Campeão na canhota

Depois de uma década fazendo viagens para Las Vegas na mesma época do ano, você começa a reencontrar com certa frequência alguns personagens, gente que visita os cassinos e aproveita as atrações da cidade, e claro, aqueles que trabalham para que tudo isso aconteça. Assim, o ambiente começa a se tornar familiar, a cada ano pode-se testemunhar os dealers envelhecendo, o costumeiro jeito das garçonetes (e o mau humor de uma ou duas), e ser reconhecido pelo diretor de torneio, que foi de dealer à floorman e agora comanda a sala.

Mas, jogadores são sempre mais interessantes, prato cheio para boas histórias, afinal, os que se envolvem em jogar, de certa maneira têm um tipo de predisposição a serem conduzidos pelo jogo, pois se colocam precisamente “em jogo”. Embora pareça algo abstrato demais, creio que essa abertura, esse deixar-se levar pelo jogo, faz com que o jogador deixe escapar algo de singular sobre si afora a própria maneira de jogar.

Essa característica não fica tão estranha se apresentada assim: num jogo como o poker, onde todos estão tentando não transparecer nervosismos e emoções variadas, deixar escapar no comportamento algo assim pode significar um tell e um bocado de fichas a menos.

Pois bem, numa dessas viagens para Vegas conheci um sujeito dos mais peculiares, que reencontrei algumas vezes, e ele deixava escapar de tudo. Cabelos grisalhos quase brancos e sempre desarrumados; um relógio de pulso todo colorido que parecia de brinquedo, daqueles que a criançada ganha em quermesse; dois pares de óculos, ora um no rosto e um dependurado; e maneirismos dos mais diferentes, do jeito de arrumar as fichas até a forma de apostá-las. Sem falar nas anotações constantes que fazia num bloco de papel amassado.

Esse velhote me chamou a atenção, conversava com todos da mesa, seu sorriso fácil tinha um dente pra cada lado e alguns faltando, e tinha a mania de mordiscar a própria língua enquanto pensava nas jogadas. O conjunto ajudava a construir uma imagem das mais interessantes que já vi ao longo dos anos no poker, jogador tem de tudo quanto é jeito, mas esse sujeito era entusiasmado e estava se divertindo como ninguém na mesa, totalmente oposto ao estereótipo do jovem jogador online que mete o fone de ouvido e joga poker como se estivesse apostando a própria vida.

Em certo momento o velhote se envolveu em raises e reraises e chumbou tudo com um par de duques, de um jeito meio estabanado, pois entrou na onda do adversário que lhe puxou todas as fichas numa mesa $1/$2 cheia de bêbados, incluindo-me, claro. Perdeu a mão, disse “quack, quack!” e levantou-se. A maior parte da parceirada debochou um pouco da jogada, mas um deles avisou: esse senhor é um gênio, escreveu até livro.

Vou partir do seguinte pressuposto, gente interessante normalmente é interessada, e isso não é clichê nenhum. Noutro ano, época de WSOP, encontrei numa tarde o mesmo velhote, fincado numa mesa $1/$2 do Bally’s. Sentei ao seu lado, ele me cumprimentou e lembrei dele no ato. Jogamos algumas mãos, ele continuava repetindo o mantra “quack, quack!”, e dessa vez me ouviu conversando com um amigo em português e ficou intrigado:

– Que língua vocês estão falando? Romeno?
– Não, falamos em português.
– Mas soa tão diferente de português!
– É que somos brasileiros.
Awesome!

Por horas, conversamos sobre algumas mãos e línguas originárias do latim. Quando saí da mesa, ele me avisou que estaria ali no dia seguinte no mesmo horário, e poderíamos continuar o bom papo. Nunca imaginei que o campeão mundial de gamão de 1978 tinha jogado poker na minha canhota por uma tarde toda. Paul Magriel faleceu no começo desse mês, nos deixou o conceito de M do poker, e mudou o jogo de gamão com seu livro. Pena mesmo vai ser não revê-lo nesses encontros casuais para continuar o bom papo.

 

Imagem: Kajura/Shutterstock.com. Fontes: PokerPT.com, Pokernews, CardPlayer.

Crônica de uma noite estrelada

A última etapa do XXIV campeonato de Texas Hold’em organizado pelo clube ADT, que congrega grandes jogadores da modalidade, foi concluída na madrugada do dia 15 de novembro de 2017. Acirradíssima, a final contava com cinco jogadores em condições de vencer o campeonato, sendo que a diferença entre os três primeiros colocados estava em míseros 15 pontos (valor que qualquer jogador que participe da etapa já pontua).

Venci a etapa e o campeonato, o primeiro em minha trajetória no clube. Após três campeonatos consecutivos amargurando segundos e terceiros lugares consegui erguer, finalmente, o troféu de campeão. Entretanto, a construção da vitória não foi no dia 15, mas sim uma semana antes, quando se revelaram os jogadores aptos na última etapa a conquistar o campeonato. Como liderava o ranking por uma diferença mínima, tracei minha estratégia durante a semana, simulando posições, número de participantes, mãos com jogabilidade, e de quais jogadores devia me defender.

A vitória foi consequência de estudos, e não pela sorte que alguns atribuem. Embora tenha construído a liderança com um bom pôquer durante as etapas, não me descuidei em lembrar das boas e más jogadas, reler os posts e analisar os áudios de nosso grupo de estudos no WhatsApp, e sobretudo dos debates entre os colegas sobre as análises de mãos. Bem verdade, que como todo jogo de cartas, por definição, o pôquer tem um componente de sorte, caso contrário a vantagem matemática sempre prevaleceria. A imprevisibilidade e a jogabilidade fazem com que este jogo seja, talvez, o jogo que mais valorize a técnica, tática, análise de riscos e sobre o controle psicoemocional.

Talvez, neste contexto psicológico é que se desenhou minha conquista: O estudo minucioso e holístico (matemática, psicologia, economia, algoritmos, entre outros) que propicia ao jogador segurança e estabilidade. Por isto, é fundamental estudar os textos, áudios, vídeos e treinamentos disponíveis em livros ou na internet. Além disso, o coaching, seja entre grupos de jogadores (como no nosso caso) ou profissionais, e a troca de experiências.

O caminho para a vitória foi desenhado durante as 14 etapas preliminares, minha evolução no estudo do esporte e o estudo específico para a batalha na última etapa. Verdade também que liderava o ranking e sabia o que era necessário fazer para obter a vitória: permanecer na mesa até que os concorrentes fossem derrotados. Ligeira vantagem, porém, crucial para aplicação da minha técnica. A noite derradeira iniciou-se no sorteio da minha posição na mesa. Sabia, pelas minhas simulações, que de todas, a sorteada era a que mais me favorecia. Sorte.

Primeira mão: QQ. Soube lidar com esta mão extraindo um bom pote. Talvez o máximo possível.

Segunda mão: KK. Também puxei um bom número de fichas.

Claro que isto não ocorreria até o final da etapa, mas como me esforcei e me preparei tanto, parecia um sinal de que: “Hoje é seu dia”. Um reforço emocional, que me confortou até a última mão.

Escolhi a posição da mesa, o valor relativo das mãos para minhas ações e com quem eu poderia jogá-las para não comprometer a etapa e consequentemente o campeonato. Um algoritmo previamente elaborado e que segui à risca. Após os sete primeiros níveis, meu stack já havia triplicado e na mesa final já tinha quase 50 blinds e era chipleader. Não havia eliminado nenhum jogador até então, não joguei nenhuma mão que me comprometesse, não usei de agressividade excessiva (que é o meu ponto forte, mas também fraco e explorável). Nenhum All In. Nenhuma mão perigosa com jogadores tecnicamente estudados e concorrentes ao título. Meu “Kernel” do algoritmo.

Algumas jogadas foram cruciais:

1. Mão de Hollywood:
Jogador short, na posição UTG+1 da all In de uns 10BBs;
Jogador em UTG+2 da call;
Jogador em MP1 estoura all In de 20BBs;
Jogador em HJ dá call por baixo.

As mãos respectivas, (TQ de ouros), (88), (KK) e (AA). Minha mão (JJ). Penso por uns cinco minutos. Será que está tudo encavalado e meu JJ é bom? Algoritmo novamente: fold.

MP1 com KK leva trincando no bordo. Ganha um jogador fora da disputa do ranking, mas vejo um concorrente direto eliminado. E se eu estivesse na posição UTG+2 e tentasse isolar? Provavelmente teria perdido muitas fichas, mas a sorte me possibilitou jogar ou não aquela situação, estava na BB. Mais um reforço emocional, embora, meu fold fosse correto.

2. Quatro jogadores, com um único oponente brigando pelo título.
Dou call de 2,5BBs com KQ no BB, do raise de um não concorrente. Bordo AK555, que foi check-call até o river. Oponente da all In. Penso uns cinco minutos, e de novo o algoritmo: fold. Oponente dá showdown cortesia com 88. Se eu desse call e ele tivesse o “A”, trocaria minha liderança em fichas com ele e comprometeria a etapa. Um grande bluff. Embora estivesse claro que eu estava ganhando, fiquei muito feliz com meu fold. O algoritmo errou, mas me deu ainda mais segurança.

3. Três jogadores.
Eu chipleader e somente um outro concorrente ao título. Mais do que nunca tinha que eliminá-lo. All In do concorrente e eu no SB com AK de paus: call. Ele mostra TQ de ouros.

Naquele momento, tamanha era minha confiança, que levantei já comemorando o título. Não podia ter bad, era meu momento, era meu destino, era minha vez.

Break antes do heads-up final, fotos, congratulações, um sorriso aberto e aliviado, e uma lágrima escondida, prestes a cair e engolida. Para os jovens é uma conquista de muitas que virão, mas para um quase quinquagenário, uma das últimas de outras que virão.

A última etapa também era especial, disputa-se o chamado Grand Prix, torneio que vale troféu, com buy in mais alto, deepstack e premiação maior. Faria eu o chamado: barba, cabelo e bigode? Sim. Depois de uma longa disputa, um call seguro e de alma de K8 de ouros contra A2 off. Nenhum Ás, e meu 8 no river. Tinha que ser assim. Na última carta de longas 15 etapas.

Chego em casa às 5:00 da manhã. Acordo todos em casa e exibo meus dois troféus, ambos escritos “CAMPEÃO”. Congratulações, fotos e alegria. Agora sim, meus três troféus de 2º e 3º lugares, já expostos no meu cantinho de conquistas, recebem o Rei e a Rainha, completando o sentido no conjunto e demonstrando minha evolução. Juntos demonstram coesão, coerência e finalidade.

Por fim, como disse anteriormente, o ADT é um grande clube de pôquer, com jogadores excepcionais. É fonte de amizades e troca de conhecimento. Arrisco aqui: O ADT é o melhor. Para finalizar, acordo durante o resto dia 15/11/2017 em um devaneio de sonho, do qual eu não me retorno, gritando: “ALL IN!!!!”

 

Imagem: ADT Poker

Sim, eu também sou viciado em pôquer

Influenciado pelo texto “Relato de um jogador de pôquer“, gostaria de compartilhar com vocês a experiência vivida por mim nos últimos dois anos. Confesso que não tenho muita paciência para escrever. Portanto, não esperem um texto cativante, bem escrito, cheio de palavras bonitas. Até porque a minha história não tem nenhum glamour.

A minha vida no pôquer começou como a de qualquer outro jogador. Era uma brincadeira em roda de amigos ali, outro jogo on-line aqui… Nada muito sério. Afinal, jamais envolveria meu próprio dinheiro a sério nisso. Leviano engano. Comigo foi tudo muito rápido. Quando dei por mim, tinha passado das rodas de amigos para os torneios baratinhos. Depois, para os torneiros mais caros. Paralelamente, como que uma consequência natural, para as mesas de cash game. Tudo isso num piscar de olhos.

Meu vício cresceu proporcionalmente com a quantidade de jogos que eu me envolvia. Era como se o torneio baratinho fosse a maconha, aquela primeira droga inofensiva. Depois, com o cash game hold’em me senti buscando um estímulo maior, como o da cocaína e, por fim, como que no auge de um vício, o cash game omaha foi o crack. Fumei e cheirei todos, sem hora, sem dia e sem parar.

Jogava todos os dias, como um sentenciado que cumpre sua pena. Abria e fechava as mesas. Os donos do jogo me amavam. As ligações de “Cadê você, meu amigo? O jogo já vai começar!”, as ofertas irresistíveis “Hoje tem aquele peixinho que você adora, vem brincar com a gente”, e os incentivos de “O joguinho hoje vai ser um sonho, fulano está aqui perguntando por você” foram, aos poucos, transformando este peixinho que vos fala na verdadeira isca.

Até que, certo dia, depois de jogar cash game por trinta horas seguidas – isso mesmo que você leu, foram trinta horas de jogo -, fui lavar o rosto e me olhei no espelho. Olhava-me, mas não me enxergava. Assustei-me. Parecia ter envelhecido dez anos nos últimos dois. Chorei compulsivamente. Prometi para aquele homem do espelho – que não era eu – que nunca mais jogaria cash game.

Três dias depois, estava lá novamente, sendo a isca do meu próprio peixe. Foi aí que a carta caiu, ou melhor, a ficha caiu. Finalmente aceitei que estava doente. Procurei ajuda médica. Deletei meu Facebook inundado por ludopatas iguais a mim, bloqueei os sanguessugas que diariamente me chamavam para jogar, deixei de assistir vídeos de pôquer, deixei de acessar sites de pôquer. Blindei-me para não fraquejar.

Hoje, após oito duros meses, tenho orgulho em dizer que, com muita resiliência, estou limpo. E, o que é melhor, não sinto mais vontade de jogar. Por tudo que passei, deixo aqui alguns conselhos. Não joguem cash game. Não joguem torneios cujos valores tirem vocês da zona de conforto. O pôquer só é bom para quem não espera nada dele. Ah! Já ia me esquecendo: muito cuidado com os sites de apostas que estão se infiltrando nas casas de pôquer. Esses também não são inofensivos. Quem diria… Logo o Diabo querendo invadir o espaço do capeta.

Vade retro, Satanás!

 

 

Imagem: MarinaP/Shutterstock.com

Poker viciante e vício no poker

Aparentemente idênticos, o poker viciante, aquela vontade de estar a beira do feltro, é ligeiramente diferente do vício no jogo, a ludopatia. Vários aspectos sobre essa questão do vício forçosamente esbarram em como a sociedade o entende, claro que partimos do indivíduo e de como ele se afeta com o objeto do vício, mas o que me refiro é o padrão social para definirmos o que é vício e quem é o viciado. Em certa medida algumas convenções nos ensinam o que é um viciado.

Se um indivíduo é viciado em trabalho, por mais que haja um contraponto para que ele invista mais tempo com a família e em outras atividades, esse tipo de viciado nunca é inteiramente mal visto socialmente, ser workaholic é por vezes algo bem aceito ou até charmoso (biografias de conhecidos empreendedores e suas obsessões confirmam essa premissa). Outros exemplos deixam mais evidente como essa relação é entendida na sociedade, o tabagista é um viciado cujo incômodo social é até certo ponto tolerável, pois o fumante é mal visto quando “fuma ao meu lado” ou no geral quando se torna um prejuízo à saúde dos outros. Já o alcoólatra, nos casos mais extremos, causa com seu comportamento um dano social maior, derrapando para violência com os familiares, perigo de vida ao volante, brigas, etc., embora o estímulo ao consumo frequentemente se apresente. O jogador viciado nunca é bem visto, digo aqueles que colocam dinheiro na mesa e não a usual fézinha na loteria, pra eles o peso moral é muito maior.

A tentativa aqui não é colocar tudo num mesmo balaio, já vamos chegar ao ponto, mas o que é um atleta de alto nível senão um obstinado, um viciado pela sua atividade? E por conta disso e por força da competição, quantos deles deixam de lado o ideal esportivo por algum estimulante que o coloque em condições de vencer. O velocista Ben Johnson foi uma dessas exceções que ainda recorrem nos dias de hoje, daí a burocracia do antidoping, uma tentativa de controle. Há de se mencionar igualmente a questão do equilíbrio na vida, inúmeros atletas passam anos de privação, desde o convívio com a família até dietas. Por vezes o esporte também se torna campo de privações e impacta a vida social do atleta, e também do workaholic, de maneira similar.

Mas, temos uma grande diferença entre tudo isso, os vícios em substâncias químicas seriam passivos, quero dizer, o viciado tem uma relação de espectador com o objeto do vício e a anestesia que ele oferece. De certa forma o workaholic ou o esportista de alto nível ao menos atuam por meio dos seus vícios, o que é uma diferença notável. Mas, o que quero dizer com tudo isso é que tanto o esporte quanto o trabalho higienizam nosso olhar para o vício. Não estou exatamente falando do dano que determinado viciado causa socialmente, mas de como, como indivíduos sociais entendemos o fenômeno do vício, e é essa forma de entender que nos é pautada.

O ponto, ao final, é que o problema em si do vício passa consideravelmente pela sociedade, mas afeta o indivíduo o despossuindo de si mesmo, no sentido de retirar sua autonomia e torná-lo refém somente dos próprios impulsos. Nesse caso, a condição para o viciado ser feliz é o objeto, para o viciado em jogos é a química gerada pelo jogo, não o jogo como tal. Quando essa disposição do indivíduo chega na intensidade de tirá-lo de si, temos o mesmo quadro passivo do viciado em substâncias químicas. Digamos que o poker viciante se torna uma patologia quando coisas que têm mais valor para o indivíduo foram corrompidas pela experiência do jogo, quando ele se tornou objeto, como se o jogo ficasse menos atrativo do que a descarga emocional que ele provoca.

A diferença apareceria quando a possibilidade sensível do jogo (fascinante e por isso viciante) perde espaço para a anestesia que ele causa (o vício). Considerar este critério, que é muito pessoal, parece ser mais potente do que os alertas, mesmo sendo um caminho difícil. As mensagens fortes da propaganda negativa do tabagismo no verso dos maços de cigarro não provocam nos jovens identificação, pois o fumante não se vê naquela situação precisamente. O garoto que começa com drogas também, dizem tanto que faz mal, mas ele vai lá, experimenta e acha bom. Temos então um problemão!

Ainda que toda mensagem possa ter um efeito, pois entendemos e damos sentido ao mundo por narrativas, o impacto dos alertas podem ser pequenos quando seu teor não sensibiliza mais. Numa sociedade fissurada perdemos a capacidade de sensibilização, por isso nosso vício só pode ser a anestesia.

 

 

Imagem: Placa fixada no cashier do cassino Caesars Palace, em Las Vegas (Naccarato)

Relato de um jogador de pôquer

Conheci o jogo de pôquer como a maioria dos jogadores iniciantes da minha época. Comecei jogando torneios com valores pequenos, perto de casa e sem nenhuma pretensão. Tempos depois, fui aumentando a minha presença nos chamados “clubes de pôquer”. Começava aí o início radical de uma mudança perigosa de hábitos.

Sem perceber, passei a respirar pôquer 24 horas por dia: só queria conversar com quem falava de pôquer, substitui os programas de televisão por vídeos sobre pôquer, troquei os livros de temas diversos por livros de pôquer, troquei a minha confortável e cheirosa cama king size pelas imundas cadeiras das casas de pôquer, troquei a convivência com a minha família e com meus amigos pela convivência com as pessoas que jogavam pôquer, troquei o meu saudável sono noturno pelas horas diurnas mal dormidas. Como se não bastasse, quando não estava nas casas de pôquer, jogava no computador de casa.

Todos os meus exames rotineiros de saúde, sem exceção, passaram a mostrar acentuado declínio. A minha excelente forma física pouco a pouco foi regredindo, a minha alimentação deixou de ser regrada, mas o meu foco continuava sendo o pôquer, a adrenalina que o jogo me proporcionava junto com a ínfima possibilidade de ficar rico da noite para o dia. Isso tudo continuava falando mais alto.

Pois bem. Fui aumentando gradativamente os valores que jogava e troquei os clubes fedorentos pelos luxuosos cassinos. Nossa! Me hospedei em hotéis estrelares, frequentei alguns dos melhores restaurantes do mundo, degustei vinhos espetaculares, assisti shows fantásticos. Vivi uma vida surreal. Mesmo sem ter estudado o jogo (o que foi um grande erro), passei a jogar os grandes torneios do mundo: joguei com muitos que até então só tinha visto nas telas do computador.

Com o passar do tempo, com as longas ausências e sem alcançar os resultados realmente importantes, ou seja, ganhar dinheiro de verdade, os conflitos com a minha esposa foram se intensificando e de nada adiantavam os conselhos que recebia. O meu poder de persuasão era tão grande que, em determinado momento, a minha esposa deixou de me criticar para me apoiar. Hoje consigo enxergar que na realidade ela estava, de forma estratégica, quase que desesperadora, fazendo de tudo para não me perder definitivamente para o pôquer.

Até que um dia a conta chegou. E bem salgada, por sinal. Hoje, vigilante e consciente dos erros cometidos, tento juntar os cacos que restaram de uma escolha de vida equivocada. Voltei a valorizar a minha família, meus amigos, busco retornar às minhas atividades laborais, retornei com a minha atividade física, voltei a comer bem, dormir bem, retornei para o meu mundo, mundo este que nunca deveria ter saído.

Este relato não tem a intenção de julgar ou criticar aqueles que praticam o pôquer, até porque existem pessoas que fizeram fortunas jogando ou explorando o jogo. Simplesmente, comigo, por inexperiência, por falta de estudar o jogo, por falta de sorte ou simplesmente por falta de capacidade, não deu certo. Talvez, como forma de me desculpar com a minha família e meus amigos, tenha resolvido compartilhar a minha experiência mal sucedida. Sinto que seria covardia e egoísmo demais guardar comigo tanto conhecimento e experiência que adquiri por um preço altíssimo.

Portanto, falo principalmente para os mais jovens, para os mais sonhadores, para os mais suscetíveis a promessas de dinheiro fácil e de forma rápida. Não se iludam: a realidade não é bem essa que vocês veem nos canais de comunicação especializados em pôquer. Lá, de um modo geral, só se mostra um lado da moeda. NÃO TROQUEM OS SEUS ESTUDOS OU OS SEUS PROJETOS DE VIDA, nem que seja por um determinado tempo, pela árdua missão de tentar viver como um jogador profissional de pôquer no Brasil. A excelente atriz Lilia Cabral, que interpretou com maestria o papel de uma jogadora viciada em jogos, inclusive o pôquer, disse: “se eu conseguir ajudar ao menos uma pessoa com a mensagem que tentei passar, já me sentiria realizada”. É bem por aí.

 

Imagem: rudall30/shutterstock.com (editada)

O risco do não risco

Não sou o primeiro e também não serei o último a comparar e encontrar semelhanças entre o poker e a vida. Desenvolver habilidades como ler pessoas, identificar padrões comportamentais, perceber que determinadas situações se repetem. No poker e na vida é possível pensar muito além das cartas que possuímos e das cartas expostas na mesa. As cartas na mão são as oportunidades que nos são dadas a cada dia, a cada momento. As cartas na mesa são as incontáveis circunstâncias as quais estamos expostos, seja na vida profissional, afetiva e familiar.

Hoje, quero compartilhar minha visão sobre o risco em nossas vidas, e daquele que talvez seja o risco mais perigoso de todos, o de não querer correr riscos.

Como em um campeonato de poker, quão bom seria esperarmos várias mãos sem jogar até que possamos receber cartas boas? Os mais conservadores diriam que essa é uma forma lucrativa de jogar. E quando receber o tão aguardado par de Ás? Bom, com essa mão, você deveria fazer a jogada correta, conseguir reduzir seus adversários a apenas um, induzi-lo ao erro, e fazer com que a mão termine em all in, em uma situação onde suas chances são de 85% de vitória. Esse seria o retrato da forma mais conservadora de jogar poker.

Sob o ponto de vista do risco, eu diria que evitar o risco, adotando uma postura conservadora, resulta em assumir automaticamente novos riscos, e que é improvável que você consiga eliminá-los de qualquer situação. Então, que riscos você corre em jogar o poker de forma passiva? Corre o risco de ficar muitas rodadas sem jogar, dessa forma perder para os blinds, risco de se tornar previsível, e quando você jogar saberão que tem cartas boas, risco de não conseguir ação nas suas jogadas, risco de ser explorado pelos seus adversários, e principalmente, o risco de não evoluir. Ao jogar passivamente, você deixa as circunstâncias decidirem por você, e sobreviver será pura questão de sorte.

A foto acima representa o meu pensamento. Foi uma situação vivida por mim na WSOP Circuit Brazil 2016, evento Brazilian Storm, que pagou em premiação mais de 1,5 milhão de reais. Estava na bolha do evento, para quem não sabe, é o momento em que resta cair um jogador para que comecem a distribuir a premiação, ou seja, perder nesse momento significa ir embora pra casa sem nada, é uma das piores situações para o jogador de poker. O meu adversário estava na seguinte situação, esperando uma mão boa para dobrar e entrar na faixa de premiação. Entrei na mão para jogar com ele, e como mostra a foto, me envolvi em um cooler, vendo minha quadra de 9 bater o full house do adversário de K com 9. O meu adversário, com a segunda melhor mão do poker, caiu na bolha da premiação, foi embora pra casa sem nada, ou como dizem, foi o primeiro dos últimos, e eu avancei mais 269 posições na faixa de premiação. O que quero dizer com isso? Não adiantou esperar a grande oportunidade de dobrar, que no caso, era o par de KK na mão do adversário, ele acabou perdendo para as circunstâncias.

Não tenho a intenção de defender nenhum perfil de personalidade, mesmo porque acredito que o que nos torna ricos como seres humanos é a diversidade, em todos os sentidos. Vamos ao que interessa.

Somos incentivados desde criança a sermos conservadores. Estudamos nas melhores escolas que nossos pais tenham condições de pagar, ou nas melhores escolas públicas que nossos pais consigam vagas, para que isso nos possibilite passar nos melhores vestibulares, e então ter condições de trabalhar nas melhores empresas, para que isso nos dê uma vida próspera. Em outras palavras, aprendemos desde cedo a viver do depois, o que preciso fazer hoje para que eu possa ter grandes oportunidades no futuro!? E se o futuro não for tão próspero quanto planejávamos? E se no meio do caminho acontecer algo que não podíamos prever? Vivemos a vida nos preparando para as grandes oportunidades, só nos esquecemos de uma coisa, a vida pode não nos dar tantos pares de Áses quanto esperamos, e mesmo que nos dê, sempre há os 15% das vezes em que perderemos, que desperdiçaremos as oportunidades.

É preciso agir, aproveitar cada pequena oportunidade que recebemos todos os dias. Esperar grandes oportunidades não vai garantir o nosso sucesso. Não importa quais são as cartas na mesa, ou no caso, as circunstâncias, isso não podemos controlar ou prever, mas podemos aproveitar as oportunidades que nos são dadas, usar as circunstâncias a nosso favor e garantir uma pequena vitória a cada dia. Toda mão jogada fora é uma oportunidade que deixamos passar.

E então, quais são os riscos de escolhermos viver uma vida “sem riscos”, ou o que eu chamo de viver de forma passiva? Os mesmos de jogarmos poker de forma passiva. Na vida como no poker, ao escolher não correr riscos, você assume automaticamente correr outros riscos. Como o de ficar ultrapassado, não aprender, não evoluir, não chegar tão longe quanto poderia, pensar que nunca terá revés na vida, afinal escolheu não correr riscos, fechar as portas para novas possibilidades, pois acha que as possibilidades atuais são suficientes, e o mais importante, você será sempre refém das circunstâncias, e mais uma vez, ter sucesso no longo prazo será pura questão de sorte.

Você pode me dizer que tem uma família que te dá um suporte, um emprego estável, que é um empresário de grande sucesso, e que se tudo continuar dando certo, conseguirá viver tranquilamente pelo resto da vida. Também vai me dizer que não arriscaria mudar de vida, pois pode colocar tudo a perder. E eu vou então te perguntar, o que vai fazer se perder seu emprego estável? Se as regras da previdência mudarem e você achar que isso te prejudicou? Se a sua empresa não vender mais como vendia por causa da concorrência da China? Quando você ver que não se atualizou mais, que não aprendeu, não evoluiu, e que não sabe fazer outra coisa a não ser o que você faz hoje?

É como perder para os blinds, você vive passivamente, não aproveita as oportunidades que a vida te dá, não aprende, não evolui, e quando não tiver mais o sucesso que tem hoje, vai colocar a culpa nas circunstâncias, na má sorte. Não dependa das circunstâncias, aproveite as oportunidades que a vida te dá, e mesmo que as coisas não saiam como planejado, sempre haverá uma próxima mão, uma próxima oportunidade.

E você, como quer viver, esperando uma grande oportunidade para vencer ou vencer a cada pequena oportunidade? A hora é agora! Vamos jogar?

 

Imagem: WSOP Circuit Brazil 2016, evento Brazilian Storm (D. Rebollo)

A imagem no poker e na novela

Qualquer obra de ficção é fruto do imaginário ou é um reflexo dos nossos tempos? Trata-se de ambos? Será que estamos presos a imaginar somente o que está ao alcance de nossas visões de mundo fincadas no agora? Parecem boas questões, mas o fato é que um tema abordado na trama de uma novela se amplia não exatamente em qualidade como nessas perguntas apresentadas, senão precisamente em quantidade.

O termo quantidade diz muito sobre os objetivos de uma novela quando a consideramos como um produto, afinal, embora seja um tipo de atividade artística (que em potencial poderia provocar experiências estéticas interessantes), as novelas se orientam à audiência, e para tanto precisam estar de acordo com uma visão de mundo já aceita pela sociedade, com o que já está naturalizado. Ou seja, a precaução ao apresentar os temas e as mudanças que acontecem na trama em função dessa aceitação são baseadas no apelo que a experiência artística provoca e igualmente na manutenção deste público, que precisa se ver refletido nesse espelho que chamamos de televisão.

Nesse sentido, as novelas são reflexo da própria sociedade que legitima algumas narrativas com as quais se identifica, e num processo cíclico alimenta a trama ao mesmo tempo que é alimentada por ela, quer dizer, vemos nossos ideais na novela da mesma forma que ela nos municia de ideais. O possível problema com isso é que na falta de outras opções, esse tipo de entretenimento massificado passa a pautar os assuntos da sociedade, em parte porque tem uma penetração grande na vida social, mas fundamentalmente porque consagra o que esta mesma população já tem como “normal”.

Grosso modo, duas reações básicas acontecem, quem fica horrorizado ao ver um beijo gay na novela está projetando seu ideal conservador. Aqueles que entendem que é um avanço em relação à aceitação das diferenças comemora igualmente sua visão ideal. De forma alguma estou minimizando o ganho social que a tensão entre conservar e avançar provoca, mas podemos dizer que ambas visões não podem perder de vista que o beijo gay existe e vai se repetir enquanto a humanidade existir. O “susto” ao presenciar essa imagem vem da negação da realidade, como quando um viciado em jogo aparece na tela. Ou seja, o inconformismo provocado pela aparição da jogadora viciada na novela é o indicador de que mexeram num ideal, neste ideal do novo poker esportivo. O medo de que a imagem estigmatizada do poker se confirme pela imagem da novela revela o quanto este susto é concreto, é daí que partem os ataques.

Aparentemente aconteceu uma inversão, a verdade (use o termo com quantas aspas quiser) está na imagem simulada, enquanto que a realidade deixou de ter graça, no sentido que não mais favorece uma experiência estética considerada interessante. Vemos deflagrado algo do nosso tempo, a imagem por vezes toma o lugar da realidade, e é assim com a novela e seu potencial para pautar a sociedade.

A personagem é parte do nosso imaginário sobre o jogador viciado, o estereótipo consagrado. Vale lembrar que é daí também que saíram vários filmes sobre poker que atraíram muitos praticantes para o jogo. O herói de Rounders vive a mesma experiência devastadora do jogo, perde suas economias, a oportunidade de carreira na faculdade e também a namorada, só pra citar um dos filmes mais cultuados pelos jogadores. Se ao final da novela a jogadora viciada conseguir largar o vício, o que é bastante provável visto o arco dramático dessa personagem, o poker estará redimido?

É possível defender a novela levantando a bandeira da liberdade artística, de forma que qualquer intervenção ou imposição do que deve ou não aparecer na trama beira um tipo de censura, mas vejam, não é a própria busca pela audiência que censura a novela? Quer dizer, o que vai aparecer depende do que vai ser mais aceito. Além disso, atacar a novela porque ela mostra o lado ruim do jogo e querer que ela mostre o lado bom é de algum jeito ingênuo. Alguns ataques afirmam que o folhetim televisivo deveria ter o compromisso em também mostrar o lado positivo da atividade, o que é uma justificativa pobre, afinal novelas são consagradas porque a preocupação em tratar qualquer assunto com profundidade e complexidade não é parte principal de seus objetivos. No fundo, esperar que a novela, o programa de auditório, o reality show ou qualquer coisa do gênero apresente uma visão mais elaborada e profunda sobre um assunto é igual a comprometer todas as suas fichas pagando uma aposta pra acertar a broca no river, quer dizer, às vezes bate, mas trata-se de uma exceção.

Ademais, a face positiva do poker não é o assunto da novela, que pelo seu título nos demanda algumas interpretações. “A Força do Querer” nos diz sobre o impulso por vezes incontrolável (a força) do desejo (o querer), o que exprime com certa exatidão o vício. Ao mesmo tempo, a vontade de querer mudar de situação, ou seja, a força de querer largar o vício, fecharia o arco dramático da personagem, como acontece recorrentemente nas tramas. A jogadora perderia tudo no jogo e ao final se recuperaria, curiosamente uma estrutura narrativa idêntica ao aclamado Cartas na Mesa (Rounders, 1998).

Se você gosta de novelas, espero, não é pelo que ela pode produzir de reflexão, mas pelo que resta de expressão artística em sua dinâmica. Se você gosta de poker, espero, não seja pelo apelo de imagem que ele possui, pois com um curto período praticando já dá pra notar que esse apelo se desmancha como a fumaça de um cachimbo. Magritte diria (ou melhor, pintaria) em sua “Traição das imagens” que a imagem do cachimbo não é um cachimbo, para questionar o quão estamos presos à imagem.

A saída presente no imbróglio poker e novela é a oportunidade de perceber as estruturas por trás da superfície onde está a imagem, como fizemos quando deixamos de considerar o poker como jogo de azar. Na medida em que relacionamos mais conhecimentos abraçamos menos definições prontas e podemos tentar mais perguntas no lugar de aceitar a pauta.

 

Imagem: “La trahison des images” (1929) de René Magritte