática pelo profissional Brian Hastings.

Os argumentos de James parecem fazer sentido apenas em si mesmos, e sua abordagem aparenta como uma reação prevista na regra, pois não há surpresa reveladora alguma no documentário. Em ambos os lados, não há profundidade suficiente. Se a intenção dos ataques de Adelson é não perder mercado para os cassinos online, ou se James procura defender o poker online trazendo à tona uma “verdade”, não há por parte dos dois uma disposição para discutir o assunto, apenas um discurso reduzido pelos interesses de cada um, apresentados como um interesse comum a todos.

É a lógica do “atacar para se defender”. Mas, no momento que ambos defendem suas visões (onde supostamente estão atacando o rival), demonstram a própria fragilidade de seus argumentos. De certa forma, tanto James quanto Adelson atiram contra aquilo que defendem. Ora, partindo de ambos, se não é possível assegurar que menores não tenham acesso à “atividades pecadoras”, o caminho natural seria proibir tais atividades para todos, e nessa escalada em nome do que é preciso defender, o controle e as proibições se expandiriam até um ponto onde nada mais é permitido. Similar a ideia de que quando se está acuado, o medo é a reação norteadora das ações, e pelo medo continuamos atacando. O desejo de controlar, começa da constatação que vamos nos desviar, ou seja, não surge apenas porque desconfiamos do outro, senão porque temos certeza que somos capazes de cometer os desvios. É por isso que a balança para decidir sempre está em nossas mãos, mesmo quando o critério parece ser externo.

Portanto, construir um caminho para lidar com esse tipo de questão começa consigo, é deliberar por si, e não agir apenas porque os outros estão olhado. Pra resumir, podemos complicar um pouco mais: Raramente se erra, quando se liga as ações extremas à vaidade, as medíocres ao costume e as mesquinhas ao medo. (Friederich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”)

Por sorte, neste jogo, não é preciso escolher um lado, mas escolher.

 

Fonte: site The Tim James Show. Imagem e vídeo retirados do mesmo local.

Um cruel novembro sem Daniel Negreanu?

A comoção notada por todos e na mídia especializada após a eliminação de Daniel Negreanu é compreensível. Um bom jogador como Phil Ivey, que já foi November Nine, não capitalizaria tanto para o mercado do poker quanto Negreanu, que é tido como embaixador desta atividade principalmente pela forma com a qual lida com a mídia e promove seu principal patrocinador, o PokerStars. Isso deixa uma pergunta, Negreanu precisa mais do mercado do que o mercado precisa dele? Típica pergunta como a do ovo e da galinha, mas quem veio primeiro não é o assunto desta reflexão.

Senão os próprios postulantes ao November Nine, quem seriam os outros torcendo contra Daniel Negreanu? De alguma forma, no poker há uma diferença perceptível em relação à outras competições, o público tende a torcer e prestigiar os mais habilidosos, mais conhecidos, melhores. É de se pensar quais os motivos que nos levam por vezes a torcer para o lutador de compleição menos robusta numa luta ou arte marcial, ou torcer para os Camarões contra a superior Alemanha numa partida de futebol, e porque gostamos quando o time do interior, mais carente de recursos, bate um Corinthians ou um Flamengo.

Com exceção da rivalidade encontrada no último caso (um palmeirense supostamente gostaria de ver uma derrota corinthiana), há talvez uma vontade de compensação nas competições, que pode ser vista quando torcemos para o mais fraco numa briga, como uma forma de compensar a diferença, esperando um resultado que pareça ser mais justo, o velho Davi e Golias presente no imaginário. No poker não, queremos que o melhor vença.

E como se trata de poker, pode-se dizer que a queda de Negreanu no Main Event, literalmente caído e estirado no chão, foi cruel. Sim, pode-se, mas por motivos que acredito serem diferentes dos citados acima. As palavras crueldade e cru têm a mesma origem etimológica, e são derivadas da palavra cruor (sangue, no sentido de sangue derramado por violência, que difere da palavra sanguis, que é o sangue correndo nas veias), de forma que aquilo que parece cruel é o que é cru como a realidade, e não o que é injusto e cruel.

A eliminação de Negreanu só pode ser cruel se está sob a condição de ser crua, ou seja, de ser puramente real, a realidade nua e crua que deflagra a natureza igualmente inerente no poker: não há justiça nos jogos, e isso não é um problema, pois afinal, também não há injustiça.

Talvez algo difícil de lidar por parte dos jogadores, que entendem que uma boa mão pré-flop deveria vencer, ou que é legítimo uma trinca flopada sair vencedora independentemente de que cartas alcancem o river. Quantos jogadores acham injusto serem eliminados quando estão com top pair no flop e as cartas do adversário acertam uma broca ao final da mão? E quantos deles não usam isso como desculpa? Quantos justificam suas jogadas em função de uma suposta injustiça ao ver seus pares de Ás quebrados? Negreanu, muito lúcido e ciente da realidade do jogo, não se interessa exatamente pelas cartas, mas precisamente pelo pensamento por trás delas, e explanou seu ponto de vista em três mãos jogadas no Main Event, neste artigo em seu site, o Full Contact Poker. Well done, KidPoker!

Segundo ele, “o jogo é simples, e se complica na medida que o tornamos complicado”. Quando criamos em nossas mentes tal vontade de justiça, o que é uma ilusão, deixamos de perceber que a aleatoriedade do jogo é superior e fatal. No poker, merecer não é sinônimo de vencer, embora algumas vezes isso possa acontecer, como no caso do bracelete do Decano, ou das inúmeras vitórias de Negreanu.

Contudo, simplesmente aceitar o jogo como ele é, seria uma resignação. Por outro lado, ressentir-se do jogo nos levaria ao mesmo ponto, pois ambas são reações ao fatalismo do baralho. Seria, como por exemplo, aceitar que é o baralho que resolve e você nada pode fazer (no primeiro caso, quase que assumir o poker como jogo de azar), ou abandonar o poker por ele ser injusto (no segundo caso, acreditando mais na ilusão do que na realidade). Uma possível saída para esses dois casos seria entender a natureza do jogo, e somente assim criar através dessa condição, o que pode não ser exatamente uma solução, mas parece ser uma possibilidade mais potente, onde não somos vítimas do jogo que escolhemos participar.

Portanto, não há nada de errado, e nem de certo, na eliminação de Negreanu, afinal, ainda bem que ele caiu, pois sem isso o jogo já teria suas cartas marcadas, já teríamos um poker onde o jogar não vale de nada, num tribunal onde a sentença é sempre favorável aos que já estão estabelecidos. Se já está definido quem deve ganhar, não é necessário jogar. Só existe um participante com vaga garantida no November Nine, o poker. A queda de Negreanu nos faz lembrar, ou melhor, nos traz para a realidade imanente do jogo: o jogo.

 

Fonte: Full Contact Poker. Imagem: Retirada da fanpage de Daniel Negreanu no Facebook

O lobo de Las Vegas Strip

Em tempos de poker em Vegas, entre torneios e sessões de cash, há um chamado pungente, e por vezes torturante, em direção aos pequenos vícios. Mas também aos grandes, numa escalada. Você começa blefando num spot ruim contra o tiozão que vai pagar de qualquer jeito, é eliminado e engata no cash pra perder três cacifes numa paulada só. Quando percebe está em frente à roleta, já no terceiro uísque, com algumas verdes na mão querendo colocar tudo no preto. Taí o pecado, mas o que ele tem a ver com o apelido da cidade?

Las Vegas teve seu primeiro notável crescimento populacional quando liberou o jogo, em 1931, mesma data em que diminuiu de seis para três meses o tempo de residência para se obter o divórcio, escolhas pouco moralistas para os puritanos Estados Unidos do início do século passado. Antes disso, a Sin City era apenas um entreposto no meio do caminho entre Salt Lake City e Los Angeles. A cidade que tinha grandes chances de dar em nada, cresceu, mas pelo pecado. Pecado originário que permanece no imaginário da cidade, um convite aos vícios que faz lembrar o filme O Lobo de Wall Street, de Scorsese, diretor exímio em criar personagens que são empurrados para além de seus próprios limites. Em O Lobo, um corretor da bolsa de valores se lança numa empreitada que envolve muita grana, putaria, estelionato e variados entorpecentes. Com o desenrolar da história, que é baseada no livro de Jordan Belfort (o corretor da vida real), percebe-se que talvez o negócio em si não fosse tão importante quanto a possibilidade de viver ultrapassando limites, numa busca constante por alimentar os próprios impulsos, numa busca pelos excessos.

Pois bem, vamos para um paralelo: o problema, ou o “pecado” do jogo, não parece ser o jogo em si, mas o vício no jogo, como no dito popular: o tamanho da dose faz do remédio, veneno. Todos os anos em que piso em Vegas encontro um parceiro que errou na dose e torrou seu bankroll nos dois primeiros dias, não é incomum, (e normalmente são os contadores de paradas, e haja parada…). A dinâmica do vício é aparente, o impulso pede uma redenção que só se encontra no jogo, igual quando você blefa o tiozão do primeiro parágrafo, igual quando está em frente a roleta, pois o jogador tomado pelo impulso deseja ganhar à todo custo, à força, em busca da recompensa que não é somente um punhado de dinheiro ou algumas fichas, mas a experiência do risco, aplacador e motivador do vício, que doma ou alimenta o lobo dentro de nós.

O lobo que há em cada jogador é o vício? O homem é o lobo do homem?

Não se sabe. A parte torturante do vício está em deixar-se ser movido apenas pelos impulsos. Como vencer o vício para poder vencer o jogo? Bem, há quem pregue, (a palavra pregar, nesse caso, encaixa como nenhuma outra) que é preciso uma conduta de higienizar corpo e comportamento, repelindo o lobo interno, fazendo parecer que ele não existe. Num primeiro momento, fingir que não há lobo, ou evitá-lo, parece ser um contraponto à ideia dominante de controlar os impulsos, mas isso parece ser dois lados da mesma ficha, o impulso contido e seu ressentimento podem se tornar um lobo, daqueles irascíveis.

Não há segredo e tampouco fórmula para virar o jogo, mas imagine-se em Vegas, caminhando em direção à roleta pra colocar tudo no preto. Seria interessante não fazer sua aposta pelo vício, pela redenção ou pelo sonho, mas tentar ao menos uma vez usar o lobo à nosso favor, entendendo-o, apostando nele. Só há pecado quando há regra.

 

 

Fonte: Pascal Barollier da France Presse para Folha em Las Vegas comemora 100 anos de existência. Imagem: Shutterstock (Fotomontagem Naccarato)

Um Main Event por quatro

Lucas Fauth iniciando o Main Event
Lucas Fauth iniciando o Main Event

Com Akkari levando uma bad das grandes, Mojave no pano e mais alguns brasucas, o dia 5 do evento principal da WSOP deste julho de 2015 está em sua reta final, caminhando para a formação dos nove que jogarão a mesa final de novembro.

Neste momento, pouco mais de 140 jogadores seguem no torneio, quatro deles representam os quatro cantos do poker brasileiro: Lucas Fauth do Rio Grande do Sul; o conhecido jogador paulista Felipe Mojave Ramos; Ramon Sorgatto, que mora no estado de Goiás mas é de Salvador; e o curitibano Yuri Dzivielevski, que fechou 2014 como líder do prestigiado ranking do Pocket Fives.

Evidentemente, a chance é para todos, mas se é possível falar de um destaque, o brasuca com mais fichas é o que tem menos idade, Lucas Fauth, 22, conhecido no poker pelo apelido “dimenor“, há pouco era underage para ficar em frente a uma mesa de poker em Las Vegas, mas aproveita a boa fase, a manha com o jogo e seu olhar sóbrio para o poker, para runnar bem, como pode-se conferir na entrevista para Victor Marques no final do dia 4. Dimenor é uma das maiores chances.

Felizmente, a cada ano temos motivos a mais para acompanhar a reta final do ME, e hoje temos quatro postulantes à um dos cobiçados assentos do torneio de poker mais falado do planeta.

 

Fonte: Wsop.com. Imagem: Retirada do perfil de Lucas Fauth no Facebook