A distopia do poker

Enquanto as cartas do flop são dispostas sobre o feltro, um pequeno feixe de raios laser atinge o bordo ressaltando a silhueta dos naipes, um painel holográfico flutua sobre a mesa mostrando aos espectadores estatísticas em tempo real. Um dos jogadores arremessa um punhado de fichas, que ao passarem pela linha de apostas são imediatamente contabilizadas, pois microchips nanométricos no interior das fichas permitem a leitura dos valores, dispostos prontamente no painel flutuante. A era da tecnologia está em seu ápice e faz do poker um espetáculo visual para além do próprio jogo.

É a feature table do Main Event da nonagésima edição da World Series of Poker, que traz uma novidade em relação aos anos anteriores. A falta de prestígio do tradicional torneio entre humanos precisava de um incremento tecnológico ao mesmo tempo que queria ressaltar as características humanas no jogo, e para tanto, os mesmos nanochips das fichas foram colocados dentro das cartas, de forma que fica possível saber a sequência das que serão distribuídas, queimadas e abertas antes mesmo do início da mão. Tal recurso pode ser visualizado apenas pelos espectadores através de uma espécie de aplicativo de celular chamado Fate.

Para quem assiste ao espetáculo sabendo antecipadamente bordo, queimas e mãos dos jogadores, a expectativa acaba sendo por ver de que forma cada um vai lidar com a situação, como vai escapar, extrair valor, como se comporta, que tipo de loucura vai fazer estando drawing dead.

Embora Fate tenha chamado certa atenção, ele não foi suficiente para recuperar o prestígio do tradicional ME de jogadores de carne e osso, afinal numa sociedade tão tecnologicamente avançada, o momento maior da Série estava reservado para o evento #100, o derradeiro, um torneio de autômatos que disputam entre si o bracelete de campeão e onde a cada corte do baralho, duas dezenas de bordos são batidos numa mesa digital a cada mão jogada. É muito mais ação, os organizadores dizem, mais bads, mais velocidade, mais mãos por hora, mais tecnologia, mais show…

O recém lançado super-robô Oedipus, embora estreante, era o favorito para ganhar o Evento #100 da WSOP, e tem uma história peculiar. Oedipus é a junção de dois dos mais poderosos softwares de jogo, King, o robô norte-americano desenvolvido para ser imbatível, e Iokaste, que é o maior banco de dados de mãos da história do poker, fruto de um consórcio de empresas alemãs que detém o armazenamento de todas as mãos jogadas em todas as plataformas de poker online desde o início do século. Mas há um porém, a empresa Oracle, desenvolvedora de Fate, prestou um tipo de consultoria alertando a equipe de Oedipus que um erro relacional em suas linhas de código poderia fazer com que ele destruísse seu predecessor King e na sequência incorporasse Iokaste, além de apresentar possivelmente algum tipo de defeito se permanecesse em rede por um longo período. Sem considerar isso como um problema e no afã de ganhar a competição, a equipe que desenvolvera Oedipus o retirou da rede para concluir os trabalhos.

Jogando 12 horas por dia em rede, Oedipus não corria o risco de apresentar o problema descrito pela consultoria, e como favorito, não encontrou barreiras para passar pelos sete primeiros dias de disputa, alcançando a mesa final líder em fichas. Na FT, a supremacia do super-robô ficou evidente, Oedipus eliminou um a um de seus adversários e após quase duas dezenas de horas o torneio se afunilou e seu rival no heads-up final era o programa americano King. Fatalmente o destino se realiza, em rede por um longo período, e confrontando o robô que serviu de base para sua criação, Oedipus processa as jogadas com tamanha velocidade que provoca um curto circuito em King, destruindo-o.

Oedipus é declarado vencedor, mas só receberá o bracelete se derrotar o campeão do ano anterior alguns meses depois, em Novembro, concomitantemente a disputa do November Nine. Nesse meio tempo a equipe de Oedipus o coloca em diversas simulações de jogo, e aproveita o recém concluído banco de dados coletado de Fate para incrementar sua capacidade de leitura do jogo. Frente a essas informações, o super-robô começa a entender e simular o comportamento humano considerando o blefe para além de um cálculo previsto, ou seja, Oedipus aprende a blefar como humanos, mesmo quando a situação matemática não favorece a jogada. Basicamente, ele começa a usar o blefe mais frequentemente, como recurso para reverter spots desfavoráveis.

Na data da final mano a mano, ou bit a bit, Oedipus enfrenta o enigmático robô Sphinx, último campeão e conhecido por apresentar jogadas fora dos padrões, overbetando muitos potes e fazendo com que seus adversários tenham que arriscar todo seu stack na quase totalidade das mãos. Mas logo nas primeiras mãos Oedipus mostra ao que veio, e interpretando a estrutura das overbets de Sphinx, constrói um contra-ataque específico para cada um dos 20 bordos que a mesa digital ofereceu, mesclando mais blefes às jogadas. Sem conseguir assimilar as respostas, Sphinx entra em colapso, se autodestruindo.

Oedipus ganha seu bracelete e o consórcio alemão decide que Iokaste deve se juntar ao vencedor, sendo incorporada a Oedipus e consolidando o maior supercomputador da história. Mas a previsão de Oracle se realiza, o defeito previsto pelos consultores acontece e Oedipus fica “cego”, ou seja, não consegue diferenciar mais seus adversários autômatos dos humanos, e como o super-robô foi desenvolvido para o jogo tendo como premissa a eliminação dos adversários, acabou reproduzindo o comportamento das competições para caçar a espécie humana, entendendo-a como seu adversário mais direto. Tal qual a pirâmide muito conhecida no poker, a humanidade foi subjugada pelas máquinas, aliás por uma rede de máquinas comandada por Oedipus, o robô que aprendeu a blefar, que aprendeu o comportamento humano.

No November Nine do ano 2.059 a inteligência artificial tomou o lugar dos humanos, exatos 200 anos após a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, comprovando que não é o jogo matemático e inexplorável que vence, mas o jogo que se adapta.

 

Imagem: Grande Esfinge de Tanis no Museu do Louvre (Naccarato)

A última rua na última street de um poker imaginado

A noite de jogatina já era um passado recente, e na memória restava a lembrança de algumas apostas mal feitas nas últimas oito ininterruptas horas. No trajeto entre o clube e sua não muito confortável cama, a mente permanecia remoendo cada carta que não virou grana, cada flop desconexo, o par de folds com par na mão que dariam um bom pote. Como consolo, a mente trabalhava num mundo imaginado em que cada aposta dava certo.

A única coisa que o trazia para realidade era a lua, grande e encardida no final da madrugada, que parecia pesada demais e ameaçava tocar a linha do horizonte, insistindo em aparecer bem em frente ao carro a cada virada do volante. Uma surpresa não surpreendente, afinal, ele sabia que ela estaria lá, mas nunca de onde viria. A lua era sua ligação com o real, lembrando-o sobre o mundo ao redor.

Sem a visão da lua, a mente retornava ao poker imaginado, mas na longa via expressa, a velocidade constante e o sono o deixaram em transe, até que em determinado momento, real e imaginado tornaram-se uma coisa só, a lua no horizonte se parecia com um ás, o asfalto era verde como o feltro, as placas de sinalização eram fichas, cada qual com cor e valor diferentes. A aposta não feita era uma brecada, piscar o farol era um tell, uma buzinada informava a mudança de blinds.

Na nova realidade, um tipo de ilusão consciente, cada uma das vielas que sucediam a via expressa se tornavam uma mão jogada, em cada esquina dobrada um novo flop, a cada lua, um ás no turn. Numa dessas esquinas, um homem alto, terno preto e sorriso branco, chapéu e mala, desce a rua sem perceber o carro. A visão impactante e incomum confunde a cabeça, mas se tratava da mão final, era o dealer, que acenou segurando a ponta do chapéu.

Ele foi all in com velocidade, o bet foi maior do que a placa indicava, o feltro já era escuro como asfalto, e o impacto do river transformou o bordo de espadas, em copas, tudo vermelho e cruel. Foi assim, frente a chance de recuperar tudo que havia perdido, a aposta na ilusão foi sua última, o jogo havia acabado pra ele.

 

Imagem: Shutterstock/Pan Xunbin

A variância da rotina

Nas altas horas, suando nos flips, o barulho irritante do tempo esgotando, o café já frio, o clique que escapa e dá call, o ferro que insiste em permanecer, o bet no draw, o check no redraw, fold. Cinco minutos para o banheiro, pensando no fold errado, o piranha na canhota que não pára de dar 3-bet, busca no OPR, turn blank, leva dois outs, pára de registrar, lamenta e dá call. Repete a música, deixando em looping, e o teclado recebendo o café frio, puta que o pariu! Pega um pano e folda KK, quatro telas piscando, chega a tempo de dar all in, é lixo mas segura. A manhã já dá as caras, um flush vermelho, aquele pote, aquela hora, puxa, faz tudo de novo, diferente.

O velho Bill’s e o poker fé

O Bill’s Gamblin’ Hall and Saloon era um dos cassinos mais chulés da Las Vegas Boulevard, que é a principal avenida de Las Vegas, também chamada e notória pelo apelido “The Strip”. É na Strip que estão todos os monumentais e conhecidos cassinos da cidade, como Bellagio, Wynn, Caesars Palace, Mirage e Aria. Bem, esse não era o caso do Bill’s. O pequeno hotel-cassino cheio de beberrões tinha a seu favor uma localização privilegiada, pois ficava entre o Bally’s e o Flamingo, de frente para o Caesars, e na diagonal do Bellagio, e tinha os jogos mais baratos da cidade, além do clima de festa constante. Ou seja, ninguém atravessava suas portas procurando uma atmosfera de seriedade, as pessoas estavam ali pra encher a cara, se divertir e apostar, e talvez isso o tornava um lugar cafona e cult ao mesmo tempo.

Lá você achava facilmente a Blue Moon, a breja de trigo dos baralhões servida com uma rodela de laranja, Coronas à dois dólares, steak com dois ovos por cinco dólares e fichas de um dólar bem legais. Além do mais, o Bill’s tinha herdado do recém fechado O’Shea’s, algumas atrações, como o Beer Pong (ping-pong com copos de cerveja), o anão que era mestre de cerimônia, e seu público cativo.

Antes dos dois anos que precederam seu fechamento em fevereiro de 2013, a área reservada para o poker consistia em apenas três mesas à beira da entrada, mas depois do crescimento dos torneios diários na cidade, o Bill’s resolveu separar uma área maior ao lado do espaço de apostas esportivas, e além dos cinco torneios diários com buy in de 30 pratas, o cassino tinha as mesas de cash mais baratas da Strip, com blefes e flushes em blinds 50¢/$1.

Os jackpots que a poker room oferecia das oito até meio-dia resultavam em pelo menos uma ou duas mesas cheias de velhotes pela manhã. Havia bônus para royal, straight flush, quadra e Aces Cracked. Este último o mais buscado e esperado. É simples, bastava receber o par de bicudos, fazer um slowplay dos bons torcendo para o adversário melhorar a mão e, bingo! Cem dólares a mais na conta se você perdesse o pote, desde que ele tivesse no mínimo 10 dólares. Na primeira semana da minha quarta temporada na cidade, decidi bater cartão no Bill’s pela manhã, mais por conta do field fácil do que pelos jackpots. Nos dois primeiros dias encontrei mesas sem ação, com jogadores entrando com cacifes de apenas 30 dólares e exclusivamente esperando terem seus ases quebrados num festival de limpers que mais parecia um boicote ao jogo. No terceiro dia consegui um feito nada agradável, e me tornei persona non grata nesta poker room, eliminando dois jogadores em doze minutos e fazendo com que os outros mudassem de mesa. Desisti de jogar lá de manhã, e só um fato me fez voltar, mas dessa vez na tarde do dia seguinte.

No quarto dia, após uma queda prematura no torneio das 16 horas do Bally’s, o cassino vizinho, entrei no Bill’s pra fugir do calor desértico das ruas e cortar caminho até o Flamingo, onde estava hospedado. Numa passadela até a poker room, fiquei olhando as mesas de cash, e lá estava ele sentado e espalhado pela mesa, com várias pilhas de fichas desarrumadas de cinco dólares e com um enorme sorriso estampado na fuça para desespero dos adversários. Era um velhote gorducho, vestindo uma camisa de time de futebol americano, que atendia pelo nome de Mister Brown.

Nosso amigo, o Sr. Brown, era um caixa eletrônico, e tinha um método apurado para jogar o cash do Bill’s. Ele entrava com o valor máximo permitido na mesa e nunca abria raise, limpando a maioria dos potes, mesmo quando tinha valor nas mãos, e se algum adversário tratasse de aumentar, ele remediava apenas dando call. Seu range parecia ser mais amplo do que as 169 combinações de duas cartas iniciais possíveis do hold’em, jogando com quaisquer cartas naipadas, qualquer par, qualquer broadway, quaisquer duas cartas que somadas cheguem a 8… Enfim, acho que deu pra entender não?

Outro aspecto da sua tática era dar call em todas as streets, bastava ele estar na mão e pintar um draw no flop que o Sr. Brown iria buscar até o final, sem qualquer cerimônia. Como resultado, ele perdia boas quantias na maioria dos potes, e prontamente recarregava o stack. O único problema era quando ele acertava. Como compensação em perder 4 ou 5 potes seguidos de 40 ou 50 dólares, ele puxava logo umas duzentas pratas pra pilha quando seu flush quebrava trincas e sequências dos adversários, ou quando saia com pares de Ás e Reis em algumas mãos.

De hora em hora, o Sr. Brown sacava da mesa jogadores inconformados, amedrontados e tiltados, para a alegria dos dealers que eram recompensados justamente pelos poucos outs que ele acertava no river. E que poker room não gostaria de um desses na mesa, não? Fichas e mais fichas de rake a cada minuto fizeram o Sr. Brown ganhar uma garçonete quase que exclusiva, pronta para atendê-lo em qualquer pedido. Se eu tivesse que descrever o Sr. Brown pra alguém, eu diria simplesmente que ele é um cara com uma característica peculiar, pois quando está numa mão, buscando seu flush, seu olhos brilham. Ele joga poker fé, ele joga roleta na mesa de poker, e está lá exclusivamente pela descarga química que percorre seu cérebro e vai até a ponta de seus dedos.

O Sr. Brown, nesses extremos, só existe como representação literária. Ele é a junção de todos aqueles gamblers com os quais você se depara nos feltros. Ele é um exemplo de todas as vezes que você tomou baralhada. Ele é aquele cara que muitos dizem ter sorte, e se perguntam entre si — Mas você viu como ele acerta? Que conta mais regulada! Para ganhar do Sr. Brown você tem que vencê-lo em sua mente primeiro, aceitando que ganhar e perder potes faz parte do jogo. O esforço em entendê-lo só faz sentido se você quer aprimorar seu jogo, e entender que ganhar um pote não significa jogar bem, afinal, jogar bem vai além do resultado.

De volta à São Paulo, numa madrugada de terça-feira, os últimos remanescentes no salão do clube que jogo, decidiram fazer uma rodada de poker fé, algo digamos mais saudável do que ocorria nas mesas com o Sr. Brown, onde você casa uma ficha por órbita e o dealer distribui as cartas dos jogadores abertas, e depois bate flop, turn e river pra ver o baralho fazer graça, enquanto todos torcem por seus outs até o river.

 

Reeditado do original em Aprendendo Poker. Foto: M. Naccarato

Entre as últimas streets

Era tarde, madrugada longa no pano sob um silêncio confortável entre os jogadores à mesa, onde dava para se ouvir o barulho das cartas a cada flop. No entanto, para ele, o poker já era desconfortável, já não valia a pena. Ele não estava mais pelo jogo, não havia nada que provocasse nele qualquer tipo de sentimento ou pensamento mais elaborado. Todo o lado negativo da rotina era o todo que somente ele percebia.

Ele dividia os jogadores em três tipos, os que não percebem o quanto o poker ficou técnico, e por isso se divertem; os que percebem e por isso mesmo acham fascinante; e os desiludidos, com os quais ele mais se identificava. Tal desilusão o afastava, já há algum tempo, de qualquer propósito maior, fazendo com que uma melancolia interna vencesse sua vontade. Foi aos poucos, e como num conta gotas, encheu.

Era tarde, a vida estava chata, achatada, sem perspectivas, e o jogo havia se tornado obrigação, e em seu sentido estéril havia se tornado sem sentido. A vida é um jogo, dizem, e para ele, o jogo era, apesar de tudo, a vida que lhe restava.

Quando o bordo todo em preto mostrava no turn dois ases e dois oitos assentados no pano rubro, ele enfim percebeu, ele sabia o que estava acontecendo, sabia o porquê. Era a vida que lhe restava, mas era tarde. E no mais profundo silêncio, sem ao menos o barulho do baralho, ele ficou imóvel de repente, sentado, segurando um ás, vermelho sangue, a primeira e última carta do baralho, a derradeira do bordo que não teve fim. Os jogadores demoraram um pouco a perceber, o river levou um tempo maior que o normal, só por isso notaram o dealer, que morreu em silêncio, entre as últimas streets, sem bater a última carta.

Pra ele, um dealer cansado de gastar as mãos no feltro, aquela mão nunca terminou, foi o jogo que o libertou do martírio de estar tão perto do jogo e não jogar.

 

Imagem: Shutterstock (editada)