A escolha de Cunningham

No início da madrugada do dia 20 de junho, alguns conhecidos jogadores se enfrentavam no recém lançado Dealer’s Choice, evento da WSOP onde o jogador no botão escolhe o jogo da rodada dentre 16 modalidades de poker, que vão do tradicional No Limit Hold’em até o insano Badeucy (uma mistura de 2-7 Triple Draw com Badugi, com pote dividido em high e low). A escolha era indicada por um conjunto de placas dispostas à mesa, e em seu turno específico, o jogador no assento do botão dispunha no topo da pilha o tipo de jogo escolhido.

A brasileira Maridu Mayrinck, muito falante à mesa, beliscou um honroso 11.o lugar, e lá estavam também Jimmy Fricke, Frank Kassela, Brian Rast, Maria Ho, o futuro campeão do evento Robert Mizrachi, e claro, Allen Cunningham, o esguio jogador em pé na foto que ilustra este artigo.

Em 2003, nas noites de sexta-feira no escritório, jogávamos uma espécie de Dealer’s Choice bem divertido, que tinha no máximo quatro ou cinco modalidades de poker, e nos deixava entretidos até o amanhecer. Havia sempre a expectativa de qual seria o próximo jogo, e de qual seria a melhor estratégia de escolha, ou seja, decidir pelo jogo que você tem o melhor desempenho, ou optar por aquele que os adversários aparentemente não entendem muito, o que seria “a estratégia da estratégia da estratégia” como disse Felipe Mojave em sua página no facebook.

Num primeiro momento pode-se considerar que escolher um jogo que a mesa não domina, seria a melhor tacada, afinal os adversários evitariam jogar aquela modalidade e você ganharia a rodada. Por outro lado, para ganhar mais fichas, seria interessante optar por um tipo de poker que seus oponentes tivessem certo domínio, pois só assim haveria ação suficiente para acumular de fato uma quantidade substancial de fichas. E invariavelmente, optar por ambas. Ao final das contas, e sob esse olhar, a melhor escolha é a racional, é a técnica. Não deve ser difícil usar a Teoria dos Jogos para estabelecer uma matriz de ganhos e chegar à um modelo de jogo perfeito, ou essencialmente lógico. Ademais, você teria que considerar que os jogadores desse evento agem de forma racional, e seria preciso determinar o nível de conhecimento dos seus adversários em cada uma das modalidades.

Porém, tanto as escolhas do Dealer’s Choice quanto as escolhas que fazemos a cada instante no poker acabam por se resumirem em perder o menos possível ou ganhar o máximo possível, se seguirmos a ideia de que o universo de opções apresentadas é finito. Dramaticamente, sob esse viés fatalista, não há liberdade de escolha se o conjunto de escolhas é finito.

A qualidade das escolhas, ou buscar as melhores opções, são o exercício de disciplina necessário para uma prática consistente, mas a liberdade não está exatamente na escolha, está no poder da imaginação e na criatividade. Está em encontrar uma nova possibilidade neste universo que parece finito, está em sair dos modelos. Que o diga o primeiro de nós que abriu raise do UTG sem possuir boas cartas, ou aquele que tribetou light… e assim sucessivamente.

Naquele turno, Cunningham escolheu Five Card Draw, e embora tenha escolhido dar fold, minha aposta é que ele escolheu uma modalidade de poker que há tanto está esquecida, que somente por isso pode ser reinventada.

 

Foto: Salão do WSOP 2014 – Evento #41 (M. Naccarato)