Independência ou sorte!

Independência ou Morte, frase creditada a Dom Pedro, tem muito pouco a ver com poker. Claro, o título se trata de uma brincadeira, uma tentativa de fazer a ligação entre o jogo e um dos símbolos da Independência do Brasil. O Sete de Setembro curiosamente completará dois séculos dentro de sete anos, data que hoje tem mais cara de feriado do que o significado histórico que carrega.

Mas, significados históricos têm interpretações. Segundo Leandro Narloch, autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, a Independência brazuca não foi um jogo de cartas marcadas, nem tampouco um ato de heroísmo libertador, mas um blefe. A contragosto, D. Pedro proclamou independência por pressão dos súditos brasileiros, sem guerra, e sem a maior parte da sociedade dar bola. A bela pintura de Pedro Américo “O Grito do Ipiranga”, com o príncipe português de espada erguida, me parece outro blefe, a figura forjada do herói no cavalo.

Como vimos, fatos históricos são, historicamente, não necessariamente fatos, por vezes apenas blefes, daqueles descarados e com poucas chances de passar. Mas no poker, blefes também são fatos, e como estamos falando de história e fatos, aí vai uma parada, com 7, em setembro, espadas e reis:

Há poucos dias, no clube de poker Owls, cravado no bairro histórico do Ipiranga e próximo do córrego de mesmo nome, mais um torneio daqueles de buy in acessível à maioria, reinaugurando o espaço que já estava apinhado de jogadores. No pano, um sete de espadas no flop forma um middle pair que encontra odds para o call, e vemos o turn em check/check. O river dobra a high card do bordo, e puxamos um bom pote depois de um call de Rei high do vilão. É, se de um lado se pode jogar com qualquer tipo de lixo razoável, o contra-ataque é fazer o mesmo. Num torneio de blinds rápidos, o importante é se mexer, jogar mais poker e menos baralho.

Sabendo disso, o vilão tratou de se mexer, fazendo observações em cada jogada, como se estivesse avisando para toda a mesa, o padrão de jogo percebido. Outro bom contra-ataque, afinal, especulação é poker também, e tal como a história, um ponto de vista.

Na tentativa desejável de ser inexplorável nas mesas, e depois de alguns pitacos do vilão, era preciso mudar de estratégia, jogar mais baralho e menos poker. A escolha foi ruim, deixamos de lado a independência, e começamos a jogar “dependência e sorte”, ou seja, depende-se primeiramente de cartas, e quando as pilhas vão abaixo, só resta a sorte, que nem sempre se apresenta. Assim, uma fatiada nos levou à eliminação, e o grito do Ipiranga dos feltros foi um all in na mão seguinte. Mas a fortuna, não a boa sorte, mas a sina, triunfou. O jeito é curtir o feriado.

 

Fonte: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Editora LeYa) – Leandro Narloch. Imagem: O Grito do Ipiranga, pintura de 1888 – Pedro Américo (domínio público)

Numa mesa de poker, a virtude que lhe falta

Ele diz “a vala“ para o valete, board é bordo, trinca é trio, par é duplinha. Quem é de fora não entende, quem é de dentro compreende. Tiozão é a puta que o pariu, seu merda, diz sempre sorrindo no final, e emenda, aqui é ficha. A maioria o estima, mas nem todos.

Numa dessas, numa jogada que ninguém entendeu, dando call com king high, o garoto piranha logo solta falinha pra desmerecer, mas ele nem dá bola. O garoto insiste, ele finge que explica: tô jogando a psicologia que você não entende, aqui é ficha, repete. Do outro lado o resmungão, cara técnico, que memoriza o range de cada um e reclama do baralho. Solta sem paciência: como o senhor pôde dar esse call? Não tem lógica, não tem motivo. A resposta vem rápido: o que seria do poker sem fichas? Tô no river enquanto você tá pensando no flop.

O resmungão sabe, usa ”senhor” só pra parecer polido, polidez é a mais rasa virtude, até um idiota consegue. Ele continua: a longo prazo, o senhor está falido! Não paga nem a birita no clube. O velho retruca: e quem se paga aqui? Você vive disso ou pra isso? E solta outra risada.

Quem vive disso sabe, não faz diferença. Na FT o velho acha um flip, boa leitura, mas desnecessário naquela altura, e acaba eliminado. Vaga o assento e dá boa noite, mas a cordialidade, mesmo travestida de polidez, aquela mais baixa virtude, ninguém usa, só os que o estimam, mas aí nem é polidez. O garoto fala: vai tarde! O resmungão confirma sua teoria: olhaí, tá vendo! Quando o velho deixa o feltro, não há mais com o que os preocupar, o jogo quase que é menos importante do que se afirmar. Mas o velho mata a mesa quando prefere ensinar virtudes do que condenar vícios. Ao menos ele está em paz com o seu.

Imagem: Shutterstock (editada)