A experiência do jogo

Exatos meio-dia e cinco, minutos após a sirene da obra soar, uma dúzia de pedreiros se aglomeram em torno de uma mesa improvisada. Um deles caminha com pressa berrando “proxim’é-eu”, outro abre a caixa surrada e retira as peças, pedras brancas desbastadas, de barulho peculiar, quem jogou dominó sabe o quanto. Em duplas, as partidas são rápidas por força do hábito, enquanto um deles mal assenta o dobre de quina no madeirite rosa, o adversário já encaixa uma peça na sequência, a gritaria começa, gargalhadas ecoam entre colunas e vigas da construção, riem uns dos outros de suas desgraças e alegrias lúdicas. Quem fica de fora não se diverte menos, escarnecem os perdedores, zombam mesmo à distância, como faz o ambulante que empurra um carrinho de mão com mandioca e banana, recostado na mureta para assistir ao jogo, para também se perder nele. Naquele intervalo de tempo, a construção, fruto da capacidade humana, é desconstruído pela experiência do jogo, fruto da imaginação.

Sobre a mesma mureta, capacetes empilhados uns nos outros e o ruído das peças de dominó no madeirite lembrariam pilhas de fichas para qualquer rato de feltro. Não há muretas no fundo do bilhar que abriga as duas mesas de poker que amortecem stacks coloridos todas as terças-feiras, a sede da sede de jogo que atravessa a madrugada. A troça da parceirada tem tanto lugar quanto as bad beats, o river é quase sempre horrível, o dealer é o bode expiatório do crime que não cometeu, cada assento conforta um jogador que o baralho desconforta. A garçonete sorri sem entender o porquê.

No caxetão da periferia, uma vez por mês, depois de duas avenidas grandes, três quebradas, quatro caras na porta confirmam se ainda há lugar. Quinhentos reais é o preço da brincadeira, seis pangarés por mesa num salão com sete delas. Salão vizinho a cancha da bocha, recreação dos de mais idade, um dos mais antigos jogos do ocidente. Do outro lado da cidade não vale grana, só honra, um velhote ajeita o quipá, dá corda no relógio, na maioria das vezes três, excepcionalmente quatro, são os tabuleiros dispostos no corredor vizinho a livraria do Conjunto Nacional, na Paulista. Curiosos acompanham intrigados, uma sequência rápida de movimentos, e4, e5, Nf3, Nc6, Bb5. Espanhola de novo! Diz irritado o parceiro.

Nos jogos o tempo não passa, se enganam aqueles que pensam que jogar é um passatempo, jogar é perder-se nele, a experiência do eterno dentro de uma fração de tempo.

 

Imagem: Jogando dominós em El Machuelitto, Porto Rico. Jack Delano em dezembro de 1941

Gênesis do poker

Capítulo I: 1. No princípio criou-se o jogo e o baralho. 2. A mesa oval de poker estava vazia, e o silêncio se movia sobre a face do feltro. 3. E decidiram iluminar a mesa, e houve luz. 4. E como a luz era boa, decidiram jogar. 5. E jogadores trocaram o dia pela noite, fim do primeiro dia.

6. E então separaram todos os tipos de jogos, e para cada tipo de poker criaram uma modalidade. 7. E criaram as fichas para substituir o dinheiro, e assim foi. 8. E denominaram as fichas por cor e valor, fim do segundo dia.

9. E foi dito: Ajuntem-se os cash games num lugar, e em separado criem os torneios, e assim foi. 10. E separaram cash de torneio, e todos viram que era bom. 11. E disseram: Para cada período de tempo, blinds maiores, tanto para small blind quanto para big blind, e assim se foi. 12. E nos torneios, muitos jogadores podiam disputar um prêmio bom. 13. E a cada torneio, um campeão, fim do terceiro dia.

14. E foi dito: Haja expansão dos torneios, para haver séries de poker. 15. E para cada série, um campeão. 16. E foram criadas as grandes séries, e as pequenas, e para cada torneio, um satélite. 17. E os satélites davam vagas para o evento principal. 18. E muitos jogadores se classificaram, e viram que os satélites eram bons. 19. E os torneios se consolidaram, fim do quarto dia.

20. E foi dito: Produzam transmissões em vídeo de todos os torneios, e coloquem câmeras voando sobre os feltros. 21. E foi criada a feature table, e todos assistiam e torciam, e a mídia viu que era bom. 22. E todos gostaram, e as séries se multiplicavam sobre a Terra. 23. E os torneios lotaram, fim do quinto dia.

24. E foi dito: Produzam teorias conforme cada estilo de jogo, e assim foi. 25. E cada um jogava conforme seu estilo. 26. E os jogadores entenderam o conceito de imagem. 27. E criaram a classificação dos jogadores conforme sua imagem. 28. E os melhores jogadores dominaram a matemática e a psicologia para ganhar dos fishes e dos pouco experientes. 29. Eis que para cada jogada criou-se um método, e para cada aposta uma estratégia. 30. E todo jogador de poker, seja agressivo, tight ou blefador, pôde estudar o jogo e obter conhecimento, e assim foi. 31. E viram os jogadores o que tinham feito, e eis que era muito bom, fim do sexto dia.

Capítulo II: 1. Assim o poker tomou a forma que tem hoje. 2. E chegando ao sétimo dia, os jogadores estavam cansados e criaram o “one time”, e rezavam para ganhar os flips, e assim criaram o deus do baralho. Fim do poker.

 

Imagem: A criação de Adão, de Michelangelo (editada)