Negreanu, Moneymaker e o Poker Hall of Fame

O Poker Hall of Fame foi concebido em 1979 por Benny Binion, dono do cassino Horseshoe e criador da WSOP, com o intuito de preservar os nomes dos grandes jogadores de poker, mas principalmente para servir de atração turística em seu próprio cassino. A propaganda criada por Binion, uma parede com as fotos dos ilustres jogadores, é possivelmente mais representativa hoje em dia. Quando o grupo Caesars Entertainment comprou os direitos da WSOP em 2004, levou junto o Hall, e anos mais tarde modificou o processo de nomeação para uma votação online, com o intuito de aumentar o interesse do público na premiação. Hoje em dia a votação online é um dos principais definidores de quem serão os indicados que disputarão as duas vagas anuais para o Hall, e é daí que surgiu a crítica de Daniel Negreanu ao ver Chris Moneymaker entre os dez finalistas neste ano.

A defesa de Negreanu, uma análise suficientemente criteriosa aponta algo relevante. Mortensen, Devilfish, Todd Brunson e Chris Bjorin, seriam mais merecedores por suas trajetórias na história do jogo e por preencherem os requisitos básicos estabelecidos na regra. E, além de citar diversos outros nomes que por serem menos conhecidos acabam ficando de fora da votação, seu alerta é para Chris Moneymaker, que estaria aquém dos critérios enquanto jogador.

Para Negreanu, o Poker Hall of Fame não deve ser confundido com a fama, os indicados devem preencher as exigências de acordo com a regra, não basta ser um “embaixador” do jogo, embora hoje o termo seja discutível. Ser embaixador está mais para representar um site de poker do que propriamente o poker.

Qualquer regra evolui para dar conta da maioria das situações, mas nem sempre. A votação online aberta ao público iniciou-se somente em 2009, modificando a regra. Bem como a limitação de idade mínima, também chamada Chip Reese Rule, outra alteração que só foi criada em 2011, adicionada para barrar jogadores muito jovens que eram selecionados pela votação dos fãs, tais como Phil Ivey, Tom Dwan e, veja só, Daniel Negreanu. A partir daí, nomeados seriam elegíveis para votação apenas se tivessem 40 anos completos, tal como Chip Reese quando recebeu o pertencimento em 1991.

A principal defesa para a aceitação de Moneymaker está no chamado Boom do Poker, quando em 2003 o jogador ainda amador ganhou a vaga para o ME da WSOP através de um satélite online e tornou-se campeão, trazendo um grande contingente de novos jogadores para o poker nos anos seguintes. Moneymaker, um contador de Tennessee, personificou o sonho. De certo modo preencheu a lacuna de uma mitologia pronta que aguardava um herói. A projeção do feito é anterior ao protagonista no sentido que havia um desejo coletivo construído pelo próprio poker, um sonho que nos é pautado.

Para Negreanu o fato da vitória de Moneymaker ter sido tão determinante para o desenvolvimento do poker moderno não é suficientemente maior do que os critérios do Hall. É preciso votar conforme a regra. Mas curiosamente, não-jogadores podem ser indicados por terem contribuído para o crescimento e sucesso do jogo, contudo, Moneymaker é jogador.

No fundo, a disputa pelo pertencimento ao Poker Hall of Fame revela um mecanismo de legitimação que nos deixa uma reflexão, o incômodo é ter Moneymaker como membro do Poker Hall of Fame ou seu pertencimento seria uma maneira de desprestigiar quem já está lá?

 

Imagem: Shutterstock.com/Banana Republic Images (editada). Fontes: Beat the Fish e a história esquecida do Poker Hall of Fame, Pocket Fives, Pokernews, Fullcontact Poker, WSOP.com e Cardplayer Brasil.

Um cruel novembro sem Daniel Negreanu?

A comoção notada por todos e na mídia especializada após a eliminação de Daniel Negreanu é compreensível. Um bom jogador como Phil Ivey, que já foi November Nine, não capitalizaria tanto para o mercado do poker quanto Negreanu, que é tido como embaixador desta atividade principalmente pela forma com a qual lida com a mídia e promove seu principal patrocinador, o PokerStars. Isso deixa uma pergunta, Negreanu precisa mais do mercado do que o mercado precisa dele? Típica pergunta como a do ovo e da galinha, mas quem veio primeiro não é o assunto desta reflexão.

Senão os próprios postulantes ao November Nine, quem seriam os outros torcendo contra Daniel Negreanu? De alguma forma, no poker há uma diferença perceptível em relação à outras competições, o público tende a torcer e prestigiar os mais habilidosos, mais conhecidos, melhores. É de se pensar quais os motivos que nos levam por vezes a torcer para o lutador de compleição menos robusta numa luta ou arte marcial, ou torcer para os Camarões contra a superior Alemanha numa partida de futebol, e porque gostamos quando o time do interior, mais carente de recursos, bate um Corinthians ou um Flamengo.

Com exceção da rivalidade encontrada no último caso (um palmeirense supostamente gostaria de ver uma derrota corinthiana), há talvez uma vontade de compensação nas competições, que pode ser vista quando torcemos para o mais fraco numa briga, como uma forma de compensar a diferença, esperando um resultado que pareça ser mais justo, o velho Davi e Golias presente no imaginário. No poker não, queremos que o melhor vença.

E como se trata de poker, pode-se dizer que a queda de Negreanu no Main Event, literalmente caído e estirado no chão, foi cruel. Sim, pode-se, mas por motivos que acredito serem diferentes dos citados acima. As palavras crueldade e cru têm a mesma origem etimológica, e são derivadas da palavra cruor (sangue, no sentido de sangue derramado por violência, que difere da palavra sanguis, que é o sangue correndo nas veias), de forma que aquilo que parece cruel é o que é cru como a realidade, e não o que é injusto e cruel.

A eliminação de Negreanu só pode ser cruel se está sob a condição de ser crua, ou seja, de ser puramente real, a realidade nua e crua que deflagra a natureza igualmente inerente no poker: não há justiça nos jogos, e isso não é um problema, pois afinal, também não há injustiça.

Talvez algo difícil de lidar por parte dos jogadores, que entendem que uma boa mão pré-flop deveria vencer, ou que é legítimo uma trinca flopada sair vencedora independentemente de que cartas alcancem o river. Quantos jogadores acham injusto serem eliminados quando estão com top pair no flop e as cartas do adversário acertam uma broca ao final da mão? E quantos deles não usam isso como desculpa? Quantos justificam suas jogadas em função de uma suposta injustiça ao ver seus pares de Ás quebrados? Negreanu, muito lúcido e ciente da realidade do jogo, não se interessa exatamente pelas cartas, mas precisamente pelo pensamento por trás delas, e explanou seu ponto de vista em três mãos jogadas no Main Event, neste artigo em seu site, o Full Contact Poker. Well done, KidPoker!

Segundo ele, “o jogo é simples, e se complica na medida que o tornamos complicado”. Quando criamos em nossas mentes tal vontade de justiça, o que é uma ilusão, deixamos de perceber que a aleatoriedade do jogo é superior e fatal. No poker, merecer não é sinônimo de vencer, embora algumas vezes isso possa acontecer, como no caso do bracelete do Decano, ou das inúmeras vitórias de Negreanu.

Contudo, simplesmente aceitar o jogo como ele é, seria uma resignação. Por outro lado, ressentir-se do jogo nos levaria ao mesmo ponto, pois ambas são reações ao fatalismo do baralho. Seria, como por exemplo, aceitar que é o baralho que resolve e você nada pode fazer (no primeiro caso, quase que assumir o poker como jogo de azar), ou abandonar o poker por ele ser injusto (no segundo caso, acreditando mais na ilusão do que na realidade). Uma possível saída para esses dois casos seria entender a natureza do jogo, e somente assim criar através dessa condição, o que pode não ser exatamente uma solução, mas parece ser uma possibilidade mais potente, onde não somos vítimas do jogo que escolhemos participar.

Portanto, não há nada de errado, e nem de certo, na eliminação de Negreanu, afinal, ainda bem que ele caiu, pois sem isso o jogo já teria suas cartas marcadas, já teríamos um poker onde o jogar não vale de nada, num tribunal onde a sentença é sempre favorável aos que já estão estabelecidos. Se já está definido quem deve ganhar, não é necessário jogar. Só existe um participante com vaga garantida no November Nine, o poker. A queda de Negreanu nos faz lembrar, ou melhor, nos traz para a realidade imanente do jogo: o jogo.

 

Fonte: Full Contact Poker. Imagem: Retirada da fanpage de Daniel Negreanu no Facebook

Considerações sobre a polêmica de Daniel Colman no One Drop

Sobre a declaração de Colman

Daniel Colman poderia ter falado com a imprensa após a vitória, e se dissesse o que queria, possivelmente não seria mostrado da forma que desejava. Por isso quando ele opta por responder pelo canal que julga independente e mais próximo dele, o fórum de poker Two Plus Two, ele quer garantir a qualidade e a totalidade do que deseja falar. É principalmente para quem pensa o jogo que ele está falando.

Aparte o conteúdo de seu discurso, que pode ser interpretado de diversas maneiras, e colocado de uma forma maniqueísta que divide as coisas apenas como certas ou erradas, o importante é que sua reação trouxe para a superfície um assunto que o mercado não lida muito, e esse parece ser seu grande mérito nisso tudo. Se sua posição é boa ou não, o relevante é o fato de ter detonado a discussão.

 

Julgamentos e argumentações

É tão inadmissível para os que promovem o jogo aceitarem a argumentação de Colman, que a única estratégia de contra-ataque possível à eles é desmerecer o adversário, julgando-o como imaturo, criança petulante, muito jovem, hipócrita, controverso e impreciso demais. E é assim que o ponto fundamental da discussão, que é o formato pelo qual se promove o jogo, é deixado de lado, e a maioria das reações ficam pautadas pela ótica da grana, da culpa por tê-la e da redenção presente no ato de transformá-la em altruísmo. Se você não aceita levar vantagem num jogo cruel, então devolva todo o dinheiro, ou reverta para quem precisa, é o que dizem dos fóruns de poker e comentários nos blogs.

Seguindo essa linha de argumentação, porque então os demais jogadores não fazem o mesmo e revertem seus ganhos para a grande maioria que perde no jogo? Afinal ninguém discorda que a maior parte dos jogadores não é vencedora. É por isso que essa defesa parece fraca, e deixa a discussão estagnada, numa busca por quem está certo ou errado, tentando passar a culpa de um para o outro. Não se sabe se Colman ou Negreanu ajudam a alguém ou a alguma instituição, mas isso não altera essa perspectiva do jogo, afinal os mais preparados vão continuar ganhando, e a propaganda vai continuar sendo feita para atrair mais e mais praticantes.

 

O lado sombrio

Não é porque diversas outras atividades têm em comum com o poker o tal lado “sombrio” que temos que deixar de discutir o jogo e o mercado, e ao que parece, não é esse o ponto quando Colman critica a cultura do ego e do sucesso, e principalmente a propaganda do jogo. Em nenhum momento ele falou alguma mentira, tanto é que não se pode negar o que ele disse, só resta procurar entender sua atitude e discutir o assunto. Mas o caminho comum é o julgamento. Os organizadores sempre vão promover o jogo transformando-o em espetáculo, mas as mídias podem fazer mais mostrando as realidades que permeiam o poker.

 

A resposta de Negreanu

Negreanu claramente concorda em partes com Colman, mas seu pedido direto para o campeão do One Drop passa a mensagem velada de que há uma verdade maior a ser seguida, de forma a abrandar a discussão e terminar logo com a polêmica, afinal ele é apenas um garoto de 24 anos, e possivelmente não sabe o que está fazendo. Só que grande parte das pessoas que não são mais tão jovens quanto Colman parecem ter percebido com sua “experiência” que é mais importante dar manutenção à um sistema que fazem parte do que discutir ou considerar seu discurso. Colocar em pauta esse e outros diversos assuntos é informar e gerar não apenas jogadores mais pensantes sobre sua atividade, mas também um mercado mais preparado.

O que está se perdendo de vista é que independente do formato da comunicação ou dos aspectos presentes no poker, sempre haverá um mercado e alguém o explorando, mas talvez apenas Colman tenha uma inclinação, perceptível em suas palavras, de que o mais importante é a forma com a qual lidamos, interpretamos e nos posicionamos no poker. Isso é ser crítico, e não hipócrita.

 

Links importantes para a discussão

Reportagem do Pokernews (em inglês)
Reportagem de Case Keefer no Las Vegas Sun (em inglês)
Declaração de Colman no Two Plus Two (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Colman
Opinião de Thiago Pessoa no Quero Ser Shark
Artigo de Naccarato no Metapoker sobre a atitude do campeão
Tópico no fórum MaisEV
Metagame especial WSOP com Sergio Prado e Vitão Marques
Resposta de Daniel Negreanu (em inglês)
Reportagem do Pokerdoc com a tradução da declaração de Negreanu
Opinião de André Akkari
Opinião de João Simão
Opinião de Vitão Marques
Vitão entrevistando jogadores sobre a polêmica

Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água

Daniel, não o tão esperado Negreanu, mas seu adversário, cravou o torneio de poker de buy-in mais estratosférico da WSOP deste ano. Afora todo o torneio, as jogadas, mãos decisivas e  eliminações, o assunto mais contundente após a cravada foi o comportamento do campeão em relação à imprensa, se negando a ceder entrevista e alheio às fotos e poses esperadas. Para se interar do ocorrido, recomendo a reportagem do Pokerdoc, que conta com a resposta do campeão sobre a polêmica, e que você pode ler clicando aqui.

Na ótica de quem promove o jogo, Colman não pode se abster de participar da promoção estimulada pela imprensa, não pode parecer contraditório ou conflitante, pois julga-se que tal atitude é falta de posicionamento, ou pelo menos uma forma imatura de posicionamento. Contudo, a imaturidade veio do lado de quem critica.

Por sorte, Colman permanece em dúvida, pois através dela é possível ponderar sobre o mundo ao redor e dar mais um passo em direção ao entendimento, considerando as inúmeras realidades e visões intrínsecas ao jogo. Colman não precisa dar manutenção ao espetáculo que não criou, e escolheu veementemente não se utilizar desse canal para tanto. É desta forma que seu não discurso se torna discurso.

Importante perceber nesse mesmo discurso, que a racionalidade que Colman encontrou no poker, a mesma que o atrai e faz com que ele permaneça no jogo, se tornou parâmetro para a própria crítica ao mercado, visto que a propaganda da indústria do poker está majoritariamente voltada para o apelo emocional na busca por novos praticantes.

Talvez ele não careça dos tão almejados louros da vitória, ou de todo o status e exposição envolvidos numa conquista cobiçada e representativa como esta. Talvez ele não precise se jogar em frente aos holofotes deflagrando sintomas de alguém que está perdido e carente de qualquer tipo de atenção, ou não queira capitalizar qualquer outro valor além da vitória em si.

Colman com sua opinião, em tempos onde não se deve emitir opinião, torna-se o não heroi do poker (e não o inimigo), pelo simples fato de que não há nada a ser salvo senão nossas próprias relações em sociedade e a necessidade de reflexão há tanto deixada de lado. E falando nisso, se ele não deve nada ao poker, como disse em seu post no Two Plus Two, o poker deve à ele uma pausa para reflexão.

 

Créditos: Pokerdoc, e post original em inglês de Colman no fórum Two Plus Two. Foto: Shutterstock