PosRiver Podcast leva o poker ao pé do ouvido

PosRiver é o nome da mais nova e interessante iniciativa do poker nesse ano. Eduardo Dutra, Moll Orso, Lucas Adami e Vinicius Bellebone lançaram no final de fevereiro um podcast de poker que mistura informação, assuntos pertinentes e humor, e tem apoio do Ypiranga Texas Club, de Porto Alegre.

Ainda sem nome, o programa piloto foi transmitido ao vivo em 24 de fevereiro e foi muito bem recebido pela comunidade do poker, onde foram abordados os temas Times de Poker e Postura dos jogadores nos jogos ao vivo. A primeira edição oficial, já batizada de PosRiver Podcast, estreou em 5 de março e teve a presença do convidado Carlos “Caju” Zago, profissional especialista em mesas limit, e o tema escolhido foi MTT vs. Cash Game. Segundo Eduardo Dutra, integrante e idealizador do podcast, as próximas edições serão gravadas e editadas, e não mais transmitidas em tempo real.

A intenção do grupo, que é composto por jogadores online e diretores de torneio, é abordar os diversos temas do quotidiano dos jogadores, e discutir abertamente questões pouco faladas na mídia tradicional de poker. O PosRiver tem um tópico oficial no fórum MaisEV, que você pode acessar aqui para mandar sugestões e críticas. Abaixo você pode conferir o programa piloto e a primeira edição.

PosRiver Podcast #1 (Piloto)

PosRiver Podcast #2 (Cash Game vs. MTT)

Fonte: MaisEV, canal do YouTube do Ypiranga TV e Eduardo Dutra.

Revir ao river

Era o tipo de cara que reclamava de tudo, o tipo de cara que tinha sorte, mas somente sorte no azar.

 

Caiu, e saiu chutando cadeira. Estava puto, xingou o oponente depois de perder a mão, como se a culpa fosse do outro, como se fosse possível achar culpados, como se adiantasse alguma coisa. Reclamou com o adversário, pois não entendia como alguém podia ficar tanto tempo pensando em dar call com uma trinca num bordo como aquele. Ele tinha dado all in no river, quando seu Ás formou mais um par na última street. Antes disso, ele betou sua segunda barreira no turn, que trouxe uma dama, tentando levar o pote ali mesmo com top pair/top kicker.

Na street anterior, ficou olhando para o flop, seco e sem draws, mas antes disso, ele tomou call de um oponente, apostou tendo acertado nada, mas depois do check de todos, achou que estava à frente e saiu disparando meio pote. Foi uma aposta estranha, com duas pilhas grandes de fichas de menor valor. O jogador no SB desconfiou, foi de check/call, mas parecia esconder algo na manga.

Antes disso, o jogador mais agressivo da mesa, que estava abrindo e aumentando todos os potes, deu fold no cut off. E nosso parceiro reclamão tinha escolhido limpar seu AQ, na tentativa de pegar no pulo o agressivo da sua canhota, mas assistiu outros dois jogadores dando call na sequência. Foi o pior que podia acontecer pra ele, sua tática não havia funcionado, e ele já estava pensando quanto iria apostar no flop.

Mas ele tinha ficado feliz quando recebeu suas cartas, Ás e Dama, naipados, de ouros, no hijack. Ele pensou “até que enfim”, quando filou a primeira carta e viu o bicudo, e devagar foi revelando a outra carta. Ele só tinha tomado bad até então, só queria puxar um pote… não aguentava mais levar ferro. Antes de receber sua mão, ele pensou, “agora é tudo ou nada”.

Nosso outro parceiro, um jogador tight, controlado no falar, no gestual, na forma de jogar, tinha notado o nervosismo desse jogador. Pensou sobre como o jogo nos afeta, como cada um reage, como de repente o poker nos prega uma peça. Quando olhou pra baixo, tinha recebido um par de três, e completou o small.

O dealer manda um flop preto, duas de paus e uma espadas, mas para sua surpresa, a de espadas era um três. Ele tentou não dar tell, deu check rapidamente, e viu o reclamão apostar com um monte de fichas de 100 e 25. Ele estranhou, pensou um pouco, podia ser flush draw, mas parecia ser nada, mesmo assim só pagou.

No turn, uma dama de copas, e o bordo estava ficando complicado, a chance do flush na última carta e agora um straight draw. Mas ele era tight demais pra tomar alguma iniciativa, e optou pelo check novamente. Ficou pensando, “que tipo de bunda mole eu sou, com uma trinca na mão e dou mesa?!”. Viu o adversário betar de novo, quase que o valor do pote, com raiva, encarando. Respirou fundo e deu call.

Ás de espadas no river. Ele finalmente tomou coragem, mas apostou um valor muito baixo, como se estivesse com medo, uma horrível aposta por informação num momento ruim. E o reclamão estufa o peito, pergunta “donk bet?” e vai all in. Ele pensa no straight, pensa numa trinca maior, pensa demais. Um jogador pede tempo, e na pressão do momento ele lembra que o cara tinha apenas limpado, e dá call.

E antes de tudo isso, eles tinham decidido jogar poker. Um jogo de escolhas, um jogo de interação.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker

Don’t tell anyone

Cinco horas antes dessa FT no Aria, percebi um tell que me acompanha nos últimos 10 anos.

 

São Paulo, sala de reunião, fevereiro de 2003
As três da matina finalmente percebi o que significava aquela aposta. Não exatamente pelo valor, que variava conforme o pote, mas exatamente pelo movimento que o adversário fazia.
Éramos quatro bêbados numa mesa do escritório jogando um mixed poker de inúmeros formatos, ora o tradicional poker fechado (5-card draw), ora um texas hold’em inventado, onde as cartas são dispostas em formato de cruz na mesa, e você pode combinar suas duas cartas da mão com a linha vertical ou horizontal do bordo, ou ainda mover as cartas das pontas pra formar uma mão melhor. Explico, o flop é dado na vertical, turn na esquerda e river na direta, e quando o bordo está completo com as 5 cartas, é possível mover turn e river para cima ou para baixo para formar um linha horizontal e completar seu jogo, ou ainda mover a primeira e terceira cartas do flop para qualquer um dos lados, e montar um jogo nas linhas verticais (nem me pergunte quem inventou isso…)

Outra variante era o comedor de fichas chamado “parol”, onde eram abertas na mesa 9 cartas ao total, respeitando a configuração de 3 cartas na largura por 3 cartas na altura, com rodadas de apostas em cada uma dessas aberturas. Se não bastasse, a cada carta disposta no bordo, os jogadores envolvidos na mão poderiam optar por manter a carta ou trocá-la por uma nova, verbalizando “passar” quando o desejo era manter a carta, e “parol” quando a opção era a troca. As trocas somente eram efetuadas em consenso, e bastava um dos jogadores “passar” para que ela não fosse feita.

Bem, eu já tinha perdido 60 pratas nessa brincadeira (o equivalente a 6 cacifes), quando me liguei na jogada que o japonês baixinho fazia todas as vezes em que três cartas do mesmo naipe pintavam na mesa. Como quem estava no botão escolhia o jogo da rodada, a sacada dele foi sempre optar pelas variações de poker aberto que traziam muitos draws, para poder roubar os potes fingindo ter um flush.  Estava muito fácil pra ele numa mesa inexperiente, mas numa dessas investidas, ele apostou arremeçando as fichas com o braço esticado, e com um cuidado estratégico de deixar todos os valores de cada uma bem aparentes, numa linha reta de fichas que terminava bem na minha frente, com a de maior valor em cima.

Achei estranho, e paguei pra ver com um parzinho safado. O japa, meio puto da cara, nem mostrou as cartas, muckou, levantou e foi direto ao frigobar, pegou um gelada, bateu a porta e gritou, ­­— Vamos mudar pra poker fechado!

São Paulo, bairro da Mooca, setembro de 2009
Não era exatamente um clube de poker, mas nesse bilhar rolava um torneio de hold’em de buy in barato nas três mesas disponíveis ao lado do caixa. As mesas foram fabricadas pelo próprio dono do lugar, redondas e sem bordas para apoiar os braços. São as mesas de tranca e caxeta, que os coroas surram pela noite toda até sobrar um campeão. Por conta do formato, davam uma visão melhor dos adversários, mas em compensação essas mesas esfolavam seu par de antebraços, por conta do feltro áspero e gasto aproveitado das mesas de snooker do lugar.

Dessa vez, já na FT, quem fez a macaquice fui eu, arremeçando com o braço estirado minhas fichas em all in, num flop pareado, segurando apenas Ace high. O adversário, um libanês de jogo técnico e apurado, armou a cama certinho dando call no meu raise pré flop, e chamando o estouro no flop, segurando um par de damas na mão. No turn ele solta uma falinha, no river quem ri sou eu com o Ás implacável. O brimo saiu puto, chutando cadeira, praguejando…

Punta del Este, Cassino Conrad, outubro de 2009
Não importa em que canto do mundo você esteja, nunca é raro encontrar um brasileiro. Claro, o Uruguai é logo ao lado, mas é engraçado achar um brazuca na sua canhota, numa mesa de torneio na poker room do Conrad. Era um coroa sorridente e falante, que puxou um cigarro amassado do bolso da camisa, e colocou na boca sem acendê-lo, no melhor estilo Sam Farha. Estava orgulhoso de ter guardado o último deles após ter parado de fumar há alguns anos, e só levava o amuleto para as mesas de poker em ocasiões especiais.

O torneio de cem dólares e 15 minutos de blinds, tradicional das terças-feiras, tinha rebuys ilimitados até o quarto nível, e uma parceirada disposta a enfiar ficha até secar a carteira. Não era o meu caso, mas nosso clone de Sammy Farha, numa noite especial, foi levado pelo movimento da mesa e se empolgou um pouco, tentando passar um blefe em cima de mim jogando as fichas com o medonho braço esticado…

Las Vegas, WSOP, junho de 2012
Parei por bons minutos bem próximo à mesa de um dos eventos da série, pra ver ali debaixo do meu nariz o monstro do nosso joguinho, Caio Pimenta, lotado de fichas e dominando a ação na mesa. Numa dessas, ele se envolveu numa mão com raises e reraises até o river. Com o bordo completo, ele puxou um montante considerável de fichas e arremessou sua aposta de um jeito desproporcional, mais para o alto do que de costume, espalhando as fichas no meio da mesa, sem deixar nenhuma escapar, e com uma tremenda cara de desfaçatez.

O adversário fez cara de bunda, e enquanto deliberava o call, muita gente no railbird entrou na frente para assistir ao desfecho da mão. Não consegui ver o que rolou, mas quando o pessoal abriu espaço, pude ver um dos jogadores perguntando ao outro — Você realmente não sabe quem é ele?!

Las Vegas, Cassino Aria, junho de 2012
Alguns dias depois, fui pro pano no torneio das sete da noite do Aria, um dos mais novos e maneiros cassinos da Strip. Numa mesa de cash ao lado, o mesmo profissional que me fatiou no evento #44 da WSOP daquele ano estava jogando solto, com algumas pilhas enormes de fichas de cinco e vinte e cinco dólares. Foldei minha mão e numa olhada rápida para a mesa dele, o vi arremeçando as fichas no pote, tal qual somente os profissionais fazem, tal qual Caio Pimenta.

Moral da história
O melhor tell é aquele que só você percebe, e seu adversário não tem a mínima ideia que está cometendo. Nunca valorize demais um tell, e também nunca menospreze, apenas coloque-o na equação que vai te ajudar a fazer a melhor escolha, pois um tell isolado do raciocínio da mão pode te dar uma leitura errada. Se você se dedicar, estudar e praticar muito, seu jogo vai evoluir, pois o caminho é sempre o mesmo, apanhar no começo, aprender e aplicar, incorporar e quando você acha que sabe, pinta uma coisa nova pra começar o ciclo novamente.

Se você não gostou, don’t tell anyone. Se gostou, idem, mas não dê tell pra ninguém, ou pelo menos, não exatamente este que insiste em me perseguir e eu insisto em não entendê-lo, desde quando eu nem mesmo entendia o mínimo desse joguinho.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker