Metablefe, um blefe além do blefe

A máxima “Um bom blefe conta uma história” faz muito sentido, mas não é tão abrangente para descrever os diversos formatos que um blefe pode ter. Além do conhecido “blefe puro”, outras formas de enganar o oponente são muito comuns, como o semi-blefe e o float. É possível apostar representando um flush ou straight quando o bordo ajuda, o que é oportunista e corriqueiro às mesas; podemos nos utilizar de c-bets, desde que a frequência delas não provoque desconfiança; ou mesmo recorrer aos roubos de blinds, atacando em posição. E mesmo sem uma história por trás, dá pra apostar contra o jogador inexperiente, que vai largar a mão antes mesmo de pensar em algo melhor a fazer.

Vendo por esse ponto de vista, o blefe é um recurso recorrente, utilizado na tentativa de manipular a mão a seu favor e consequentemente, o oponente, que é a chave dessa equação. Talvez por isso, o que deixaria a frase mais tangível, é colocar o elemento principal nela, ou seja, o adversário. Ficaria assim “Um bom blefe conta uma história pra quem entende dela”.

Vejamos um exemplo. Lex Veldhuis, o ultra-agressivo holandês, que migrou do vídeo-game para o poker, é o tipo de cara que incomoda qualquer um na mesa. Blefador incontrolável, é tido por alguns como sendo apenas um maluco que gosta de meter ficha no pano, mas outros irão defender seu estilo, assumindo que há uma razão por trás de sua loucura aparente. Embora eu nunca tenha jogado contra ele, já o vi no feltro na WSOP de 2011, e também pude conferir alguns vídeos de suas jogadas na internet, mas algo que me chamou atenção foi um artigo publicado no site Universidade do Poker, que você pode conferir aqui, onde Veldhuis explica sua visão do jogo aplicada a torneios.

Ele cita que sua imagem de idiota louco à mesa, contribui para o êxito de suas jogadas, e em certo ponto do texto, diz que, se os jogadores tiverem a percepção de que ele está blefando constantemente, ele não vai blefar menos como seria de se esperar, mas sim, blefar ainda mais para forçar o oponente a desistir. Deste modo, a máxima do bom blefe, mesmo recauchutada, ainda precisa ser melhor escrita, pois levando em consideração a abordagem de Veldhuis, o curso do jogo é determinado pela dinâmica de interações entre os jogadores, e por isso fatores psicológicos e emocionais ganham um papel importante no poker, e claro, no blefe. Veja por exemplo esse vídeo: https://youtu.be/sKnSkNXyhD4

O primeiro blefe passa, e ele mostra. O segundo blefe também acaba passando, e ele novamente faz o showdown de suas cartas. No terceiro blefe, fica difícil identificar se ele estaria blefando novamente… e no quarto? E no quinto? E aí, agora ele tem valor ou não? O mérito de Lex é trabalhar os receios dos adversários, gerando certa dúvida razoável constante, que acaba se estendendo para toda mesa.

Isso leva o blefe para um novo patamar, onde sacar a forma como o adversário pensa e reage ao jogo e à sua imagem, é tão ou mais efetivo do que contar a tal história. Mas isso nunca é uma via de mão única, e num jogo de interação como é o poker, talvez o sucesso do blefe seja ser pego blefando, pois só assim a mesa pode fazer uma avaliação do seu jogo e te rotular, e só então você começa a construir o caminho para gerar esse tipo de dúvida razoável na mente dos seus oponentes.

Lá vai então nossa máxima novamente recauchutada e surpreendentemente contraditória, onde o blefe está além do blefe: “O bom blefe é aquele onde você é pego”.

 

Fonte: Universidade do Poker. Reeditado do Blog do Naccarato em Pokerdicas. Imagem: iamwat/Shutterstock (editada)

Todas as vezes, à mesa, o nada faz sentido

Dentro de uma perspectiva de que é preciso ganhar, a mutação é a ordem que rege o jogo, faz-se o que é imaginável para tanto. O ganhar é o sentido do jogo, o que lhe confere significado. O jogo, algo sem função num primeiro momento, é como se fosse o desprendimento da vida real, ainda que se possa questionar o real, mas ele, o jogo, é uma vazão carregada de significado.

Mas tantos são os sentimentos envoltos no ato de jogar, há tanto para se considerar e aproveitar, que o jogo por si, em sua essência, é motivo único e sagrado de engajamento, condição escolhida e vivenciada pelo jogador, quase que como uma espécie de redenção, um porto seguro não seguro.

Só se encontra o jogo enquanto se está nele, a sé dos degenerados, o escape e o motivo do escape, a opção voluntária de quem prefere o lúdico à todo o restante.

No poker, este espaço condizente condiz, afinal, é jogo.

O flush e o joão-de-barro

O paraíso da foto acima fica a 300 quilômetros de Fortaleza, mais ou menos umas cinco horas de jipe desde a capital do Ceará, por uma das paisagens mais secas que já pude presenciar, ainda que se encontre muita vegetação pelo caminho. Entre cajueiros e rios sem água marcados apenas pela terra, a pergunta inevitável ao guia foi — Por que está tão seco assim?

Pois bem, a cultura popular diz que andorinha voando baixo é sinal de chuva, e ontem mesmo, pude conferir a profecia se realizando, enquanto os primeiros pingos de chuva acertavam minha careca após algumas andorinhas terem sobrevoado a região.

Algo parecido com a resposta dada pelo guia, pelo menos em essência. Ele nos disse que embora as chuvas não tenham visitado com rigor aquela região do Ceará nos últimos quatro anos, os joões-de-barro já estão avisando que desta vez as chuvas virão com força naquela região. Ele explicou que estes pássaros estão construindo seus ninhos com as entradas mais fechadas que o usual, supostamente uma proteção para as chuvas nos próximos meses.

Andorinhas e joões-de-barro têm lá seus motivos. Os das andorinhas você pode conferir clicando aqui, mas o que parece ser mais interessante é como o homem relaciona esses fatos, pois independente de explicações, todos tiramos conclusões pela observação e frequência dos acontecimentos. O guia que o diga, afinal, para ele, pássaros e chuvas têm uma relação prática, independente dos motivos.

É como a mão que um amigo me contou há alguns dias num torneio. Numa guerra de falinhas com o adversário, ele tentava convencê-lo de não pagar a aposta alta para formar o flush no river. O oponente apenas disse que não iria se perdoar se foldasse, e optou pelo call, que veio premiado para o desprazer do herói.

Para o herói, não é todo flush que bate, e ele conhece bem a explicação matemática para isso, mas para o vilão, a lembrança da frequência com que ele acerta os flushes é mais evidente, e dita sua forma de jogar, desde a escolha inicial das cartas (digamos que seu range é qualquer duas cartas naipadas). O vilão sequer levou em consideração as chances matemáticas de acertar o flush, ficou tomado pela possibilidade de acertá-lo de novo, e fatalmente vai jogar desta forma por um bom tempo, pois o fato pra ele é que o flush bate. Ao herói só resta procurar tirar proveito, nem que for para controlar o pote e perder menos, pois o fato para o herói é que seu adversário não vai largar até ver a última street.

A briga eterna entre jogar com expectativa positiva e jogar apenas para ganhar uma mão pode nunca ter fim, pois há muita chuva por vir, mas o que pode mudar seu jogo é justamente a forma de olhar pra ele e para o adversário.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker. Editado para Metapoker. Foto: M. Naccarato

As verdades do poker no dia da mentira

Gabriel Goffi publicou um vídeo muito interessante em fevereiro desse ano, afirmando que ponto de vista é a vista de um ponto, e falando que precisamos nos distanciar o suficiente para perceber a verdade do outro. Algo que vale para muitas situações na vida e principalmente no poker, afinal, jogar é perceber, pensar, decifrar.

A verdade nesse caso é um ponto de vista, ou como diria Nietzsche, não existem fatos, existem interpretações. Pois bem, nosso amigo Nietzche, aquele filósofo do bigodão, fala que a humanidade mente consciente e inconscientemente, e que por força do uso, as mentiras ganham contornos de verdades.

Se Nietzsche era um bom blefador, não sabemos, mas podemos perceber certo sentido em sua afirmação, principalmente quando estamos frente a uma dessas verdades absolutas do poker. Uma ideia repetida por várias vezes se torna distante de seu significado original, porque se transforma em algo incontestável, e assim não há mais o que pensar sobre ela.

Poker é repleto de métodos e máximas, as tais verdades, e boa parte dos jogadores colocam essas verdades acima do próprio jogo, acima da interpretação.

O ciclo do poker é trabalhar uma verdade, dessas assumidas, e transformá-la em outra verdade, uma mais atual, recauchutada claro, e certamente mais interessante, mas só até o ponto em que ela se torna mais uma verdade absoluta. Portanto, a verdade está entre uma verdade e outra, enquanto é possível pensar sobre o jogo e criar algo novo, é nesse espaço que está o poker.

Se tudo isso for mentira, não se preocupe, no dia de hoje, algum site de poker vai soltar uma notícia bombástica, algo (in)esperado, uma verdade daquelas que se assumem, para que você relaxe nesse primeiro de abril.

 

Créditos: Vídeo do canal de Gabriel Goffi no YouTube. Foto: Shutterstock (editada)

Monty Hall, o indiano maluco e um pouco de Teoria dos Jogos

O filme Quebrando a Banca (título original “21”, de 2008), que tem como cenário Las Vegas e principalmente o cassino Planet Hollywood, conta a história do grupo de estudantes do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que desenvolveu um método de contagem de cartas para tirar vantagem nas mesas de blackjack da cidade. Jogando em equipe, eles conseguem ganhar uma boa grana, mas enfrentam vários problemas no desenrolar da história. Até aí, nada demais, é uma bela sessão da tarde, não fosse por uma cena que chamou minha atenção no início do filme. Nela, você pode conferir o professor, que é o cabeça do grupo, apresentando um problema para o novato da turma, que posteriormente se transforma no seu principal pupilo na empreitada dos estudantes para Las Vegas. O problema apresentado no vídeo é o Paradoxo de Monty Hall, que você pode conferir abaixo (em inglês):

Este problema ficou muito conhecido na década de 70 devido ao programa de televisão que o popularizou (Monty Hall, inclusive, é o nome do apresentador). Muitos Ph.D’s em matemática de várias universidades norte-americanas torceram o nariz para a resposta não convencional do problema. Bom, vejamos o porquê. O problema é simples, você está num concurso televisivo e o apresentador te mostra três portas, dizendo que atrás de uma delas há um carro zero km, e uma cabra em cada uma das outras duas portas. Ele pede então que você escolha uma das portas, e se acertar o carro, o prêmio é seu.

Acontece que após sua primeira escolha, o apresentador abre uma das portas não escolhidas e revela uma cabra. Claro que o apresentador sabe de antemão onde está o carro, e pra conferir um tom dramático ao programa, ele pergunta se você deseja trocar de porta.

Aparentemente, se sobraram duas portas apenas, uma com carro e outra com o ruminante, a chance é de 50% de acertar o prêmio, mas não é bem assim, pois a resposta que te dá mais probabilidade de acerto é contra-intuitiva. A troca das portas eleva sua chance de vitória para 2/3, pois o fato de haver uma porta revelada não modifica sua chance, mas fazer a troca sim. Quando você escolheu a porta, a chance de ter escolhido uma cabra é de 2/3, e quando efetua a troca, a chance de acertar a caranga aumenta para 2/3, como é falado no vídeo. Se você quiser tentar na prática, peça para um amigo separar duas cartas de espadas e uma de ouros, coloque-as facedown, e simule o problema algumas vezes, pelo menos umas dez vezes mantendo sua escolha inicial, e depois mais dez fazendo a troca, e confira os resultados.

Sabemos agora que a melhor escolha é aquela que aumenta a probabilidade de vencer, ou seja, como no poker, a melhor jogada é a que respeita a matemática, e traz uma melhor expectativa de ganho. Esse paralelo torna o paradoxo de Monty Hall bastante interessante por si só, mas levanta questões muito interessantes para o poker.

Muitas vezes, no feltro, somos enganados pela facilidade aparente de uma lógica que nem sempre representa a realidade, e estaremos frente à escolhas que parecem ser racionais e pautadas em verdades absolutas, mas vamos quebrar a cara, pois temos que olhar a situação sobre vários pontos de vista, e em algumas vezes, essencialmente de forma contra-intuitiva.

Pois bem, em 2010 eu estava em Las Vegas, jogando o torneio da noite na poker room do já citado Planet Hollywood Cassino. Nessa mesa havia um misto de bons jogadores e recreativos, mas um deles, um indiano mal encarado, não poupava fichas nas inúmeras mãos que disputava. Uma dessas mãos me chamou muita atenção, pela linha inusitada que o indiano utilizou. Depois de um jogador dar limp em early position, ele abriu um raise de 3xBB em MP, e tomou três calls, incluindo o limper original, SB e BB.

Embora estivesse fora da mão, fiquei observando a ação, e vimos o flop do capeta, 666. Todos mesaram, o indiano meteu meio pote, blinds deram fold e a ação voltou ao jogador em EP, que deu insta-call. No turn, um 3, EP deu check e o indiano check-behind. No river outro 3, formando um full house na mesa, e após o terceiro check do jogador em EP, o indiano estoura all in. Minutos depois, ele resolve dar o call e mostra 99, enquanto o indiano ameaça o muck, mas mostra A6 e puxa o pote.

Na visão do indiano, o limp em early position podia indicar um par de valor baixo, e talvez fosse improvável que ao menos um dos callers não tivesse um par na mão, fato que o fez apostar no flop estando nuts. Já no river, com um bordo desses, não duvido que ele se aproveitou da situação para extrair o máximo de fichas do seu adversário. Você certamente concluiria que o indiano estava jogando com o bordo, ou na melhor das hipóteses, que tivesse um full com um par na mão. Na visão do jogador em EP, seria improvável alguém apostar dessa forma com uma quadra ou um full maior na mão, o que deixou a aposta do indiano mais parecida com um blefe do que com valor.

Esse é um exemplo extremo, e vale dizer que era um torneio turbo, e que o indiano estava muito agressivo à mesa, mas isso mostra que linhas de jogo não convencionais, mudam a dinâmica do jogo (empurrar os blinds do UTG é um bom exemplo de jogada não convencinal que virou comum no poker). Pela cartilha, o indiano deveria cozinhar o adversário até que ele melhorasse sua mão, e só então apostar por valor no river, mas ao criar uma dúvida razoável ele sacou o oponente da mesa. As vezes o adversário parece querer te tirar da mão, o que parece lógico, mas de fato ele está apostando para tomar todas suas fichas. Essa mão me lembra a final hand do Main Event de 1998 da WSOP, não tanto pela linha de apostas, pois afinal Scotty Nguyen apenas deu call até o turn, mas pelo shove ao final da mão com direito a falinha, para confundir o adversário, induzindo-o ao erro.

Outro exemplo é o Jogo do Ultimato, que nada mais é do que uma aplicação prática da famosa Teoria dos Jogos (ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno). No Jogo do Ultimato, uma banca oferece um prêmio para o jogador A, digamos 100 fichas. Esse jogador deve dividir, à seu critério, uma porcentagem das fichas e oferecer ao jogador B. Se o jogador B não aceitar a oferta (ele apenas pode dizer sim ou não, sem qualquer tipo de barganha), a banca não paga nenhum dos dois. A saber, a banca faz isso apenas uma vez, ou seja, os jogadores não terão um novo turno de oferta e aceite, de forma que matematicamente o jogador B deveria aceitar qualquer quantia, pois ganhar uma ficha é melhor do que nenhuma, mas estudos mostraram que na prática, 2/3 das pessoas no papel de jogador A, fizeram divisões de 50/50 ou próximo disso, e, jogadores que ofereceram menos de 20% dos ganhos, perderam o prêmio, pois parece pouco lógico e até injusto, gerando um resultado com um desfecho emocional.

Em todos estes exemplos, seja no paradoxo de Monty Hall, na mão do indiano no Planet Hollywood ou no Jogo do Ultimato, aprendemos que a busca de qualquer jogador que decide se empenhar em aprender poker, seja recreativamente ou profissionalmente, esbarra sempre num método de jogo com expectativa positiva e numa compreensão dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem o jogo, e embora haja sorte e azar envolvidos em todas as mãos, poker é um excelente jogo mental, onde seu nível de jogo só vai melhorar quando você se der conta que a qualidade das suas escolhas na mesa são mais importantes que vencer ou perder a mão.

Para uma explicação mais detalhada do paradoxo de Monty Hall, acesse este link da Wikipedia, e para saber mais sobre a Teoria dos Jogos, acesse este link, também da Wikipedia e pesquise ainda mais, pois afinal, um poker bem jogado é fruto de muita prática, mas também de dedicação e pesquisa.

 

Foto: Jason Patrick Ross / Shutterstock.com. Publicado originalmente em Pokerdicas.

Galileu, a probabilidade e uma visão para o poker

Galileu Galilei, sim, ele mesmo, matemático, físico, astrônomo e filósofo, além de todo legado deixado para a humanidade, solucionou em seu “Considerações sobre o Jogo de Dados” um problema simples, mas curioso. No século XVII alguns jogadores questionaram Galilei sobre o desequilíbrio dos resultados 9 e 10 no lançamento de três dados, visto que as combinações possíveis para cada um era de seis opções:

Resultado 9: 126, 135, 144, 225, 234 e 333
Resultado 10: 136, 145, 226, 235, 244 e 334

Por força da prática, os jogadores tinham percebido que a soma 10 ocorria mais vezes que a soma 9, embora as combinações aparentemente fossem as mesmas. Isso parecia um problema sem solução, fazendo com que a prática desafiasse a lógica, pois quanto mais eles jogavam, mais ficava aparente a vantagem da soma 10. Galileu notou que havia mais inversões, ou modos diferentes de se obter cada uma dessas combinações, verificando que o total de combinações para a soma 10 era de 27, enquanto que para soma 9 era de 25 inversões. Por exemplo, para se obter a somatória 10 com as faces 1,3 e 6, havia seis possibilidades (136, 163, 316, 361, 613 e 631), e não apenas uma combinação, como imaginavam os jogadores. Clicando aqui, um link para um apêndice que explica bem o problema.

Situações onde a lógica aparente não reflete a realidade são mais frequentes do que se imagina, e são um dos alicerces do chamado deception game, ferramenta fundamental do poker, que consiste basicamente em induzir o adversário ao erro. Porém o foco deste artigo é outro. Note que mesmo esses jogadores do século XVII tendo prática e conhecimento com o jogo de dados, tinham como certo e lógico o equilíbrio de resultados, o que não estava permitindo que eles chegassem a um raciocínio mais apurado, pois estavam condicionados em seu entendimento. No poker, a curva de aprendizado, talvez como em qualquer atividade humana, é bem acentuada no começo, porém constantemente os jogadores alcançam um ponto onde o conhecimento que têm sobre o jogo e as relações que conseguem estabelecer parecem chegar à um teto razoável de entendimento, e é aí que reside o problema, quando a capacidade de análise no poker fica condicionada.

Invariavelmente isso ocorre quando o jogador compreende a parte matemática do jogo, e acaba supervalorizando ou compreendendo de forma equivocada os dados de probabilidade de vitória numa mão. Você já deve ter visto diversos exemplos disso, quando, mesmo tendo uma chance de vitória bem maior que o adversário, a combinação de cartas no bordo não ajuda, e o oponente que nem mesmo tem conhecimento de teoria do poker ganha a mão.

Bem, você já deve ter ficado muito puto da cara com isso, e até se sentido injustiçado, mas afinal o ponto principal dessa discussão é exatamente esse, pois o fato de estar favorito numa mão não significa que você vai vencê-la. A probabilidade é somente uma representação teórica que demonstra a incidência de determinada ocorrência. Ela não faz “justiça” e nem te faz merecedor de vencer uma mão, simples assim. Fato é que muito jogador, pautado no jogo lógico e matemático não se conforma com as derrotas ocasionadas por situações onde o adversário está underdog e acaba vencendo. Se basear apenas e exclusivamente na matemática dá uma falsa noção de domínio do jogo e acaba por pautar suas conclusões acerca de como se deve jogar, sem levar em consideração os aspectos emocionais e situacionais presentes a todo o momento em cada decisão e mão jogada.

Chega de mimimi, ou você escolhe usar a probabilidade a seu favor e arrisca enfiar ficha no jogador que está buscando o flush até o river, ou você controla o pote para perder menos se ele acertar, pois sabe como é o padrão de jogo dele. O curioso é ver o jogador matemático/lógico reclamar da baralhada num estado febril de descontrole emocional, sendo que supostamente seu ponto forte seria exatamente ter controle emocional. Não faz sentido aplicar uma abordagem matemática à jogadores não teóricos e gamblers, e se você frequentemente compromete grande parte, senão todo, o seu stack numa mão porque tem  um bom par ou similar, é bom observar seu jogo e tentar diversas maneiras diferentes de jogar essa mão, identificando onde estão seus leaks e buscando um método de contra-jogo para esse tipo de adversário.

Sem perceber os próprios erros, muitos jogadores de poker procuram um motivo externo para dar vazão as derrotas, creditando ao azar ou a suposta forma errada que o adversário jogou, o amargo resultado negativo. Mas, não se preocupe, isso é um recurso de defesa natural do ser humano, só não vale ficar nessa sempre, pois ficar puto é normal, mas experimentar o poker carregando esse entendimento, só traz prejuízos a você mesmo, e vai ocasionar uma estagnada no seu método de jogo, deixando-o condicionado. Se você perdeu por azar, mas jogou bem, não há motivo aparente para se preocupar, embora muitas vezes seja uma merda, e determinada oportunidade seja única (digamos que você está na bolha da mesa final do ME da WSOP), elevar e enaltecer a falta de sorte, só significa que sua visão do poker é similar a de um jogo de azar.

Jogadores profissionais e os que estudam o jogo trabalham sua expectativa de ganho num período de tempo suficiente para ter uma amostragem apurada, e poderem analisar suas falhas e consertá-las. Pergunte a qualquer bom jogador de poker se ele fica verificando, ou sabe a frequência de vezes que seu par de bicudos foi quebrado pra justificar seu tremendo azar? Aposto que ele está tentando ver uma melhor forma de jogar AA do que ficar preocupado com isso.

Concluindo, deixe um pouco de lado a justiça aparente das probabilidades, e comece a trabalhar a cabeça para aguentar o tranco quando a baralhada vier, e aprenda a perder, pois isso vai te dar subsídios para não tiltar no meio do caminho.

 

Foto: Michael Avory/Shutterstock. Publicado originalmente em Pokerdicas