O jogador certo na mesa errada

A Brazilian Series of Poker começou nesta quarta-feira 25/11 com salão lotado, expectativa de um grande festival de poker, e com cinco eventos programados para o primeiro dia de competição. Dois torneios chamaram mais a atenção, o #1 NLH 750K Garantidos, com um buy in mais acessível de R$460,00 e que promete um dos maiores fields de BSOP, e o #2 LAPT Grand Final, que vai definir o campeão da edição 8 do Latin American Poker Tour, com buy in salgado de R$10.000,00.

Acontece que num evento desse porte, mesmo para uma organização competente como a do BSOP, a chance de algo sair da linha aumenta, e é aqui que começa essa pequena história. O jogador H. (nome fictício), recreativo que frequenta algumas casas de poker na capital paulista foi para sua primeira investida na série brasileira, fez sua inscrição, caminhou até a mesa, entregou o comprovante para o dealer e começou sua batalha no feltro.

E ele caiu numa mesa daquelas, com o chileno Oscar Alache, líder do ranking do LAPT, Fernando Konishi, mesa-finalista da WSOP e o francês Sébastien “Seb86” Sabic, conhecido jogador de high stakes poker online que foi um dos protagonistas do documentário Nosebleed. Enfrentando esses profissionais, H. tinha tudo pra ser engolido, mas logo no começo da disputa, imprimindo seu estilo peculiar, chegou a subir bem seu stack, alcançando aproximadamente 60 mil fichas (o equivalente ao dobro do stack inicial), segundo relatos.

Crente que estava jogando o torneio que havia se inscrito, ele começou a notar que “os blinds estavam demorando muito”, e foi então que a ficha caiu. H. se inscreveu no evento #1, o de 750K garantidos, mas sentou na mesa do evento #2, o LAPT Grand Final. Segundo informações dadas pelo jogador, alguém da equipe de organização lhe indicou o setor errado, e posteriormente o dealer que estava pagando o jogo na mesa conferiu seu cartão de assento e entregou as fichas, permitindo que ele jogasse.

Após avisar o floorman, o jogador foi transferido prontamente pela direção do torneio para o evento #1, com stack inicial, e não se sabe o que foi feito com as fichas que ele havia conquistado no evento #2. Perdemos a chance de ter o campeão certo no torneio errado.

Roxo é a cor mais quente do poker

Há no nordeste do Brasil uma expressão peculiar para designar alguém destemido, valente, corajoso. “Ter aquilo roxo“ é uma forma de enfatizar a bravura de alguém. De certa forma, o roxo sempre está ligado a alguma intensidade. Quando um torcedor é fanático pelo time, dizemos que é um torcedor roxo, e o rail que apoiou Renata, devidamente paramentado de perucas da mesma cor, passou o recado, e vimos tantos outros invadindo as mídias sociais com a cabeleira pintada em sinal de apoio.

A conquista de Renata Teixeira no LAPT chileno de Viña del Mar, em absoluto, é apenas uma conquista feminina. Impossível esquecer que era uma mulher disputando, mas talvez como poucas vezes, isso não importou. Não era uma batalha entre nações ou de gênero, era a afirmação de uma jornada de estudos de quem ralou muito, como se pode conferir no artigo certeiro de Leonardo Bueno em seu blog.

O LAPT do Chile teve boas histórias, como o suporte do marido de Renata, Felipe de Paulo, que voou o mais rápido que pôde para acompanhar a FT. E o que dizer do dilema dos Quezada, um filho que eliminou o pai deixando lágrimas. Casos como esses nos permitem uma metáfora: Num torneio latino americano, onde amigos, família, emoção e apoio não têm limites muitos marcados, e se misturam pela vontade, a intensidade, ou seja, o roxo, é a cor mais quente. O lado emotivo não atrapalha o racional, só ajuda.

Renata tem aquilo roxo, o cabelo, mas ela mostrou que é roxa em coragem de se aplicar, em ter um propósito. Seu segundo lugar é uma vitória, a vitória da dedicação.

 

 

Imagem: Shutterstock (editada)

A ilimitada falta de coerência das reentradas ilimitadas

Seria utopia pensar que a Brazilian Series of Poker não sucumbiria à ganância do seu maior patrocinador e à influência maligna do LAPT. Introduzir reentradas ilimitadas no evento principal da BSOP é um equívoco que pode trazer prejuízos irreparáveis para imagem do pôquer no Brasil. A palavra ilimitada, nesse caso, significa sem controle, sem responsabilidade, sem lucidez, sem coerência, sem igualdade de direitos, sem respeito às próprias raízes e, consequentemente, sem a aceitação da sociedade. É lamentável que a usura de alguns coloque em risco um árduo trabalho que, durante anos, foi feito para provar que o pôquer pode ser um jogo saudável, igualitário e responsável.

Os fracos argumentos, usados por alguns para defender as reentradas ilimitadas, são inconsistentes e parciais. Dizer que as reentradas enlouquecidas são para agradar os jogadores que moram longe e os ditos jogadores profissionais, é uma clara tentativa de mascarar o verdadeiro intuito dessas mudanças. Se assim for, façam, então, um torneio exclusivo para os lunáticos.

De quebra, coloquem máquinas caça-níqueis, roletas, jogo de dados e cuspe à distância para ocupá-los durante os intervalos. Definitivamente, não se pode tomar medidas que favoreçam os mais afortunados em detrimento da maioria com menos recursos. Querem realmente agradar a maioria dos jogadores? Então se esforcem para diminuir as exorbitantes alíquotas de impostos cobradas, coloquem cadeiras confortáveis nos eventos, lutem para que tenhamos alimentos de qualidade com preços aceitáveis.

O lucro com as reentradas ilimitadas pode não compensar o preço de uma insastifação geral.

 

Imagem: Dzianis/Shutterstock