A bolha estourou para Fedor Holz

Um dos sentidos da palavra aposentar é abrigar-se, alojar-se. Contudo, em seu entendimento mais comum está relacionada ao ato de suspender suas atividades de trabalho. Enfim, aposentar é encerrar a carreira, mas o que o jovem vencedor Fedor Holz parece propor com sua saída é a primeira ideia, ou seja, sua retirada é a opção de abrigar-se da rotina de jogador profissional, podendo assim jogar apenas as 400 horas anuais de poker que lhe agradam, conforme afirmou em entrevistas. De certo modo, abrigando-se, ele abriga em si outro sentido dentre infinitos possíveis.

Embora somente o tempo vá dizer, não se parece com uma aposentadoria de fato. Em entrevista ao Pokernews, Holz considera o poker uma atividade individualista e deseja fazer algo de mais útil para as pessoas. O alemão de 22 anos declara gostar do poker, mas não vê na atividade algo que deseja fazer para o resto da vida, e quer se retirar para empreender, se considerando agora um businessman. Ele explica melhor sua escolha no início do Life Podcast de Joey Ingram.

A retirada de Holz se tornou um grande assunto nas mídias a exemplo do que já ocorreu com outros jovens campeões do poker como Eastgate e Heinz. Sua declaração abriu espaço para alguns vereditos que vão desde o já conhecido “parou no auge” até certo descontentamento por sua decisão prematura, afinal ele poderia alcançar muito mais, correr atrás de recordes e braceletes e assim representar mais e melhor o poker.

Entre a ideia de “quase afronta” e de “merecimento”, o que estrutura esses discursos fica num espaço previsto de entendimento, preso a um eixo onde só é permitido se posicionar desde que se jogue o jogo, ou melhor, onde o jogo é o balizador de qualquer pensamento. Ele deve continuar porque é isso que todos buscam no poker (é quase uma afronta a aposentadoria), ou deve parar porque é válido e a grana o permite (atingiu seus objetivos no poker e é merecedor dessa recompensa).

Um desafio interessante seria o de ficar distante o suficiente da questão para perceber essa estrutura, e assim tentar escapar dessa dicotomia. Olhando de longe percebemos mais coisas, e a qualidade da escolha ganharia um critério próprio e não externo, não é a grana nem o sonho que condicionariam a decisão de Holz, não é o merecimento e nem a busca que pautariam os comentários. É como quando a bolha do torneio importante estoura, onde alguns ficam felizes por estar na grana enquanto outros apenas pensam na vitória.

A bolha estourou para Fedor Holz, e ele pode se distanciar (ou abrigar-se) para assim perceber melhor, ou pode fazer parte de outro eixo estrutural, o da catequese do empreendedorismo, que pode ou não entender o poker como “útil”.

Talvez Holz tenha passado os últimos anos de poker fazendo o que poucos fazem, para agora fazer o que poucos entendem. A próxima bolha dirá.

 

Fontes: Blog Sergio Prado na ESPN, Pokertube e Pokernews. Imagem: Fedor Holz durante a final da Copa do Mundo de Futebol, retirada de sua conta no twitter (@CrownUpGuy)

Solverde Poker Season 2015

Neste ano de 2015, depois de fase conturbada, resolvi visitar a Europa pela primeira vez em 41 anos de vida. E aliado à minha vontade de viajar e sair da rotina, tentei montar um calendário com algum torneio de poker para jogar, pela primeira vez, um torneio internacional de alto nível, embora eu já tenha jogado alguns torneios em Vegas, os pequenos e acelerados regulares dos cassinos de lá.

Bom, a princípio, eu iria passar a maior parte da minha viagem em Vilamoura, região do Algarve e durante as minhas pesquisas encontrei o PokerStars Solverde Poker Season. Nessa grade regular de torneios em Portugal haveria um, com um bom valor de buy in e uma estrutura bacana bem próximo de onde eu estaria. Resolvi as minhas datas da viagem para estar livre nos dias da etapa Classic, no Cassino Algarve, na Praia da Rocha (€110 + uma recompra). O PokerStars Solverde Poker Season é o mais antigo circuito de torneios live em Portugal. São 12 etapas com um Main Event de €750, etapas regulares de €250, as novas etapas Classic de buy in €110 (da qual participei de uma), e ainda quatro Special Events de €300.

Consegui as informações básicas no site pokernews.pt – depois, enviei um email para o Bloco da Barra (Bruno), que me respondeu prontamente. Muito atencioso, me passou todos os detalhes de como seria a estrutura, horários, como me inscrever e tal. Fiz um depósito na conta e minha inscrição via site do Solverde. Uma dica, pagar a partir do Brasil foi importante para não perder a inscrição, mas o torneio não atingiu o cap de 220 participantes. Muitas pessoas se inscreveram na hora que o cassino abriu, acredito que se você não tem certeza se vai participar, possa ter tranquilidade para inscrever-se na hora mesmo. Mas é bom consultar o Bruno dependendo da etapa que você quer participar, que pode ser mais concorrida.

Mas vamos ao jogo. Sentei à mesa e comecei a bater papo, saber de onde eram, essas coisas. Começamos com 25 – 50, um stack de 20.000 fichas e blinds de 30 minutos (bem confortável, deep, suficiente para uma boa jogabilidade). Da esquerda para a direita, um rapaz de uns 19 anos, na canhota dele um tiozão falastrão, seguido um português sério, um outro rapaz que parecia o Johnny Bravo. Ao lado dele, um cara alto, que conhecia todos os dealers, parecia bem regular na série, ao lado dele um estereotipado jogador (com camiseta do PS, fone grande, óculos escuros, bonezinho 888.. Todo paramentado), e mais uns que pouco conversei. De cara, já deu pra perceber que o field era formado de pessoas experientes na sua maioria e com tempo no pano. Não parecia em nada com os turistas de Vegas, nem com os conhecidos baralhões dos clubes brasileiros… Era poker sério e justo. Não vi exageros à mesa, mas claro, tinha sua cota justa de jogadores bem ruins.

Fichas do Solverde Poker Season
Fichas do Solverde Poker Season

Já na terceira mão, fiz uma enorme cagada. Eu com A9 off, abri 2,5BBs de MP e levei um call do BB e do regular ao lado dele. Flop, Axx. A mesa chega em gap pra mim, que faço tudo… 10.050!! Shit… dei um missclick ao vivo. As fichas de 100 e 10.000 eram respectivamente, pretas e roxas escuras. Naquela ansiedade inicial, com 400 no pote, minha intenção era apostar os 150 e acabei apostando 201 big blinds… O jogador no BB me alertou, mas não havia mais o que fazer. As fichas estavam na mesa, e torci para que não tivessem acertado o flop maior que o meu. O grandão chorou para largar o Ás dele me contando que também tinha o A, mas com kicker menor.

Bom, depois dessa besteira, passei a prestar mais atenção e fui subindo o stack. Perdi uma mão para o “paramentado” e assisti o tiozão perder um monte de fichas pra todo mundo (incluindo pra mim) quando ele buscava flushes e brocas. Dei bons reraises em horas certas, larguei quando tinha que largar, vi o Johnny “extra tight” Bravo cair com AK e ganhei uma boa mão do cara serião à minha frente. Ele abriu um raise em MP, eu completei do small e o rapaz à minha esquerda, no BB, foldou. Ele teve que fazer um rebuy depois que eu tomei tudo dele com uma trinca de 4 no flop com Ás pareado. Em seguida, depois de uma discussão do “super jogador paramentado” com o tiozão perturbando todo mundo, sacamos ele da mesa (todos nós tomamos as fichas e o rebuy dele ainda) e assim, entramos no intervalo bem na troca de mesas. Fui para a outra mesa, depositei minhas fichas no meu lugar e saí para fumar com um stack bem sadio. Nessa hora, conversei bastante com o cara que perdeu tudo pra mim, ele elogiou a jogada e defendeu a dele (par de Ás).

Assim que me sentei, observei por um tempo os jogadores e as jogadas. Perdi uma órbita fazendo isso, incluindo largar um AJ do small. Havia um português na minha direita que veio short da mesa anterior, ao lado direito dele um beef (Inglês), uma mulher toda desajeitada com o cabelo desgrenhado, mas que falava inglês impecável e também conhecia os dealers, à minha esquerda mais um portuga short da outra mesa, à esquerda dele um outro muito chato. Se achando o Phill Hellmuth, enchia a paciência de todo mundo. Ganhei o respeito dele na primeira mão que me envolvi, do BB, com 47 de espadas. Após um raiser inicial, que recebeu quatro calls, incluindo o beef, eu completei do botão. Meu sonho cresceu quando todos deram check no flop com um 4, e meu 7 bater no turn. O beef veio roubar a parada com uma over e eu só paguei. River blank, check dos dois… Eu abro as cartas e ele dá muck resmungando.

Bom, após essa mão, ele me perseguiu por um tempo, até que eu perdi pra ele umas fichas… Ok, ainda rondando os 25 BBs, me sentindo tranquilo de estar jogando um bom poker, chegamos na última mão antes do intervalo do jantar. Eu e a desgrenhada. Eu no BB e ela no botão. Chega em gap, ela com 17BBs aproximadamente, chumba all in. Com os antes e o small, tinha praticamente, 20BBs na mesa. Eu abro as cartas e vejo – AJoff. Ô decisão difícil… Após pensar por um minuto, só vi uma coisa na cabeça dela… Intervalo, gap, vou chumbar com overs e ver todos foldarem e eu vou pro intervalo melhor que antes. Ok, call… Ela apresenta JQ e eu levo a parada sem surpresa, eliminando a moça que fica tentando justificar a jogada.

Na volta do jantar, o torneio deu umas rasteiras em mim e perdi um flip com par de Ronaldos. Aí, berei os 15BBs por um bom tempo, até mudar de mesa e começar a pensar se realmente eu queria passar para o segundo dia com um stack curto. Abro do cut off com JJ depois da mesa rodar em gap. Isso representava nesse momento uma aposta de 5.000 fichas nos blinds 1.000 – 2.000, e tomo uma volta de 15.000 do botão. A mesa gira em fold e eu penso por muito, muito tempo. Foldo aberto o JJ e o portuga elogia, conversa e mostra o QQ. Coisas do poker.

Pra encerrar a minha participação, abri com J2s pra tentar roubar blinds do botão e o mesmo português dá call, assim como o BB. No flop, fico flush draw e chumbo tudo, tomando instacall do portuga com QK também de espadas e, sem surpresas, ele me derruba com K high. Em muitas mãos aprendi coisas novas, visualizei erros passados, vi acertos e erros dos jogadores, mas sempre com muita atenção à real experiência, e isso tudo, valeu por cada minuto das nove horas que passei no cassino jogando esse torneio. Foi realmente muito bom.

Quem quiser se aventurar num torneio dessa série, recomendo muito. E aproveitem a boa disposição da rapaziada do pokernews.pt que são muito atenciosos. Encontrei o Bruno por lá, fazendo a cobertura do torneio e conseguimos bater um papo. Parabéns cara!

 

Fotos: Thiago Fabrette, Evento Classic do Solverde Poker Open

Harmonia

Quatro empenhados turcos correndo atrás de Denilson, na semi-final da Copa de 2002. O que isso tem a ver com poker? Aparentemente nada, mas vejamos. Denilson é tricky, astuto, insiste, acha espaço onde não há, muda a dinâmica do jogo. Se jogasse poker poderia aplicar uma overbet no flop só pra confundir. Se vai tomar call ou não, se é lucrativo ou não, parece fazer pouca diferença, a ideia é desnortear e gerar desconfiança. É como mostrar o blefe. Mas, e pra aguentar o tranco depois?

Denilson caçado em campo na Copa 2002
Denilson caçado em campo na Copa 2002

Alguns afirmam que mostrar o blefe nunca é vantajoso, é o tipo de massagem no ego que em contraponto faz metade da mesa ir atrás de você. Ficam querendo sua cabeça, ainda mais quando se joga solto. Deve ter sido a sensação de Denilson quando o quarteto em vermelho se aproximou.

De fato, é uma baita arranhada na imagem, que gera o desafio de lidar não só com a imagem construída, mas também com a imaginada pelo adversário. É possível tirar proveito disso? Sim e não, afinal controlar tantos aspectos parece ser pouco provável, quanto mais controlar a reação dos outros. Contudo parece haver um benefício, de alto risco, mas ainda sim uma vantagem: conduzir o adversário ao erro. Quebrar a harmonia da mesa pensando uma a seu favor.

Harmonia, o equilíbrio entre todas as partes do todo, deve ser não muito tangível no poker, e talvez, só exista alguma pra si, quando se constrói equilíbrio consigo mesmo. Ou seja, jogar apesar da harmonia.

 

Imagem: Vidal Cavalcante/Placar-Uol

Simulação

Abre o pote no começo da mesa depois de permanecer órbitas sem participar na brincadeira. É torneio, sabe como é, dá pra esperar, a espera vira falta de ação, e a ação se torna necessária. Até que não dá mais pra esperar, trazer o torneio de volta ou voltar amanhã? Mas as cartas não ajudam, e você decide se ajudar, esquece posição, stack, cálculo M e os caralhos, mete ficha, manda dois BBs e um cabelo, pra mostrar força, pra tirar a zica. É claro, leva 3-bet, 4-bet, e vê o cara no small blind dar flat call. Azedou.

Tira foto da pilha, posta, tira mais uma, afinal a primeira não ficou boa, rearranja a pilha, estica o braço atrapalhando o parceiro pra tirar aquele autorretrato “sou foda no feltro”. Tem que fazer bico ou cara de mal, tem que simular desenvoltura, simular. Agora é entrar nas mídias sociais, mandar um texto de efeito, pedir ajuda remota, colocar um joinha e qualquer frase positiva “poker é”.

Simulação é a base do poker, tudo o que é impulso deve ser contido e convertido em lucro. Deve? Mas o espertalhão abriu mais uma vez depois de cinco seguidas e é hora de dar um basta, a honra arranhada que nos leva a colocar o sujeito em seu devido lugar. Há lugar devido? Pra ajudar, outro patife dá fold, mas decide avisar pra toda mesa que é a porra da sexta vez seguida que o cara abre o pote. Dizemos obrigado pra não dizer cala a boca.

Sobrou algum tipo de prazer, o alívio passageiro que parece infinito na duração, o blefe quando passa. Dizem, é preciso contar uma história daquelas que façam sentido. Que sentido? O sentido perdido entre agir porque é preciso, sendo que sempre é preciso. Entre criar uma imagem ou perceber a dos outros. Entre jogar honra ou fichas. Talvez o sentido seja singular, e passe por tudo isso de modo único em cada jogador.

Não é mais apenas um jogo, perde-se como sempre, a paciência, uma foto, a técnica. Ou é só um jogo alçado ao ultrarrealismo, mas quem sabe um dia haja energia suficiente para imaginar o real.

 

Imagem: rangizzz/Shutterstock.com

O Home Game e suas armadilhas

Quem nunca participou de um joguinho de pôquer na casa de um amigo? Aquele poquerzinho leve, despretensioso, baratinho, jogado sem grandes estratégias, acompanhado daquela cervejinha gelada. Bom, né? Nesse clima descontraído a falinha rola solta e a zoação é obrigatória. Só que, infelizmente pela influência maligna de alguns praticantes, a maioria desses divertimentos caseiros vêm perdendo o sentido de confraternização e de entretenimento. Tem sempre um ou outro que não entende o verdadeiro espírito da coisa, ou seja, não percebe que nessas ocasiões o que menos importa é vencer. Esse tipo de peste contamina o ambiente, faz com que a gentileza, até então costumeira, dê lugar ao desaforo. Alguns seres mais elevados e sensitivos conseguem até enxergar a presença de uma nuvem negra sobrevoando a mesa. E, é nessa hora, sem que ninguém perceba, aproveitando-se do ambiente pesado que lhe é propício, que o Diabo emerge das profundezas do inferno, senta-se ao lado do dealer e literalmente incendeia o jogo. Os inocentes seguradores de cartas, sem perceber, influenciados pela presença maligna do chifrudo, deixam de ser amigos para virarem jogadores obcecados em ganhar dinheiro. E, no final da noite, o que era para ser divertido e barato termina cansativo e caro. A maioria dos participantes saem com a sensação de que nada valeu a pena.

Para não colocar em risco o orçamento financeiro de ninguém e nem precisar contratar uma rezadeira para afastar possíveis obsessores, procure ser seletivo na escolha dos convidados. Quando estiver jogando, tenha atenção redobrada naquele “amigo” que sempre quer aumentar os valores do cacife, que sempre tenta postergar o término do jogo, aquele cara que quando perde quer pagar com cheque pré-datado e quando ganha exige receber imediatamente em espécie. Lembrou de alguém? É esse mesmo, fuja dele. Qualquer semelhança com o capeta, nesse caso, não é mera coincidência.

Feche as portas do seu Home Game para os pobres de espírito. Convenhamos que lugar de fazer fortuna jogando pôquer não é na varanda ninguém.

 

Imagem: Demon of gambling, publicada em Magasin Pittoresque, Paris, 1845 (crédito: Marzolino/Shutterstock)

Numa mesa de poker, a virtude que lhe falta

Ele diz “a vala“ para o valete, board é bordo, trinca é trio, par é duplinha. Quem é de fora não entende, quem é de dentro compreende. Tiozão é a puta que o pariu, seu merda, diz sempre sorrindo no final, e emenda, aqui é ficha. A maioria o estima, mas nem todos.

Numa dessas, numa jogada que ninguém entendeu, dando call com king high, o garoto piranha logo solta falinha pra desmerecer, mas ele nem dá bola. O garoto insiste, ele finge que explica: tô jogando a psicologia que você não entende, aqui é ficha, repete. Do outro lado o resmungão, cara técnico, que memoriza o range de cada um e reclama do baralho. Solta sem paciência: como o senhor pôde dar esse call? Não tem lógica, não tem motivo. A resposta vem rápido: o que seria do poker sem fichas? Tô no river enquanto você tá pensando no flop.

O resmungão sabe, usa ”senhor” só pra parecer polido, polidez é a mais rasa virtude, até um idiota consegue. Ele continua: a longo prazo, o senhor está falido! Não paga nem a birita no clube. O velho retruca: e quem se paga aqui? Você vive disso ou pra isso? E solta outra risada.

Quem vive disso sabe, não faz diferença. Na FT o velho acha um flip, boa leitura, mas desnecessário naquela altura, e acaba eliminado. Vaga o assento e dá boa noite, mas a cordialidade, mesmo travestida de polidez, aquela mais baixa virtude, ninguém usa, só os que o estimam, mas aí nem é polidez. O garoto fala: vai tarde! O resmungão confirma sua teoria: olhaí, tá vendo! Quando o velho deixa o feltro, não há mais com o que os preocupar, o jogo quase que é menos importante do que se afirmar. Mas o velho mata a mesa quando prefere ensinar virtudes do que condenar vícios. Ao menos ele está em paz com o seu.

Imagem: Shutterstock (editada)

Quando o poker é algo mais numa terça-feira

O poker é assim. Um amigo te fala que abriu uma conta no PS e puxou uma graninha, você se lembra que há pouco tempo, ao final do não distante século passado, se jogava o tal fechado, e resolve se meter a besta de abrir uma conta pra jogar o hold’em online.

Mas parece que não basta, e faz um home game que atravessa as madrugadas com meia-dúzia de alucinados, que depois de um mês vira uma mesa cheia que mal cabe num cômodo de casa, e então você procura um bar ou restaurante para sediar toda a bagunça. E isso se torna uma tradição de terça-feira, nem tão sisuda e nem tão largada, um projeto não projetado, espontâneo em sua construção, edificado pela congregação.

Se tem algo sagrado, é a terça-feira de poker, um torneio batizado pelo dia, mesmo nunca acabando antes da quarta-feira, até que se saiba quem é o Ás do baralho, quem é o Ás das Terças. É difícil convencer, mas nem é esse o caso, que tá cheio de melhor torneio do mundo, mas o mais maneiro fica na Mooca, ali ao lado. E não é surpreendente que em muitos clubes seja assim.

Sem perceber, você passou todas as terças-feiras dos últimos seis anos encontrando os mesmos caras, conhecendo tantos outros, e reafirmando toda a sorte de privilégios que um simples jogo pode te trazer, onde há aprendizado que somente surge da vontade, que gera uma vida social nova, e entretenimento que do contrário de te alienar, te transforma. E o mais importante, seus inimigos na mesa se tornam amigos de longa data.

Só o tempo diz o que se constrói sem perceber, pela prática do encontro, carregado pela satisfação do jogo. O que era viciado encontrou a medida que o separa do péssimo hábito, e pode agora usar o poker não mais como escape. O deslocado encontra na diferença entre seus pares, compreensão pra não seguir mais calado, e pelo poker é acolhido e estimulado. Aquele que sem medida se entregava aos impulsos, ganha ao menos, um olhar mais apurado.

O que traz o homem ao jogo? O que o motiva a decifra-lo? E por que o jogo decifra o homem?

Não se sabe, se intui, mas quando dessa convivência se ganha algo mais, quando essa convivência nos faz atravessar o mundo em nome do jogo, seja em Vegas ou na velha Mooca, e faz com que cada um de nós prefira comemorar um aniversário ou uma conquista pessoal justamente no feltro surrado das terças, é ali que se tem algo mais, onde tudo faz sentido. É disso que tenho falado, seja no poker mais profissional ou no menos experiente, algo intangível está lá, algo que não se mensura, mas faz valer a pena.

 

Foto: Última terça-feira de poker no Ás das Terças, o torneio mais maneiro do mundo.

Todas as vezes, à mesa, o nada faz sentido

Dentro de uma perspectiva de que é preciso ganhar, a mutação é a ordem que rege o jogo, faz-se o que é imaginável para tanto. O ganhar é o sentido do jogo, o que lhe confere significado. O jogo, algo sem função num primeiro momento, é como se fosse o desprendimento da vida real, ainda que se possa questionar o real, mas ele, o jogo, é uma vazão carregada de significado.

Mas tantos são os sentimentos envoltos no ato de jogar, há tanto para se considerar e aproveitar, que o jogo por si, em sua essência, é motivo único e sagrado de engajamento, condição escolhida e vivenciada pelo jogador, quase que como uma espécie de redenção, um porto seguro não seguro.

Só se encontra o jogo enquanto se está nele, a sé dos degenerados, o escape e o motivo do escape, a opção voluntária de quem prefere o lúdico à todo o restante.

No poker, este espaço condizente condiz, afinal, é jogo.