O lobo de Las Vegas Strip

Em tempos de poker em Vegas, entre torneios e sessões de cash, há um chamado pungente, e por vezes torturante, em direção aos pequenos vícios. Mas também aos grandes, numa escalada. Você começa blefando num spot ruim contra o tiozão que vai pagar de qualquer jeito, é eliminado e engata no cash pra perder três cacifes numa paulada só. Quando percebe está em frente à roleta, já no terceiro uísque, com algumas verdes na mão querendo colocar tudo no preto. Taí o pecado, mas o que ele tem a ver com o apelido da cidade?

Las Vegas teve seu primeiro notável crescimento populacional quando liberou o jogo, em 1931, mesma data em que diminuiu de seis para três meses o tempo de residência para se obter o divórcio, escolhas pouco moralistas para os puritanos Estados Unidos do início do século passado. Antes disso, a Sin City era apenas um entreposto no meio do caminho entre Salt Lake City e Los Angeles. A cidade que tinha grandes chances de dar em nada, cresceu, mas pelo pecado. Pecado originário que permanece no imaginário da cidade, um convite aos vícios que faz lembrar o filme O Lobo de Wall Street, de Scorsese, diretor exímio em criar personagens que são empurrados para além de seus próprios limites. Em O Lobo, um corretor da bolsa de valores se lança numa empreitada que envolve muita grana, putaria, estelionato e variados entorpecentes. Com o desenrolar da história, que é baseada no livro de Jordan Belfort (o corretor da vida real), percebe-se que talvez o negócio em si não fosse tão importante quanto a possibilidade de viver ultrapassando limites, numa busca constante por alimentar os próprios impulsos, numa busca pelos excessos.

Pois bem, vamos para um paralelo: o problema, ou o “pecado” do jogo, não parece ser o jogo em si, mas o vício no jogo, como no dito popular: o tamanho da dose faz do remédio, veneno. Todos os anos em que piso em Vegas encontro um parceiro que errou na dose e torrou seu bankroll nos dois primeiros dias, não é incomum, (e normalmente são os contadores de paradas, e haja parada…). A dinâmica do vício é aparente, o impulso pede uma redenção que só se encontra no jogo, igual quando você blefa o tiozão do primeiro parágrafo, igual quando está em frente a roleta, pois o jogador tomado pelo impulso deseja ganhar à todo custo, à força, em busca da recompensa que não é somente um punhado de dinheiro ou algumas fichas, mas a experiência do risco, aplacador e motivador do vício, que doma ou alimenta o lobo dentro de nós.

O lobo que há em cada jogador é o vício? O homem é o lobo do homem?

Não se sabe. A parte torturante do vício está em deixar-se ser movido apenas pelos impulsos. Como vencer o vício para poder vencer o jogo? Bem, há quem pregue, (a palavra pregar, nesse caso, encaixa como nenhuma outra) que é preciso uma conduta de higienizar corpo e comportamento, repelindo o lobo interno, fazendo parecer que ele não existe. Num primeiro momento, fingir que não há lobo, ou evitá-lo, parece ser um contraponto à ideia dominante de controlar os impulsos, mas isso parece ser dois lados da mesma ficha, o impulso contido e seu ressentimento podem se tornar um lobo, daqueles irascíveis.

Não há segredo e tampouco fórmula para virar o jogo, mas imagine-se em Vegas, caminhando em direção à roleta pra colocar tudo no preto. Seria interessante não fazer sua aposta pelo vício, pela redenção ou pelo sonho, mas tentar ao menos uma vez usar o lobo à nosso favor, entendendo-o, apostando nele. Só há pecado quando há regra.

 

 

Fonte: Pascal Barollier da France Presse para Folha em Las Vegas comemora 100 anos de existência. Imagem: Shutterstock (Fotomontagem Naccarato)