BSOP ou KSOP?

Se há dois ou três anos alguém se atrevesse a comparar o BSOP com qualquer outro torneio no Brasil certamente seria motivo de chacota. Digo isso porque todos eventos que ousaram competir com o conceituado BSOP sucumbiram… Até que surgiu o KSOP.

O evento ocorrido no ano passado, na linda cidade de Camboriú, em parceria com o WPT, registrou 3.386 entradas e distribuiu mais de R$ 4.000.000,00 em prêmios só no evento principal. Não foi à toa que este episódio de inesperado sucesso provocou grande repercussão no meio. Seria o KSOP um adversário à altura para o BSOP?

A grande resposta para essa pergunta poderá ser revelada no mês de abril. É que nesse período os dois gigantes resolveram se confrontar realizando suas próximas etapas simultaneamente em Brasília e em São Paulo.

Seria esta a melhor estratégia? Este conflito de datas, a meu ver, mostra claramente que faltou diálogo e bom senso. Acredito que ambos sairão perdedores desse confronto de egos. Neste passo, enumerarei as principais características que considero relevantes de cada um para a próxima etapa. Vamos a elas.

BSOP (mais informações)
Credibilidade: o BSOP goza de reputação ilibada;
Organização: o BSOP possui os profissionais mais experientes e capacitados da América Latina;
Prêmio extra: o BSOP oferece nesta etapa quatro pacotes completos no valor de US$ 30 mil para o milionário evento PSPC que será realizado no ano de 2019 em Bahamas;
Custo benefício: o BSOP garante para a próxima etapa o valor de R$ 2.500.000,00 exclusivamente para a premiação do evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 2.600,00;
Imposto: o BSOP retém o imposto na fonte;
Local do evento: Brasília/DF;
Gentileza: o BSOP, ao contrário dos grandes torneios mundiais, não oferece sequer água para os jogadores.

KSOP (mais informações)
Credibilidade: o KSOP ainda necessita de um tempo de maturação para gozar de reputação ilibada;
Organização: o KSOP vem melhorando, mas ainda não se equipara ao rival;
Prêmio extra: o KSOP oferece aos participantes da etapa 10 pacotes de viagem para o Cassino Sun Monticello, no Chile;
Custo benefício: o KSOP garante nessa etapa o valor R$ 2.000.000,00 exclusivamente para o evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 1.500,00;
Imposto: o KSOP não retém o imposto na fonte;
Local do evento: São Paulo/SP;
Gentileza: o KSOP distribui gratuitamente lanches no dia 2 do evento.

Bom, expostos os comentários, cabe ao leitor a decisão de qual evento jogar. Agora, se você é um daqueles gorilas que ficam pagando 3-bet com mão marginal o tempo todo, é melhor não jogar nenhum deles.

 

Imagem: Onyx9/Shutterstock.com

O jogador certo na mesa errada

A Brazilian Series of Poker começou nesta quarta-feira 25/11 com salão lotado, expectativa de um grande festival de poker, e com cinco eventos programados para o primeiro dia de competição. Dois torneios chamaram mais a atenção, o #1 NLH 750K Garantidos, com um buy in mais acessível de R$460,00 e que promete um dos maiores fields de BSOP, e o #2 LAPT Grand Final, que vai definir o campeão da edição 8 do Latin American Poker Tour, com buy in salgado de R$10.000,00.

Acontece que num evento desse porte, mesmo para uma organização competente como a do BSOP, a chance de algo sair da linha aumenta, e é aqui que começa essa pequena história. O jogador H. (nome fictício), recreativo que frequenta algumas casas de poker na capital paulista foi para sua primeira investida na série brasileira, fez sua inscrição, caminhou até a mesa, entregou o comprovante para o dealer e começou sua batalha no feltro.

E ele caiu numa mesa daquelas, com o chileno Oscar Alache, líder do ranking do LAPT, Fernando Konishi, mesa-finalista da WSOP e o francês Sébastien “Seb86” Sabic, conhecido jogador de high stakes poker online que foi um dos protagonistas do documentário Nosebleed. Enfrentando esses profissionais, H. tinha tudo pra ser engolido, mas logo no começo da disputa, imprimindo seu estilo peculiar, chegou a subir bem seu stack, alcançando aproximadamente 60 mil fichas (o equivalente ao dobro do stack inicial), segundo relatos.

Crente que estava jogando o torneio que havia se inscrito, ele começou a notar que “os blinds estavam demorando muito”, e foi então que a ficha caiu. H. se inscreveu no evento #1, o de 750K garantidos, mas sentou na mesa do evento #2, o LAPT Grand Final. Segundo informações dadas pelo jogador, alguém da equipe de organização lhe indicou o setor errado, e posteriormente o dealer que estava pagando o jogo na mesa conferiu seu cartão de assento e entregou as fichas, permitindo que ele jogasse.

Após avisar o floorman, o jogador foi transferido prontamente pela direção do torneio para o evento #1, com stack inicial, e não se sabe o que foi feito com as fichas que ele havia conquistado no evento #2. Perdemos a chance de ter o campeão certo no torneio errado.

Regulamentação do poker: uma busca por equidade

Podemos começar com um passado recente e outro muito recente. Em meados de 2009 conversava pela manhã com um amigo que varou a noite numa delegacia prestando depoimento, ele havia sido levado pela polícia junto dos demais jogadores durante a disputa de um torneio de poker, num dos poucos, e por isso conhecidos, clubes da capital paulista na época. Era sua primeira investida no poker ao vivo, com exceção das mesas em casa com os amigos. Por sorte correu tudo bem e ele encarou a situação com naturalidade, afinal, naqueles tempos isso era um fato comum. Vale lembrar, sair de um home game para jogar poker num clube, era por vezes, algo evitável para uma parte dos jogadores recreativos há 7 ou 8 anos, em função de ocasiões como esta.

Em dezembro de 2014, numa mesa de cash game num grande cassino na Flórida, ganhei o jackpot da high hand, 200 dólares para a mão mais alta que segurasse até o final daquela hora, e como minha quadra não foi batida, aguardei a chegada do floorman para receber o prêmio. Em meia hora ele estava ao meu lado, pediu passaporte, coçou a cabeça, foi ao cashier e depois de mais meia hora retornou com uma papelada e a grana na mão. Preso ao prendedor da prancheta, um tipo de recibo e algumas folhas cor de rosa em duas ou três vias, era o imposto referido aos estrangeiros, que beliscou 30% do prêmio. Assinei. Satisfeito com o capilé, pero no mucho.

Bom, nessa pequena linha do tempo espero ter mostrado dois lados da mesma atividade, o poker. Dois lados opostos que ainda hoje expõem as contradições de um mercado. O H2, famoso clube paulistano de poker, foi fechado pela polícia em março deste ano, enquanto que na mesma época, os jogadores da etapa da Brazilian Series of Poker em Balneário Camboriú pagavam impostos sobre seus ganhos por terem concluído suas participações no torneio dentro da faixa de premiação. Um contrassenso, não?

É justo ser detido pela polícia por jogar poker? É justo pagar 1/3 do prêmio em impostos? Precisamos de justiça? Bem, Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga, nos diria que precisamos ir além da justiça. Em Ética à Nicômaco, uma de suas principais obras, ele desenvolveu um conceito de justiça que é usado no Direito até os dias atuais, baseado num saber prático que está relacionado diretamente à ética. Aristóteles entende a justiça como virtude, e divide seu conceito primeiramente em justiça geral e justiça particular. A primeira trata da observância da lei, já a segunda tem como objetivo realizar uma igualdade proporcional entre os envolvidos.

Dentro da justiça particular de Aristóteles está a ideia de equidade, a forma justa da aplicação do Direito, uma adaptação da regra que considera igualdade e justiça, interpretando a lei e levando em conta a especificidade de cada tema, algo que vai até onde a lei não alcança. Parece um pouco diferente da noção que temos no poker, onde equidade está relacionada com a parte do pote que o jogador espera ganhar no longo prazo dependendo das suas chances de vitória, da probabilidade da sua mão. Mas não, no fundo o conceito está presente em ambas definições, precisamos da equidade de Aristóteles na regulamentação da atividade, a parte do pote que nos convém.

Ou seja, precisamos ir além da justiça, precisamos de equidade em seu sentido mais amplo. Uma regra específica para uma atividade específica. É o papel que se espera deste novo grupo de trabalho, levar ao Ministério dos Esportes subsídios para que a atividade se regulamente da melhor forma para jogadores, dealers, clubes e operadores do mercado. Que permita nosso amigo ir ao torneio sem ser preso, que retire da atividade a clandestinidade que nela resta, e onde o imposto pago pode ser o justo, equitativamente justo nesse pote. Um marco para um longo prazo.

Evidente que o poker é igual a trabalho pra muita gente, e há certa quantidade de jogadores receosos, principalmente profissionais que jogam online, pois o que está por vir é uma incógnita. Alguns mercados na Europa já passaram e estão passando pelo mesmo processo, e cada um está experimentando os resultados, que bons ou ruins servem de modelo, pois regulamentar o poker não é uma questão de escolha, mas uma condição. A regulamentação é também uma preocupação dos operadores de poker online, o risco de operar num país sem mercado regulado é alto, por vezes inviável. Portanto, as reações contrárias a regulamentação por uma parte da comunidade de poker online são legítimas e precisam ser consideradas desde que lúcidas. Parece simples, teremos o funcionamento das salas de forma regulamentada, ou não teremos salas, o que deve acontecer num médio prazo. Por isso as reclamações em favor do “deixa como está” ou “pra que foram mexer aí”, parecem negações de uma realidade evidente, por isso precisamos de jogadores conscientes, com discurso coerente e disposição para o debate.

Atacar o início do processo de regulamentação do poker no Brasil é uma opção, mas uma opção de vítima apenas. Nesse caso, atacar não é escolha, é defesa, defesa contra uma suposta injustiça. Primordial é notar que a escolha a ser feita, afinal, reside na forma com a qual cada jogador de poker brasileiro pode atuar nesse processo, e isso inclui ser crítico e contributivo nessa questão. Xingar é ser acrítico, apoiar cegamente e incondicionalmente, idem. Ser ético é uma saída atuante, é se abrir para a possibilidade do outro, ter imaginação para com o outro. Nossa participação se dá em várias direções, pode ser um texto como esse, uma conversa com os amigos, nos clubes, discussões nos fóruns de poker, cobrar esclarecimentos e uma atuação direta nas federações. Fazer o que está ao alcance, municiando quem vai representar o mercado do poker com aquilo que nos aflige e beneficia.

Hoje, precisamos perceber que o poker no Brasil é uma indústria, tem interesses, política, valores, e está sujeita a todo um sistema, contudo é uma atividade que escolhemos participar, seja lá por qual denominação cada um a entenda, esporte, trabalho, jogo de habilidade ou entretenimento. E como qualquer mercado, caminha para uma regulamentação que precisa assegurar a própria existência, esse é o ponto de partida de qualquer discussão numa sociedade que aprende a lidar com um mundo interligado e cheio de novas alternativas de negócio. Uber, Netflix e similares são exemplos de que a força inovadora presente em qualquer mercado, demanda dos governos, atitudes. Poker é uma dessas novas atividades.

Por todos essas questões que pressionam o nosso poker por todos os lados, e farão surgir uma remodelada atividade, precisamos de equidade.

 

 

Imagem: Konstantin Faraktinov/shutterstock.com (editada)

O campeão Jorge Moutella e as ressalvas

Em época de bracelete de um jogador dos mais conceituados como Decano, e de um quase November Nine de Negreanu, o poker carrega ressalvas. Não basta ganhar, e mesmo na sociedade do resultado, por vezes, o resultado não é suficiente. O desempenho de Jorge Moutella, campeão da etapa de São Paulo da Brazilian Series of Poker, dividiu opiniões. De um lado, o ineditismo de um feito, pela primeira vez o vencedor do evento principal eliminou todos os adversários na mesa final. Por outro lado, a relação de blinds e stacks teria favorecido o melhor conjunto de cartas, as certeiras mãos jogadas por Moutella na FT, jogador do interior de São Paulo que nunca havia disputado um field maior que quarenta jogadores. Parece a velha discussão sorte e habilidade.

Voltemos um tanto no tempo. Quem se lembra de Jamie Gold, falastrão que levou um Main Event de WSOP na base da falinha e anos depois leiloou o cobiçado bracelete. Pra citar outro amador, Jerry Yang, que passou a WSOP de 2007 gritando yes, yes! beijando a foto de seus filhos, apostando de pé, e pedindo à Deus para ganhar cada mão, nada muito técnico no final das contas, senão por uma técnica bem peculiar de meter ficha no pano (se ficou curioso, confira aqui um vídeo com as mãos de Yang no ME). Mais um que foi tido como um não bom embaixador para o poker, pelo menos na visão de outro campeão de WSOP, Joe Hachem, famoso pelos gritos de aussie, aussie, aussie! quando colocou as mãos no troféu máximo do poker. O discurso é tão presente quanto a gritaria, algo como: você deveria ter feito o que eu deveria ter feito, ou em suas palavras “O poker está morrendo”.

Em contraponto, ainda me recordo das manchetes quando o jovem Cada foi campeão do ME, “Joe Cada salvou o poker”. Sabemos que salvou a si mesmo da eliminação, acertando trincas improváveis por duas vezes na FT, e “nos” salvou também de termos na galeria dos campeões um lenhador que deixaria todo o prestígio do poker para voltar à sua terra natal, Maryland, e assim realizar a profecia de ser mais um não embaixador. Seria improvável ver um Darvin Moon de roupa preta empunhando a espada vermelha e estrelada do patrocinador nas contracapas das principais revistas de poker, no meio de uma floresta com o machado à tiracolo. Já, para Hachem, caiu bem.

Pois bem, entre embaixadores, amadores, fiascos e resultados, o poker criativo e bem jogado permanece tanto quanto o pouco técnico, e sistematicamente, uma grande maioria de amadores continua jogando e perdendo, tanto quanto uma parte dos vencedores vai dar cabo de representar o poker e deixar o sonho suspenso, algo que não é nem bom nem ruim, mas é a natureza cíclica do jogo e do mercado. Mas, questões como a legitimação de um campeão continuam não sendo balizadas apenas pelo resultado, e embora esse seja o primeiro passo, é a comunidade do poker que dá o aval, ou melhor, quem alimenta a opinião pública é quem dá o aval.

Na discussão contínua de quem é melhor, fenômenos aparecem, permanecem e somem, e suas posturas gritam tão alto quanto seus resultados. Evidentemente, debates ampliam qualquer diálogo, mas algumas vezes a própria indústria e a opinião pública parecem se esquecer do seu principal embaixador, o amador que em 2003 mudou o panorama do jogo. A vitória de Moneymaker é emblemática, a típica boa história americana, a mitologia do herói no ocidente, o soldado que foi à guerra, o amador que venceu.

Todo o trabalho de construção de um ídolo depende da façanha, e valorizar ou desprestigiar uma vitória são os lados para se escolher no momento de contar uma história. Afinal, Moutella teve um bom desempenho pelo fato de ter eliminado todos os mesa-finalistas ou ele deu sorte? O prestígio de Moneymaker veio do bracelete ou da história que propiciou uma explosão do poker? O ponto não é defender ou atacar os amadores, não é esse o caso, mas quando tratamos uma vitória no poker como um acidente, mais ou menos como uma margem aceitável de erro na regra, esquecemos que poker é um jogo. Por outro lado, Moneymaker e a legião de amadores expõem o paradoxo dessa questão, a maior propaganda para o poker vem pelas mãos de amadores.

O bom jogador continua ganhando, e mesmo a contragosto, o poker continua real, mas a pergunta fica, a competição legitima o quê?

 

Imagem: pogonici/Shutterstock.com (editada)

Rankings são feitos de jogadores, não de pontos

A adoção do sistema de pontuação do GPI (Global Poker Index) para o ranking da temporada 2015 da Brazilian Series of Poker se tornou um imbróglio assim que foi feita a divulgação dos resultados da primeira etapa. João Bauer, campeão do main event, figurava apenas na nona posição do ranking, enquanto que o campeão do high roller Ariel Bahia, era o líder da competição. João Bauer manifestou sua indignação, e encontrou apoio de diversos jogadores. Na tentativa de encontrar uma solução para o impasse, a direção da série brasileira voltou atrás, modificando o ranqueamento para o sistema de pontuação usado nas edições anteriores. Agora, foi a vez de Ariel Bahia colocar a decisão em xeque, também apoiado por vários jogadores.

A BSOP é sem dúvida a principal e melhor organizada série de torneios do país, uma empreitada de anos nadando contra a maré (e porque não dizer, continua nadando, há tempos não temos uma etapa do Rio), mas nesse caso faltou planejamento. Qualquer simulação na página principal do site do GPI mostraria que o ranking deles dá mais peso ao valor do buy-in do que ao tamanho do field. Atribuir o impasse ao GPI é um caminho fácil, (mesmo porque, até o incidente, o GPI era tido com muito prestígio). Admitir o erro, fundamental. Voltar atrás, improvável para uma competição, mas foi o escolhido, afinal, o evento principal não pode ficar desprestigiado em detrimento dos eventos paralelos, mesmo os mais caros, pois a vitrine da série é o main event, é ele que distribui a maior premiação, é ele a atração da série. Ariel e os demais que pontuaram bem na etapa de São Paulo, pagaram o pato.

Aliar BSOP e GPI evidencia o que acontece em qualquer mercado, empresas se associam para abarcar o quanto puderem de espaço, e obviamente crescerem mais. Alinhar interesses e se associar é condição fundamental, o que deixa a questão mais de mercado do que em pró dos jogadores.

Mas há um aspecto anterior com o problema do ranking, que não está no sistema de pontuação, no cálculo, no favorecimento de determinado jogador, no valor do buy in ou mesmo na cotação do dólar. Falta uma representatividade dos jogadores ou de algum grupo ou associação formada por eles. Um ranking esportivo deveria alinhar interesses dos jogadores, com participação dos praticantes, organizadores, mercado e mídia especializada. Num quadro como esse, talvez não tivéssemos o melhor ranking possível, mas certamente um ranking consentido, e por isso mais próximo de todos.

 

Imagem: Shutterstock

Entrevista: Lizia Trevisan e Mercedes Henriques do Queens of Poker

Neste mês de fevereiro, o grupo Queens of Poker completa um ano de atividade promovendo o jogo entre as mulheres, e no dia 22 deste mês vai comemorar oferecendo um freeroll com premiação de 1.000 dólares na plataforma Betmotion. Mais informações podem ser encontradas no site do Queens of Poker e na fanpage no facebook. Aproveitando o ensejo do aniversário, nesta entrevista dupla, Lizia Trevisan e Mercedes Henriques, duas das fundadoras do grupo, falam um pouco sobre o que as motiva para o jogo, tecem suas opiniões sobre alguns assuntos específicos da realidade feminina nos panos, e falam como enxergam o mercado.


Como vocês veem a evolução da presença feminina no poker de um ano pra cá? Houve crescimento? O que se tira de positivo desse esforço? A criação do Queens gerou um engajamento maior de quem já está na comunidade do poker?

Lizia: 2014 foi muito importante para o poker feminino, tivemos resultados expressivos em grandes torneios, criação de iniciativas como o Akkari Team Micro Feminino, mais mulheres se profissionalizaram e houve aumento do field. O grande desafio do Queens of Poker foi reunir as jogadoras e promover oportunidades. Acredito que cumprimos com esses objetivos e, mais importante, temos o apoio das mulheres. A boa receptividade da comunidade do poker foi um termômetro para a nossa iniciativa, há carência desses espaços e buscamos agregar ao poker feminino.

Mercedes: Eu acredito que sim, temos ouvido falar mais de torneios femininos, e logo que criamos o grupo, teve uma febre de movimentos. Acho que houve uma maior participação tanto dos clubes quanto dos empresários, salas de poker se dispuseram a dar apoio, e as profissionais da área tiveram suas conquistas divulgadas, e isso não existia, quase não se ouvia falar dessas jogadoras com a frequência que elas mereciam.


No início do ano passado, o Akkari Team Micro montou sua primeira turma somente de mulheres, e o diretor técnico Leonardo Bueno escreveu em seu blog um artigo sobre as diferenças de treinamento e comportamento entre homens e mulheres (
Porque mulheres não têm tanto sucesso no poker). A Lizia Trevisan também deixou sua opinião no blog, que inclusive gerou uma boa troca de ideias em outro post. Como vocês entenderam a mensagem, e que posicionamento vocês têm em relação ao artigo dele?

Lizia Trevisan
Lizia Trevisan

L: O texto do Leonardo Bueno foi de opinião. Como o nome já diz, reflete uma visão pessoal. Algumas pessoas se identificam, outras não. Em síntese, ele atribui a falta de resultados das mulheres no poker à uma excessiva passionalidade da personalidade feminina. Ao final, ele encorajou que os leitores postassem a sua opinião, e foi o que fiz. Como jogadora, não me identifico com esse estereótipo. Acredito em estatística, e menos de 5% do field é feminino, logo o percentual de mulheres nas finais é muito inferior ao dos homens. Outra questão importante é o ingresso tardio das mulheres no poker, volume e estudo são primordiais para resultados. Super válidas tais discussões e somente com elas vamos entender a evolução e desafios do poker feminino.

M: Deixo por conta da Lizia a resposta, mas esse evento nos deu vontade de seguir em frente.


Também no início de 2014, a jogadora Milena Magrini alcançou a FT numa etapa da Brazilian Series of Poker, e posteriormente Igianne Bertoldi cravou o main event em Foz do Iguaçu. Até que ponto vocês entendem que isso contribui com uma maior participação feminina? Esse fato faz diferença para atrair as mulheres para os torneios ao vivo?

L: Feitos como os da Milena e Igianne são inspiradores, e acredito que motivou não só a mim. Elas provaram que é possível alcançar resultados, a revelia de um field numeroso, difícil e de maioria masculina esmagadora. Confesso que em ambas as situações torci e sofri muito, algo que o poker proporciona que acho fantástico.

M: Claro que sim, acho que as mulheres estão mais motivadas e confiantes. Nós aqui no grupo criamos alguns banners com os dizeres “Eu Vou”, então, a cada evento colocamos as jogadoras que estarão jogando, tanto no Ladies como no Main Event. Isso chama a atenção para a presença delas no BSOP, os organizadores também estão melhorando a premiação, e incluindo até outras formas de presentes na hora do evento feminine. Sentimos que isso tem influência de nosso grupo. Conseguimos apoio para oferecer buy-in no BSOP MIllions e criamos um ranking, o que motivou demais as meninas, e ter jogadoras como Milena Magrini, Igianne Bertoldi e Ale Braga, são exemplos de jogadoras batalhadoras que sabem o que querem.


Vocês ainda sentem que o público masculino, maioria nos fields, desdenha das mulheres como jogadoras de poker?

L: Quando ocorre, acredito que em maioria se dá de forma intrínseca. No online, por exemplo, é comum jogadores demonstrarem incredulidade quanto ao fato de eu ser mulher, e acredito que não ocorre só comigo. No live, onde temos mais impressões, há literalmente de tudo. Por experiência pessoal, vivenciei situações desagradáveis, mas felizmente a grande maioria é cordial e apoia a participação feminina. Minha percepção é que não é somente no poker que encontramos situações onde a mulher é subestimada, a história está aí como testemunha disso.

M: Não abertamente, eles respeitam as mulheres nas mesas e nos eventos, mas às vezes acontecem casos como o que o Vitão da TV Superpoker falou tão profundamente, sobre o cara que cravou o Ladies do EPT, e mais cinco homens foram para a mesa final, porque na França eles não podem impedir os homens de se registrarem. Nossa, particularmente fiquei chocada! Pois existem muito mais eventos para homens, e não vi necessidade desse comportamento, então eu presumo que ele queria provar superioridade masculina.


Justamente a próxima pergunta, Mercedes. Recentemente, no EPT Deauville, o torneio para mulheres teve uma massiva presença masculina no field, e como resultado, a vitória de um homem, derrotando uma mulher no heads up final. Como vocês entendem esse tipo de situação?

O card-protector das Queens no BSOP
O card-protector das Queens no BSOP

L: Faço uma crítica para nós mulheres. Tal fato ocorreu porque não nos organizamos como um público consumidor de poker, deixando de opinar e agir numa situação de interesse comum. No momento em que tomasse conhecimento da participação masculina, me recusaria a jogar o evento e exigiria o reembolso do buyn. Se todas agissem em conjunto, pressionariam a organização, visto que a proporção do field foi de 61 mulheres para 22 homens. Mesmo que tal atitude não culminasse com a retirada dos homens, demonstraria a insatisfação quanto ao fato, e promoveria o debate sobre o assunto. Quando cruzamos os braços, consentimos com o que está sendo imposto.

M: Lamentável, fiquei sem palavras quando li a notícia, e até postei no grupo. Lamento mais a nossa representante ter perdido para esse ser que se diz homem e se registra em um torneio feminino, na verdade 22 homens se registraram, e a direção do torneio não quiz ser acusada de sexismo. Muito absurdo pra mim, mas que sirva de exemplo para que não aconteça em nosso país.


O que vocês acham das artimanhas usadas pelas mulheres quando dizem explorar seu lado sensual no jogo para obter vantagem? Contextualizando, recentemente a jogadora e modelo belga Gaëlle García Díaz afirmou que usa decotes para que os oponentes evitem eliminá-la nos torneios.

L: Honestamente, nunca testemunhei nenhuma mulher afirmando que faz uso de tais artimanhas. Já vi fotos de jogadoras com decotes, o que é uma prerrogativa pessoal. Se vai contra a convenção social, que os organizadores façam regras quanto a vestimenta. No mais, acredito ser uma exposição gratuita. Para que nos trajar de forma sensual, se na maioria das vezes somos únicas nas mesas e isso já chama mais atenção do que gostaria? Às vezes sinto ter na minha testa os dizeres “big molezinha, mulher é ultra tight, só encontraremos resistência com o topo do range”.

M: Acho que, como em tudo na vida, existem comportamentos e comportamentos, toda mulher, seja jogadora ou não, deve se dar ao respeito se quer ser respeitada. Concordo que as mulheres se arrumem bem vestidas para jogar, mas isso de explorar o lado sensual foge do objetivo que é mostrar sua capacidade de jogar bem o jogo, mas não é uma atitude geral, são exceções que agem dessa forma.


Lízia, você comentou que o desdém masculino é exceção, mas agora falou do “big molezinha” como se fosse corriqueiro. Não é contraditório?

L: Por isso falei, às vezes. O poker é um jogo que envolve psicologia e é um evento social. Cada jogador opta por uma linha de estratégia psicológica, alguns preferem não interagir, outros falam por todos nas mesas. Há casos de alguns que têm como objetivo tiltar os oponentes. Se todas essas condutas são aceitáveis, por que fazer “charminho” não seria?

M: Como eu disse, são excessões que usam esse artifício, não dá para generalizar.

 

Mercedes Henriques
Mercedes Henriques

Mercedes, num artigo publicado no Metapoker em 2014, você sinalizou o contrassenso na exploração da imagem da mulher na propaganda do poker. A Lizia também manifestou em alguns artigos seu posicionamento em relação a participação das mulheres no jogo. Vocês acham que esse panorama mudou?

L: Acredito que o mercado foi focado por muito tempo no público masculino, por razões óbvias. Quando o mesmo resolveu alcançar o público feminino, o fez em algumas ocasiões de forma deturpada, utilizando imagens sensuais de mulheres, penso que no intuito de atrair ambos os públicos. O mercado amadureu, e em conjunto com o desafio de desmistificar o poker como jogo de azar, promove o esporte de forma mais séria, buscando associar sua imagem aos esportistas renomados, por exemplo. No cenário atual, não há como um clube ou evento passar credibilidade tendo como propaganda uma mulher seminua.

M: Na verdade, o artigo que escrevi teve um resultado imediato, o clube tinha usado a imagem de uma mulher semi-nua com fichas e cartas espalhadas sobre o corpo. Eles retiraram do ar e  colocaram de outra forma, e de lá pra cá, sim, mudou bastante a forma de abordagem da mídia sobre o assunto.


Falando em esporte, pra vocês, poker é esporte?

L: Eu tenho duas respostas para essa questão. Vejo jogadores, profissionais ou amadores, se esforçando para evoluir, lutando diariamente de forma responsável, tendo a consciência de toda a dificuldade e desafio quando optam pelo poker como profissão ou paixão. Para esses é esporte. Vejo também jogadores que focam no dinheiro, no prêmio. Para esses, o poker é bingo. Entendo o poker como esporte quando a premiação é secundária. O dia que eu não ficar feliz por cravar um torneio, por mais irrisória que seja a premiação, pararei de jogar poker.

M: Acho que é um jogo que conta com astúcia e sorte! Com treinamento certo funciona mais a inteligência!
 Essa é a forma que estão utilizando para desmistificar o jogo, gosto do nome esporte da mente. Realmente, alguns conseguem exercitar a mente, outros só fazem baralhadas.


Por que vocês acham importante aumentar a presença das mulheres no poker? Na opinião de vocês, o que as afasta?

L: A mulher eleva o nível do ambiente e dá credibilidade ao poker. Não entendo o poker como esporte democrático e inclusivo sem a participação feminina. Não me vejo frequentando um ambiente predominantemente noturno, em que eu seja a única mulher. O poker só tem a ganhar com a participação feminina. Vejo nas mulheres todas as qualidades necessárias para a prática do poker. Num artigo, arrisquei: Fica a pergunta, por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que você conhece que gostam de vídeo-game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas e namoradas não torcem o nariz quando o truco começa? Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Mas, se alguém tiver essa resposta, por favor avise-me.

M: Bom, aumentar a presença das mulheres no poker foi o motivo de criarmos o Queens, foi quando nos demos conta que era difícil ir à um clube jogar se não estivéssemos acompanhadas de marido, irmão ou amigo. Os locais de jogo eram meio marginalizados com presença só de homens, então nos sentíamos desconfortáveis nesses lugares. No online também era assim, 8 entre 9 jogadores eram homens, e se xingavam, altas baixarias nos sit & go’s, e nos torneios, mas agora isso já tem melhorado nas casas de poker, já se importam em ter um bom ambiente, e já promovem torneios femininos com mais frequência. Já não me sinto excluída quando entro em um clube.

 

Imagens: Arquivo pessoal, foto Lizia: Fabio Hamann

A ilimitada falta de coerência das reentradas ilimitadas

Seria utopia pensar que a Brazilian Series of Poker não sucumbiria à ganância do seu maior patrocinador e à influência maligna do LAPT. Introduzir reentradas ilimitadas no evento principal da BSOP é um equívoco que pode trazer prejuízos irreparáveis para imagem do pôquer no Brasil. A palavra ilimitada, nesse caso, significa sem controle, sem responsabilidade, sem lucidez, sem coerência, sem igualdade de direitos, sem respeito às próprias raízes e, consequentemente, sem a aceitação da sociedade. É lamentável que a usura de alguns coloque em risco um árduo trabalho que, durante anos, foi feito para provar que o pôquer pode ser um jogo saudável, igualitário e responsável.

Os fracos argumentos, usados por alguns para defender as reentradas ilimitadas, são inconsistentes e parciais. Dizer que as reentradas enlouquecidas são para agradar os jogadores que moram longe e os ditos jogadores profissionais, é uma clara tentativa de mascarar o verdadeiro intuito dessas mudanças. Se assim for, façam, então, um torneio exclusivo para os lunáticos.

De quebra, coloquem máquinas caça-níqueis, roletas, jogo de dados e cuspe à distância para ocupá-los durante os intervalos. Definitivamente, não se pode tomar medidas que favoreçam os mais afortunados em detrimento da maioria com menos recursos. Querem realmente agradar a maioria dos jogadores? Então se esforcem para diminuir as exorbitantes alíquotas de impostos cobradas, coloquem cadeiras confortáveis nos eventos, lutem para que tenhamos alimentos de qualidade com preços aceitáveis.

O lucro com as reentradas ilimitadas pode não compensar o preço de uma insastifação geral.

 

Imagem: Dzianis/Shutterstock

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker