A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

Poker gourmet, ou melhor, poker fetiche

Fala-se de poker de muitas maneiras, na conversa entre amigos, na mídia em geral e na especializada, entre quem vive do jogo e os que não sabem exatamente do que se trata, alguns com certa reserva, alguns assombrados pelos jogos de azar, enfim, cada um fala de um poker, e o entende à sua maneira, por vezes, até repetindo o que ouvem. Tantas são as formas de ver, que pudera, o formato ao final, acaba sendo mais importante do que o conteúdo nos dias de hoje. Não à toa, se temos ultimamente algo tão consagrado no mercado é a gourmetização de qualquer produto, e porque não, de uma ideia ou conceito. O brigadeiro de padaria dobra de tamanho e é vendido por cinco vezes o seu valor no shopping center, o cachorro-quente do final da balada se torna um food truck, e não tão distante, o já naturalizado selfie frente ao espelho da academia não é uma versão melhorada de si mesmo?

Se algo denominado gourmet é melhor, deixo para o seu gosto decidir, afinal a questão talvez não seja o produto em si, pois os novos brigadeiros parecem ser mesmo melhores, mas e o tal formato?

Quem não se lembra dos comerciais do PokerStars, muito bem produzidos e carregados de jogos de imagens repletas de conceitos e com uma trilha sonora matadora, abusando de conhecidos jogadores de poker, que outrora anunciavam we are poker! Dois ou três anos depois, o maior site de poker prefere Nadal e Ronaldo como garotos-propaganda, os jogos de azar virão com força nas plataformas online, e o slogan já carece ser reformulado… We are entertainment. E Ronaldo é melhor que Negreanu pra isso, impossível não perceber quem é mais conhecido, quem vai atrair mais gente pro gamble. Não é pra você, grinder, que eles estão falando, esqueça esse papo de team pro, eles já dispensaram a maioria, na nova gourmetização do poker o foco é atrair praticantes recreativos, que vão oscilar entre um sit and go e uma rodada de blackjack.

O gourmet não me parece um incremento no produto ou serviço, ainda que também o seja, mas exatamente um formato que faça com que você perceba esse produto melhor, ou que lhe chame mais atenção, um apelo de embalagem.

Agora que já temos uma nova, e cíclica, versão melhorada do poker, podemos seguir para o segundo ponto, o fetichismo. Dan Bilzerian, enquanto pateticamente não arremessa outra peladona telhado abaixo, é o fetiche que todo o poker pode produzir: belas garotas nuas, armas, iates, carrões e grana, muita grana, tudo aparentemente conquistado com o joguinho. Grana essa que pode tirá-lo da prisão e colocá-lo num jatinho particular. Uma matéria no site Terra fala da hispano-belga Gaëlle García Díaz, modelo e jogadora de poker, que afirma que joga alguns torneios com roupas sensuais afim de não ser eliminada pelos adversários. Segundo a reportagem, Gaëlle é “linda, ousada, tatuada e rica”. Fetiche puro.

Que baita moralismo chato, não? Não, não é isso ainda, não se trata de uma questão de certo e errado, já vamos chegar lá. Do outro lado temos todo um mercado, afirmando e reafirmando seu novo formato de poker, uma atividade esportiva, um esporte da mente. Um esforço pra tirar a pecha de jogo de azar, pra afastar de vez o tio viciado que perdeu a fazenda, e onde se pode ser um atleta dos feltros, e subir ao pódio segurando a bandeira. Nesse aparente paradoxo, vagas para o BSOP poderão ser conquistadas na roleta do PS? Contudo, o paradoxo é só aparente, tudo parece ser a mesma coisa, nivelada pelo formato.

Nada tão redutor quanto simplificar toda a complexidade do poker à um formato. Nada tão igualmente sedutor. Exatamente o que há de irresistível no formato, nos deixou com poucos recursos para refletir sobre o jogo. É como uma mão perdida antes de seu início, onde você segura par de ases, e sabe que aquilo é bom, mas não sabe o que fazer até o river.

 

Fontes: Terra e Canal do PokerStars no YouTube. Imagem: wavebreakmedia / Shutterstock (editada)

Uma viagem sem volta

Os novos donos do site PokerStars literalmente chutaram o pau da barraca, abrindo as portas do inferno para quem quiser entrar. Brevemente quando você acessar o site para jogar pôquer, encontrará várias arapucas disfarçadas de entretenimento que certamente levarão milhares de pessoas ao vício e a consequente bancarrota. Sinto repúdio só de pensar que, no lobby do site cujo slogan é “Nós somos poker”, encontraremos agora convites para jogar roleta, bingo, vinte-e-um e vários outros jogos reconhecidamente nocivos. O até então respeitado site PokerStars, que sempre levantou a bandeira do pôquer habilidade, intelectual e saudável… Pasmem! Agora, tenta de forma sórdida e gananciosa, induzir seus fiéis clientes apaixonados por pôquer a praticar jogos de azar.

Ao optarem por esse caminho, os novos proprietários demonstram claramente que não se importam, e muito menos reconhecem, o enorme esforço que os organizadores vêm fazendo ao longo dos anos para provar para a sociedade que o jogo de pôquer pode ser saudável. Essa lamentável contaminação que será implantada pelo site será tão maligna quanto, por exemplo, a de se colocar nas prateleiras de um supermercado pacotes de biscoitos ao lado de saquinhos de cocaína para vender.

A questão é, quem terá coragem de bater de frente com o poderoso PokerStars? Quantos pegarão o microfone para criticar esse absurdo? A comunidade do pôquer vai se calar? Vai se omitir? Ou terá a cara de pau de fazer campanha em prol desses abomináveis jogos? Não se pode mais ficar em cima do muro, esse é o momento para que os formadores de opinião se manifestem de forma responsável e imparcial.

Penso que, se os responsáveis pelo pôquer incentivarem essa aproximação contagiosa, estarão dando um tiro no próprio pé. Na tentativa de defender o site, alguns poderiam dizer que o pôquer sempre foi jogado em cassinos, e que sempre dividiu espaço com jogos de azar e nem por isso foi contaminado. Pura demagogia… Um dos motivos que interferem na não aceitação por parte da sociedade de que o pôquer é um jogo saudável é justamente a sua proximidade com os temidos jogos de azar que, de uma maneira ou outra, invariavelmente acabam atraindo alguns mais vulneráveis.

E também não me venham com argumentos do tipo: “o pôquer vai continuar no site e ninguém será obrigado a jogar outros jogos”. Os senhores bem sabem que, na prática, não é bem assim que funciona. Bom, o recado está dado. Cabe a você decidir o que é melhor para sua vida. O PokerStars já decidiu o que é melhor para o bolso dele e, de quebra, deixou evidente que não se importa com o seu. Abraços!

 

Imagem: Shutterstock (editada)

O poker no Brasil pode ser considerado jogo de azar para ter sua atividade regulamentada?

O senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, apresentou projeto de lei que prevê a regulamentação dos jogos de azar em todo o território nacional. O projeto, com a sigla PLS 186/2014, pode ser consultado na íntegra aqui, e propõe legalizar o que funciona na clandestinidade, estabelecer requisitos para quem for explorar o jogo de azar, incluindo regularidade fiscal, além de promover novos empregos e desenvolvimento regional através do turismo.

O texto trata especificamente os seguintes jogos de azar: jogo do bicho, jogos eletrônicos, vídeo-loteria e vídeo-bingo, bingo, jogos de cassinos em resorts, apostas esportivas online, bingo online e cassino online. Contudo, o poker é citado no PLS 186/2014 quando o texto se refere a quantidade de brasileiros que jogam poker online, um volume estimado de 2 milhões de praticantes.

A questão interessante é que sob essa afirmativa, o poker é categorizado como jogo de aposta online, e portanto carece de regulamentação. Evidente que não há regulamentação para o poker online sendo ou não jogo de azar, mas esta parece ser uma oportunidade, embora o esforço de toda a comunidade brasileira de poker nos últimos anos seja a de desvincular o poker dos jogos de azar.

Vale a pena? É este o caminho? O poker vai de fato se beneficiar com isso? Muitos dos grinders online são avessos e defendem a bandeira do “deixa como está”, ou temem por um mercado fechado. Mas o que parece inevitável ultimamente é a necessidade de regulamentação, como vem acontecendo nos mercados da Europa e Estados Unidos. Ou seja, cedo ou tarde, essa necessidade também vai aparecer por aqui.

Se você é a favor ou contra o PLS 186/2014, pode opinar pelo portal e-Cidadania do Senado Federal clicando aqui. Para acompanhar a tramitação do projeto, que ainda precisa passar em diversos comitês, clique aqui.

 

Fonte: Reportagem do MaisEV e site do Senado Federal. Imagem: xtock / Shutterstock