Gratuito no lançamento, o livro Floating in Miami é mais um capítulo despretensioso da baralhada que se iniciou em Las Vegas

Um jogador de poker aproveita o tempo vago numa viagem a trabalho para cidade de Miami, e se embrenhar por um circuito de poker criado pelo acaso. Esse é o mote da jornada do autor Marco Naccarato por uma das mais latinas cidades dos Estados Unidos. Entre as inúmeras rodovias e vias expressas percorridas, num total de cinco cassinos visitados, o novo livro segue a fórmula já conhecida de Floating in Vegas, com muitos relatos de mãos, humor, análises e um retrato de como o jogo se desenrola nas poker rooms de Miami.

Capa do ebook Floating in Miami
Capa de Floating in Miami

Quem espera uma abordagem técnica ao ler Floating in Miami não vai encontrar exatamente isso, afinal há inúmeras obras no mercado que abordam o jogo pelo seu lado metodológico e matemático, mas o que torna o livro diferente é a narrativa, repleta da percepção peculiar do autor, que mostra um ambiente interessante para quem gosta do joguinho. É o que se nota a partir da capa, a imagem de uma rodovia de Miami ao entardecer, que não tem relação direta com o poker, e foge do óbvio por conta disso. De ponta-a-ponta, o mérito do texto é mostrar o que está no entorno do jogo, e evidentemente o que passa pela cabeça de um jogador.

Floating in Miami, somente em formato ebook, está sendo lançado nesta segunda-feira, 23 de fevereiro, no site da Amazon, e pode ser baixado gratuitamente até o dia 27. Depois desse período o preço do livro volta aos R$8,35, podendo variar conforme a cotação do dólar, pois o valor é fixado em US$3,00. Importante dizer que não é preciso ter um kindle para baixar e ler, pois você também encontra no site da Amazon o aplicativo de leitura que funciona em Windows, Apple e Android, o que permite ler em qualquer smartphone, tablet ou computador.

Junto deste lançamento, o autor disponibilizou a segunda edição do livro anterior, Floating in Vegas, também em formato digital no site da Amazon, pelo preço de R$13,35. Também é possível baixar uma amostra gratuita, que contém apenas as primeiras páginas do ebook, e traz um tutorial de poker para os iniciantes, acessível sem necessidade de comprar o livro todo. A compra de Floating in Vegas, em livro físico, ainda pode ser efetuada na loja online do portal MaisEV e na Pokerholic.

 

Imagem: Divulgação

Floating in Vegas, um retrato descontraído do small stakes poker da Sin City

Não basta apenas dizer raise para falar um bom inglês nas cardrooms de Las Vegas, é preciso equilibrar emoção e lógica para vencer na cidade mundial do jogo. O autor Marco Naccarato disputou, ao longo de um ano e meio, 52 torneios dos mais variados em suas três viagens, e com uma linguagem despojada, relata a dinâmica do poker na Sin City. Floating in Vegas pode parecer um livro técnico, e de fato contém alguns debates e interpretações sobre o hold’em e as diversas mãos disputadas, além de trazer um tutorial para os iniciantes no jogo, mas seu forte não está exatamente aí. A autenticidade da narrativa e sua estrutura, contribuem para o livro ser diferente da maioria das obras no mercado, e mostra que poker não é apenas flop, turn e river, mas tudo o que está em sua volta.

fivA primeira parte do livro é bastante descritiva, vinculando os acontecimentos à narrativa das mãos jogadas e dos tipos de jogadores que habitam o small stakes da cidade. Já na segunda parte, Naccarato incrementa o texto com algumas análises sobre o jogo e as poker rooms, além de relatar o caminho até conseguir o buy in para jogar um evento da World Series of Poker. O autor encerra o livro narrando a Vegas do entretenimento, uma cidade que não é só do jogo e que está sempre pronta para receber turistas e oferecer uma grande variedade de atrações, e talvez, todo esse conjunto torne o livro uma espécie de guia para os futuros viajantes.

“Floating in Vegas – Um relato sobre os torneios de poker de buy in baixo dos cassinos de Las Vegas”, foi lançado em setembro de 2012, e pode ser comprado na Loja MaisEV pelo preço de R$19,90 ou na versão ebook por R$13,32 na loja online da Amazon. Confira abaixo um dos capítulos na íntegra:

Floating in Vegas – Capítulo 13

A única coisa que consegui fazer bem na noite de sexta-feira foi dormir bastante, acordando às dez e apreciando a paisagem da janela. Desta vez pegamos um quarto na torre sul do Bally’s e nossa vista era animal, no último andar, de frente para a torre Eiffel e a piscina do Paris e com vista para o southbound da Strip. Dava até para ver metade do lago artificial do Bellagio e assistir seu espetáculo de dança das águas*, nada mal. Ao cair da noite, aquilo fica um emaranhado de luzes, é de encher os olhos. O que ainda incomodava – tal qual no ano anterior – era o lacre nas enormes janelas de vidro, estrategicamente fechadas num quarto de fumantes. Impossível não sair defumado lá de dentro. Até tentamos arrancar os parafusos dos batentes, sem sucesso. Eles devem trancar as janelas para que nenhum maluco adicto perdedor se atreva a voar pelas finestra.

Depois de um banho, desci até a Poker Room do hotel e peguei a fila para a inscrição. Muita gente havia chegado, como é de costume nos finais de semana, e o field do regular das onze bateu 35 jogadores. Não havia mudanças no espaço, mas a estrutura estava bem melhor, apesar do aumento do buy in para 75 dólares. O stack inicial aumentou para cinco mil fichas e o primeiro nível de blinds subiu para 50/100. Como as dobras são de vinte minutos, posso dizer que há um bom espaço de manobra em comparação aos torneios do dia anterior e, se você mostrar a que veio nos primeiros dois níveis, a chance de se colocar bem na mesa final é grande. Havia melhores jogadores, mas havia muito pato também, então o jeito foi atacar. Dominei a mesa na primeira hora e consegui dar muitos nocautes, até a mesa ser quebrada. Na nova configuração, adversários mais difíceis, mas eu tinha ficha para contra-atacar e, por sorte, não tomei nenhuma trombada no caminho para FT. Quando a bolha se aproximou, estávamos 5-handed e shovei tudo com AQoff. Encontrei AA no big e levei uma boa fatiada, que me deixou prestes a ser o bubble-boy. Sem outra opção, empurrei dois all ins seguidos, que me fizeram recuperar parte do stack. Na mão seguinte, assisti o quarto e quinto colocados serem eliminados duma só vez e agora eu estava frente a um prêmio razoável. Fui para a batalha contra um americano local e um portuga.

Naquele momento eu estava eufórico. Já tinha garantido 327 dólares de prêmio, o que me deixava com um lucro de praticamente metade do valor do buy in da World Series, mas o objetivo era abocanhar o primeiro prêmio, uma pequena bolada de 800 pratas! Comecei então a reavaliar e classificar os dois adversários; o americano certamente era o mais casca, tinha a manha do jogo e estava bem concentrado. Curiosamente, ele simpatizou comigo e a cada boa jogada que eu fazia, ele elogiava, porém não deixava de betar forte quando entrava numa mão contra mim. Ele era o chipleader e certamente seria o adversário da final. O portuga era do tipo turista agressivo, que também betava forte, mas sem muita técnica, e blefava sem contar a história direito. Logo mirei o Camões e empurrei os blinds dele por algumas mãos sem a intervenção do americano, o que me deu um fôlego até a primeira dobrada. Estourei all in com um par e ele pagou com Ás fraco. Pronto, agora o portuga e eu estávamos praticamente iguais em fichas e foi na mão seguinte que a cagada aconteceu. Com blinds altos, paguei o all in dele segurando AK naipado e ele mostrou KJoff. Dois valetes no flop acabaram com a festa. Levei somente os 327 dólares.

Ainda fiquei um tempo assistindo o portuga levar uma sova do ianque. Ele nem ao menos durou quatro mãos. Tentou passar mais um blefe sem sucesso, levando uma fatiada monstro. Ele jogava o típico jogo do fraco é forte: quando estava com boas cartas limpava, cartas ruins, shovava. Assim ficou previsível demais e acabou sendo eliminado pelo americano, com uma trinca na orelha. Ao final da contenda, fui ao Imperial tentar o torneio das três da tarde. Mais 40 pratas num field relativamente fraco, com 35 caras. Fiquei chipleader na minha mesa, mas tomei duas boas fatiadas e, no quinto nível de blinds (300/600), empurrei os 6k restantes com AKoff e tomei call de um par de putas. Caímos entre os 14.

Ficou bem claro que não havia nos fields jogadores profissionais, mas, regularmente, pintavam dois ou três caras que tinham um pouco mais de experiência no baralho. Aos poucos eu estava conseguindo traçar o perfil dos jogadores médios desses torneios. Basicamente, os jogadores com mais idade jogam assim: um terço quase sempre busca as brocas e os draws de straight e de flush após o flop e, independente do valor apostado no flop e no turn, vão dando call até o river sem pensar muito. Típico do jogador que pensa somente nas próprias cartas, a ponto de ser possível betar com nada na mão e ser pago em todas as streets até o fold deles no river. Esses velhotes também não largam a mão se acertarem top pair, mesmo que o kicker seja um patético 3 e, quando acertam dois pares, apostam furiosamente, ficando muito fácil largar. Eles também vão limpar qualquer par, mesmo ases e reis, então, se um deles mostrar força no flop, também fica fácil foldar. Os dois terços restantes praticamente se inscrevem no torneio para assistir a batalha e ficam pacientemente esperando boas mãos, vendo seu stack sangrar. Jogando assim, eles não recebem muita ação da mesa, ou melhor, só recebem ação de jogadores mal intencionados, como eu. O que se pode fazer é pagar com cartas marginais e espantá-los com uma c-bet em flops que não contenham ases ou reis. Na maioria das vezes isso funciona bem, caso contrário, se você preferir não se arriscar, basta dar fold, porque esses coroas não entendem muito da dinâmica do torneio – principalmente da relação de stack e blinds – e dependem muito de cartas para ir longe, o que acaba deixando-os sem opções quando as dobras sobem demais. Eles são sempre engolidos pela estrutura e se, eventualmente, um deles pegar boas cartas no caminho e conseguir chegar a uma final, é só jogar bem agressivo que eles não aguentam o tranco. No geral, eles já ficam felizes quando alcançam a faixa de premiação. Os coroas de Vegas que jogam bem obtêm seus resultados porque jogam de forma agressiva e não hesitam em botar tudo no pano para espantar os adversários.

A maioria dos jogadores americanos é turista de cidades próximas ou de outros Estados e não estão em Vegas pelo jogo em si. São caras entre 25 e 40 anos que estão lá para se divertir e que encaram o poker da mesma forma que jogam nas mesas de blackjack, craps ou roleta, inscrevendo-se nos torneios pela adrenalina e pela emoção de encontrar a sorte numa mão ou outra. Eles têm uma noção básica do jogo, ficam nervosos à mesa, dão muitos tells e também não largam top pair, mesmo que haja uma sequência óbvia no bordo. Quando estão em algum tipo de draw no flop, pagam rapidamente a sua aposta, mas desitem frente a segunda barreira** no turn. O curioso é que todos conhecem bem as regras – o poker é algo muito familiar para eles, tanto quanto o futebol é muito próximo de nós –, mas é como dizer que eles sabem jogar xadrez, quando na verdade só sabem mexer as peças sem estratégia alguma. Eles são os fishes que pagam a conta. Apenas uma parte dos americanos, os jogadores locais, joga bem, e se você trombar um desses na mesa, terá que gastar alguns neurônios porque eles têm um acervo variado de jogadas e estão lá exclusivamente pela grana.

Principalmente nessa época do ano, os torneios quase sempre têm um viciadão todo paramentado, boné e blusão do WSOP, uma réplica de bracelete no braço e todos os maneirismos de um jogador profissional, o legítimo wannabe. O fato é que a maior parte deles não passa de um reclamão azarado fazendo o papel de sabichão, sem perceber as próprias falhas no jeito de jogar. Eles são comentaristas e vão discutir quase todas as mãos em que estão envolvidos, soltando repetidamente um “eu sabia***” quando perdem suas mãos. Curiosamente, esses caras são fortíssimos pára-raios de baralhada, verdadeiros colecionadores de bad beats, o que deixa tudo muito tragicômico. Desconfie deles, pois não são fortes oponentes. Eles querem mais o poker do que o poker os quer. Há também maníacos em Vegas, mas eles são ligeiramente diferentes dos de São Paulo. Na Sin City, e nesse tipo de torneio de buy in baixo, eles são em menor número e, para pegar um deles, basta dar check/call até o river, ou então esperar um bom spot para tirá-los da mesa – diferente de Sampa, onde funciona muito mais deixá-los desconfortáveis com um reraise. Mulheres, no geral, jogam de forma tight e dão poucos tells, mas o nível de habilidade varia muito.

Quanto à legião estrangeira, jogadores escandinavos são mais frios e calculistas, dão poucos tells, e invariavelmente são jogadores tight e meticulosos, com padrões de apostas e moves muito bem definidos. Basta ficar alerta e entender o modo como eles jogam. Turistas italianos são agressivos e baralhões, como se fossem mais espertos ou malandros que os outros. O restante dos europeus em geral não joga bem, são os típicos turistas de férias em Vegas, exceto os britânicos, que são um pouco acima da média.

Claro que tudo isso é um pouco de estereótipo e existem alguns desvios na análise, mas há muita coisa que procede em se tratando dos turistas médios que se arriscam nos feltros da cidade. O ponto principal que não deve sair de sua atenção é mostrar a que veio na mesa. Ser agressivo faz diferença e vai te dar uma vantagem nos torneios. Outra coisa que funciona muito bem é aguçar a percepção para os tells; os turistas praticamente entregam suas mãos com o olhar e a postura. Para todos os tipos há exceções e se você encontrar um verdadeiro bom jogador, pode esquecer toda essa classificação, porque aí não interessa se ele é local, turista ou coroa. Você vai ter que se virar para ganhar dele.

A noite de sábado foi longa e cheia de birita. Hora de descansar para encarar o domingo em Vegas.

* As fontes do Bellagio ficam bem em frente ao cassino, no cruzamento da Strip com a Flamingo Road, e o balé das águas rola a cada meia hora
** Segunda barreira ou second barrel é a aposta continuada no turn. Às vezes, mesmo uma third barrel funciona no river
*** Se sabia, porque pagou?