A experiência do jogo

Exatos meio-dia e cinco, minutos após a sirene da obra soar, uma dúzia de pedreiros se aglomeram em torno de uma mesa improvisada. Um deles caminha com pressa berrando “proxim’é-eu”, outro abre a caixa surrada e retira as peças, pedras brancas desbastadas, de barulho peculiar, quem jogou dominó sabe o quanto. Em duplas, as partidas são rápidas por força do hábito, enquanto um deles mal assenta o dobre de quina no madeirite rosa, o adversário já encaixa uma peça na sequência, a gritaria começa, gargalhadas ecoam entre colunas e vigas da construção, riem uns dos outros de suas desgraças e alegrias lúdicas. Quem fica de fora não se diverte menos, escarnecem os perdedores, zombam mesmo à distância, como faz o ambulante que empurra um carrinho de mão com mandioca e banana, recostado na mureta para assistir ao jogo, para também se perder nele. Naquele intervalo de tempo, a construção, fruto da capacidade humana, é desconstruído pela experiência do jogo, fruto da imaginação.

Sobre a mesma mureta, capacetes empilhados uns nos outros e o ruído das peças de dominó no madeirite lembrariam pilhas de fichas para qualquer rato de feltro. Não há muretas no fundo do bilhar que abriga as duas mesas de poker que amortecem stacks coloridos todas as terças-feiras, a sede da sede de jogo que atravessa a madrugada. A troça da parceirada tem tanto lugar quanto as bad beats, o river é quase sempre horrível, o dealer é o bode expiatório do crime que não cometeu, cada assento conforta um jogador que o baralho desconforta. A garçonete sorri sem entender o porquê.

No caxetão da periferia, uma vez por mês, depois de duas avenidas grandes, três quebradas, quatro caras na porta confirmam se ainda há lugar. Quinhentos reais é o preço da brincadeira, seis pangarés por mesa num salão com sete delas. Salão vizinho a cancha da bocha, recreação dos de mais idade, um dos mais antigos jogos do ocidente. Do outro lado da cidade não vale grana, só honra, um velhote ajeita o quipá, dá corda no relógio, na maioria das vezes três, excepcionalmente quatro, são os tabuleiros dispostos no corredor vizinho a livraria do Conjunto Nacional, na Paulista. Curiosos acompanham intrigados, uma sequência rápida de movimentos, e4, e5, Nf3, Nc6, Bb5. Espanhola de novo! Diz irritado o parceiro.

Nos jogos o tempo não passa, se enganam aqueles que pensam que jogar é um passatempo, jogar é perder-se nele, a experiência do eterno dentro de uma fração de tempo.

 

Imagem: Jogando dominós em El Machuelitto, Porto Rico. Jack Delano em dezembro de 1941

Criamos o fish para não sermos tão ruins?

Na aurora do poker provavelmente qualquer jogador era fish, o tal que mal sabe pra que lado corre o baralho. O entendimento da dinâmica do jogo era furtado pelo impacto da aleatoriedade do baralho, o que permitia que a sorte ganhasse mais significado (Basta notarmos em alguns principiantes a tendência de pagar até o river o flush desejado, ou mesmo a noção dos que olham o poker de fora de que o jogo se trata de ter sorte). Contudo, o espírito do jogador é audaz, e logo uma matemática básica se tornou vantagem, o comportamento falou mais do que o bet, decifrar o jogo virou sua condição. No fundo, olhar para o poker como jogo de azar (ou de sorte) é um jeito de olhar, tanto quanto olhar para o jogador não habilidoso e rotulá-lo de fish.

Mas, calma lá, afinal o fish existe… Ou não. Vejamos. O fish, o pato ou o donkey fazem parte da fauna que sempre está a um passo de você, ou seja, é a sua percepção do jogo no encontro com o adversário. No poker, quanto mais sabemos, mais percebemos o quanto o oponente não sabe e tiramos um tipo de proveito disso. A conversa muda quando a exceção da regra confirma que o fish de hoje pode ser o shark de amanhã, por isso parece que a alcunha de fish não está atrelada somente ao nível de habilidade, mas a uma certa expectativa em relação ao que se procura no jogo.

Explico. O fish clássico buscaria no jogo a incerteza da sorte, a emoção presente no virar das cartas no bordo, uma experiência de sensações que surgem na peculiaridade do poker. Só que, em oposição, o fish também seria o sujeito que segue a cartilha, ficando à mercê do jogo, aguardando e jogando somente cartas com valor, e portanto tornando-se explorável, um alvo de bad beats. De algum jeito a falta de conhecimento e/ou um conhecimento engessado e limitado norteia a expectativa do jogador, no primeiro caso o negócio é ganhar a qualquer custo (contando essencialmente com a sorte já que falta conhecimento), no segundo caso a busca é evitar riscos, evitar perder. O jogador que persegue a sorte no jogo vai sentir falta dela quando na derrota, ou pode culpar o jogo achando que é mais um dos jogos de azar. O jogador precavido, que arrisca pouco, vai ter seu par de reis quebrado e acabará culpando o adversário baralhão, chamando-o de fish.

Quem já passou por qualquer uma dessas duas fases, ou ambas, deve ter aprendido que o jogo se desdobra para além desses polos, pois evitar derrota ou querer ganhar a qualquer custo, são duas faces de uma experiência um tanto pobre de jogo, pois nos colocamos em posição de dependência, esperando o flush bater ou aguardando o “Grupo 1” para jogar. Por isso pode ser que seja nessa expectativa que encontremos a linha onde termina o fish e começa o bom jogador, pois jogadores melhores, em tese, estariam tentando criar condições favoráveis pra si considerando a dinâmica do jogo e não dependendo dela.

Podemos especular ainda mais, se assumirmos que a habilidade para o poker pode ser aprendida por qualquer um ou adquirida com experiência e estudo, o fish passaria a ser uma questão temporal, um estágio anterior rumo ao aperfeiçoamento, de certa forma também uma expectativa, um jogador buscaria se aprofundar nos fundamentos do poker para fugir da dependência apresentada acima. Junto disso cria-se outra percepção, onde o fish passa a ser o jogador que não se dedica o suficiente, que não estuda o jogo com afinco, viés que é aproveitado pelo mercado, há conhecimento para ser repassado e a falta de fundamentos pode ter um remédio, o treinamento.

Definir o que é fish passa necessariamente por trabalhar o tema colocando o categorizado num canto, preferencialmente, distante de nós. Mas, por que precisamos definir o que é fish? A quem essa categorização atenderia? Possivelmente não há uma finalidade nisso, pode ser apenas um saber para a prática do jogo, um alerta para tirarmos vantagem, e como comentado no início desse texto, identificar o fish é uma tarefa da nossa percepção, uma comparação simples, mas pescá-lo é outra história.

Por isso, ficar preso apenas à comparação também parece pouco proveitoso, pois se percebemos o fish porque ele joga de forma estranha à nossa, e isso nos afeta mal, esse incômodo pode identificar o quanto estamos presos à ideia de que a categorização nos propicia uma vantagem, quando de fato não é identificar que nos torna melhores, mas descobrir como atuar dentro dessa possibilidade. Por que ele pagou com isso? Por que deu raise de 5xBBs? Por que deu check no river? Perguntas que podem ser caminhos de compreensão ou elementos para definir o quão ruim é o oponente frente ao nosso jogo.

Categorizar aquilo que aparenta ser incompreensível nos atos do oponente se torna uma resposta ressentida pela falta de conhecimento que percebemos que o adversário não tem. Mais exatamente, a exteriorização de um descontentamento por perder para quem sabe menos. Então, criar o fish vira um alento, a desculpa perfeita para perdermos “ganhando”, afinal sabemos jogar, já o fish… Está aí a armadilha do jogo que nos convida a subestimar o adversário, o que por vezes nos dá a mesma falsa sensação de estar por cima, um tiro no pé, o autoengano.

Enfim, o fish tem seu assento garantido em nossas percepções, ele pode ser a constante de uma competição onde a grande maioria dos praticantes denomina seu adversário como fish, mas onde poucos ganham consistentemente. Para jogadores que pretendem escapar das categorizações, não há fishes, senão possibilidades.

 

 

Imagem: Shutterstock.com/JoeBakal

Como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

O que me agrada neste joguinho? Não é o fato de ser o jogo da mente. Aplicar a matemática, a psicologia ou a leitura da linguagem corporal. Nada disso. Agrada-me no joguinho o barulho das fichas, o baralho falando, a dinâmica do dealer orquestrando cada mão da órbita. É o coração que quase pára ao descobrir o full house no river quebrando o cara monstro em fichas.

Estive em Las Vegas e lá me conquistaram as luzes e o dia que nunca termina, sentava no torneiozinho do Treasure Island ainda com o sol rachando o asfalto e saía de lá com a lua acima das nossas cabeças e os neons ligados. E ali eu debutei para o poker, mas não é début com príncipe e valsa. É regada à cerveja. Corona with lime, please! E barulho de ficha.

O jogo da mente se transforma em jogo de quem mente quando passa o blefe de 35off que não leva a lugar nenhum, mas na minha cabeça ansiosa, precisa ser jogado. Jogo de demente quando eu decido shovar meu K5 naipadinho, mais uma vez por falta de paciência, mas vai que cola né? Daí eu dobro, continuo, vou pra bolha, da bolha para o ITM, isso tudo sem ter a menor ideia de como contar as odds e os outs. Na simplicidade da minha donkisse, não consigo lembrar o que rolou na última mão que entrei. Como foram as ações pré-flop, o que o dealer bateu no flop, quem deu c-bet, quem foldou. E o turn? Completou a sequência runner-runner? Sei lá. Só sei que adoro ouvir falar isso tudo, algumas coisas eu entendo, outras nem tanto, daí vou a procura desse conhecimento, mas não é pra aplicar no feltro, é só pra entender as resenhas do dia seguinte, quando os meus amigos começarem a falar no grupo.

Ahh! Mas eu gosto desse joguinho, mas nada de online onde as fichas não fazem barulho nos stacks, nem os outros jogadores têm cara. Gosto de ver a mão tremer pra dar o call, daquele caminhão de fichas que foram empurradas pelo vilão. E depois ouvir o grito da galera no showdown. E órbita em órbita, nível de blind em nível de blind, a noite passa, a cerveja mais gela a garganta que embriaga, até que se dá o three-handed, o HU, e enfim o vencedor do torneio. Alguém ganhou, não fui eu, mas mesmo assim, de ali estar gargalhando com as invenções dos meus amigos, das musiquinhas e das piadas do último livro do Ary Toledo, já foi suficiente, e como já disse antes, Ahh! Eu gosto desse joguinho…

 

Imagem: iordani/shutterstock.com

Solverde Poker Season 2015

Neste ano de 2015, depois de fase conturbada, resolvi visitar a Europa pela primeira vez em 41 anos de vida. E aliado à minha vontade de viajar e sair da rotina, tentei montar um calendário com algum torneio de poker para jogar, pela primeira vez, um torneio internacional de alto nível, embora eu já tenha jogado alguns torneios em Vegas, os pequenos e acelerados regulares dos cassinos de lá.

Bom, a princípio, eu iria passar a maior parte da minha viagem em Vilamoura, região do Algarve e durante as minhas pesquisas encontrei o PokerStars Solverde Poker Season. Nessa grade regular de torneios em Portugal haveria um, com um bom valor de buy in e uma estrutura bacana bem próximo de onde eu estaria. Resolvi as minhas datas da viagem para estar livre nos dias da etapa Classic, no Cassino Algarve, na Praia da Rocha (€110 + uma recompra). O PokerStars Solverde Poker Season é o mais antigo circuito de torneios live em Portugal. São 12 etapas com um Main Event de €750, etapas regulares de €250, as novas etapas Classic de buy in €110 (da qual participei de uma), e ainda quatro Special Events de €300.

Consegui as informações básicas no site pokernews.pt – depois, enviei um email para o Bloco da Barra (Bruno), que me respondeu prontamente. Muito atencioso, me passou todos os detalhes de como seria a estrutura, horários, como me inscrever e tal. Fiz um depósito na conta e minha inscrição via site do Solverde. Uma dica, pagar a partir do Brasil foi importante para não perder a inscrição, mas o torneio não atingiu o cap de 220 participantes. Muitas pessoas se inscreveram na hora que o cassino abriu, acredito que se você não tem certeza se vai participar, possa ter tranquilidade para inscrever-se na hora mesmo. Mas é bom consultar o Bruno dependendo da etapa que você quer participar, que pode ser mais concorrida.

Mas vamos ao jogo. Sentei à mesa e comecei a bater papo, saber de onde eram, essas coisas. Começamos com 25 – 50, um stack de 20.000 fichas e blinds de 30 minutos (bem confortável, deep, suficiente para uma boa jogabilidade). Da esquerda para a direita, um rapaz de uns 19 anos, na canhota dele um tiozão falastrão, seguido um português sério, um outro rapaz que parecia o Johnny Bravo. Ao lado dele, um cara alto, que conhecia todos os dealers, parecia bem regular na série, ao lado dele um estereotipado jogador (com camiseta do PS, fone grande, óculos escuros, bonezinho 888.. Todo paramentado), e mais uns que pouco conversei. De cara, já deu pra perceber que o field era formado de pessoas experientes na sua maioria e com tempo no pano. Não parecia em nada com os turistas de Vegas, nem com os conhecidos baralhões dos clubes brasileiros… Era poker sério e justo. Não vi exageros à mesa, mas claro, tinha sua cota justa de jogadores bem ruins.

Fichas do Solverde Poker Season
Fichas do Solverde Poker Season

Já na terceira mão, fiz uma enorme cagada. Eu com A9 off, abri 2,5BBs de MP e levei um call do BB e do regular ao lado dele. Flop, Axx. A mesa chega em gap pra mim, que faço tudo… 10.050!! Shit… dei um missclick ao vivo. As fichas de 100 e 10.000 eram respectivamente, pretas e roxas escuras. Naquela ansiedade inicial, com 400 no pote, minha intenção era apostar os 150 e acabei apostando 201 big blinds… O jogador no BB me alertou, mas não havia mais o que fazer. As fichas estavam na mesa, e torci para que não tivessem acertado o flop maior que o meu. O grandão chorou para largar o Ás dele me contando que também tinha o A, mas com kicker menor.

Bom, depois dessa besteira, passei a prestar mais atenção e fui subindo o stack. Perdi uma mão para o “paramentado” e assisti o tiozão perder um monte de fichas pra todo mundo (incluindo pra mim) quando ele buscava flushes e brocas. Dei bons reraises em horas certas, larguei quando tinha que largar, vi o Johnny “extra tight” Bravo cair com AK e ganhei uma boa mão do cara serião à minha frente. Ele abriu um raise em MP, eu completei do small e o rapaz à minha esquerda, no BB, foldou. Ele teve que fazer um rebuy depois que eu tomei tudo dele com uma trinca de 4 no flop com Ás pareado. Em seguida, depois de uma discussão do “super jogador paramentado” com o tiozão perturbando todo mundo, sacamos ele da mesa (todos nós tomamos as fichas e o rebuy dele ainda) e assim, entramos no intervalo bem na troca de mesas. Fui para a outra mesa, depositei minhas fichas no meu lugar e saí para fumar com um stack bem sadio. Nessa hora, conversei bastante com o cara que perdeu tudo pra mim, ele elogiou a jogada e defendeu a dele (par de Ás).

Assim que me sentei, observei por um tempo os jogadores e as jogadas. Perdi uma órbita fazendo isso, incluindo largar um AJ do small. Havia um português na minha direita que veio short da mesa anterior, ao lado direito dele um beef (Inglês), uma mulher toda desajeitada com o cabelo desgrenhado, mas que falava inglês impecável e também conhecia os dealers, à minha esquerda mais um portuga short da outra mesa, à esquerda dele um outro muito chato. Se achando o Phill Hellmuth, enchia a paciência de todo mundo. Ganhei o respeito dele na primeira mão que me envolvi, do BB, com 47 de espadas. Após um raiser inicial, que recebeu quatro calls, incluindo o beef, eu completei do botão. Meu sonho cresceu quando todos deram check no flop com um 4, e meu 7 bater no turn. O beef veio roubar a parada com uma over e eu só paguei. River blank, check dos dois… Eu abro as cartas e ele dá muck resmungando.

Bom, após essa mão, ele me perseguiu por um tempo, até que eu perdi pra ele umas fichas… Ok, ainda rondando os 25 BBs, me sentindo tranquilo de estar jogando um bom poker, chegamos na última mão antes do intervalo do jantar. Eu e a desgrenhada. Eu no BB e ela no botão. Chega em gap, ela com 17BBs aproximadamente, chumba all in. Com os antes e o small, tinha praticamente, 20BBs na mesa. Eu abro as cartas e vejo – AJoff. Ô decisão difícil… Após pensar por um minuto, só vi uma coisa na cabeça dela… Intervalo, gap, vou chumbar com overs e ver todos foldarem e eu vou pro intervalo melhor que antes. Ok, call… Ela apresenta JQ e eu levo a parada sem surpresa, eliminando a moça que fica tentando justificar a jogada.

Na volta do jantar, o torneio deu umas rasteiras em mim e perdi um flip com par de Ronaldos. Aí, berei os 15BBs por um bom tempo, até mudar de mesa e começar a pensar se realmente eu queria passar para o segundo dia com um stack curto. Abro do cut off com JJ depois da mesa rodar em gap. Isso representava nesse momento uma aposta de 5.000 fichas nos blinds 1.000 – 2.000, e tomo uma volta de 15.000 do botão. A mesa gira em fold e eu penso por muito, muito tempo. Foldo aberto o JJ e o portuga elogia, conversa e mostra o QQ. Coisas do poker.

Pra encerrar a minha participação, abri com J2s pra tentar roubar blinds do botão e o mesmo português dá call, assim como o BB. No flop, fico flush draw e chumbo tudo, tomando instacall do portuga com QK também de espadas e, sem surpresas, ele me derruba com K high. Em muitas mãos aprendi coisas novas, visualizei erros passados, vi acertos e erros dos jogadores, mas sempre com muita atenção à real experiência, e isso tudo, valeu por cada minuto das nove horas que passei no cassino jogando esse torneio. Foi realmente muito bom.

Quem quiser se aventurar num torneio dessa série, recomendo muito. E aproveitem a boa disposição da rapaziada do pokernews.pt que são muito atenciosos. Encontrei o Bruno por lá, fazendo a cobertura do torneio e conseguimos bater um papo. Parabéns cara!

 

Fotos: Thiago Fabrette, Evento Classic do Solverde Poker Open

O velho Bill’s e o poker fé

O Bill’s Gamblin’ Hall and Saloon era um dos cassinos mais chulés da Las Vegas Boulevard, que é a principal avenida de Las Vegas, também chamada e notória pelo apelido “The Strip”. É na Strip que estão todos os monumentais e conhecidos cassinos da cidade, como Bellagio, Wynn, Caesars Palace, Mirage e Aria. Bem, esse não era o caso do Bill’s. O pequeno hotel-cassino cheio de beberrões tinha a seu favor uma localização privilegiada, pois ficava entre o Bally’s e o Flamingo, de frente para o Caesars, e na diagonal do Bellagio, e tinha os jogos mais baratos da cidade, além do clima de festa constante. Ou seja, ninguém atravessava suas portas procurando uma atmosfera de seriedade, as pessoas estavam ali pra encher a cara, se divertir e apostar, e talvez isso o tornava um lugar cafona e cult ao mesmo tempo.

Lá você achava facilmente a Blue Moon, a breja de trigo dos baralhões servida com uma rodela de laranja, Coronas à dois dólares, steak com dois ovos por cinco dólares e fichas de um dólar bem legais. Além do mais, o Bill’s tinha herdado do recém fechado O’Shea’s, algumas atrações, como o Beer Pong (ping-pong com copos de cerveja), o anão que era mestre de cerimônia, e seu público cativo.

Antes dos dois anos que precederam seu fechamento em fevereiro de 2013, a área reservada para o poker consistia em apenas três mesas à beira da entrada, mas depois do crescimento dos torneios diários na cidade, o Bill’s resolveu separar uma área maior ao lado do espaço de apostas esportivas, e além dos cinco torneios diários com buy in de 30 pratas, o cassino tinha as mesas de cash mais baratas da Strip, com blefes e flushes em blinds 50¢/$1.

Os jackpots que a poker room oferecia das oito até meio-dia resultavam em pelo menos uma ou duas mesas cheias de velhotes pela manhã. Havia bônus para royal, straight flush, quadra e Aces Cracked. Este último o mais buscado e esperado. É simples, bastava receber o par de bicudos, fazer um slowplay dos bons torcendo para o adversário melhorar a mão e, bingo! Cem dólares a mais na conta se você perdesse o pote, desde que ele tivesse no mínimo 10 dólares. Na primeira semana da minha quarta temporada na cidade, decidi bater cartão no Bill’s pela manhã, mais por conta do field fácil do que pelos jackpots. Nos dois primeiros dias encontrei mesas sem ação, com jogadores entrando com cacifes de apenas 30 dólares e exclusivamente esperando terem seus ases quebrados num festival de limpers que mais parecia um boicote ao jogo. No terceiro dia consegui um feito nada agradável, e me tornei persona non grata nesta poker room, eliminando dois jogadores em doze minutos e fazendo com que os outros mudassem de mesa. Desisti de jogar lá de manhã, e só um fato me fez voltar, mas dessa vez na tarde do dia seguinte.

No quarto dia, após uma queda prematura no torneio das 16 horas do Bally’s, o cassino vizinho, entrei no Bill’s pra fugir do calor desértico das ruas e cortar caminho até o Flamingo, onde estava hospedado. Numa passadela até a poker room, fiquei olhando as mesas de cash, e lá estava ele sentado e espalhado pela mesa, com várias pilhas de fichas desarrumadas de cinco dólares e com um enorme sorriso estampado na fuça para desespero dos adversários. Era um velhote gorducho, vestindo uma camisa de time de futebol americano, que atendia pelo nome de Mister Brown.

Nosso amigo, o Sr. Brown, era um caixa eletrônico, e tinha um método apurado para jogar o cash do Bill’s. Ele entrava com o valor máximo permitido na mesa e nunca abria raise, limpando a maioria dos potes, mesmo quando tinha valor nas mãos, e se algum adversário tratasse de aumentar, ele remediava apenas dando call. Seu range parecia ser mais amplo do que as 169 combinações de duas cartas iniciais possíveis do hold’em, jogando com quaisquer cartas naipadas, qualquer par, qualquer broadway, quaisquer duas cartas que somadas cheguem a 8… Enfim, acho que deu pra entender não?

Outro aspecto da sua tática era dar call em todas as streets, bastava ele estar na mão e pintar um draw no flop que o Sr. Brown iria buscar até o final, sem qualquer cerimônia. Como resultado, ele perdia boas quantias na maioria dos potes, e prontamente recarregava o stack. O único problema era quando ele acertava. Como compensação em perder 4 ou 5 potes seguidos de 40 ou 50 dólares, ele puxava logo umas duzentas pratas pra pilha quando seu flush quebrava trincas e sequências dos adversários, ou quando saia com pares de Ás e Reis em algumas mãos.

De hora em hora, o Sr. Brown sacava da mesa jogadores inconformados, amedrontados e tiltados, para a alegria dos dealers que eram recompensados justamente pelos poucos outs que ele acertava no river. E que poker room não gostaria de um desses na mesa, não? Fichas e mais fichas de rake a cada minuto fizeram o Sr. Brown ganhar uma garçonete quase que exclusiva, pronta para atendê-lo em qualquer pedido. Se eu tivesse que descrever o Sr. Brown pra alguém, eu diria simplesmente que ele é um cara com uma característica peculiar, pois quando está numa mão, buscando seu flush, seu olhos brilham. Ele joga poker fé, ele joga roleta na mesa de poker, e está lá exclusivamente pela descarga química que percorre seu cérebro e vai até a ponta de seus dedos.

O Sr. Brown, nesses extremos, só existe como representação literária. Ele é a junção de todos aqueles gamblers com os quais você se depara nos feltros. Ele é um exemplo de todas as vezes que você tomou baralhada. Ele é aquele cara que muitos dizem ter sorte, e se perguntam entre si — Mas você viu como ele acerta? Que conta mais regulada! Para ganhar do Sr. Brown você tem que vencê-lo em sua mente primeiro, aceitando que ganhar e perder potes faz parte do jogo. O esforço em entendê-lo só faz sentido se você quer aprimorar seu jogo, e entender que ganhar um pote não significa jogar bem, afinal, jogar bem vai além do resultado.

De volta à São Paulo, numa madrugada de terça-feira, os últimos remanescentes no salão do clube que jogo, decidiram fazer uma rodada de poker fé, algo digamos mais saudável do que ocorria nas mesas com o Sr. Brown, onde você casa uma ficha por órbita e o dealer distribui as cartas dos jogadores abertas, e depois bate flop, turn e river pra ver o baralho fazer graça, enquanto todos torcem por seus outs até o river.

 

Reeditado do original em Aprendendo Poker. Foto: M. Naccarato

Aparente e oculto

O sorteio dos assentos garantiu uma disposição frente a frente com o algoz da noite. A posição nove, aquela cadeira de merda que te faz perder a visão de boa parte do lado esquerdo da mesa, parecia ditar que a noite de poker não seria das mais fáceis. Percepção, a que talvez seja a mais contundente qualidade, só poderia ser usada com toda força pelo lado de cá, e precisamente, logo a frente. O algoz, barba por fazer e braço tatuado, lembrava os revoltados dos anos 80, numa época em que ter tatuagem ainda era considerado algo marginal, algo que metia medo. Aliás, tatuagem indecifrável, sempre coberta por parte da manga ou pela pilha de fichas do stack que não parava de crescer.

Você passa algum tempo tentando perceber a dinâmica toda, entender os oponentes, tentando sacar em cada movimento, em cada valor de aposta, quem o baralho vai ajudar. Mas no caso do algoz, o baralho não só estava o ajudando, mas era quase impossível não percebê-lo, afinal dificilmente uma mão não seria jogada por ele, que via todos os flops e quase todos os boards. De início você evita o adversário, deixa passar uma ou outra oportunidade, depois começa a perceber que alguns flops valem a pena, e quando você está chegando até o turn e foldando, se dá conta de que o seu jogo ficou pra trás, e que não é o fato de ele estar acertando tudo, mas que você é que esqueceu de fazer seu próprio jogo.

O algoz não larga uma mão, quando aposta alto, acerta, e quando só paga, acerta no final, no river, sempre ele. E ele paga, pode ter certeza, até a última carta religiosamente.

É hora de tomar um ar, esquentar os pulmões com um cigarro amassado, ouvir a parada do parceiro, que acabou de ser eliminado pelo nosso algoz, que flushou runner-runner depois de pagar até o river, horrível, sempre ele. Voltando a mesa, mais um eliminado, dessa vez, o algoz achou uma trinca, mais uma vez no river, e acabou com o top pair de mais um desavisado, que deixou a mesa gritando: – Mas como acerta! Mas como?!

Nem tudo está perdido, e depois do raise do algoz, um all in no momento certo, que ele chorou até decidir pagar, mas o fez, e você estava a frente, AJ x KJ, que o flop tratou de aumentar a vantagem, mas que só segurou até o river barbudo que te sacou da merda do assento nove, o assento míope, onde a percepção tarda. Seu algoz agora tem nome, é Lucas, que vem te cumprimentar após a eliminação, e estica o braço para revelar a tatuagem, uma frase, assinada por Lucas, seguida da notação 12:2 e o versículo: Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido.

O que sua percepção deixou de ver não foi o lado esquerdo da mesa, mas que o algoz acredita mais nas cartas, ou em si, do que você.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

Numa mesa de poker, a virtude que lhe falta

Ele diz “a vala“ para o valete, board é bordo, trinca é trio, par é duplinha. Quem é de fora não entende, quem é de dentro compreende. Tiozão é a puta que o pariu, seu merda, diz sempre sorrindo no final, e emenda, aqui é ficha. A maioria o estima, mas nem todos.

Numa dessas, numa jogada que ninguém entendeu, dando call com king high, o garoto piranha logo solta falinha pra desmerecer, mas ele nem dá bola. O garoto insiste, ele finge que explica: tô jogando a psicologia que você não entende, aqui é ficha, repete. Do outro lado o resmungão, cara técnico, que memoriza o range de cada um e reclama do baralho. Solta sem paciência: como o senhor pôde dar esse call? Não tem lógica, não tem motivo. A resposta vem rápido: o que seria do poker sem fichas? Tô no river enquanto você tá pensando no flop.

O resmungão sabe, usa ”senhor” só pra parecer polido, polidez é a mais rasa virtude, até um idiota consegue. Ele continua: a longo prazo, o senhor está falido! Não paga nem a birita no clube. O velho retruca: e quem se paga aqui? Você vive disso ou pra isso? E solta outra risada.

Quem vive disso sabe, não faz diferença. Na FT o velho acha um flip, boa leitura, mas desnecessário naquela altura, e acaba eliminado. Vaga o assento e dá boa noite, mas a cordialidade, mesmo travestida de polidez, aquela mais baixa virtude, ninguém usa, só os que o estimam, mas aí nem é polidez. O garoto fala: vai tarde! O resmungão confirma sua teoria: olhaí, tá vendo! Quando o velho deixa o feltro, não há mais com o que os preocupar, o jogo quase que é menos importante do que se afirmar. Mas o velho mata a mesa quando prefere ensinar virtudes do que condenar vícios. Ao menos ele está em paz com o seu.

Imagem: Shutterstock (editada)

Quando o poker é algo mais numa terça-feira

O poker é assim. Um amigo te fala que abriu uma conta no PS e puxou uma graninha, você se lembra que há pouco tempo, ao final do não distante século passado, se jogava o tal fechado, e resolve se meter a besta de abrir uma conta pra jogar o hold’em online.

Mas parece que não basta, e faz um home game que atravessa as madrugadas com meia-dúzia de alucinados, que depois de um mês vira uma mesa cheia que mal cabe num cômodo de casa, e então você procura um bar ou restaurante para sediar toda a bagunça. E isso se torna uma tradição de terça-feira, nem tão sisuda e nem tão largada, um projeto não projetado, espontâneo em sua construção, edificado pela congregação.

Se tem algo sagrado, é a terça-feira de poker, um torneio batizado pelo dia, mesmo nunca acabando antes da quarta-feira, até que se saiba quem é o Ás do baralho, quem é o Ás das Terças. É difícil convencer, mas nem é esse o caso, que tá cheio de melhor torneio do mundo, mas o mais maneiro fica na Mooca, ali ao lado. E não é surpreendente que em muitos clubes seja assim.

Sem perceber, você passou todas as terças-feiras dos últimos seis anos encontrando os mesmos caras, conhecendo tantos outros, e reafirmando toda a sorte de privilégios que um simples jogo pode te trazer, onde há aprendizado que somente surge da vontade, que gera uma vida social nova, e entretenimento que do contrário de te alienar, te transforma. E o mais importante, seus inimigos na mesa se tornam amigos de longa data.

Só o tempo diz o que se constrói sem perceber, pela prática do encontro, carregado pela satisfação do jogo. O que era viciado encontrou a medida que o separa do péssimo hábito, e pode agora usar o poker não mais como escape. O deslocado encontra na diferença entre seus pares, compreensão pra não seguir mais calado, e pelo poker é acolhido e estimulado. Aquele que sem medida se entregava aos impulsos, ganha ao menos, um olhar mais apurado.

O que traz o homem ao jogo? O que o motiva a decifra-lo? E por que o jogo decifra o homem?

Não se sabe, se intui, mas quando dessa convivência se ganha algo mais, quando essa convivência nos faz atravessar o mundo em nome do jogo, seja em Vegas ou na velha Mooca, e faz com que cada um de nós prefira comemorar um aniversário ou uma conquista pessoal justamente no feltro surrado das terças, é ali que se tem algo mais, onde tudo faz sentido. É disso que tenho falado, seja no poker mais profissional ou no menos experiente, algo intangível está lá, algo que não se mensura, mas faz valer a pena.

 

Foto: Última terça-feira de poker no Ás das Terças, o torneio mais maneiro do mundo.