A grande jogada de Molly

O assunto de A Grande Jogada (Molly’s Game, 2017) não é o poker, embora ele seja a metáfora mais adequada para elucidar a trama. O filme é baseado no livro de Molly Bloom, a garota que organizou por uma década um secreto e exclusivo cash game high stakes que contava com celebridades, ricaços e a máfia russa. Bem enredado, o filme retrata a vida de Molly intercalando seus momentos no passado com a trama do tempo presente.

O elo apresentado entre passado e presente nos dá duas possibilidades de analisar o filme. Primeiramente, podemos destacar a fase poker de Molly, que vai desde seu début no mundo da jogatina, até o jogo insano de três milhões de dólares numa única mão em Nova Iorque. Esta fase pode ser dividida em três partes, distintas entre si pelo tratamento visual e pela forma com a qual Molly lida com o jogo. Basicamente, seu envolvimento é refletido visualmente no ambiente, seguindo o esquema de um semáforo. Explico a analogia, quanto maior e mais perigosa é a sua relação com o poker, mais as cenas vão ganhando a predominância de uma cor, que vai do verde no início, ao vermelho no final.

No Cobra Lounge, estreia de Molly no mundo do poker, o ambiente é pintado com luzes verdes, e feltro e fichas são igualmente da mesma cor, ou seja, a passagem está livre para a princesa do poker e tudo o que ela faz é usar de sua inteligência para desenvolver o jogo a ponto de conseguir tomá-lo pra si. Na sequência, quando a protagonista organiza seu próprio jogo, se tornando a banca, o sinal de alerta surge, e em Los Angeles as cores predominantes passam a ser os tons dourados e amarelados, detalhes no feltro e fichas também acompanham a mudança. Quando o jogo de Molly chega em Nova Iorque, o vermelho toma conta, os valores aumentam, o rake começa a ser retirado, o vício em drogas atinge seu ponto alto e os frequentadores não são apenas ricaços em busca de diversão, há criminosos notórios entre eles, e finalmente o feltro indica: perigo!

Já, a parte da trama que trata do tempo presente é substancialmente mais mental, e se utiliza das cenas de infância e adolescência de Molly pra nos entregar o que há de mais determinante no filme.

Molly representa a obstinação recorrente nos atletas de esportes de alto nível, que os leva à privações, cobranças e treinos exaustivos, forças para além de suas vontades ou participantes delas. De certa forma, a rigidez do pai treinador-psiquiatra e o meio esportivo moldam seu caráter competitivo, mas fica claro que não é isso que move a protagonista e os demais personagens no filme. A terapia de três perguntas feita à beira da pista de patinação pelo seu pai, pode carecer de refinamento, mas entrega em poucos minutos que tipo de valores Molly carrega consigo.

É na vida emocional (e não em sua demasiadamente apresentada inteligência) que está o motor da protagonista e dos demais personagens, que colocam no feltro seus desejos, valores e frustrações, afinal, se a vida concreta coloca inúmeras barreiras para lidar com esses temas, o jogo como elemento descolado dessa concretude é o local propício para que esses aspectos surjam, pois ao jogar nos colocamos “em jogo”, uma espécie de descontrole por escolha própria.

A lista de dileções favorecidas ou freadas é longa no filme, vamos para algumas. O Jogador X não gosta tanto de poker quanto de arruinar a vida dos outros, e reproduz seu comportamento habitual ao tirar Molly do jogo. Harlan Eustice, o jogador bancado por X, busca controlar o jogo e a vida, a ponto de organizar toda a festa para esposa minuciosamente, característica de alguém que encontra no controle enorme satisfação, e é exatamente quando as coisas não vão conforme o esperado que o tilt o assalta em mais de um milhão de dólares. O advogado de Molly escolhe defendê-la porque quer para a filha o modelo feminino que ela mesma já carrega do pai.

Contudo, há tempos não parece mais ser possível Hollywood contar qualquer história que escape da batida estrutura narrativa do herói que passa por percalços e se salva ao final. É esse o traço previsível que deixa Molly’s Game no lugar comum, embora tenhamos um filme bem apresentado. GG ao diretor.

 

Imagem: Martijn Smeets/Shutterstock.com (editada)

Crítica do documentário Nosebleed, e o esforço conjunto dos usuários do MaisEV


Ative as legendas clicando no ícone na barra do vídeo

Nosebleed é o documentário do diretor Victor Saumont, lançado independente e com recursos próprios, que retrata dois jovens jogadores franceses de cash game high stakes movidos pelo desejo de conquistar um bracelete na World Series of Poker. Alex Luneau e Sebastien Sabic são os protagonistas apresentados logo no início do filme num apartamento em Londres, jogando milhares de dólares no poker online, ao que parece, da cozinha de casa.

noseLuneau e Sabic olham para o poker de forma bastante realista, falam do início de suas carreiras e o que os levou para os mixed games, e mostram que mesmo nos limites mais altos, sempre há espaço para contar uma parada, reclamar da jogada dos parceiros, e comemorar um pote. Ambos são, apesar de terem 27 anos, veteranos do universo restrito dos high stakes, e perder e ganhar quantias milionárias é corriqueiro. Como consequência disso a atmosfera que envolve os franceses é a de que nada os afeta de fato, o que pode aparentemente mostrá-los como dois jovens metidos, mas ao que parece, não é esse o ponto. Para usar um termo em francês, a indiferença deles em relação a tudo que os circunda confere aos dois um ar blasé, talvez por isso o pouco ânimo e a expressão de tédio. Nesse sentido, a vida de ambos parece ser uma espera por um fish na mesa, e seja na parede de escalada, no treino de boxe, na balada ou nos inúmeros e caros jantares, o tempo fora do poker é espera. As vigílias que eles se referem na época em que Hansen e Isildur doavam uma boa grana nas mesas de cash ilustram bem esse ponto.

É por isso que a busca por um bracelete se torna a busca pelo que falta, algo pelo que batalhar, o que trará um prestígio ainda não conquistado, um sentido. Mas ao longo do documentário os hábeis jogadores de cash se deparam com uma barreira ao disputar os eventos da WSOP, mas esta barreira não é falta de capacidade, é a confirmação da natureza única dos torneios, uma maratona que por vezes pune um poker bem jogado. Contudo, as palavras de Luneau são contundentes, há alguma coisa de especial, um adrenalina quando se alcança a mesa final. Por isso, o ponto forte do filme está em evidenciar uma realidade pouco mostrada pela mídia do poker, em Nosebleed, o real sobrepõe as visões idealizadas da propaganda do jogo, e é desta forma que o documentário retrata com êxito os bastidores e tenta explorar a essência do poker.

Há passagens interessantes no documentário, como por exemplo quando Luneau cita o jogador Davidi Kitai, que segundo ele construiu um estilo de jogo todo baseado em tells, de forma a fazer um jogo que beira o perfeito. Ou quando Luneau conversa com o compatriota Bruno Fitoussi, e fala que foi bom o período que passou na Tailândia, mas que depois de um tempo é bom voltar para vida real, ainda que sua vida real possa parecer irreal para a grande maioria dos jogadores. Noutro momento, Luneau está reunido na recepção do hotel com alguns amigos, incluindo Sabic, e faz uma brincadeira entre as odds de morrer contra as odds de vencer o ME da WSOP. E a melhor passagem de Sabic está na parte final do filme, quando durante uma caminhada, fala de como vê o jogo e do apelo de mercado que os torneios têm.

De outro lado, o escárnio direcionado principalmente à Gus Hansen chega a ser demasiado, não apenas nos momentos em que o Great Dane é citado com deboche repetidamente pelos franceses, mas exatamente na hora em que, durante a WSOP de 2014, Hansen não recebe atenção ao se aproximar de Luneau, que está disputando um evento da série. A imagem nesse momento diz mais que as palavras, e a filmagem segue com Gus indo de um lado para o outro, e depois sentando numa mesa vazia. Na tomada seguinte, uma rápida aparição do dinamarquês, pra confirmar que na cadeia alimentar do poker, alguém precisa perder, e por vezes, muita grana. Curioso notar também que Hansen, apesar de ser o fish preferido da dupla francesa, ganhou um bracelete da WSOPE, justamente o que Luneau e Sabic almejam.

Aparte disso, é importante lembrar que a versão do documentário traduzida para o português foi um esforço conjunto dos frequentadores do fórum MaisEV, que fizeram uma vaquinha para custear o trabalho de tradução executado por Airton_Neto e luigibr. Posteriormente, em comum acordo, todos optaram por liberar o vídeo gratuitamente, e não mantê-lo restrito apenas para quem contribuiu. A versão legendada em português está criteriosa e bem feita, principalmente porque os tradutores entendem do assunto e optaram por usar termos comuns que usamos aqui no Brasil para falar do jogo, sem forçar traduções literais. O vídeo tem sido compartilhado e publicado em alguns sites, mas poucos se atentam em dar o crédito. O Pokerdoc mencionou, e fica aqui também registrado.

hansen1euroE para quem gostou da iniciativa de Victor Saumont e de seu documentário, doações podem ser feitas para o diretor nesta página. E saiba você que até Gus Hansen doou, apenas um euro, talvez seja a forma que ele encontrou de devolver o escárnio, depois de ser o coadjuvante mais falado do filme.

 

 

Fontes: Pokerdoc, Fórum TwoPlusTwo, Fórum MaisEV, WSOP.com. Créditos: Nosebleed de Victor Saumont no YouTube, legendas em português por Airton_Neto e luigibr do MaisEV.

Filmes e poker, desde O Poderoso Chefão até Runner Runner

Mafiosos não jogam poker em O Poderoso Chefão, eles compram cassinos. A caixa de 100 fichas de poker personalizadas que vinha junto do box de DVDs da trilogia é uma ligação aparente, talvez apenas pela livre associação do jogo com o crime, talvez apenas herança estética.

Mesmo que Godfather tenha algo a nos dizer sobre o jogo, é melhor começarmos pelos dias atuais. Depois de assistir a superficial trama de Runner Runner, com uma garota sem sal, um mocinho apático e nem tão mocinho, e um vilão sem substância cheirando a bad beat, a impressão é que a tentativa de falar de poker, ou mesmo de desenvolver a narrativa, não passou da superfície. O filme é pífio. Seja pela construção medíocre dos personagens, qualidade dos diálogos e seu final previsível. O filme trata o poker apenas como cenário, usando essencialmente a estética ligada ao jogo, aliás é apenas estética, no sentido mais superficial que o termo possa carregar.

Não há muito o que dizer, resta apenas uma insinuação em mistificar o poker online como algo que pode (e vai) ser fraudado. No início da estória, a citação de Meyer Lansky é direta, ou seja, mesmo um mafioso do seu naipe (que financiou a empreitada criminosa em Las Vegas nos anos 1930), se preocupava em deixar o jogo honesto em seu cassino, sem dados catrupiados ou roleta viciada, sem usar subterfúgios para obter ainda mais vantagem além da própria vantagem que a casa já possui no jogo. Falar de poker atacando o poker online parece contraditório, mas só parece. Sheldon Adelson, dono do cassino Venetian, que curiosamente levantou uma bandeira contra o jogo online que o diga.

É como uma nostalgia pelo “crime romantizado” de um Don Corleone, que explorava prostituição e jogo, mas não sujava as mãos com as drogas, como se obedecesse uma moral há muito esquecida. A mesma situação apresentada na cena final de O Poderoso Chefão se repete. Michael Corleone é confrontado por sua esposa, que pergunta se ele já matou alguém, fato negado veementemente. No fundo ela não quer saber a verdade, mas se contenta com a resposta mentirosa por força da mesma conveniência que retira de suas costas o peso enorme de lidar com a situação de fato, afinal, se você disse, então acredito.

Esta suposta “conveniência” é a escolha de muitos que jogam poker. É similar a busca de Maverick por um golpe de sorte com seu Ás de espadas profético (o herói do filme Maverick, de 1994, é salvo por um out na última carta). É a inocência de quem espera pela sorte, de quem prefere culpar alguém pela derrapada, assim como fazemos quando perdemos um belo pote.

Talvez a falta de uma inocência proposital seja a chave do sucesso entre os jogadores do filme Cartas na Mesa (Rounders, de 1998), que mostra essas relações com a dureza de uma vida de grind, ainda que seja de uma forma idealizada. Mike McDermott faz o que precisa ser feito, e oscila entre jogadas -EV na vida, e +EV no poker. Ele perde a namorada, perde no jogo, perde o amigo, mas lida com a verdade encarando-a de frente.

Estar atento ao jogo é primordial, procurar decifrá-lo e entendê-lo, ainda mais. É sempre mais fácil culpar alguém, culpar a jogada e a sorte, e não lidar com a verdade dos fatos. No caso de Runner Runner, é mais fácil culpar a fraude.

Foto: Shutterstock (editada)

Mil dólares, hero-calls e filmes

Sua conta num mundo de faz de conta

 

O Planet Hollywood, em Las Vegas, começou a oferecer no ano de 2.012, um prêmio garantido de mil dólares para o campeão, nos seus quatro torneios diários de poker. Desconheço exatamente quando isso começou, mas suspeito que foi no meio do ano, para aproveitar o contingente de pessoas que vão jogar e assistir a WSOP e aqueles que vão curtir o verão tórrido que se aproxima na Sin City.

Uma boa estratégia para a casa, visto a quantidade de jogadores que se inscrevem e ajudam o prizepool a ultrapassar facilmente o valor garantido. Contudo, sob a ótica de alguns jogadores mais experientes, parece mais uma isca para atrair turistas (claro, a maioria é turista, mas me refiro aos jogadores ocasionais que estão de férias na cidade e vez ou outra trocam as mesas de roleta e blackjack pra tentar a sorte no poker), pois a estrutura de seis mil fichas e blinds de 20 minutos não agradaria a grande maioria deles. Mas, afinal, vale a pena?

Certamente para os turistas vale, e o field é repleto deles. Para os profissionais, definitivamente não, raramente você topa um deles no feltro, mas, alguns caras que têm uma noção razoável e conseguem jogar bem em estruturas mais rápidas aproveitam o edge, focam no prêmio e não ficam reclamando da curta pilha de fichas, afinal, uma boa chance de levantar um barão e arriscar um evento de mil dólares na Série Mundial.

Nunca tive um bom retrospecto nessa poker room, embora tenha sido a primeira sala que joguei em Vegas. Na minha última tentativa, em junho de 2.011, levei uma trinca na orelha bem no início. Uma tiazona limpa no UTG e eu acordo no BB com AQ, mando um raise depois de alguns limpers, e somente ela dá o call. O flop premiado ditou o meu destino, dois pares pra mim e trinca de cincos pra ela.

Eu já tinha notado que todos os dealers do Planet, que são rápidos e espertos, têm um crachá com seu nome preso a camisa, algo comum nos cassinos, e normalmente abaixo do nome, sua cidade natal (ou país). Peculiarmente, no Planet, abaixo do nome aparece seu filme favorito. Curioso perceber, especialmente nessa mão onde a tiazona me rapelou, que o filme escolhido por essa dealer era Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy, 1.989), quase um recado pra eu conduzir melhor minha dama pareada no flop… Um aviso cinematográfico, que tratei de deixar de lado enquanto dava call no all in e amargava a eliminação.

Bem, após um ano voltei lá, e depois de casar as 70 pratas pra jogar o torneio, entrei num chorrilho daqueles, mão após mão puxando tudo. Quando você entra num momento desses tudo faz mais sentido, a percepção fica mais apurada, a lógica por trás das jogadas fica clara e você ganha uma confiança tremenda. Aliás, confiança é algo pouco explorado pela literatura do poker, mas nesse caso, o excesso de confiança foi tão ou mais prejudicial do que a falta dele. E, alguns minutos depois de entrar nesse chorrilho, comecei a dar os piores hero-calls daquela temporada em Vegas. Três seguidos, e em todos os potes, independente de ter high card, bottom ou middle pair, fui vencido por um top pair que rasgou o river. O hero-call é um dos termos mais estranhos do poker, pois faz sentido quando o jogador acerta, mas o torna um bobalhão quando o vilão está a frente. No meu caso, inversamente, os três piores hero-calls foram precedidos por um hero-call genial, que me deu um pote monstro e uma confiança além do habitual, mas aquém da lógica, que me fez cegar de vez à mesa, desqualificando os adversários.

Atordoado e sem ação, fiquei aguardando um bom spot pra estourar tudo. Inerte por duas órbitas, assisti a um alemão, que foi movido para minha mesa, dobrar e ficar curto pelo menos por três vezes. Ele tomava aquela fatiada, encarava um flip, dobrava… Fatiada, flip, dobrada… E então recebi um AQ no meio da mesa, e como num flashback, olhei para o dealer, conferi o filme favorito dele, Duro de Matar (Die Hard, 1.988), e botei tudo no pano. A ação chega ao alemão que embora tivesse praticamente a mesma quantidade de fichas da minha pilha, personificava a frase “Arriscar nada é arriscar tudo”, e tomei um call de 33.

O desfecho? Dama na tampa do flop, trinca no river pra ele, duro, duro mesmo de matar. Faz sentido num mundo de faz de conta tal como é Hollywood e seu cassino. Só que não, joguei mal mesmo.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker.