Campeão na canhota

Depois de uma década fazendo viagens para Las Vegas na mesma época do ano, você começa a reencontrar com certa frequência alguns personagens, gente que visita os cassinos e aproveita as atrações da cidade, e claro, aqueles que trabalham para que tudo isso aconteça. Assim, o ambiente começa a se tornar familiar, a cada ano pode-se testemunhar os dealers envelhecendo, o costumeiro jeito das garçonetes (e o mau humor de uma ou duas), e ser reconhecido pelo diretor de torneio, que foi de dealer à floorman e agora comanda a sala.

Mas, jogadores são sempre mais interessantes, prato cheio para boas histórias, afinal, os que se envolvem em jogar, de certa maneira têm um tipo de predisposição a serem conduzidos pelo jogo, pois se colocam precisamente “em jogo”. Embora pareça algo abstrato demais, creio que essa abertura, esse deixar-se levar pelo jogo, faz com que o jogador deixe escapar algo de singular sobre si afora a própria maneira de jogar.

Essa característica não fica tão estranha se apresentada assim: num jogo como o poker, onde todos estão tentando não transparecer nervosismos e emoções variadas, deixar escapar no comportamento algo assim pode significar um tell e um bocado de fichas a menos.

Pois bem, numa dessas viagens para Vegas conheci um sujeito dos mais peculiares, que reencontrei algumas vezes, e ele deixava escapar de tudo. Cabelos grisalhos quase brancos e sempre desarrumados; um relógio de pulso todo colorido que parecia de brinquedo, daqueles que a criançada ganha em quermesse; dois pares de óculos, ora um no rosto e um dependurado; e maneirismos dos mais diferentes, do jeito de arrumar as fichas até a forma de apostá-las. Sem falar nas anotações constantes que fazia num bloco de papel amassado.

Esse velhote me chamou a atenção, conversava com todos da mesa, seu sorriso fácil tinha um dente pra cada lado e alguns faltando, e tinha a mania de mordiscar a própria língua enquanto pensava nas jogadas. O conjunto ajudava a construir uma imagem das mais interessantes que já vi ao longo dos anos no poker, jogador tem de tudo quanto é jeito, mas esse sujeito era entusiasmado e estava se divertindo como ninguém na mesa, totalmente oposto ao estereótipo do jovem jogador online que mete o fone de ouvido e joga poker como se estivesse apostando a própria vida.

Em certo momento o velhote se envolveu em raises e reraises e chumbou tudo com um par de duques, de um jeito meio estabanado, pois entrou na onda do adversário que lhe puxou todas as fichas numa mesa $1/$2 cheia de bêbados, incluindo-me, claro. Perdeu a mão, disse “quack, quack!” e levantou-se. A maior parte da parceirada debochou um pouco da jogada, mas um deles avisou: esse senhor é um gênio, escreveu até livro.

Vou partir do seguinte pressuposto, gente interessante normalmente é interessada, e isso não é clichê nenhum. Noutro ano, época de WSOP, encontrei numa tarde o mesmo velhote, fincado numa mesa $1/$2 do Bally’s. Sentei ao seu lado, ele me cumprimentou e lembrei dele no ato. Jogamos algumas mãos, ele continuava repetindo o mantra “quack, quack!”, e dessa vez me ouviu conversando com um amigo em português e ficou intrigado:

– Que língua vocês estão falando? Romeno?
– Não, falamos em português.
– Mas soa tão diferente de português!
– É que somos brasileiros.
Awesome!

Por horas, conversamos sobre algumas mãos e línguas originárias do latim. Quando saí da mesa, ele me avisou que estaria ali no dia seguinte no mesmo horário, e poderíamos continuar o bom papo. Nunca imaginei que o campeão mundial de gamão de 1978 tinha jogado poker na minha canhota por uma tarde toda. Paul Magriel faleceu no começo desse mês, nos deixou o conceito de M do poker, e mudou o jogo de gamão com seu livro. Pena mesmo vai ser não revê-lo nesses encontros casuais para continuar o bom papo.

 

Imagem: Kajura/Shutterstock.com. Fontes: PokerPT.com, Pokernews, CardPlayer.

Sim, eu também sou viciado em pôquer

Influenciado pelo texto “Relato de um jogador de pôquer“, gostaria de compartilhar com vocês a experiência vivida por mim nos últimos dois anos. Confesso que não tenho muita paciência para escrever. Portanto, não esperem um texto cativante, bem escrito, cheio de palavras bonitas. Até porque a minha história não tem nenhum glamour.

A minha vida no pôquer começou como a de qualquer outro jogador. Era uma brincadeira em roda de amigos ali, outro jogo on-line aqui… Nada muito sério. Afinal, jamais envolveria meu próprio dinheiro a sério nisso. Leviano engano. Comigo foi tudo muito rápido. Quando dei por mim, tinha passado das rodas de amigos para os torneios baratinhos. Depois, para os torneiros mais caros. Paralelamente, como que uma consequência natural, para as mesas de cash game. Tudo isso num piscar de olhos.

Meu vício cresceu proporcionalmente com a quantidade de jogos que eu me envolvia. Era como se o torneio baratinho fosse a maconha, aquela primeira droga inofensiva. Depois, com o cash game hold’em me senti buscando um estímulo maior, como o da cocaína e, por fim, como que no auge de um vício, o cash game omaha foi o crack. Fumei e cheirei todos, sem hora, sem dia e sem parar.

Jogava todos os dias, como um sentenciado que cumpre sua pena. Abria e fechava as mesas. Os donos do jogo me amavam. As ligações de “Cadê você, meu amigo? O jogo já vai começar!”, as ofertas irresistíveis “Hoje tem aquele peixinho que você adora, vem brincar com a gente”, e os incentivos de “O joguinho hoje vai ser um sonho, fulano está aqui perguntando por você” foram, aos poucos, transformando este peixinho que vos fala na verdadeira isca.

Até que, certo dia, depois de jogar cash game por trinta horas seguidas – isso mesmo que você leu, foram trinta horas de jogo -, fui lavar o rosto e me olhei no espelho. Olhava-me, mas não me enxergava. Assustei-me. Parecia ter envelhecido dez anos nos últimos dois. Chorei compulsivamente. Prometi para aquele homem do espelho – que não era eu – que nunca mais jogaria cash game.

Três dias depois, estava lá novamente, sendo a isca do meu próprio peixe. Foi aí que a carta caiu, ou melhor, a ficha caiu. Finalmente aceitei que estava doente. Procurei ajuda médica. Deletei meu Facebook inundado por ludopatas iguais a mim, bloqueei os sanguessugas que diariamente me chamavam para jogar, deixei de assistir vídeos de pôquer, deixei de acessar sites de pôquer. Blindei-me para não fraquejar.

Hoje, após oito duros meses, tenho orgulho em dizer que, com muita resiliência, estou limpo. E, o que é melhor, não sinto mais vontade de jogar. Por tudo que passei, deixo aqui alguns conselhos. Não joguem cash game. Não joguem torneios cujos valores tirem vocês da zona de conforto. O pôquer só é bom para quem não espera nada dele. Ah! Já ia me esquecendo: muito cuidado com os sites de apostas que estão se infiltrando nas casas de pôquer. Esses também não são inofensivos. Quem diria… Logo o Diabo querendo invadir o espaço do capeta.

Vade retro, Satanás!

 

 

Imagem: MarinaP/Shutterstock.com

Vegas em junho de 2015 e o tal poker

No forno que é a Sin City, o final da tarde é as oito da noite, é confortante, o calor abranda e o céu vai de azul pálido para escuro, mas tudo parece meio azul, laranja ou vermelho pelo reflexo das luzes que começam a gritar nos letreiros. A moldura cafona da noite vai se desenhando num emaranhado de neons, substituindo o deserto no horizonte. E o tal poker?

Bem, há quinze dias que é assim, mas essa paisagem fica mais na memória do que na vista, pois a mesa de poker é a morada do baralhão. Duas semanas atrás, as poker rooms da Strip cancelaram seus torneios diários, fila de 71 jogadores no cash $1/$2 do Flamingo, 45 pangarés no Harrah’s, 31 no Bally’s… Para se inscrever no único torneio aberto, no Caesars, 30 alternates, 150 dólares, 20 minutos de blinds e um bando de tiozão abrindo raise de 12xBBs no primeiro nível. Tudo culpa dos gigantes Colossus e Goliath, os torneios de buy in de $565 que encheram Las Vegas de amadores e profissionais para encarar a WSOP e a série do cassino Planet Hollywood (além da série Aria Classic WPT, que teve seu dia 1 no começo de junho, e só volta para o dia 2 em julho, pode?). É preciso ser Daví para runnar e vencer o Golias.

Claro que para aproveitar essa enxurrada de jogadores, algumas poker rooms criaram promoções. Os Porões de Las Vegas continuam chamando, Vitão. A espelhada sala de poker do Flamingo tem o jackpot mais atrativo, 20 mil pratas para quem perder com quadra de 5 ou maior. Impossível? Que nada, a foto do topo deixou a galera em festa na primeira noite do mês, 40% do jackpot para a quadra de 8, 20% para a de Ás, e o restante dividido para todos os presentes. Só em Vegas, 0,1% de chance no flop para a quadra de ases runner runner vencer e perder ao mesmo tempo. Agora entendi o motivo de ter chovido por duas vezes aqui.

De resto, a cidade que sempre muda, mas tem a mesma pegada de sempre, trouxe novidades. A poker room do TI, que já ficou ao lado da sempre presente fila para um dos espetáculos do Cirque du Soleil, foi parar em outro canto, ao lado de uma lanchonete, o que faz fichas, cartas e cachorro-quente parecerem uma coisa só. The Quad finalmente assumiu o nome The Linq (ex-Imperial Palace que já tem há mais de um ano uma roda gigante iluminada em seu quintal), e lamentavelmente fechou sua sala de poker em definitivo. Mirage fez o inverso, reformou a poker room na véspera da virada do mês, mas arrancou 2/3 dela para fazer um cashier. Numa dessas noites no fucking Mirage, na última mesa do fundo do salão, Jooryt van Hoof, terceiro colocado no main event do ano passado, jogava mixed games com uma parceirada animada e stacks monstruosos de fichas de $1.

O poker de Vegas tem de tudo, no início de junho parecia que tinha até mais poker player francês do que americano, muita piranha jogando $1/$2, e torneios voltando a grade usual depois do dia 5. Parada tem de monte, claro, jumento dá call com KJoff num all in monstro e perde, sobra com 1,5BB, fica queimado e vai all in na mão seguinte, mostra 44, e o BB dá call com 43off, mas esse 3 de couve é perigoso, e flusha no river. Andam dizendo por aqui que AQ de couve é mais forte que qualquer AK, quando começa a bater brócolis no bordo não pára mais, vira horta… Aqui tem jogador, e muito, e tem gambler daqueles que sempre deixam um troco na roleta, mas tem o tipo de cara que é ambos, e os que vieram atrás do sonho, embora a realidade crua me convença mais. Mas se você veio só para o poker, faça como Igor Marani, Pedro Marte & Cia, grinders dos satélites da WSOP, três brasucas contra a rapa num esquema +EV para sit and go de uma mesa. Para quem não veio, uma boa pedida é acompanhar o vlog do Gui Cardoso, que criou o diário 4 Cartas em Vegas, onde conta dia a dia sua rotina nos cashes de PLO da cidade, o capítulo um está aqui, e não esqueça de clicar no chinês.

E o tal poker? Termina na madrugada, e sentado à beira de uma das entradas do Flamingo, fumando um dos últimos cigarros entre mendigos, casais convencionais, velhotes, bêbados, grupos de garotas peitudas, garotos engomados e outros segurando suas calças caídas abaixo das cuecas; os acordes da melhor música do não tão bom Aerosmith: Dream on. Um trecho é significativo para muitos tantos jogadores, I know, it’s everybody’s sin, you gotta lose to know how to win. O pecado é a sina.

 

Foto: Cash game no cassino Flamingo (Rodrigo Saito)

A exclusão sistemática do poker

Partindo de uma denúncia, o principal clube de poker de São Paulo sofreu no meio da semana passada uma batida policial, que além de levar inúmeros jogadores à delegacia, resultou no fechamento da casa por dois dias. Acompanhado disso, uma cobertura jornalística carente de credibilidade, com notícias desencontradas e espetacularizadas. Reflexo dos nossos tempos. Usar o apelo dos bons costumes na busca por cliques, aparentemente, falou mais alto.

Nesse meio tempo, a ação de advogados e da Confederação Brasileira de Poker (CBTH), fez com que o clube retornasse às suas atividades. Pena que o impacto gerado no público externo ao poker tenha sido grande no fechamento da casa, mas pequeno na reabertura. Quem acompanha o mundo do poker sabe que o H2 Club funcionava há tempos, e que mais uma vez voltou a funcionar, repetindo o ciclo permanente de provar que a atividade não se trata de contravenção.

É preciso mencionar: o que legitima a atividade do poker perante a lei é o fato do poker não ser classificado como jogo de azar, uma vez que não se trata de um jogo onde a sorte predomina. Esta é a defesa, mas nem por isso uma garantia da prática livre, em função das interpretações da lei. Enquanto não houver uma legislação própria para essa questão, esse tipo de situação poderá voltar a ocorrer. CBTH e mercado sabem disso, estão dispostos, e talvez, esse ciclo contínuo de ir à publico defender os interesses do poker tenha um lado proveitoso. Quanto mais se é atacado, mais os argumentos em defesa ganham notoriedade. Por outro lado, criam-se ídolos, e certa dependência deles.

As interpretações morais ou a natureza do poker se tornariam irrelevantes se houvesse uma atenção às liberdades individuais, que supostamente deveriam ser garantidas. Ademais, liberdade em seu sentido mais amplo e direto pressupõe responsabilidade, ou ao menos deveria, afinal, escolhas pessoais têm consequências, que são obrigatórias pra si e por vezes para outros.

Quem ataca o jogo, ataca o vício, e não há como tratar o assunto sem partir do indivíduo, como também é complicado definir ou classificar alguém como viciado escapando de qualquer utilitarismo manjado ou juízo de valor. Só que, grande parte das pessoas que consideram o poker como jogo de azar vão além, não é somente o jogo de azar que uma parcela da sociedade parece repudiar, mas a possibilidade do dano que um jogo valendo dinheiro pode propiciar. Esse é o ponto que está implícito na fala do delegado que comandou a ação policial ao clube H2: “Nós temos aqui aposta, dinheiro, fichas e jogo”. A gênese desse repúdio é baseada na premissa de que o jogo valendo dinheiro é um mal moral, que gera vício.

O vício no poker pode ter o mesmo potencial de dano social que tem a bebida em excesso, o remédio desmedido, a alta velocidade de um carro ou o ciúme doentio, ou seja, o potencial de dano está principalmente no indivíduo e nas construções sociais que auxiliaram sua formação, e nem por isso são determinantes para o vício. É aí que está a diferença entre controlar e liberar. Controlar, ou mais especificamente proibir o jogo, não presta ao viciado o auxílio imaginado e idealizado, pois o jogo ocorre tal qual o vício, mesmo sendo proibido. Proibir, numa visão ampla, é o mesmo que relegar tal responsabilidade, enquanto que liberar faz com que a questão precise ser tratada, e abra espaço para uma construção de limites, sociais e do indivíduo. Com proibição se cria automaticamente clandestinidade.

Dá pra suspeitar que o problema está mais próximo de ser moral do que de legislação. A recorrência desse tipo de episódio, evidencia a exclusão sistemática do poker pela maioria dos indivíduos por conta de um juízo de valor predominante, que desconsidera a representatividade de um grande grupo de praticantes que compõem a comunidade crescente do poker no país.

É preciso quebrar os argumentos conservadores? Talvez não, e possivelmente isso seria um guerra sem fim, pois historicamente sempre houve conservadorismo, e talvez sempre haja. Contudo, é possível e tangível desmontar a exclusão sistemática, tornando-a não recorrente e não dominante, afinal a sociedade muda. Esse é o quadro de uma discriminação permanente com a qual os praticantes do poker têm que lidar, e talvez esse seja um tema mais impactante para o poker do que uma legislação mais adequada.

Por isso é compreensível, ainda que com ressalvas, que a promoção do poker no Brasil se dê ressaltando seu aspecto esportivo, contudo é preciso também uma dose de reflexão por parte dos praticantes no sentido de ter uma visão crítica sobre o assunto, pra não incorrer no erro de repetir um discurso sem entender o que está dizendo. Quando um jogador fala publicamente que “existe uma lei que fala que poker é um esporte” ele só demonstra o lado mais raso e condicionante da massificação dessa ideia, e deforma o sentido dela tal qual parte da sociedade faz quando afirma sem saber, que poker é jogo de azar.

Somente uma sociedade formada de indivíduos críticos, e que debatem, pode mudar uma lei, uma situação ou uma ideia pronta.


Para continuar o debate:
Reportagem do Estadão
Vídeo-reportagem da Veja.com
Opinião de Guga Fakri do Pokerdoc
Opinião do jogador profissional André Akkari
Opinião do jogador profissional Ivan Ban Martins
Artigo de 6 anos atrás, porém atual de Daniel Tevez Cantera
Artigo de Lizia Trevisan do Queens of Poker
Nota Oficial do Clube H2
Opinião do jogador Moacyr Farah
Lei das Contravenções Penais (O Artigo 50 trata dos jogos de azar)

 

Imagem: Monkik/Shutterstock

O velho Bill’s e o poker fé

O Bill’s Gamblin’ Hall and Saloon era um dos cassinos mais chulés da Las Vegas Boulevard, que é a principal avenida de Las Vegas, também chamada e notória pelo apelido “The Strip”. É na Strip que estão todos os monumentais e conhecidos cassinos da cidade, como Bellagio, Wynn, Caesars Palace, Mirage e Aria. Bem, esse não era o caso do Bill’s. O pequeno hotel-cassino cheio de beberrões tinha a seu favor uma localização privilegiada, pois ficava entre o Bally’s e o Flamingo, de frente para o Caesars, e na diagonal do Bellagio, e tinha os jogos mais baratos da cidade, além do clima de festa constante. Ou seja, ninguém atravessava suas portas procurando uma atmosfera de seriedade, as pessoas estavam ali pra encher a cara, se divertir e apostar, e talvez isso o tornava um lugar cafona e cult ao mesmo tempo.

Lá você achava facilmente a Blue Moon, a breja de trigo dos baralhões servida com uma rodela de laranja, Coronas à dois dólares, steak com dois ovos por cinco dólares e fichas de um dólar bem legais. Além do mais, o Bill’s tinha herdado do recém fechado O’Shea’s, algumas atrações, como o Beer Pong (ping-pong com copos de cerveja), o anão que era mestre de cerimônia, e seu público cativo.

Antes dos dois anos que precederam seu fechamento em fevereiro de 2013, a área reservada para o poker consistia em apenas três mesas à beira da entrada, mas depois do crescimento dos torneios diários na cidade, o Bill’s resolveu separar uma área maior ao lado do espaço de apostas esportivas, e além dos cinco torneios diários com buy in de 30 pratas, o cassino tinha as mesas de cash mais baratas da Strip, com blefes e flushes em blinds 50¢/$1.

Os jackpots que a poker room oferecia das oito até meio-dia resultavam em pelo menos uma ou duas mesas cheias de velhotes pela manhã. Havia bônus para royal, straight flush, quadra e Aces Cracked. Este último o mais buscado e esperado. É simples, bastava receber o par de bicudos, fazer um slowplay dos bons torcendo para o adversário melhorar a mão e, bingo! Cem dólares a mais na conta se você perdesse o pote, desde que ele tivesse no mínimo 10 dólares. Na primeira semana da minha quarta temporada na cidade, decidi bater cartão no Bill’s pela manhã, mais por conta do field fácil do que pelos jackpots. Nos dois primeiros dias encontrei mesas sem ação, com jogadores entrando com cacifes de apenas 30 dólares e exclusivamente esperando terem seus ases quebrados num festival de limpers que mais parecia um boicote ao jogo. No terceiro dia consegui um feito nada agradável, e me tornei persona non grata nesta poker room, eliminando dois jogadores em doze minutos e fazendo com que os outros mudassem de mesa. Desisti de jogar lá de manhã, e só um fato me fez voltar, mas dessa vez na tarde do dia seguinte.

No quarto dia, após uma queda prematura no torneio das 16 horas do Bally’s, o cassino vizinho, entrei no Bill’s pra fugir do calor desértico das ruas e cortar caminho até o Flamingo, onde estava hospedado. Numa passadela até a poker room, fiquei olhando as mesas de cash, e lá estava ele sentado e espalhado pela mesa, com várias pilhas de fichas desarrumadas de cinco dólares e com um enorme sorriso estampado na fuça para desespero dos adversários. Era um velhote gorducho, vestindo uma camisa de time de futebol americano, que atendia pelo nome de Mister Brown.

Nosso amigo, o Sr. Brown, era um caixa eletrônico, e tinha um método apurado para jogar o cash do Bill’s. Ele entrava com o valor máximo permitido na mesa e nunca abria raise, limpando a maioria dos potes, mesmo quando tinha valor nas mãos, e se algum adversário tratasse de aumentar, ele remediava apenas dando call. Seu range parecia ser mais amplo do que as 169 combinações de duas cartas iniciais possíveis do hold’em, jogando com quaisquer cartas naipadas, qualquer par, qualquer broadway, quaisquer duas cartas que somadas cheguem a 8… Enfim, acho que deu pra entender não?

Outro aspecto da sua tática era dar call em todas as streets, bastava ele estar na mão e pintar um draw no flop que o Sr. Brown iria buscar até o final, sem qualquer cerimônia. Como resultado, ele perdia boas quantias na maioria dos potes, e prontamente recarregava o stack. O único problema era quando ele acertava. Como compensação em perder 4 ou 5 potes seguidos de 40 ou 50 dólares, ele puxava logo umas duzentas pratas pra pilha quando seu flush quebrava trincas e sequências dos adversários, ou quando saia com pares de Ás e Reis em algumas mãos.

De hora em hora, o Sr. Brown sacava da mesa jogadores inconformados, amedrontados e tiltados, para a alegria dos dealers que eram recompensados justamente pelos poucos outs que ele acertava no river. E que poker room não gostaria de um desses na mesa, não? Fichas e mais fichas de rake a cada minuto fizeram o Sr. Brown ganhar uma garçonete quase que exclusiva, pronta para atendê-lo em qualquer pedido. Se eu tivesse que descrever o Sr. Brown pra alguém, eu diria simplesmente que ele é um cara com uma característica peculiar, pois quando está numa mão, buscando seu flush, seu olhos brilham. Ele joga poker fé, ele joga roleta na mesa de poker, e está lá exclusivamente pela descarga química que percorre seu cérebro e vai até a ponta de seus dedos.

O Sr. Brown, nesses extremos, só existe como representação literária. Ele é a junção de todos aqueles gamblers com os quais você se depara nos feltros. Ele é um exemplo de todas as vezes que você tomou baralhada. Ele é aquele cara que muitos dizem ter sorte, e se perguntam entre si — Mas você viu como ele acerta? Que conta mais regulada! Para ganhar do Sr. Brown você tem que vencê-lo em sua mente primeiro, aceitando que ganhar e perder potes faz parte do jogo. O esforço em entendê-lo só faz sentido se você quer aprimorar seu jogo, e entender que ganhar um pote não significa jogar bem, afinal, jogar bem vai além do resultado.

De volta à São Paulo, numa madrugada de terça-feira, os últimos remanescentes no salão do clube que jogo, decidiram fazer uma rodada de poker fé, algo digamos mais saudável do que ocorria nas mesas com o Sr. Brown, onde você casa uma ficha por órbita e o dealer distribui as cartas dos jogadores abertas, e depois bate flop, turn e river pra ver o baralho fazer graça, enquanto todos torcem por seus outs até o river.

 

Reeditado do original em Aprendendo Poker. Foto: M. Naccarato

Crítica do documentário Nosebleed, e o esforço conjunto dos usuários do MaisEV


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Nosebleed é o documentário do diretor Victor Saumont, lançado independente e com recursos próprios, que retrata dois jovens jogadores franceses de cash game high stakes movidos pelo desejo de conquistar um bracelete na World Series of Poker. Alex Luneau e Sebastien Sabic são os protagonistas apresentados logo no início do filme num apartamento em Londres, jogando milhares de dólares no poker online, ao que parece, da cozinha de casa.

noseLuneau e Sabic olham para o poker de forma bastante realista, falam do início de suas carreiras e o que os levou para os mixed games, e mostram que mesmo nos limites mais altos, sempre há espaço para contar uma parada, reclamar da jogada dos parceiros, e comemorar um pote. Ambos são, apesar de terem 27 anos, veteranos do universo restrito dos high stakes, e perder e ganhar quantias milionárias é corriqueiro. Como consequência disso a atmosfera que envolve os franceses é a de que nada os afeta de fato, o que pode aparentemente mostrá-los como dois jovens metidos, mas ao que parece, não é esse o ponto. Para usar um termo em francês, a indiferença deles em relação a tudo que os circunda confere aos dois um ar blasé, talvez por isso o pouco ânimo e a expressão de tédio. Nesse sentido, a vida de ambos parece ser uma espera por um fish na mesa, e seja na parede de escalada, no treino de boxe, na balada ou nos inúmeros e caros jantares, o tempo fora do poker é espera. As vigílias que eles se referem na época em que Hansen e Isildur doavam uma boa grana nas mesas de cash ilustram bem esse ponto.

É por isso que a busca por um bracelete se torna a busca pelo que falta, algo pelo que batalhar, o que trará um prestígio ainda não conquistado, um sentido. Mas ao longo do documentário os hábeis jogadores de cash se deparam com uma barreira ao disputar os eventos da WSOP, mas esta barreira não é falta de capacidade, é a confirmação da natureza única dos torneios, uma maratona que por vezes pune um poker bem jogado. Contudo, as palavras de Luneau são contundentes, há alguma coisa de especial, um adrenalina quando se alcança a mesa final. Por isso, o ponto forte do filme está em evidenciar uma realidade pouco mostrada pela mídia do poker, em Nosebleed, o real sobrepõe as visões idealizadas da propaganda do jogo, e é desta forma que o documentário retrata com êxito os bastidores e tenta explorar a essência do poker.

Há passagens interessantes no documentário, como por exemplo quando Luneau cita o jogador Davidi Kitai, que segundo ele construiu um estilo de jogo todo baseado em tells, de forma a fazer um jogo que beira o perfeito. Ou quando Luneau conversa com o compatriota Bruno Fitoussi, e fala que foi bom o período que passou na Tailândia, mas que depois de um tempo é bom voltar para vida real, ainda que sua vida real possa parecer irreal para a grande maioria dos jogadores. Noutro momento, Luneau está reunido na recepção do hotel com alguns amigos, incluindo Sabic, e faz uma brincadeira entre as odds de morrer contra as odds de vencer o ME da WSOP. E a melhor passagem de Sabic está na parte final do filme, quando durante uma caminhada, fala de como vê o jogo e do apelo de mercado que os torneios têm.

De outro lado, o escárnio direcionado principalmente à Gus Hansen chega a ser demasiado, não apenas nos momentos em que o Great Dane é citado com deboche repetidamente pelos franceses, mas exatamente na hora em que, durante a WSOP de 2014, Hansen não recebe atenção ao se aproximar de Luneau, que está disputando um evento da série. A imagem nesse momento diz mais que as palavras, e a filmagem segue com Gus indo de um lado para o outro, e depois sentando numa mesa vazia. Na tomada seguinte, uma rápida aparição do dinamarquês, pra confirmar que na cadeia alimentar do poker, alguém precisa perder, e por vezes, muita grana. Curioso notar também que Hansen, apesar de ser o fish preferido da dupla francesa, ganhou um bracelete da WSOPE, justamente o que Luneau e Sabic almejam.

Aparte disso, é importante lembrar que a versão do documentário traduzida para o português foi um esforço conjunto dos frequentadores do fórum MaisEV, que fizeram uma vaquinha para custear o trabalho de tradução executado por Airton_Neto e luigibr. Posteriormente, em comum acordo, todos optaram por liberar o vídeo gratuitamente, e não mantê-lo restrito apenas para quem contribuiu. A versão legendada em português está criteriosa e bem feita, principalmente porque os tradutores entendem do assunto e optaram por usar termos comuns que usamos aqui no Brasil para falar do jogo, sem forçar traduções literais. O vídeo tem sido compartilhado e publicado em alguns sites, mas poucos se atentam em dar o crédito. O Pokerdoc mencionou, e fica aqui também registrado.

hansen1euroE para quem gostou da iniciativa de Victor Saumont e de seu documentário, doações podem ser feitas para o diretor nesta página. E saiba você que até Gus Hansen doou, apenas um euro, talvez seja a forma que ele encontrou de devolver o escárnio, depois de ser o coadjuvante mais falado do filme.

 

 

Fontes: Pokerdoc, Fórum TwoPlusTwo, Fórum MaisEV, WSOP.com. Créditos: Nosebleed de Victor Saumont no YouTube, legendas em português por Airton_Neto e luigibr do MaisEV.

PosRiver Podcast leva o poker ao pé do ouvido

PosRiver é o nome da mais nova e interessante iniciativa do poker nesse ano. Eduardo Dutra, Moll Orso, Lucas Adami e Vinicius Bellebone lançaram no final de fevereiro um podcast de poker que mistura informação, assuntos pertinentes e humor, e tem apoio do Ypiranga Texas Club, de Porto Alegre.

Ainda sem nome, o programa piloto foi transmitido ao vivo em 24 de fevereiro e foi muito bem recebido pela comunidade do poker, onde foram abordados os temas Times de Poker e Postura dos jogadores nos jogos ao vivo. A primeira edição oficial, já batizada de PosRiver Podcast, estreou em 5 de março e teve a presença do convidado Carlos “Caju” Zago, profissional especialista em mesas limit, e o tema escolhido foi MTT vs. Cash Game. Segundo Eduardo Dutra, integrante e idealizador do podcast, as próximas edições serão gravadas e editadas, e não mais transmitidas em tempo real.

A intenção do grupo, que é composto por jogadores online e diretores de torneio, é abordar os diversos temas do quotidiano dos jogadores, e discutir abertamente questões pouco faladas na mídia tradicional de poker. O PosRiver tem um tópico oficial no fórum MaisEV, que você pode acessar aqui para mandar sugestões e críticas. Abaixo você pode conferir o programa piloto e a primeira edição.

PosRiver Podcast #1 (Piloto)

PosRiver Podcast #2 (Cash Game vs. MTT)

Fonte: MaisEV, canal do YouTube do Ypiranga TV e Eduardo Dutra.

Livro sobre os cash games ilegais da Itália é lançado

maiprimadelleotto_thumbMai prima delle otto. Tutto quello che sta intorno, dietro (e sotto) un tavolo da poker, que pode ser traduzido por “Nunca antes das oito. Tudo o que está ao redor, por trás (e abaixo) de uma mesa de poker”, é o título do livro do italiano Federico Ziberna, que não tem nada a ver com a grande maioria dos livros técnicos de poker no mercado, pois mostra a atmosfera dos cash games ilegais na Itália sob o ponto de vista de seus organizadores.

Lançado no começo de novembro, a obra pretende contar a verdade, os subterfúgios, e desvendar o submundo do poker na Itália. Segundo o autor, se trata de um livro que aborda o jogo por um novo ponto de vista, trazendo a perspectiva dos cash games clandestinos que atravessam as noites, e nunca acabam antes das oito. De acordo com a reportagem do site Italia Poker Club, o livro de Ziberna, escrito em italiano, está a venda no site da Amazon italiana, e aparentemente pode ser comprado no Brasil se você possui um ID da Amazon.com (clique aqui).

O tema parece bastante interessante, e embora muitos torçam o nariz frente a possibilidade do livro mostrar pontos negativos do poker, por trazer à tona o jogo ilegal, ele contribui como um indicador do que acontece nos países onde a legislação para o poker ainda não está bem clara, afinal, mesas de cash espalhadas pelas madrugadas, aqui ou numa cidadezinha no meio da bota, são bastante comuns, e não só merecem ser registradas, como ajudam a promover um entendimento mais amplo da prática do poker.


Fonte Italia Poker Club. Foto Amazon.it