Criamos o fish para não sermos tão ruins?

Na aurora do poker provavelmente qualquer jogador era fish, o tal que mal sabe pra que lado corre o baralho. O entendimento da dinâmica do jogo era furtado pelo impacto da aleatoriedade do baralho, o que permitia que a sorte ganhasse mais significado (Basta notarmos em alguns principiantes a tendência de pagar até o river o flush desejado, ou mesmo a noção dos que olham o poker de fora de que o jogo se trata de ter sorte). Contudo, o espírito do jogador é audaz, e logo uma matemática básica se tornou vantagem, o comportamento falou mais do que o bet, decifrar o jogo virou sua condição. No fundo, olhar para o poker como jogo de azar (ou de sorte) é um jeito de olhar, tanto quanto olhar para o jogador não habilidoso e rotulá-lo de fish.

Mas, calma lá, afinal o fish existe… Ou não. Vejamos. O fish, o pato ou o donkey fazem parte da fauna que sempre está a um passo de você, ou seja, é a sua percepção do jogo no encontro com o adversário. No poker, quanto mais sabemos, mais percebemos o quanto o oponente não sabe e tiramos um tipo de proveito disso. A conversa muda quando a exceção da regra confirma que o fish de hoje pode ser o shark de amanhã, por isso parece que a alcunha de fish não está atrelada somente ao nível de habilidade, mas a uma certa expectativa em relação ao que se procura no jogo.

Explico. O fish clássico buscaria no jogo a incerteza da sorte, a emoção presente no virar das cartas no bordo, uma experiência de sensações que surgem na peculiaridade do poker. Só que, em oposição, o fish também seria o sujeito que segue a cartilha, ficando à mercê do jogo, aguardando e jogando somente cartas com valor, e portanto tornando-se explorável, um alvo de bad beats. De algum jeito a falta de conhecimento e/ou um conhecimento engessado e limitado norteia a expectativa do jogador, no primeiro caso o negócio é ganhar a qualquer custo (contando essencialmente com a sorte já que falta conhecimento), no segundo caso a busca é evitar riscos, evitar perder. O jogador que persegue a sorte no jogo vai sentir falta dela quando na derrota, ou pode culpar o jogo achando que é mais um dos jogos de azar. O jogador precavido, que arrisca pouco, vai ter seu par de reis quebrado e acabará culpando o adversário baralhão, chamando-o de fish.

Quem já passou por qualquer uma dessas duas fases, ou ambas, deve ter aprendido que o jogo se desdobra para além desses polos, pois evitar derrota ou querer ganhar a qualquer custo, são duas faces de uma experiência um tanto pobre de jogo, pois nos colocamos em posição de dependência, esperando o flush bater ou aguardando o “Grupo 1” para jogar. Por isso pode ser que seja nessa expectativa que encontremos a linha onde termina o fish e começa o bom jogador, pois jogadores melhores, em tese, estariam tentando criar condições favoráveis pra si considerando a dinâmica do jogo e não dependendo dela.

Podemos especular ainda mais, se assumirmos que a habilidade para o poker pode ser aprendida por qualquer um ou adquirida com experiência e estudo, o fish passaria a ser uma questão temporal, um estágio anterior rumo ao aperfeiçoamento, de certa forma também uma expectativa, um jogador buscaria se aprofundar nos fundamentos do poker para fugir da dependência apresentada acima. Junto disso cria-se outra percepção, onde o fish passa a ser o jogador que não se dedica o suficiente, que não estuda o jogo com afinco, viés que é aproveitado pelo mercado, há conhecimento para ser repassado e a falta de fundamentos pode ter um remédio, o treinamento.

Definir o que é fish passa necessariamente por trabalhar o tema colocando o categorizado num canto, preferencialmente, distante de nós. Mas, por que precisamos definir o que é fish? A quem essa categorização atenderia? Possivelmente não há uma finalidade nisso, pode ser apenas um saber para a prática do jogo, um alerta para tirarmos vantagem, e como comentado no início desse texto, identificar o fish é uma tarefa da nossa percepção, uma comparação simples, mas pescá-lo é outra história.

Por isso, ficar preso apenas à comparação também parece pouco proveitoso, pois se percebemos o fish porque ele joga de forma estranha à nossa, e isso nos afeta mal, esse incômodo pode identificar o quanto estamos presos à ideia de que a categorização nos propicia uma vantagem, quando de fato não é identificar que nos torna melhores, mas descobrir como atuar dentro dessa possibilidade. Por que ele pagou com isso? Por que deu raise de 5xBBs? Por que deu check no river? Perguntas que podem ser caminhos de compreensão ou elementos para definir o quão ruim é o oponente frente ao nosso jogo.

Categorizar aquilo que aparenta ser incompreensível nos atos do oponente se torna uma resposta ressentida pela falta de conhecimento que percebemos que o adversário não tem. Mais exatamente, a exteriorização de um descontentamento por perder para quem sabe menos. Então, criar o fish vira um alento, a desculpa perfeita para perdermos “ganhando”, afinal sabemos jogar, já o fish… Está aí a armadilha do jogo que nos convida a subestimar o adversário, o que por vezes nos dá a mesma falsa sensação de estar por cima, um tiro no pé, o autoengano.

Enfim, o fish tem seu assento garantido em nossas percepções, ele pode ser a constante de uma competição onde a grande maioria dos praticantes denomina seu adversário como fish, mas onde poucos ganham consistentemente. Para jogadores que pretendem escapar das categorizações, não há fishes, senão possibilidades.

 

 

Imagem: Shutterstock.com/JoeBakal

Independência ou sorte!

Independência ou Morte, frase creditada a Dom Pedro, tem muito pouco a ver com poker. Claro, o título se trata de uma brincadeira, uma tentativa de fazer a ligação entre o jogo e um dos símbolos da Independência do Brasil. O Sete de Setembro curiosamente completará dois séculos dentro de sete anos, data que hoje tem mais cara de feriado do que o significado histórico que carrega.

Mas, significados históricos têm interpretações. Segundo Leandro Narloch, autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, a Independência brazuca não foi um jogo de cartas marcadas, nem tampouco um ato de heroísmo libertador, mas um blefe. A contragosto, D. Pedro proclamou independência por pressão dos súditos brasileiros, sem guerra, e sem a maior parte da sociedade dar bola. A bela pintura de Pedro Américo “O Grito do Ipiranga”, com o príncipe português de espada erguida, me parece outro blefe, a figura forjada do herói no cavalo.

Como vimos, fatos históricos são, historicamente, não necessariamente fatos, por vezes apenas blefes, daqueles descarados e com poucas chances de passar. Mas no poker, blefes também são fatos, e como estamos falando de história e fatos, aí vai uma parada, com 7, em setembro, espadas e reis:

Há poucos dias, no clube de poker Owls, cravado no bairro histórico do Ipiranga e próximo do córrego de mesmo nome, mais um torneio daqueles de buy in acessível à maioria, reinaugurando o espaço que já estava apinhado de jogadores. No pano, um sete de espadas no flop forma um middle pair que encontra odds para o call, e vemos o turn em check/check. O river dobra a high card do bordo, e puxamos um bom pote depois de um call de Rei high do vilão. É, se de um lado se pode jogar com qualquer tipo de lixo razoável, o contra-ataque é fazer o mesmo. Num torneio de blinds rápidos, o importante é se mexer, jogar mais poker e menos baralho.

Sabendo disso, o vilão tratou de se mexer, fazendo observações em cada jogada, como se estivesse avisando para toda a mesa, o padrão de jogo percebido. Outro bom contra-ataque, afinal, especulação é poker também, e tal como a história, um ponto de vista.

Na tentativa desejável de ser inexplorável nas mesas, e depois de alguns pitacos do vilão, era preciso mudar de estratégia, jogar mais baralho e menos poker. A escolha foi ruim, deixamos de lado a independência, e começamos a jogar “dependência e sorte”, ou seja, depende-se primeiramente de cartas, e quando as pilhas vão abaixo, só resta a sorte, que nem sempre se apresenta. Assim, uma fatiada nos levou à eliminação, e o grito do Ipiranga dos feltros foi um all in na mão seguinte. Mas a fortuna, não a boa sorte, mas a sina, triunfou. O jeito é curtir o feriado.

 

Fonte: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Editora LeYa) – Leandro Narloch. Imagem: O Grito do Ipiranga, pintura de 1888 – Pedro Américo (domínio público)