Simulação

Abre o pote no começo da mesa depois de permanecer órbitas sem participar na brincadeira. É torneio, sabe como é, dá pra esperar, a espera vira falta de ação, e a ação se torna necessária. Até que não dá mais pra esperar, trazer o torneio de volta ou voltar amanhã? Mas as cartas não ajudam, e você decide se ajudar, esquece posição, stack, cálculo M e os caralhos, mete ficha, manda dois BBs e um cabelo, pra mostrar força, pra tirar a zica. É claro, leva 3-bet, 4-bet, e vê o cara no small blind dar flat call. Azedou.

Tira foto da pilha, posta, tira mais uma, afinal a primeira não ficou boa, rearranja a pilha, estica o braço atrapalhando o parceiro pra tirar aquele autorretrato “sou foda no feltro”. Tem que fazer bico ou cara de mal, tem que simular desenvoltura, simular. Agora é entrar nas mídias sociais, mandar um texto de efeito, pedir ajuda remota, colocar um joinha e qualquer frase positiva “poker é”.

Simulação é a base do poker, tudo o que é impulso deve ser contido e convertido em lucro. Deve? Mas o espertalhão abriu mais uma vez depois de cinco seguidas e é hora de dar um basta, a honra arranhada que nos leva a colocar o sujeito em seu devido lugar. Há lugar devido? Pra ajudar, outro patife dá fold, mas decide avisar pra toda mesa que é a porra da sexta vez seguida que o cara abre o pote. Dizemos obrigado pra não dizer cala a boca.

Sobrou algum tipo de prazer, o alívio passageiro que parece infinito na duração, o blefe quando passa. Dizem, é preciso contar uma história daquelas que façam sentido. Que sentido? O sentido perdido entre agir porque é preciso, sendo que sempre é preciso. Entre criar uma imagem ou perceber a dos outros. Entre jogar honra ou fichas. Talvez o sentido seja singular, e passe por tudo isso de modo único em cada jogador.

Não é mais apenas um jogo, perde-se como sempre, a paciência, uma foto, a técnica. Ou é só um jogo alçado ao ultrarrealismo, mas quem sabe um dia haja energia suficiente para imaginar o real.

 

Imagem: rangizzz/Shutterstock.com

Fish and chips

O dealer malaca senta à mesa mandando bronca, – Estou aqui para eliminar cada um de vocês, um por um, este é meu trabalho. E emenda com sarcasmo, – Hoje é meu segundo dia, se eu estiver cometendo algum erro, por favor, me avisem. O jogador cabaço da vez, aquele tipo que manja tudo de poker, menos de jogar, manda falinha logo depois de três mãos, dizendo que havia algo errado, pois não tinha recebido par de ases até então. O dealer olha pra ele com cara de bunda e respira fundo, – Pegue a senha, entre na fila!

Fish and chips, o peixe empanado com batata frita, é típico inglês, praticamente a pratada oficial do operariado britânico do meio do século XIX que tornou-se tradição, mas não é disso que estamos falando. Ou estamos? O senhor calvo fumador de cachimbo me encontra fora do cassino, no intervalo do torneio, aceno com a cabeça e ele vem em minha direção. Pra descontrair, elogio seu shove no turn, eu estava blefando descarado, metendo a segunda barreira quando ouvi o rouco check-raise do velhote com sotaque britânico. Larguei.

Nos fóruns de poker online, faz tempo, dizem que check-raise no turn é caixão, melhor largar com a certeza de quem está perdendo. No poker de carne e osso, ou fichas e tremedeira, no small stakes de Las Vegas, também faz sentido. Foldei para o velhote inglês de cachimbo, comedor de fish and chips, deixando quatro big blinds pra trás, pois estou jogando fish and chips (nesse caso, não a iguaria inglesa, mas o torneio típico da cidade do pecado).

Com quatro BBs ainda há o que fazer nessas mesas. Não, não se trata daquela superioridade técnica de profissional, nem de arrogância, afinal o poker ensina por duras penas que subestimar o adversário é atirar contra o próprio pé, é enroscar o anzol no dedo antes mesmo de colocar a isca. Se trata de entender a dinâmica desse tipo de torneio, com buy in baixo, blinds apertados, poucas fichas e muitos fishes.

O eixo do small stakes poker de Vegas vai do Bally’s até o Treasure Island, passando pelo Flamingo, Harrah’s e Mirage, todos no meio da Strip, a avenida principal de Vegas, com torneios em suas cardrooms das nove da manhã até meia-noite, onde pode-se engatar um atrás do outro, fazer um ou dois ITMs e depois verificar o lucro ao final do dia. Parece fácil, mas não é, quando o baralho atrapalha e você fica queimado com a sabichão da vez, pode passar alguns dias sem puxar nada, amargando o ferro. Sem falar que a figura do tiozão é quase uma instituição aqui, tem em todo torneio, e ele vai limpar damas, reis e ases e te sacar da mesa.

Pois bem, às vezes venta, e basta estar preparado para jogar a isca. Muitas mãos depois, com T8 naipado no BB, depois de cinco limpers, o flop se acomoda no feltro com três cartas de espadas, e, com um flush completo, peço mesa. Alguém sempre aposta, provavelmente o cara do Ás ou do Rei do mesmo naipe. Bingo, foi bet do velhote inglês e call do jogador cabaço, mandei o all in tomando dois calls, um AsKh e um KsTc buscavam mais uma carta de espadas, e ela veio, mas era o 9, a broca do straight flush. O dealer malaca, operário do baralho, já tinha entendido desde o flop, o que estava prestes a acontecer, deu um sorriso de canto, bateu o river e mandou falinha, – É como eu disse, meu trabalho é eliminar vocês, um por um. Foi mais uma cravada no fishes e fichas. Hoje, o fish não fui eu.

 

Foto: torneio na poker room do Harrah’s, em Las Vegas (Naccarato)

 

 

Poker marginal adjetivado

Filando as cartas, dama e lixo, diferentes naipes, posição ruim, fold forçado, duas da mattina, feltro gasto, baralho marcado, dealer uma dama cansada, ficha empilhada, sono deixado, café ao lado, cigarro acabado, sorte azarada, piada velha, falinha safada, nova rodada.

Olhando as cartas, dois e dez e mais nada, ao menos naipada, posição que nada, raise forçado, duas e dez, feltro arranhado no bet inesperado, bordo catrupiado, ficha espalhada, agora acordado, café derramado, mas falta cigarro, na boa jogada, pote puxado na blefada.

Mão começada, ás e rei de espada, na mente há boa jogada, já é madrugada, feltro marcado pela cinza jogada do cigarro filado, dealer trocado, ficha escapada, falinha arranhada, nem parece piada, mas a carta derrubada, é dama pareada, mata a jogada logo na entrada.

A cada rodada, a rotina do novo e a parceirada.

Promoção

Depois de anos ganhando do freguês nas mesas, você fica sabendo que hoje é o dia do aniversário dele. Pra deixá-lo mais contente, você decide perder um ou dois potes naquela noite, quantias razoáveis, onde você sabia que estava perdendo, mas preferiu devolver um pouco só pra passar a sensação ao parceiro de que você é falível, ou de que ele pode vencê-lo… é o jeito fácil de fazê-lo voltar a cada noite.

Afinal você ganhou muito dinheiro com ele, são noites e mais noites surrando o freguês, pois ele não estuda o jogo, não se dedica a ponto de transformar diversão em redenção. Quando ele joga bem, o que é raro, você tira pouco, mas mesmo assim ganha. Quando ele joga mal, você tira tudo, e quando ele joga pessimamente, você sai da mesa antes de ele tiltar de vez, pra garantir que volte. O metagame do metagame, com uma sutil diferença que só um dos lados percebe.

O problema disso tudo não é o julgamento moral ou o fato de se aproveitar da situação, o problema é a forma como se coloca isso. Tal qual aquela promoção onde o site de poker te dá uma grana se você fizer um depósito. Ele te devolve sua própria grana, mas comunica à todos que trata-se de uma promoção. Vale o que se diz, é o marketing da coisa, é o discurso que criou o marketing, nós somos marketing.

Portanto, se você trabalha muito, mas alguém te viu mijando na rua, você é só um mijão.

Faroeste do poker caboclo

Não tinha medo o tal João do Blefe Seco
Era o que todos diziam quando poker ele aprendeu
Deixou pra trás o cash game da fazenda
Só pra sentir no sangue a adrenalina que o jogo lhe deu
Quando criança só pensava em jogar poker
Ainda mais quando no truco seu pai tudo perdeu
Ganhava sempre no bairro onde morava
E na caxeta todo mundo com ele aprendeu

Ia pro bingo da igreja ganhar o dinheiro
Que as velinhas da tranca estavam a doar
Percebia todos os tells mais diferentes
Sentia que podia blefar em outro lugar
Ele queria sair para poder jogar
Os torneios que ele via na televisão
Juntou a banca para poder viajar
Sem cavalada, jogava na solidão

Comia todas as menininhas da cidade
E no strip poker já era professor
Que o jogo não era de azar era notório
Onde habilidade era o poder do blefador
Já entendia como o baralho funcionava
Discriminação com o poker e com o jogador
Ficou cansado de tentar achar um jogo
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

E lá chegando foi jogar um cashizinho
E encontrou um dealer com quem foi falar
E o dealer tinha uma entrada e ia perder a viagem
Mas João aceitou jogar
Dizia ele: “Estou indo pra Brasília
Neste país torneio melhor não há
Tô precisando trabalhar por esses dias
Eu fico aqui e você vai no meu lugar”

E João aceitou a cavalada
E no torneio entrou se achando o tal
Passou da bolha com facilidade
Jogando o fino caiu somente na mesa final
“Meu par de reis perdeu pra uma trinca,
Nesse ano eu começo a grindar”
Vinte telas no PS o dia inteiro
Ganhava dois mil por mês com sortinha

Na sexta-feira ia pro clube da cidade
Dobrar seu bankroll de grinder trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um baralhão que jogou com seu avô
Um peruano que jogava na Bolívia
E dominava o cash game de lá
Seu apelido era Broca e ele dizia
Que um clube de poker ele ia começar

E o Blefe Seco até a morte grindava
Mas o dinheiro não dava pra ele se sustentar
E se lembrou dos livros de poker
Que sempre diziam que a conta ia regular
Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que como Broca ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu blefe certo
E sem ser criticado, o clube foi inaugurar.

Logo logo as parceirada da cidade souberam da novidade:
“Tem baralho e ficha ai!”
E João do Blefe Seco ficou rico
E acabou com todos os clubes dali.
Fez amigos, só jogava com Ás forte
E no cash só queria baralhar
Mas de repente, sob uma má influência dos
catrupe da cidade, no feltro começou a roubar.

Já no primeiro roubo foi seu bankroll
que a parceirada levou de vez
Com persistência faço grana de novo
“Vocês vão ver, eu vou pegar vocês”

Agora o Blefe Seco tava falido
Queimado e banido dos sites de poker no geral
Não tinha grana só prática e malícia
Como estudante voltou a ler tutorial

Foi quando conheceu o Omahinha
E com muita prática ele se reergueu
Esse joguinho é minha vida
E dedicação o Blefe Seco prometeu
Ele dizia que poker iria estudar
E grinder ele voltou a ser
“Hold’em e Omaha pra sempre vou jogar
E grana com isso vou fazer”

O tempo passa e um dia vem na porta
Um investidor catrupiado com dinheiro na mão
E ele propõe uma cavalada indecorosa
E diz que espera uma resposta, vem pro meu time João

“Não marco baralho como marginal
Nem collusion com parceiro isso eu não faço não
E não protejo dono de time com estrela
Que fica atrás da tela com o cu na mão
E é melhor senhor sair da minha casa
Nunca brinque com a sorte de um baralhão”
Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
“Sua carreira acabou, meu irmão”

“Sua carreira acabou, meu irmão
Sua carreira acabou, meu irmão
Nenhum clube vai me aceitar mais não
Eu vou sofrer as consequências como um cão”

Não é que o Blefe Seco estava certo
Seu futuro era incerto e ele não foi mais jogar
Se embebedou e no meio da bebedeira
Descobriu que nenhum clube permitia ele entrar
Falou com Broca que queria um parceiro
E que mesmo sem dinheiro outro clube ia montar
Broca trazia baralho e fichas da Bolívia
E Blefe Seco montou o clube em Planaltina

Mas acontece que um tal de Zé Falinha,
Jogador regular, apareceu por lá
Ficou sabendo dos feltros de Blefe Seco
E decidiu que com João ele ia acabar
Mas Broca o ensinou a jogar com par de dois
E Blefe Seco já sabia apostar
E percebeu um tell depois
que Zé Falinha tentava blefar

Zé Falinha, trapaceiro sem-vergonha
Organizou o cash game e fez todo mundo pagar
Comprava os dealers inocentes
Fazia collusion e não parava de ganhar
E Blefe Seco há muito não ganhava
E com um instrutor começou a estudar
“Eu vou me embora, eu vou fazer um coach
Com mais um tempo eu volto a forrar”

Chegando em casa então ele se tocou
E seu bankroll perdeu pela segunda vez
Com o instrutor Zé Falinha se associou
E sua grana ele levou de vez

Blefe Seco era só ódio por dentro
E então o Zé Falinha pra um HU ele chamou
Amanhã às duas horas no clube Pokerlândia
Na mesa 14, é pra lá que eu vou
E você pode escolher a modalidade
Que eu acabo mesmo com você, seu fish amador
E pego também a grana daquele
Coach manipulado e sem valor

E o Blefe Seco não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do heads-up na TV
Dizendo stack, blinds e duração
No sábado então, às duas horas,
Todo o povo sem demora foi pro rail assistir
Um dealer que manipulava as cartas
Catrupiou o Blefe Seco e começou a sorrir

Sentindo o tamanho da trapaça
João olhou pro bordo e pra carta por vir
E pediu pra trocarem o dealer aproveitando
A gente da TV que filmava tudo ali
E Zé Falinha deu o tell que nem criança
E no river empurrou tudo em all-in
E João percebeu que estava na liderança
“Eu vou dar call, pois tenho um jogo aqui”

E o bordo tinha quatro cartas de copas
E então ele estava certo e se convenceu
Pois só tinha um simples par de dois
Que fez o flush que da trinca venceu

“Zé Falinha, eu sou jogador, coisa que você não é
E não troco o baralho no meio da mão
Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
Dá uma olhada no meu flush, seu baralhão”
E Blefe Seco com um par de dois
Puxou as fichas do donk roubador
O outro dealer se arrependeu depois
E declarou João o vencedor

E o povo falava que João do Blefe Seco
Era bom porque sabia vencer
E o high stakes da cidade
Não acreditou no heads-up que eles viram na TV
E João conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília jogar e vencer
Ele queria era falar pro Federal
Pra ajudar toda essa gente que só joga…

Poker…

Versão baseada na letra da música Faroeste Caboclo da banda Legião Urbana. Para ouvir a canção original, clique aqui. Foto: Shutterstock

O flush e o joão-de-barro

O paraíso da foto acima fica a 300 quilômetros de Fortaleza, mais ou menos umas cinco horas de jipe desde a capital do Ceará, por uma das paisagens mais secas que já pude presenciar, ainda que se encontre muita vegetação pelo caminho. Entre cajueiros e rios sem água marcados apenas pela terra, a pergunta inevitável ao guia foi — Por que está tão seco assim?

Pois bem, a cultura popular diz que andorinha voando baixo é sinal de chuva, e ontem mesmo, pude conferir a profecia se realizando, enquanto os primeiros pingos de chuva acertavam minha careca após algumas andorinhas terem sobrevoado a região.

Algo parecido com a resposta dada pelo guia, pelo menos em essência. Ele nos disse que embora as chuvas não tenham visitado com rigor aquela região do Ceará nos últimos quatro anos, os joões-de-barro já estão avisando que desta vez as chuvas virão com força naquela região. Ele explicou que estes pássaros estão construindo seus ninhos com as entradas mais fechadas que o usual, supostamente uma proteção para as chuvas nos próximos meses.

Andorinhas e joões-de-barro têm lá seus motivos. Os das andorinhas você pode conferir clicando aqui, mas o que parece ser mais interessante é como o homem relaciona esses fatos, pois independente de explicações, todos tiramos conclusões pela observação e frequência dos acontecimentos. O guia que o diga, afinal, para ele, pássaros e chuvas têm uma relação prática, independente dos motivos.

É como a mão que um amigo me contou há alguns dias num torneio. Numa guerra de falinhas com o adversário, ele tentava convencê-lo de não pagar a aposta alta para formar o flush no river. O oponente apenas disse que não iria se perdoar se foldasse, e optou pelo call, que veio premiado para o desprazer do herói.

Para o herói, não é todo flush que bate, e ele conhece bem a explicação matemática para isso, mas para o vilão, a lembrança da frequência com que ele acerta os flushes é mais evidente, e dita sua forma de jogar, desde a escolha inicial das cartas (digamos que seu range é qualquer duas cartas naipadas). O vilão sequer levou em consideração as chances matemáticas de acertar o flush, ficou tomado pela possibilidade de acertá-lo de novo, e fatalmente vai jogar desta forma por um bom tempo, pois o fato pra ele é que o flush bate. Ao herói só resta procurar tirar proveito, nem que for para controlar o pote e perder menos, pois o fato para o herói é que seu adversário não vai largar até ver a última street.

A briga eterna entre jogar com expectativa positiva e jogar apenas para ganhar uma mão pode nunca ter fim, pois há muita chuva por vir, mas o que pode mudar seu jogo é justamente a forma de olhar pra ele e para o adversário.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker. Editado para Metapoker. Foto: M. Naccarato